Waiting Game
1 Capítulo Único
Notas iniciais
CAPÍTULO ÚNICO
Desci as escadas com pressa enquanto sentia a presença persistente de Tommy atrás de mim. Parei ainda na metade e girei meu corpo o encarando, ele abriu e fechou a boca ao notar meu olhar contrariado.
— Não. – Murmurei trazendo-lhe um olhar aborrecido.
— Não? – Repetiu incrédulo.
— Não. – Assenti. – Não, não e não. Mil vezes não.
— Eu não estou te pedindo Felicity, você não vai passar o fim de semana aqui. – Falou inabalável.
— Você está me expulsando da minha própria casa! – Exclamei. – Para dar uma festa ridícula. – Acrescentei. Ele me deu um olhar indignado.
— Minhas festas não são ridículas! – Protestou. – E não estou te expulsando de casa, você só irá passar o fim de semana com sua melhor amiga.
— Para você ter sua cota de sexo? – Perguntei cruzando os braços. Seu rosto ficou vermelho de imediato, o que fazia com que eu quebrasse minha expressão séria em um sorriso. Ele era adorável. Tommy era assim. Um típico playboy milionário, safado, galinha e qualquer outra palavra que as mulheres abandonadas por ele tendiam a usar, mas sempre o irmão super protetor que não conseguia ouvir a irmã mais nova falar a palavra sexo.
— Felicity!!
— Eu tenho 20 anos Tommy. – Murmurei o cutucando no ombro. – Eu sei o que é sexo. – Ele estreitou seus olhos com desconfiança.
— O que você quer dizer com isso? – Perguntou sua voz adquirindo o tom paternalista que sempre tinha o poder de me irritar. Desde meus 15 anos havia sido apenas eu e Tommy, nossos pais morreram e Tommy apesar de todos os seus defeitos sempre agiu com o máximo de responsabilidade quando se tratava de mim. Ele exagerava, ele era muito protetor o que dificultou cada tentativa aberta de aproximação dos garotos, mas isso não significa que eu não tenha conseguido junto a Helena burlar algumas de suas regras. – Felicity...
— Você quer que eu diga que sou virgem? – Perguntei segurando minha vontade de rir. – Sério Tommy? Você poderia ser mais hipócrita?
— Eu não quero imaginar uma sentença em que você e sexo estejam incluídos, na verdade você é boa demais para se envolver com esses idiotas da sua faculdade... – Meneei minha cabeça com o que ele dizia enquanto segurava o corrimão da elegante escada e olhava para baixo, meu olhar encontrando de imediato com olhos azuis que eu costumava assimilar a pedras de gelos. Oliver Queen me encarava com seu costumeiro silêncio, analisando-me e sempre me deixando inquieta. Sempre.
Oliver Queen era o melhor amigo do meu irmão. Sua presença nunca foi constante em minha casa até três anos atrás quando ele voltou da Europa para assumir o posto do seu pai como CEO da Queen Consolidated. Meu primeiro encontro com Oliver foi no enterro de seu pai, eu costumava participar de algumas festas da família Queen e era razoavelmente próxima a Thea, sua irmã. Embora ela fosse mais nova um ano do que eu e Helena e, portanto não fôssemos da mesma sala, nós frequentamos a mesma escola. Então naquele dia eu estava junto a Tommy e Helena, lamentando a morte de um homem que eu tinha visto apenas um par de vezes e muito brevemente.
Quando chegou a vez de dar nossos votos de pesar a família eu me vi encarando o homem a minha frente com curiosidade, ele não estava me encarando, algo havia chamado sua atenção para longe e eu não sabia como aborda-lo estando distraído. Optei por permanecer o analisando, desde as linhas rígidas de seu rosto até suas mãos em seus bolsos. Eu sabia que ele era bonito, já havia visto fotos suas sempre com uma mulher diferente, mas nunca tinha me fixado muito em sua figura, afinal Oliver era 12 anos mais velho, e aos 17 eu estava mais preocupada em admirar aos cantores e atores teen. Mas vê-lo pessoalmente teve certo impacto sobre mim, ainda mais quando a força do seu olhar se dirigiu ao meu. Ele piscou surpreso e eu corei instantaneamente, estava envergonhada por ter sido pega o analisando, o admirando. Então, com pressa eu murmurei algumas palavras vagas e me afastei permitindo que fosse a vez de Helena, eu olhei para trás apenas para perceber que ele seguia me encarando e quando Helena perguntou o que havia sido aquilo eu dei de ombros e falei uma besteira qualquer.
Desde aquele dia eu via Oliver ocasionalmente, sempre na presença de Tommy e geralmente era por breves segundos. Eu notei que havia certo padrão, ele sempre chegava quando eu estava saindo.
