Wake
12 Protesto
Notas iniciais
Definitivamente eu estava perdendo o profissionalismo.
Corri feito um otário de Sakura e do fora que ela me deu.
Bem, não foi exatamente um fora. Eu interpretei suas atitudes de forma errada e reagi da forma correta. Como poderia não reagir à Sakura tirando a roupa em minha cozinha dizendo que queria fazer algo comigo?
E quem diabos poderia supor que esse algo seria pular na minha piscina?
Não importa.
Eu não deveria deixar que esse mal entendido interferisse no tratamento de Sakura, mas foi o que fiz, fiquei o final de semana colocando a mão no telefone para ligar pra ela, abri meu email várias vezes e até cheguei a parar com meu carro em frente a seu prédio tarde da noite, mas fui incapaz de entrar.
E quando dei marcha pra ir embora quase atropelei a vizinha maluca, que se aproximou assim que abaixei o vidro do carro.
— Se veio atrás da professora deu viagem perdida doutor!— já foi avisando-me.
— Olá Karin. Sabe me dizer onde ela está?
— Não. — respondeu imediatamente e aquilo me chocou. Se nem karin sabia de Sakura, eu realmente deveria me preocupar. — Ela saiu logo cedo, levando uma bolsa grande consigo, estava bem arrumada, entrou em seu carro e saiu, não voltou até agora. — completou.
— Hmm. — assenti pensativo, agradacendo-lhe pela informação detalhada, porém, pouco reveladora.
Passei o resto do domingo pensando nela, em onde ela poderia ter ido, se já tinha voltado, se ela estava muito chateada comigo, se não me deixaria mais ser seu psicólogo e em mais um monte de porcarias que me impediram de hibernar...
Nem vi quando finalmente consegui pregar os olhos, para despregá-los imediatamente.
Seria a chegada do apocalipse ou um atentado terrorista? Talvez fosse apenas uma nova moda: Derrubar a porta dos outros!
Levantei as pressas da cama, para ir ver qual dos cinqüenta punhos enfurecidos iriam meter a mão no bolso para me pagarem uma porta nova...
Eram os moradores do prédio, que me olhavam como se eu estivesse escondendo a reencarnação do Osama Bin Laden em meu apartamento, e gritando em meio a palavrões pra que eu tomasse uma atitude a essa hora da manhã.
Ora, mas atitude sobre o quê? O que diabos aconteceu por enquanto que eu dormia?
A resposta veio sonoramente da sacada... Ao que tudo indicava o homem da pamonha, estava com voz de mulher e ao invés de gritar o valor da pamonha, gritava o meu nome aos quatro ventos!
Fui imediatamente à sacada pra ver um pontinho rosa com metade do corpo para fora de um fusquinha azul caindo aos pedaços. Enquanto usava uma mão para tocar aquela azucrinante buzina, a outra usava sem dó dos ouvidos alheios um mega fone infernal...
Fiz um sinal de: " Cale a boca pelo amor de Deus ", sinal este que na verdade eu nem sabia fazer, mas ela pareceu entender, pois acenou pra mim com um tchauzinho empolgado sem dar mais um piu.
Rapidamente fui escovar os dentes e jogar uma água na cara pra tirar as remelas e me trocar. Desci às pressas para ver o que a maluca da Sakura queria comigo, antes que os vizinhos chamassem a polícia pra ela.
De certa forma, eu estava aliviado em ter a visão da professora bem ali à minha frente, apoiada no capo do seu fusca, cheia de energia, diferente de semanas atrás, que ela provavelmente estaria aproveitando o apoio do fusca para tirar um cochilo.
Como as coisas haviam mudado em tão pouco tempo! Agora ela se vestia de forma mais feminina, com roupas que acentuava suas belas curvas, ao invés de reciclar a cortina da vovó pra fazer aquelas roupas feias e bregas. Os cabelos compridos e soltos ao vento. Era notável o bem que eu fazia a essa mulher!
— Dormindo até essa hora doutor? — perguntou ela irônica olhando para seu relógio de pulso. — Devia fazer exercícios físicos, tomar algumas vitaminas... Está me saindo um belo de um dorminhoco! — disse brincalhona.
Ela não estava com raiva de mim. Ufa!
— A que devo a honra da visita inesperada, professora? — perguntei, mas ao pensar na censura que me fez da hora, rapidamente emendei mais uma pergunta. — Por que não está na escola agora? Não me diga que desistiu das aulas... — dizia num tom de repreensão quando a mesma me interrompeu.
— Não, não, de forma alguma desistiria dos meus alunos, doutor! — explicou deixando-me aliviado.
— Mas então por que faltou a aula hoje?
— Não faltei à aula, doutor. Pensei que soubesse da data de hoje, já que você leu minha agenda. — disse, e parei para pensar um minuto... De fato eu havia lido sua agenda, mas não me veio à cabeça nenhuma data especial para trazê-la aqui, em plena segunda-feira e danar-se a me chamar com um megafone em mãos.
