Wake Me Up When September Ends.
3 Capítulo 3
Hoje o dia amanheceu com frio, as folhas voavam dos galhos das árvores, e a brisa tocou minha face por um instante, parecendo acariciar-me. Pela janela do quarto pude ver uma ave empoleirada em um carvalho ao longe, guardava os filhotes no ninho.
Arrastei me pelo corredor até chegar a cozinha, onde pensei ainda estar sonhando ao ver as costas de uma figura vestindo roupão e tendo cabelos emaranhados prazos a um grampo no centro da cabeça. Esfreguei as costas da mão nos olhos, queria despertar finalmente.
–Mamãe?
–Bom dia docinho!
Ela se voltou para mim sorrindo enquanto servia um prato que estava na mesa com ovos mexidos e bacon defumado. Mesmo ainda achando que tudo aquilo se tratava de um sonho sentei-me a mesa.
–Nossa mamãe, não a vejo tão animada desde...
Engoli em seco ao ouvir o eco da minha voz espalhar-se pelo cômodo. Não houve resposta, não deveria haver resposta a algo tão triste, a uma lembrança tão vaga de dor e sofrimento. Eu me referia a meu pai, aos tempos de vida de meu pai, aos momentos mais felizes em que passei ao seu lado. Nós um dia fomos uma família, sim nós fomos, diferente do que eu minha mãe somos hoje.
–Bom, eu vou indo então...
Dei uma única garfada no bacon, peguei minha mochila que estava na cadeira ao lado e segui para a escola sem me despedir ou dizer algo que fosse necessário.
Na verdade hoje não haveria aula, não a monótona aula de todos os dias. Hoje cuidaríamos dos preparativos do baile de hoje à noite, o baile de outono. Preparativos que já estariam prontos se não dependêssemos de um comitê tão desorganizado.
Caminhei por um longo trecho até ouvir uma voz atrás de mim, chamava meu nome pedindo que eu parasse com impaciência. Obedeci parando num só movimento e, por sobre meu ombro vi o rosto exaltado de Mark ainda fazendo sinal com a mão para que eu parasse.
–Ei, aonde você ia com tanta pressa sem mim?
Ele me alcançou sem muito esforço, arfando.
–A lugar nenhum.
Percorri com os dedos uma pálpebra, tentando reprimir uma lágrima. Pelo menos ao seu lado eu deveria parecer forte, mesmo que por dentro me sentisse a ponto de desabar a qualquer momento.
–O que houve?
Seus olhos fitaram os meus por um momento e, quase como reflexo baixei a cabeça deixando que os cabelos caíssem em minha face.
–Nada, não aconteceu nada...
–Ah, não me engane. Sei que algo de muito ruim aconteceu com você para deixá-la desse jeito.
Ele ergueu minha cabeça com uma só mão, era tão suave, ele agora a colocava em meu queixo. Seus olhos brilharam ao encontrarem os meus.
–Eu estava relembrando meu pai, dos tempos em que ele era...
Desabei em lágrimas sinceras que exprimiam melhor do que qualquer palavra o que eu sentia naquele momento. Em meio aos olhos lustrosos de lágrimas vi seus braços abertos oferecendo-me abrigo. Aceitei seu abraço e percebi que só agora eu me sentia segura, pois estava no calor de seus braços.
–Venha Alice, quero mostrar um lugar a você... Um lugar muito especial para mim, o lugar onde meu costumava me levar quando estávamos juntos.
Recuei do abraço e logo depois juntei-me a sua mão estendida. Após alguns momentos de caminhada nós já estávamos no lugar mais bontio que eu já havia conhecido em toda a minha vida.
–É esse o lugar do qual falei, é aqui o meu esconderijo. O único lugar que me faz esquecer tudo por ao menos um segundo.
Ele tirou o casaco preto e o estendeu no chão, próximo a uma laranjeira. Nos sentamos sobre o casaco estendido. O sol brilhava por entre as nuvens e todo o verde formava uma paisagem maravilhosa. Aquele lugar era mesmo perfeito para esquecer o resto.
–Está melhor agora?
Ele enxugou um par de lágrimas que ainda corriam por minha face.
–Estou.
Ele abraçou-me pela cintura ficando cada vez mais junto de mim.
–O que acha de gazearmos hoje?
Sua pergunta foi seguida de uma risada curta.
–Tudo bem...
–Então, me conte mais sobre você menina dos olhos de mel...
Ele afagou minha face.
–Hum, eu ouço rock, gosto de me vestir de um jeito casual, gosto de ficar em casa ou ficar em lugares junto da natureza...
–Como esse?
–Si...
Antes que eu pudesse completar ele deu-me um beijo, um beijo que agora definia meu sentimento por ele, um beijo que me fez tremer por dentro, um beijo doce, um beijo que tinha sentimento. Passados alguns instantes nós ainda estávamos ali, nos beijando, imóveis. Por fim seus lábios roçaram minha boca num adeus sossegado.
Nos afastamos, e sem comentar sobre o que havia acontecido agarrei minha mochila e sai de seu alcance.
–Preciso ir, me desculpe...
–Não Alice, não.
–Desculpe, mas eu preciso ir. Estou atrasada e não quero perder mais tempo...
Coloquei uma alça da mochila no ombro, me virei e fui até meu destino: a escola. Era duro demais ter de virar as costas para alguém que sentia algum sentimento muito forte por mim. Se não bastasse isso eu ainda tinha de ajudar as garotas da escola a organizarem o baile de outono, e teria de agir normalmente; colocar um sorriso no rosto e seguir a frente.
Lauren e Ashley esperavam-me na porta do ginásio, onde a decoração dourada tomava conta dos enfeites de mesa. Uma faixa estava dependurada apenas por uma ponta dizendo “bem-vindos ao baile de outono”, enquanto Kary equilibrava-se em um só pé em cima de uma cadeira.
– Nossa Alice como você demorou, achei que nem fosse mais vir.
Ashley se mostrou ainda mais arrogante e impaciente do que de costume.
–Desculpe, eu não passei bem...
–Oh, lamento, mas você vai ter que nos ajudar também. Por que não começa ajudando Kary com a faixa?
Seus braços se cruzaram num sorriso de desprezo. Não respondi, apenas joguei com raiva minha mochila ao chão e comecei o duro trabalho de organização.
–Alice!
Uma voz gritou por mim da porta do ginásio, era Mark me chamando. Fui até ele em passos espaçados, sem pressa de chegar até ele.
–Quer nos ajudar Mark?
Seus olhos se desvirtuaram de mim, agora procurando o chão.
–Bem, na verdade eu queria mesmo conversar com você...
–Tudo bem, pode falar aqui mesmo.
Lancei meu olhar desafiador a ele. A ideia de ficarmos a sós me dava enjoo, não um enjoo ocasionado por nojo, mas sim por algum sentimento parecido com amor.
–Olha, eu não queria ter beijado você...
Dei de ombros, sabia que ele estava nervoso demais para falar do que sentia agora.
–Desculpe, não era isso que eu queria dizer. Sabe, não queria ter beijado você agora... Eu nem ao menos sei se você sente algo mais do que amizade por mim, nem sei se poderia ter me correspondido...
–Mark, nós conversamos sobre isso depois, e lembre-se: não se exalte sem motivos.
Sobrepus minha mão em seu ombro por um momento até que ele recuperasse o fôlego. Dei meia volta e voltei ao que antes estava fazendo.
Só conseguimos ir para casa depois de duas horas de trabalho duro e prolongado. Sem ajuda de Lauren ou Ashley nós ficamos andando pelo ginásio de um lado para o outro como bêbados. Finalmente havíamos terminado.
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