Geralmente.
Eu era vagamente ciente que Tommy prosseguia com seu discurso enquanto meu olhar não se desprendia do de Oliver.
Mal passava das 08:00 da manhã e o homem já estava enfiado em um terno. Alguma vez eu já o tinha visto vestido de forma informal? Irritada por ele estar apenas lá me encarando enquanto Tommy lidava comigo como se fosse uma criança eu ergui uma sobrancelha inquisitiva o provocando, mas Oliver era inabalável, nada em sua expressão mudou. O único sinal de que ele não era um robô foi seu peito subindo e descendo indicando que ele havia tomado uma respiração profunda.
... Então, eu não quero escutar você falando sobre sexo comigo. – Quebrei meu contato com Oliver e encarei Tommy que seguia me envergonhando. — Quanto mais imaginar você envolvida no ato, tem algo que você queira me dizer Felicity?
— Você tem visita. – Murmurei fazendo com que sua atenção se desviasse de mim e finalmente caísse em Oliver.
— Ollie! – Tommy exclamou abrindo seu habitual sorriso. Ele apressou-se em descer as escadas, enquanto eu o segui mais devagar. Eu cogitei seriamente em deixar os homens sozinhos e voltar para o meu quarto, mas eu já estava descendo quando o vi, ficaria claro que eu queria o evitar. E o inferno congelaria antes que eu deixasse a presença de Oliver Queen me intimidar em minha própria casa. Oliver exibiu um sorriso mínimo, apenas um puxar de lábios que poderia muito bem ser confundido com uma careta. – Ansioso para a festa?
— Você sabe que não. – Murmurou. “Curto e grosso” a definição de Oliver Queen. – Felicity. – Murmurou inclinando sua cabeça em um aceno educado.
— Sr. Queen. – Retruquei fazendo com que ele franzisse os lábios em irritação. Oliver sempre me chamou por meu nome, ainda que soasse impessoal quando ele o dizia, mas nunca foi tão formal como eu fazia questão de ser com ele. – Então, você também estará nessa festa?
— Você poderia esconder o desgosto ao falar da minha festa. – Tommy reclamou ao meu lado. – Vai ligar para Helena?
— Deveria? – Questionei franzindo o cenho e desviando minha atenção de Oliver. Ele não se intrometia, não tomava partido, sequer exibia no rosto algum sinal de aborrecimento por estarmos tendo uma conversa de cunho pessoal em sua frente, ele apenas nos ignorava.
— Você vai ficar na casa dela esse final de semana. – Explicou. – Ou prefere de outra amiga?
— Eu ainda não sei por que eu tenho que ir para qualquer outra casa quando eu já tenho uma. – O fuzilei com o olhar. – Se essa festa está ocorrendo aqui eu devo entender que também é minha? – Olhei para Oliver fazendo-o entender que esta pergunta havia sido dirigida até ele. Encarei surpresa o surgimento de um sorriso de canto em seu rosto. Pisquei perguntando-me se era real, mas já havia sumido. Talvez eu tenha imaginado.
— Felicity. – Tommy trincou os dentes. – Você não vai estar aqui.
— Você parece um disco arranhado. – Resmunguei.
— Você parece uma criança que devemos repetir uma e outra vez para não tocar na maldita tomada! – Reclamou.
— A “Tomada de sexo”. – Sorri o provocando.
— Lis...
— Está bem! – Cedi com um suspiro. – Eu estou indo para a casa de Helena. – Falei aborrecida. – Faça sua orgia, mas não deixei nenhuma de suas pu... Amigas chegar perto do meu quarto! – Alertei. Cheguei perto de Tommy e cutuquei seu peito. – Se eu sonhar que meu quarto serviu de bordel para suas festas exóticas Tommy Merlyn, é melhor você ir procurando um apartamento para que eu possa morar sozinha.
— Ninguém vai chegar perto do andar dos nossos quartos. – Prometeu. – Provavelmente usaremos apenas os quartos de hospedes. – Sorriu.
— Você deveria ter vergonha. – Murmurei meneando minha cabeça. Suspirei e voltei a encarar Oliver que havia se afastado, ele estava sentado confortavelmente em um dos luxuosos sofás. Seu olhar serpenteava pelo cômodo como se nunca antes tivesse estado aqui. Ele estava apenas tentando nos dar privacidade, mas falhando miseravelmente por que eu estava sempre ciente de sua presença. – Eu acho que vou agora a casa de Helena. – Murmurei precisando sair de casa. – Avisarei que preciso de um teto sobre minha cabeça esse final de semana.
— Você pode usar o celular para falar isso. – Tommy advertiu.
— Eu quero ver minha amiga. – Retruquei. – Não preciso de uma desculpa para isso. – Falei me afastando até a entrada.