— Na verdade, Sakura, eu só li uma pequena parte da sua agenda... Afinal, não queria invadir sua privacidade de maneira alguma. Mas então, qual é a programação da data de hoje?
— O protesto, doutor! Hoje é manifestação dos professores, portanto, não haverá aula! — disse como se fosse óbvio, mas não era não, já que não eu sou um professor. O que isso tem a ver comigo? Vasculhei meu cérebro...
Absolutamente nada.
— Dos professores, é? Então me avise quando for a dos psicólogos... — disse na esperança de poder voltar a dormir.
— Doutor Sasuke, achei que como o senhor sendo o meu psicólogo, iria querer acompanhar sua paciente no protesto, e poderia ajudar nessa sua tese aí também. Fora que quanto mais pessoas estiverem lá, melhor! — explicou e até que não era uma má ideia, e sim uma péssima!
Eu não estava nem um pouco a fim de me meter nessa furada, mas olhando pelo lado de psicólogo, deveria ir sim...
Fora que já estava acordado e arrumado mesmo.
— Então me espere aqui. Vou buscar meu carro. — concordei virando-me para ir à garagem, mas me virei novamente assim que me lembrei de algo. — Professora, por que você não subiu no meu apartamento ao invés de ficar gritando meu nome que nem uma doida?
— Oras, mas isso não é óbvio? — perguntou com indignação. E não, não era óbvio! — Com essa onda de assaltos você acha que vou abandonar meu carro na rua à mercê dos bandidos? Diferente do seu, o meu carro não tem seguro, doutor!
Aí eu me pergunto, quem é que vai querer roubar aquela lata velha? Pois além do óbvio de ser um carro mais antigo que a minha avó, aquele fusca dificilmente conseguiria sair do lugar sem fazer um tremendo barulho, o que seria tão eficiente quanto um car-sistem, isso se conseguir pegar, claro!
— E doutor... Vamos no meu carro dessa vez. — afirmou entrando na sua lata velha azul, sendo assim, fui para o lado do passageiro abrir a porta... Mas quem disse que aquela coisa queria abrir? Depois de muita insistência, ainda sim continuava emperrada... 1 a 0 pra porta! — Tem que abrir a porta com jeitinho, doutor. Usando de força bruta você só irá amassar meu fusquinha! — reclamou indo abrir a porta, que com um simples triscar dela, facilmente se abriu.
Tsc...
Entrei no fusca aconchegando-me ao banco até confortável, coloquei o sinto de segurança por enquanto que Sakura tentava ligar o bendito fusca...
Um, dois, três, quatro, cinco, seis... Sete!
Nada do fusca pegar no tranco.
Beleza, vamos no meu carro que é mais seguro e liga! Olhei para professora, mas acho que ela já tinha uma ideia bem melhor, infelizmente.
— Err, Sasuke... Será que você pode dar um empurrãozinho? — pediu exibindo um sorrisinho. Humf! Até parece que eu ia fazer isso!
Olhei novamente para aqueles olhos pidões e quando dei por mim, já estava arregaçando a manga da camisa e olhando pros lados para ver se não tinha nenhuma fã minha por perto pra presenciar minha decadência, ao empurrar um projeto a ferro velho pela rua até dar no tranco.
Assim que o fusca pegou, eu sumi em meio aquela fumaça preta que saia do escapamento e sequer precisei correr para alcançar a lata velha.
Aquele carro é tão possante, que onde ele para, deixa uma poça de óleo embaixo dele! Argh...
Nossa sorte é que não pegamos trânsito caso contrário não chegaríamos nunca!
Assim que Sakura conseguiu encostar o carro, nós saímos para nos juntarmos com o bando de professores que pareciam apenas estarem esperando por ela para iniciarem a terceira guerra mundial.
Enquanto eu procurava esconder meu rosto dos celulares apontados para filmarem o movimento, Sakura tomava à frente erguendo sua cabeça e estufando o peito: mas não era o hino do Brasil que ela iria cantar, e acreditem, eu preferia que fosse.
— Professores... Obrigada pela presença de todos. Obrigada pela presença de vocês também policiais!— saudou os civis que estava nas laterais como se a qualquer momento os indefesos educadores fossem atacar como selvagens. — Lamento em decepcioná-los, mas não iremos quebrar nada... Aliás, vivemos ensinando os vossos filhos que não devem praticar o vandalismo! — disse sarcasticamente.
Olhei para os outros professores que a olhavam como uma verdadeira líder, com admiração.
— Ouçam bem, governadores... Nós professores, gostaríamos sim, de uma melhor remuneração que condizesse com nossos esforços. Mas hoje, viemos sugerir a implantação de um novo projeto, do qual criei visando a melhoria de nossas funções: Uma secretária eletrônica!
— SECRETÁRIA ELETRÔNICA, SECRETÁRIA ELETRÔNICA, SECRETÁRIA ELETRÔNICA, SECRETÁRIA ELETRÔNICA!!! — os professores gritaram em apoio.
Nisso a professora pegou seu aparelho celular ligando-o numa gravação com a própria voz, junto à um microfone, que ecoava à todos.
