Wake
1 Prólogo
Notas iniciais
Uma, duas, três, quatro, cinco, seis vezes!
Nunca falhava... Na sexta tentativa o motor do meu fusca sempre pegava no tranco. Caso não pegasse, era só levar no mecânico que morava à direita do meu prédio. Isso sempre acontecia. Talvez fosse defeito de fábrica, acontece, ou talvez pelo fato dele estar há mais de trinta anos na família. Eu gostava dele. Meu lindo fusquinha azul, que apesar de sofrer bullying no transito era meu parceiro de todas as horas.
Mas havia algo de errado desde o momento em que infelizmente acabei optando por me levantar da cama. Pela primeira vez em todos estes anos, desde que ganhara este carro de herança de família, ele acabou ligando na sétima tentativa. Se aquilo não era um sinal pra que eu não tivesse saído da cama, eu não sabia do que mais se tratava. Algo me dizia que minha rotina totalmente detalhada passo a passo na agenda dentro de minha bolsa mudaria, ou talvez fosse apenas à paranoia causada pela enorme vontade de jogar tudo para o alto e voltar a dormir.
Espreguicei-me antes de abrir a janela com certa dificuldade, coloquei o braço para fora fazendo sinal de espera para o carro da funerária que buzinava sem parar por causa de minha demora. Demora, aliás, que me deixara atrasada. Bocejando em seguida — poucas horas de sono dá nisso! —, esfreguei os olhos me aconchegando no banco macio e fofinho. Por um instante quis voltar para minha cama, mas alguém tem que trabalhar... Droga, esse alguém não precisava necessariamente ser eu, né?
Acelerei meu fusca rumando para mais um dia de cão e estresse na escola. Sim, sou uma professora, e como se não bastasse ter escolhido a pior profissão do "cardápio", ainda tinha que me deparar com o carrão BMW que estava estacionado na MINHA vaga exclusiva. Aquilo era pra me humilhar? Conseguiu.
Eu nunca teria um carrão daqueles sendo professora. Não sei bem o que me atraiu a esta escolha, talvez fosse o desejo de ter quarenta crianças falando ao mesmo tempo e te dando dor de cabeça, ou talvez, apenas tivesse sido vencida pelo atraente salário baixo que recebo mensalmente. É mesmo muito atraente.
Aprendam: Se querem subir na vida, ao menos o faça de elevador, porque é menos cansativo.
Respirei fundo ao sair do fusca que tive de estacionar ao lado. Depois irei mandar um e-mail para a direção reclamando sobre isto, e pra me ajudar a lembrar, fiz uma anotação em minha agenda. Não poderia me esquecer! Entrei no colégio, seguindo direto para a sala dos professores.
Sabia que estava atrasada, mas precisava realizar minhas tarefas diárias e rotineiras antes de enfrentar os diabinhos dos meus alunos. Sentei-me na poltrona me deliciando com meu cafezinho de todas as manhãs, antes de tirar um breve cochilo matinal. Já estava atrasada mesmo, um tempinho a mais ou a menos não faria diferença. Mas especialmente neste dia que já começara errado, as duas professoras mais barulhentas chegaram para atrapalhar meu momento zen.
— Sakura! — Ino exclamou surpresa por me encontrar ali. Geralmente eu tiro meu cochilo básico na sala de aula mesmo. — Você não deveria estar na sala agora?
— Oh, sim... Só estou tomando meu cafezinho preto para encarar mais um dia duro de trabalho.
Ino assentiu sentando-se no sofá junto com Hinata que me cumprimentou com um sorriso. Como ela consegue sorrir a essa hora da manhã hein?
— Vocês assistiram à novela ontem? Li numa revista que o Beto vai morrer... A Betina vai ter que criar a filha sozinha, coitada... — Ino dizia.
— Ah, falando em morte, já sabem quem é o novo psicólogo que vai substituir o falecido doutor Sarutobi? — Hinata perguntou e eu revirei os olhos. Não gosto de conversas nos raros momentos em que consigo descansar em paz.
— Ouvi uns boatos das faxineiras que o novo psicólogo é bonitão, parece que ele está agora na diretoria conversando com a Tsunade. — Ino disse.
— Ele é uma graça! O doutor Sasuke Uchiha é o melhor amigo do meu noivo, mas é mulherengo que só... — Hinata disse e Ino riu gostando do que acabara de ouvir.
