Wake Me Up When September Ends.
1 Capítulo 1
Mark
–Mark! Filho acorde. Você vai se atrasar para o seu primeiro dia de aula.
Eu ouvia longe a voz de minha mãe chamar. Eu estava sonhando com o campo onde costumava ir quando criança, meu pai me mostrou aquele lugar, eu costumava ir até lá nos dias em que sentia sua falta –ele trabalhava como motorista em uma casa. Vinha para casa duas vezes por mês, apenas. Só Deus sabe a vontade que sinto todos os dias de estar ao seu lado.
Minha mãe é uma ótima pessoa, uma ótima mãe, esposa e dona de casa, mas não uma boa amiga. Minha mãe cozinha bem como ninguém, lava e passa com tremenda perfeição, mas infelizmente não é alguém com quem se possa desabafar ou ter uma conversa um tanto pessoal. Ela sempre foi assim, uma mulher a moda antiga -tão antiga que não consegue acompanhar os tempos modernos- e é difícil falar com ela sobre a maior parte dos assuntos de que os adolescentes da minha idade gostam de falar. Deve ser por esse abismo que há entre nós dois que prefiro meu pai.
Abri os olhos. A primeira coisa que vi foi seu rosto. Ela afagava meus cabelos. Levantei a cabeça e sem falar se quer “bom dia” segui para o banheiro. Depois de tomar banho, pentear os cabelos e me vestir com o jeans de sempre fui até a cozinha tomar café. Panquecas e ovos mexidos me esperavam, logo ao lado havia uma jarra de suco de laranja.
Servi-me de um par de ovos mexidos, um copo de suco de laranja e ainda belisquei a calda de chocolate das panquecas do prato de minha mãe, que sorriu com os olhos.
–Tchau mãe. Fica bem.
Dei lhe um breve abraço e sai porta a fora, já era hora de ir à escola. Garotos vestidos em mesmo padrão ao meu esperavam na porta da sala, todos se sentaram quando o professor retornou a sala, seu grito calou a todos, como um rugido de tigre cala aos alces.
–Vamos fazer duplas com o colega que está ao lado.
Olhei prontamente para quem estava do meu lado. Era uma garota, uma bela garota, seus olhos e seus cabelos eram castanho claro, o cabelo puxava a um loiro natural. Ela era tão meiga, era diferente das outras garotas. Ela me atraia para si com um sorriso doce e simpático de ponta a ponta.
Arrastei minha mesa até a dela, ambos nos encaramos por um segundo até outro grito do professor ser disparado a nós.
–Aqui está procurem por este titulo no livro, quando encontrarem leiam-no até o fim e também façam as atividades. Caso haja dúvida questionem ao colega ao lado e lembrem-se: é uma atividade em dupla, não grupo.
Um garoto rechonchudo que usava óculos passou por todas as mesas entregando apenas um livro. Nós teríamos que ficar próximos, lado a lado. O que me agradava.
O livro ficava no meio da mesa e nos obrigava a ficar cada vez mais próximos para ler. Seu perfume exalava, era doce como ela. Abri a boca depois de muito tentar falar.
–Oi!
–Oi! Quem acha que foi?
Ela começou a ler um trecho do texto do livro e depois apontou para ele. Eu só conseguia prestar atenção naqueles lábios vermelhos com um tom rosado. Nada mais fazia sentido a não ser seu hálito fresco e sua boca divina.
–O que?
Eu não prestei a atenção em nada do que ela leu, eu não conseguia. Estava vidrado nela.
–Você não escutou o que eu disse? -Ela perguntou sem jeito.
–Não. Me desculpa. Elas estão conversando e eu não ouvi.
Virei os olhos em direção a duas garotas, vestidas com roupas que indicavam o quão fútil elas eram.
–Tudo bem eu repito. -Ela sorriu em minha direção, baixou a cabeça e começou a ler novamente.
–Então...
–Então... -Ela me fitava profundamente, como se seus olhos pudessem enxergar através de todas as barreiras e ver o meu interior. Parecia que podia mergulhar no mais íntimo de mim me fazendo sentir vulnerável, simples e apenas um mortal.
Fiz sinal um sinal tímido que dizia “não sei” com as mãos. Porque era exatamente assim que ela me deixava sem noção, sem atitude e sem forças para disfarçar qualquer tipo de sentimento. Ela era tão profunda, tão cheia de conhecimento, tão cheia de vida, de emoção, de inteligência, de experiência, de vivência, de amor. Ela era a combinação perfeita entre razão e emoção. Era tão diferente das outras garotas que eu mal podia acreditar que ela existia e que estava prostrada ali ao meu lado. Enquanto todas as outras garotas passavam horas e horas falando sobre os shoppings que frequentavam, as festas que haviam marcado presença e o biotipo dos garotos com quem haviam ficado. Era tanta sordidez que só me fazia querer distância desse tipo de garotas. Garotas vazias, sem conhecimento, inteligência, sentimento, emoção, valores, pudor ou amor próprio, garotas de papel.
–Quem foram eles? Protagonistas ou antagonistas do enredo?
–Antagonistas. -Respondi inseguro.
–Não. Você não presta atenção em nada? -Eu quase disse “sim”, mas me detive. Não queria dar a ela a impressão de que não estava prestando atenção em nada naquele momento porque a única coisa que me interessava era ela.