— "Olá! Para que possamos ajudá-los, por favor, ouça todas as opções:
. Para mentir sobre o motivo das faltas do seu filho, tecle 1.
. Para dar uma desculpa por seu filho não ter feito dever de casa, tecle 2.
. Para se queixar sobre o que nós fazemos, tecle 3.
. Para insultar os professores, tecle 4.
. Para saber por que não foi informado sobre o que consta no boletim do seu filho, ou em diversos documentos que lhe enviamos, tecle 5.
. Se quiser que criemos o seu filho, tecle 6.
. Se quiser agarrar, esbofetear ou agredir alguém, tecle 7.
. Para pedir um professor novo pela terceira vez este ano, tecle 8.
. Para se queixar do transporte escolar, tecle 9.
. Para se queixar da alimentação fornecida pela escola, tecle 0.
. Mas se você já compreendeu que este é um mundo real, e que o seu filho é responsabilizado pelo próprio comportamento, pelo seu trabalho na aula, pelas tarefas de casa, e que a culpa da falta de esforço do seu filho não é culpa do professor, desligue e tenha um bom dia!"
Um júbilo de apoio por parte dos professores se fez ainda mais alto e a professora possuída pelo ritmo ragatanga, começou falar mais umas belas palavras em seu megafone:
— Somos maus professores e um bando de vagabundos que só sabemos pedir aumento? Pois se você sabe ler o que está escrito nestes cartazes, agradeça a este bando de vagabundos aqui!
Êeeeeeeeee!
— Comigo, comigo... Eu digo hey, vocês dizem hô! Hey?
— Hô
— Hey?
— Hô!
Eu tentei me conter, mas não pude deixar de cair na gargalhada. Sakura regia os professores pra cantar um rap e sem sentido nenhum os malucos a seguiam.
Quando pensei que toda aquela performance tinha acabado, os professores transformaram o protesto numa escola de samba, pegando seus batuques e gritando algo numa língua que eu ainda não tinha identificado... Até que começou a chover.
Na certa era o Tupi Guarani.
Estavam fazendo a dança da chuva, como os índios. Essa era a minha explicação pro céu que estava azul e brilhante, de repente escurecer. Fortes ataques dos pingos apagou o fogo daqueles educadores protestantes.
Foi correria pra todo lado. Sakura correu pro meu lado. E de mãos dadas corremos pro fusquinha, que estava nos aguardando com uma multa por estacionar em lugar indevido.
Ela eufórica nem deu bola, apenas tentou entrar no carro, que novamente estava com a porta enguiçada enquanto todo o céu desabava sobre nossas cabeças, e ela cheia de adrenalina me apressando...
— Vamos doutor, vamos!!!
— Sim, vamos! Diga isso ao seu fusca, que não quer abrir a porta pra nós... — disse a ela que com mais uma manobra ninja conseguiu abrir a lata velha, e pisou fundo no acelerador que resmungou com um barulho estranho de quem estava determinado a não sair do lugar.
E assim foi nossa demorada volta à meu apartamento. Uma de minhas vizinhas que passava de guarda-chuva e viu que o fusquinha azul barulhento estava de volta, nos deu uma olhada feia e torceu o nariz.
Contamos até três e saímos correndo pra dentro do prédio, sem saber o porquê de todo aquele esforço, uma vez que estávamos completamente encharcados.
Assim que entramos em minha residência, paramos de frente um pro outro. Não sei o que ela estava pensando, mas eu certamente estava na ultima noite em que ela esteve aqui. Em quando a beijei e ela ficou furiosa. E em como pensei que ela nunca mais colocaria seus pezinhos aqui dentro.
— Eu nunca vi um protesto como aquele antes. — confessei lembrando-me do quão estranho foi.
— Nem eu. — admitiu ela também. — Na verdade, nunca tinha ido a nenhum protesto.
— Nunca? Mas professores fazem todo ano!
— Mas eu não tinha ânimo, preferia passar o protesto dormindo em casa, e dando apoio... Moral. — disse ela constrangida.
— Você foi incrível... — elogiei vendo-a corar. — Sabe, por um momento eu não sabia se você parecia o Pharrel, o Jay-z ou um dos racionais Mc's. — disse zombando e ela avançou para me dar um tapa, mas no caminho fechou os olhos e levou sua mão até o nariz, dando um grande Atchim...
— Saúde. — disse por hábito, preocupado ao lembrar-me de seu estado ensopado.
— Obrigada, mas não se dê ao trabalho doutor. Nós dois sabemos que saúde é a última coisa que tenho! — fez piada. A intenção era lançar seu humor negro, rancar de mim alguma risada. Mas tudo o que senti foi uma imensa culpa.
" Você está cheia de vida...", quis gritar. Mas minha covardia, ou meu egoísmo me impediu.
— Não fale assim. E agora vamos logo pro banheiro, você precisa se livrar destas roupas e de um banho quente.
Ela não contestou e foi espirrando o caminho todo.
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