As duas ficaram mais um tempinho fofocando enquanto que eu tentava tirar meu cochilinho. Estava prestes a fechar os olhos quando elas resolveram me meter no assunto novamente.
— Sakura... Acorda, Sakura! — Ino me chamou intransigente. Pisquei algumas vezes antes de cair na real. Poderia voar nos cabelos dela só por ter me acordado, e faria isso se não me causasse esgotamento total. — Hinata e eu estamos planejando a noite das garotas hoje, já que é sexta... Que tal?
— Infelizmente não vai dar... Tenho provas para corrigir hoje, por que não me chamaram antes? — perguntei fingindo tristeza.
— Nós até tentamos te avisar antes, mas você está sempre na sala ou dormindo pelos cantos!
— Qual é, Sakura? Faz tempo que você não se diverte com a gente. Você tem o final de semana todo para corrigir essas provas... — Ino disse tentando me convencer.
— Que dia é hoje? — perguntei.
— Sexta- feira treze.
— Ihh, não vai rolar. Sexta treze é dia de assistir filme de terror. Eu amo filme de terror. Deixa para próxima... — inventei.
— Mentirosa! Hoje não vai passar nenhum filme de terror!
— M-mas hoje também é dia de lavar roupas! Não posso deixar para depois, minhas roupas estão imundas!
— Desde quando você lava roupas, Sakura? Você as manda pra lavanderia, e ainda os fazem buscar e entregar na sua casa! — Ino disse indignada.
— Ah, vamos, Sakura... Vai ser tão divertido! — Hinata disse tentando me convencer. Parei para pensar por alguns segundos na proposta delas, já que as duas eram minhas amigas de longa data... Mas eu já havia reservado esse espaço na minha agenda para me enrolar no cobertor, pedir uma comida, assistir a novela e por fim dormir. E quando eu decido não fazer nada, não há o que me faça parar.
Quando ia responder a elas, o sinal tocou salvando-me de fazer alguma coisa tediante e totalmente fora dos meus planos. Peguei minhas coisas e parti para mais um dia chato de aula. Se essas coisas dependessem só de mim, nada dependeria de mim!
— Comprei chocolate... E posso fazê-los fecharem com notas azuis este mês se fizerem silêncio. — disse sentando-me de mau jeito na cadeira, estava pura carcaça.
Escorei por um instante a cabeça na mesa, mas foi o suficiente pra que um furacão se formasse no meio da sala. Quando finalmente tive energias para erguer a cabeça pra encarar as pestes, levei uma bolinha de papel certeiro bem no meio da testa. E ao piscar pesadamente, perdi o momento em que a sala de aula virara um ringue, pois duas praguinhas se atracavam bem diante de meus óculos.
— Parem... Parem já com isso! — disse ajeitando-me naquela cadeira desconfortável, e aproveitei para anotar em minha agenda a necessidade de trazer uma almofada pro trabalho.
— Briga, briga, briga, briga, briga, briga... — Gritavam em coro atiçando ainda mais os marginaizinhos. Quando finalmente escutei a porta se abrir, me poupei o trabalho de olhar... O inspetor teimava em chegar somente depois que um já havia acabado com a raça do outro. Peguei meu notebook pra dar um jeito na bagunça.
— Ei... Eles estão se matando, não vai fazer nada? — perguntou.
— Bem, eu já estou enviando um e-mail pra diretora Tsunade.
— Fala sério! — disse ao ousadamente fechar meu notebook fazendo-me encará-lo. Desde quando o inspetor era tão ousado? Bom...
Eu não fazia ideia de quem seria aquele homem a minha frente, mas... Com toda certeza não se tratava do inspetor.
— Me empresta isso daqui... — disse pegando a caixinha de apagador que era de madeira ao meu lado sobre a mesa. Sem pensar duas vezes tacou aquilo com bastante força na lousa, causando um imenso barulho e chamando a atenção de todos. Inclusive a minha. Dei um pulo da cadeira, despertando. — Sentem-se agora. — pediu, e um por um começou a ir se sentar em suas respectivas cadeiras fazendo total silêncio.
Olhei para aquele cara que estava todo de branco e fiquei me perguntando se não era um anjo que veio me socorrer.
— Ufa... Se não sou eu pra colocar ordem nessa sala! — me queixei ao limpar o suor da testa. — E o senhor é...? — perguntei ficando de pé ao lado daquele homem lindo que dava dois de mim.