–Protagonistas, eles eram protagonistas. -Ela respondeu com uma pitada de irritação na voz. Odiava que não a levassem a sério, e odiava ainda mais quando não a levavam a sério quando falava de assuntos acadêmicos como aquele. Para ela era tudo tão certo, tão bem planejado e tão simples. Concluir o ensino médio, ir para a universidade, comprar um imóvel, casar-se, ter filhos e dedicar sua vida as múltiplas tarefas que compreendem o fato de ser uma mulher: trabalhar, cuidar do esposo, dos filhos e dos afazeres da casa.
–Assim está melhor, vamos para a próxima página. -Ela sorriu e virou com delicadeza a página do livro.
A interrompi no meio da leitura, ela lia com tanta atenção que por um instante quase me arrependi de ter o feito.
–Então você é daqui? -Perguntei tentando disfarçar o nervosismo na voz.
–Sim e você? -Ela respondeu educadamente, mas sem realmente entender onde eu queria chegar com aquela pergunta.
–Sou, moro aqui desde pequeno conheço tudo aqui.
–Nossa! Legal. -Ela completou sua frase com algumas reticências dando a entender que queria saber meu nome.
–Mark. Mark Mitchell.
–Mark é um belo nome. -Ela sorriu de novo e foi naquele momento que eu tive certeza: estava apaixonado por ela.
–E o seu nome qual é?
–Alice Hale. -Ela disse num tom suave e pausado.
–Sabia que seria um nome bonito, sabe, é bonito como você.
Senti meu rosto corar. Aquela frase voou para fora da minha boca eu não queria que ela soubesse, não queria que tivesse uma primeira impressão ruim de mim, não queria que pensasse que sou um daqueles garotos que se aproximam com papo galanteador. O que ela pensaria de mim agora? Nós acabamos de nos conhecer e eu disse isso. Eu era mesmo um babaca que colocou tudo a perder porque na verdade estava tremendo de tão nervoso e não sabia como começar uma conversa com alguém tão especial e interessante quanto Alice.
–Obrigada. -Ela baixou a cabeça visivelmente envergonhada. O professor caminhou até nossa classe, nos observava mais do que os outros. As atenções estavam voltadas para nós dois, éramos o centro das atenções naquele momento.
–Como estão se saindo senhor e senhorita? -Ele se aproximou de modo sorrateiro até nossas classes.
–Estamos indo muito bem obrigada por perguntar. -Respondi num tom seco.
Entreolhamos-nos, ela pareceu saber que eu não era comunicativo –ainda mais com o professor. Nunca simpatizei com professores, assim como eles não simpatizam comigo.
–Continuem assim. Deixe me ver... -Ele puxou o caderno da mesa, olhou para ele por alguns momentos. -Terão de complementar esse trabalho vocês mal começaram.
–Desculpe senhor Loren. -Alice respondeu desapontada.
–Terminem em casa e tragam-no pronto amanhã sem falta. -Ele devolveu o caderno jogando-o em cima da mesa. Loren era frio e introspectivo como a maioria dos professores que eu havia conhecido.
–Amanhã? -Indagou Alice surpresa.
–Sim e quero que esse rapaz a ajude. Lembrem-se de que é uma proposta de trabalho em duplas. -Ele virou-se e seguiu até sua mesa, estava de novo calado. Eu comemorava com fogos de artifício dentro de mim. Ela iria até a minha casa ou eu iria até a sua casa, enfim ficaríamos juntos por algum tempo, só nos dois.
A aula passou por mim desapercebida, depois daquela frase nada mais importava. Fomos para casa juntos, caminhando lado a lado, eu não podia acreditar no que via. Conversávamos sobre a escola, sobre nossos planos para o trabalho e sobre o que pretendíamos para o futuro profissional até chegarmos a varanda da minha casa onde minha mãe me esperava recolhendo as roupas secas do varal que ficava no canto da varanda.
–Oi querido! Como foi a escola? -Ela me tomou pelos braços, com força, beijou me a testa. Ela seria sempre aquela mãe “coruja” que trata os filhos como se ainda fossem bebes.
–Foi boa. Mãe essa é a Alice, ela faz inglês comigo... -Voltei-me para Alice falando com minha mãe ao mesmo tempo.
–Verdade? -Minha mãe respondeu analisando-a com os olhos e parecendo mediatamente aprová-la no mesmo instante.
–Olá! Senhora Mitchell.-Alice estendeu a mão em direção a mamãe que respondeu sorrindo ao cumprimento.–Prazer em conhecê-la querida eu sou Hanna, mãe do Mark. Entrem!
–Hum, torta de maçã acabou de sair do forno, aceita querida?
Minha mãe era mesmo uma ótima anfitriã, fazia tortas e sobremesas como ninguém.
–Claro, obrigada senhora Mitchell.
Depois de um amplo interrogatório feito pela minha mãe à Alice, finalmente começamos o trabalho. Tudo estava tão monótono, minha mãe estava sentada na poltrona da sala em frente à cozinha, seus risos ecoavam pela casa, ela ria com a televisão. Nós dois mal falávamos um com o outro, ambos eram envergonhados de mais para isso.
Eram quase oito horas quando ela foi para casa, levando consigo apenas os livros nos braços. Não permiti que fosse sozinha, é perigoso sair caminhando sozinha por ruas desertas como as que viriam à frente. Levei a até em casa me despedindo na porta. Voltei para a casa com a certeza de que tinha conhecido a garota dos meus sonhos.
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