— Você não pode. – Tommy me interrompeu. Segurei um protesto e voltei-me para encarar Tommy.
— Por quê? – Eu não estava de bom humor nesse momento.
— Por que você está de pijamas. – A explicação deveria ter vindo de Tommy, certo? Mas eu me surpreendi ao escutar a voz rouca de Oliver murmurar, ele me fez consciente do que eu vestia pela primeira vez desde que havia decido, um conjunto de blusinha e short que não chegava a ser revelador, mas que diante seu olhar eu sentia como se estivesse vestindo muito menos. Eu não havia me preocupado em trocar de roupa para descer e tomar meu café da manhã, havia saído e dado de cara com Tommy que começou a me importunar sobre essa maldita festa, então veio Oliver que como sempre tomou toda minha atenção. Agora eu sentia minhas bochechas se aquecerem, e provavelmente ficarem vermelhas. Eu estava corada por conta de seu olhar e por conta de ter estado tão distraída com sua presença e com a conversa de Tommy que eu havia esquecido até mesmo do que eu vestia. – Claro, não será um problema se você planejava sair assim desde o começo.
— Eu estava. – Menti. – Mas já que vocês estão incomodados com o que eu visto e que provavelmente chamará a atenção de outras pessoas, eu acho melhor eu me trocar. – Murmurei como se eu tivesse cedendo a um pedido dos dois. Caminhei em direção de volta a escada.
— Na verdade... – Tommy começou.
— O quê?! – Perguntei sem paciência.
— Não era sobre o que você vestia que eu ia falar. – Tommy falou. – Embora eu esteja feliz por Ollie ter chamado a atenção para isso. – Falou como se Oliver de repente dividisse consigo a função de irmão mais velho.
— Tommy...
— Seu carro ainda está na oficina. – Esclareceu. – E eu não posso leva-la, por que preciso sair imediatamente... – Voltou sua atenção para Oliver. – Sinto muito Ollie, você veio para conversarmos sobre algo importante?
— Eu apenas vim pegar os convites. – Oliver falou o tranquilizando. – Eu posso leva-la...
— O quê? – Eu jurava que havia apenas pensado na pergunta, não imaginei que havia feito em alto e bom som e que havia atraído os olhares desconfiados dos dois homens para mim. Tentei amenizar minha primeira reação impregnando um tom cordial em minha frase seguinte. – Você não precisa fazer Sr. Queen.
— Está tudo bem. – Murmurou assumindo o mesmo tom. – É caminho.
— Não, não é. – Falei antes que eu pudesse me conter.
— Eu posso fazer com que seja. – Retrucou fazendo com que eu segurasse minha respiração. Ele podia fazer com que fosse. Simples assim. Um homem que moldava as coisas de acordo com sua vontade.
— Ainda assim...
— Obrigado, Ollie. – Tommy interrompeu. – Por leva-la, eu preciso ir agora, mas você pode pegar quantos convites quiser em meu escritório. – Avisou. – Traga companhias, esse é o objetivo da festa, e não se esqueça de comprar sua máscara.
— Você está brincando. – Meneei a cabeça em descrença. – Máscaras? Poderia ser mais clichê? Ou ridículo?
— Você não tem que subir para se arrumar e irritar outra pessoa que não seja eu? – Tommy perguntou me encarando azedo.
— Helena não se irrita comigo. – Neguei cruzando meus braços.
— Eu não acho que seja assim. – Murmurou antes de beijar minha testa e se afastar. – Quero que jantemos juntos. – Murmurou por fim. Observei ele caminhar e fechar a porta atrás de si, e só então eu percebi que havia ficado sozinha com Oliver Queen.
Oliver que havia se erguido e que agora me encarava abertamente. Oliver que caminhava em minha direção com uma graça invejável, com olhos que exibiam certo magnetismo sobre mim. Oliver Queen que havia parado em minha frente, o cheiro de sua colônia masculina amadeirada invadindo meus sentidos. Ele inclinou sua cabeça parecendo me avaliar, seus olhos descendo até meus braços cruzados, correção, até meus seios acima dos braços cruzados e deixando seu olhar lá. Percebi tardiamente que sem sutiã essa havia uma postura infeliz a ser escolhida. Tremi diante a intensidade do seu olhar, tremi apenas em resposta ao seu olhar, o que aconteceria se ele me tocasse?
Mas ele nunca o faria não é mesmo? Eu sou mais nova, sou a irmãzinha de seu melhor amigo, eu não sou nem um pouco parecida com nenhuma das mulheres com que eu já o vi, não havia nenhuma razão para eu achar que Oliver Queen desejaria me tocar. Então, por que parecia que ele queria fazer justamente isso? Por que eu parecia querer que ele fizesse isso?