— Psicólogo da turma do quinto ano. Toda sexta-feira faremos uma atividade terapêutica com a sala, professora Sakura... — respondeu tirando sua atenção das pestes domadas para me encarar. E que olhos... Tão negros quanto um quarto aconchegante com a luz apagada... Só de pensar me deu sono. — A propósito, sou o Doutor Sasuke Uchiha... A seu dispor! — disse estendendo sua mão em minha direção. E que mãos... Tão grandes quanto a de um bom massagista em um quarto aconchegante com a luz apagada... Só de pensar me dava sono.
— O-o que faremos agora, Dr. Uchiha? — perguntei totalmente perdida.
— Faremos uma atividade com os alunos... — disse passando por mim a fim de pegar sua maleta que estava sobre minha mesa. Seu jaleco branco encostou-se levemente em meu rosto. E que jaleco... Tão perfumado de amaciante quanto um bom travesseiro em um quarto aconchegante com a luz apagada... Só de pensar... Bem, vocês sabem! — Quero que façam desenhos nestas folhas. Qualquer coisa... Façam o que vier a mente de vocês, sejam criativos! — Orientou ao entregar folhas de sulfite a eles. Fiquei encostada na lousa observando ele tomar conta da minha turma.
Enquanto a turma ficava bem entretida concentrada em desenhar, o doutor veio até mim e só percebi quando vi os estalos de dedos a minha frente.
— Professora Sakura... A senhorita dorme em pé também? — perguntou num ar zombeteiro. Como assim ele sabia meu nome? — Eu pude ver muito bem a senhora cochilando sobre a mesa quando entrei aqui... Como pode sequer levantar a voz enquanto os alunos se matavam?
— Doutor Uchiha... Creio que não é pago para me analisar, e sim aos alunos!
— Acredito que este estresse também é fruto da soneca interrompida!
— Como o senhor ousa...
— Terminamos... O meu tá mais bonito... O meu está mais... Mentira o meu está... — as pestes começaram novamente com o furdunço, quando Sasuke se virou todos se calaram novamente. Qual é? Eles o respeitam pelo olhar agora, é? Humf!
— Ótimo! Professora, pode recolher os desenhos, por favor? Preciso atender... É importante. — avisou-me ao olhar a tela do celular, com um sorriso. E que sorriso... Tão lindo que me dava vontade de sonhar com ele... Que? Você está pensando em sonhar com o sorriso do psicólogo que acabou de conhecer? Malditas férias de julho que não chegam... Estou ficando maluca, preciso descansar!
Sacudi a cabeça indo recolher os desenhos dos alunos, depois me sentei em minha cadeira, e sem muita empolgação passei a folhear os rabiscos que tinham feito dessa vez...
A menina do chamado saindo do poço, um fantasma, uma tumba, um pote de veneno, velas, cemitério, caixão...
Esfreguei os olhos. Ou eu estava maluca ou tudo estava relacionado a...
Morte!
Definitivamente eu precisava de férias! Estava começando a criar uma imaginação fértil demais, então pedi pra que os monstrinhos abrissem o livro na pg. 16 e copiassem tudinho até a pg. 90. Eu estava um pouco atordoada e ansiosa... Ansiosa por quê? Ah sim... O psicólogo não voltara. Como assim está ansiosa pelo psicólogo que não voltara?
Não, eu não estou nada bem!
Estava inconscientemente batendo os pés e roendo as unhas, quando finalmente o sinal tocou. E antes que eu pedisse pra ver se copiaram a lição do dia, os pentelhos se escafederam. Sendo assim fui pegar minhas coisas e bolsa pra poder trancar a sala. Quando consegui fechá-la e me virei pra poder ir embora, esbarrei em alguém que me fez derrubar todos os livros que segurava pelo chão. Esbarrei nele, no Doutor.
— Me desculpe, professora. Deixe-me te ajudar... — disse segurando alguns livros enquanto eu recolhia os restantes no chão, e mais uma vez pude sentir o toque de sua mão ao tentar pegar o mesmo livro que ele. Nos encaramos por um breve momento e a recolhi imediatamente.
— O-obrigada. — agradeci tentando me teletransportar daquele corredor e me mandar de uma vez pra casa. Precisava fugir daquele colégio, e se possível, daquele dia sinistro no qual me encontrava. O máximo que consegui foi chegar até o estacionamento.
