Notas iniciais
sou rápida, tá pensando o quê!

– Não é bem de volta... Até onde eu me lembre nunca estive aqui. — Eu estava tentando, eu juro, mas era quase impossível. Nada parecia lar ali pra mim, nem mesmo o cara gato, que eu definitivamente tenho que parar de chamar assim antes que comece a falar isso em voz alta.

– Mas você já esteve. — Devo ter feito uma cara muito feia pra resposta dele, porque ele de um risinho e passou as mãos pelos cabelos, claramente nervoso. — Desculpa, Rach... É que você escolheu a dedo tudo que tá aqui dentro, é muito estranho ouvir você dizendo que não lembra de nada disso.

– Olha, eu sei que é complicado, mas eu vou fazer o meu melhor, ok? Imagina estar em um lugar que você não sabe nem ao menos onde é o banheiro? E e esse lugar deveria ser sua casa, vamos lá... isso é muito assustador. — Ele riu de novo, um sorriso de lado que fazia ele parecer uma criancinha. O cara gato é gato e fofo. Eu poderia mesmo ter me apaixonado por ele. Apesar de sentir que não devia.

– Tudo bem, tudo bem, eu entendo, Rach... Se te acalma, o banheiro fica no final do corredor e tem o do nosso quarto. — Nosso quarto? Oh Deus, isso ia ser complicado.

– Ok, então — Eu falei batendo palmas e indo para frente do sofá minúsculo. — Vamos fingir que eu... Que eu cheguei de viagem, ok? Só que sem malas. Conseqüentemente sem presentes... e compras, triste. Um tempo fora e que... Que a gente brigou, então novas regras. Regras de convivência até a gente fazer as pazes. — Ele riu, e eu olhei pra ele desconfiada. — Se você for rir de tudo que eu falo eu paro com meu papel de palhaça agora mesmo e a gente para de brincar de casinha, sem problemas com isso.

– Jesus, Rachel, não... — Ele arregalou os olhos e se aproximou de mim, quase que com medo que eu fugisse — É só que é engraçado. No nosso primeiro dia aqui você fez esse mesmo discurso, sobre regras de convivência e tudo mais. Inclusive se irritou quando ri dos termos, você... É a mesma Rachel que eu me apaixonei, mesmo pavio curto — Fiz uma cara feia e ele se aproximou mais, colocando uma mecha de cabelo meu atrás da minha orelha e colocando a mão na minha bochecha — Você é a mesma, só que sem a parte que é apaixonada por mim. — Ele fez um carinha tão triste que eu só queria abraçar e beijar ele, dizer que eu amava ele sim e que ele era a coisinha mais fofa do mundo. Mas, Cristo, eu não ia fazer isso, eu nem conhecia o cara. Segurei a mão dele que repousava sobre meu rosto e sorri.

– Vamos fazer tudo dar certo, ok? Só... vamos devagar. — Ele concordou com a cabeça, dando um sorrisinho torto. — Eu nem tenho tantos termos assim. Na verdade, vou encurtar pra só dois: eu simplesmente odeio tampas de vaso levantadas, é tipo a prior de viver, você tem que deixar a tampa abaixada, por favor. E de preferência lavar as mãos quando sair do banheiro. E outra, nunca peça pra eu cozinhar nada, entendeu? A cozinha e eu... Não nós damos bem.

– Ah Rach, eu gosto do seu suflê... E você ama fazer ele. — O cara gato estava se divertindo, ótimo! Estava com um sorrisinho bobo na cara, o que me deixou com um sorrisinho bobo também.

– Olha, eu não sei sua versão, mas essa Rachel Berry aqui... Ela não tem o update mestre cuca, então... simplesmente não! — rindo da minha fala ele concordou.

– Combinado então, nada muito diferente do que eu já estou acostumado. E você deveria fazer update de matemática também, porque foram três regras... Não duas. — Analisei novamente o que tinha dito e, realmente, eram três. Mas eu tinha quase certeza que lavar as mãos ao sair do banheiro era uma regra do universo, não minha. E pelo olhar convencido na cara dele, parecia que ele se divertia em me colocar na parede.

– Tem razão... São três. — Lembrando de algo importante, acrescentei rápido. — Na verdade, quatro! Eu tenho mais uma. — Ele concordou com a cabeça, fazendo um sinal com as mãos me incentivando a continuar — Bem... é... eu acho que, pelo menos por enquanto, a gente não devia dormir no nosso quarto. — Ele me olhou confuso, parado a alguns passos de mim.

– Você quer acampar?