— Ei, espere... — Sasuke me chamou e eu paralisei. O que ele queria, hein? Já não bastava se meter a besta com os meus alunos, esbarrar em mim e ainda me fazer admirar sua bela aparência... Coisa que não consigo fazer a tempos por homem nenhum?! Humf. Virei-me lentamente para olhá-lo. — Gostaria de uma carona? — propôs com um sorriso esplêndido.
— Não obrigada, eu tenho carro! — respondi mais desaforada do que realmente pretendia e fui até meu fusca, permitindo-me antes dar uma olhada na direção que o psicólogo seguira, e pra minha completa injuriação, ele acabara de entrar no BMW estacionado na MINHA vaga exclusiva.
Forcei-me entrar no carro e tentar esquecer que esse dia existira. Precisava riscá-lo de meu calendário, só que estava difícil...
Uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete vezes!
Ah, qual é? Não vai me deixar na mão justo agora, né fusquinha lindo da mamãe? Hm?
Humf... Sim, ele ia!
Tentei mais vezes, mas ao que parecia o motor havia mesmo morrido, o que chegava ser irônico... Pois até o motor do meu carro estava me mandando mensagens subliminares de morte. Não... Só estou muito cansada, preciso é dormir e parar de pensar besteiras, isso sim! Sai batendo a porta do fusca, pegando minhas coisas pra andar o mais rápido que pudesse e ir até um ponto de ônibus.
Bee, bee, bee, beeeeeeê...
O barulho da buzina insistente me tirou dos devaneios, era ele... O doutor.
— A carona ainda está de pé. — disse sorridente com o vidro do carro abaixado.
— Muito obrigada, doutor Uchiha, prefiro ir de ônibus. — disse.
— Está me dizendo que prefere ir de ônibus a aceitar uma carona do seu novo companheiro de trabalho? Tem que se acostumar comigo, professora, iremos nos ver toda sexta, esqueceu? — perguntou brincalhão.
— Prefiro que sejamos limitados a nos ver as sextas.
— E por quê? — perguntou andando lentamente com o carro, enquanto eu andava em passos rápidos pela calçada.
— Porque se eu aceitar sua carona, você vai ficar dizendo coisas legais e iremos descobrir que temos os mesmos gostos pra músicas, filmes e livros... Daí, iremos nos lembrar que hoje é sexta-feira, e que é um ótimo dia pra sair. Você vai me convidar e no fim da noite quando me deixar na porta de casa, iremos nos beijar. Não demora muito vai me pedir em namoro, e quando menos perceber, você estará louco pra se livrar de mim, alegando que sou possessiva e ciumenta ou simplesmente dizendo que o problema não é comigo. Vou ficar com o coração partido, sentir ódio de todos os homens do universo e me tornar lésbica... É por isso que não irei aceitar sua carona, Doutor. — disse e ele abriu um grande sorriso.
— Eu realmente só queria ser gentil e te dar uma carona, professora. Seu carro não funciona e vai chover. — disse despreocupadamente.
— Está enganado, doutor. Recebi um e-mail com a meteorologia de hoje, e não irá chover coisa nenhuma! — disse e ele assentiu dando de ombros, ao levantar o vidro e dar partida em seu carrão novinho e veloz. Só Deus sabe o quanto eu queria uma carona! E como se fosse um aviso divino de que deveria sim ter aceitado, começou a chover, e chover muito! Era como se pudesse ver a imagem do psicólogo em seu carrão quentinho e confortável rindo de minhas palavras neste exato momento. Droga!
Comecei a correr desesperadamente pela rua procurando algum lugarzinho pra me abrigar, já que ainda estava longe do ponto de ônibus. Mas como o dia estava mesmo correndo de vento e polpa para mim, não encontrei nada. E peguei toda chuva do mundo ao correr tentando voltar o mais rápido possível pro meu apartamento.
O vento estava cada vez mais forte levantando os guarda-chuvas das pessoas que tentavam sobreviver naquele chuvarel. Vi quando um rato que tentava entrar no bueiro pra fugir, foi capturado por um gato preto que o abocanhou e fez questão de passar a minha frente. Apavorada, atravessei a rua correndo, quando o forte impacto de um carro me jogou longe.
Aquele dia não estava sendo nada normal, e jamais poderia supor que os próximos que viriam, iriam mudar completamente o rumo da minha vida.
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