– Não... Quer dizer, eu e você, ao mesmo tempo, no mesmo quarto, dormindo. Entendeu? Alguém devia... dormir no sofá? — Eu sorri grande pra ele, tentando fazer com que a idéia parecesse ótima. Porque bem, convenhamos... Eu disse alguém, mas todos sabemos que o alguém tem nome e sobrenome: cara gato!

– Não sei, Rach... — Sorrindo malicioso, ele começou a se aproximar ainda mais de mim, colocando as mãos na minha cintura e me colocando pra perto dele. Bom, ele já era gigante e lindo, fazendo aquela cara de safado... Eu esqueci como se respira por uns segundos. — A gente ia se divertir muito dormindo no mesmo quarto. Melhor... Na mesma cama. Tínhamos muitos bons momentos lá.

– É... Bem, eu sei, pode ser, mas... — Eu sacudi a cabeça e tentei clarear as idéias, tentando me afastar um pouco, mas ele não deixou. — Pra mim nada disso aconteceu então, nessa situação... você nada mais é que um pervertido.

– Um pervertido? Eu? — Ele falou rindo, e eu concordei com a cabeça, fazendo ele rir ainda mais. — Ai, Rachel, você é inacreditável.

– Sou? — eu falei confusa, ainda um pouco afetada pela proximidade dele.

– É sim... Mas eu te amo mesmo assim. — Uou... Ele falou que me amava, no nosso primeiro dia juntos? Que carente. Enquanto eu estava de olhos arregalados, ele pareceu não notar o que disse, apenas movendo as mãos da minha cintura para o meu rosto, dando um beijo na minha testa antes de sair de perto de mim. De pervertido para beijo terno na testa... Veja bem, talvez eu não esteja errada, enfim, talvez ele seja mesmo louco. — Mas relaxa, eu durmo no outro quarto, não vai ser problema nenhum, amor.

– Nós temos um segundo quarto? — Eu falei, tentando ignorar ele me chamando de "amor". — O qual ricos nós somos?

– Nem um pouco. Segundo Mercedes, somos ladrões de bancos e compramos esse apartamento com dinheiro de crime organizado. — Ele olhou pra mim sorrindo cúmplice, o que me assustou... eu era mesmo do crime organizado?

– E compramos? — Perguntei cautelosa.

– Rachel... — Ele ria incrédulo, o que me fez perceber que eu estava sendo estúpida. Sorri de volta, tentando fazer com que parecesse apenas brincadeira que por um momento achei que era rainha da máfia. Acho que não fui bem sucedida, mas ele pareceu não se importar. — Bem... eu tô com muita fome, e a madame não cozinha, então vou fazer alguma gororoba pra comer. Você quer alguma coisa?

– Não... Sem fome.

– Como sempre... Então fica aqui na cozinha comigo, você sabe que eu odeio ficar sozinho. — Ele falou indo pra cozinha. Uma coisa era certa, ele claramente não estava ciente de que eu não lembrava de absolutamente nada sobre ele. Ou fazia de conta que eu não estava ciente.

– O.k. — Fui até a cozinha e sentei na cadeira da mesa, observando ele pegar ingredientes para um sanduíche. Ele parecia ser uma pessoa maravilhosa, muito do bem... Eu conseguia enxergar nós dois juntos, enxergar nós dois apaixonados. Mas meu coração pesava quando pensava nisso, algo não parecia certo.

– Então — ele sentou na cadeira em frente a minha, com um prato e um sanduíche. — Sobre o quê você quer conversar?

– ... — Fiquei perdida por um momento, sem saber o que falar.

– O médico disse que a gente tinha que conversar muito, sobre tudo, pra saber o que você lembra e não lembra.

– Ah... Pra saber quando eu parei de lembrar. — Eu sorri, feliz e empolgada com a idéia.

– É... Pra saber quando você parou de lembrar. — Ele riu e deu uma mordida no sanduíche, parecendo também se divertir com a situação. — Então, o que você quer saber sobre sua vida?

– Bem... — Eu pensei por um segundo. Tinha tantas coisas! E se éramos namorados e morávamos juntos, ele devia saber de tudo.

Mil coisas passaram na minha cabeça, meu estúdio de fotografia com a Mercedes, a Quinn, meu irmão mais novo... Tantas coisas. E ele parecia disposto a me contar. Era tão interessante... ouvir sua história contada por outra pessoa, o qual legal é isso? Eu podia até pedir até pra ele dar uma entonação a situação, tipo suspense, terror, comédia, drama... Teria muito drama nessa minha história, com certeza, o drama me personifica. Animada, o encarei, e o vi sorrindo e encarando de volta, segurando um sanduíche mordido na mão. E então pensei: romance. Se tinha ele, teria romance. Invadida por uma sentimento repentino de carinho por Finn, eu decidi minha pergunta.

– Como a gente se conheceu?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.