— Não demore. – Murmurou rudemente. – Eu tenho uma empresa a dirigir. – Pisquei surpresa com o quão rude ele havia soado, grosso e estúpido. Eu estava prestes a abrir minha boca e dizer que eu nunca havia pedido uma carona em primeiro lugar, mas ele passou por mim, o calor do seu corpo esbarrado no meu apenas suavemente ao fazê-lo e caminhou em direção ao escritório de Tommy.
— Estúpido! – Deixei escapar irritada. Oliver Queen era um estúpido, prepotente e arrogante. Frio. Um estúpido. E ainda assim ele tinha tanto poder sobre mim.
Estúpida.
Eu era estúpida.
Eu repetia isso uma e outra vez até que voltei a encontra-lo, dessa vez ele já me esperava encostado em seu carro. Sua postura me desconcertando um pouco. Ele estava encostado ao carro, tornozelos cruzados, mãos no bolso, e cabeça baixa. A vida era uma verdadeira sessão de fotos para o Sr. Queen.
— Você está atrasada. – Murmurou quando ergueu a cabeça e seu olhar encontrou ao meu. – E me fazendo ficar atrasado.
— Eu poderia ter me arranjado. – Murmurei com acidez. – Ou apenas ter adiado minha ida até Helena. – Murmurei dando de ombros. – Foi você e não eu, Sr. Queen, que fez questão que essa carona ocorresse. – Observei fascinada sua mandíbula tencionar, mostrando que eu havia o aborrecido. Não esperei uma resposta vindo dele, e conhecendo-o certamente eu perderia meu tempo esperando, contornei seu carro e entrei. Ainda parecendo como se tivesse ficado responsável por recolher o lixo para fora ele sentou ao meu lado ocupando seu lugar de motorista. – Um cavalheiro teria aberto à porta para mim. – Murmurei sem conseguir dar freio a minha língua. Ele me encarou apenas brevemente, seus lábios formando uma linha demostrando que havia escutado. Mas ele me surpreendeu ao retrucar o que eu havia dito, principalmente a frase que usou.
— Eu não tenho quaisquer planos de ser um cavalheiro. – Ergui uma sobrancelha surpresa com o que havia dito. — Não em breve. – Acrescentou sem me encarar. Eu poderia questiona-lo sobre sua estranha frase, ou mudar o rumo de seu comentário, mas eu me limitei a fingir que eu não havia o escutado.
Um dos motivos pelos quais eu não queria uma carona com Oliver, era o silêncio que significaria. A verdade é que seriam poucos minutos até a casa de Helena, mas eu sabia que o silêncio de Oliver, sua indiferença, isso faria com que meros minutos parecessem horas. E foi exatamente assim que aconteceu. Ele em nenhum momento tentou iniciar uma conversa, e eu não estava ansiosa para mudar isso, colocar fones de ouvidos seria muita falta de educação, principalmente quando ele tinha um bom gosto musical, então tudo o que pude fazer foi tentar ignorar a tensão, e me concentrar na imagem de árvores e prédios que passávamos como se esses fossem verdadeiras obras de artes. Quando paramos em frente à casa de Helena eu quase não pude conter o suspiro de alívio.
Observei a casa por alguns bons segundos antes de virar meu rosto para Oliver. Encontrei seus olhos me observando de forma que me deixava inquieta, eu deveria murmurar “obrigada” e sair tão logo pudesse, mas vi-me o encarando de volta, meus olhos passando pelas linhas do seu rosto e fixando na boca masculina. Uma onda incontrolável de desejo me pegando de surpresa.
Ou não fosse uma surpresa no final das contas, eu já estava acostumada a senti-me atraída por ele, talvez a surpresa tenha sido em perceber o mesmo nele. Quando meus olhos voltaram a encontrar o seus, notei que ele encarava minha boca com óbvio interesse. Resisti ao impulso de molhar meus lábios, por que eu me negava virar um daqueles clichês de livros, antes ficar com a boca seca e lábios rachados do que virar uma lambedora de lábios.
Os dele eu lamberia.
Oh inferno.
Eu precisava sair desse carro antes que meu orgulho e dignidade resolvessem decidir dar um breve, talvez longo, passeio.
— Obrigada. – Murmurei quebrando por fim esse novo tipo de silêncio. – Pela carona. Ainda que relutante. – Não resisti em acrescentar.
— Eu diria que não foi um incomodo. – Murmurou fazendo com que eu me lembrasse do por que Oliver Queen era um estúpido. – Mas foi.
— De novo, não fui eu que pedi. – Murmurei entredentes. Ele exalou um suspiro cansado.
— Dar carona a você não é um incômodo, Felicity. – Negou fazendo com que eu o encarasse com incredulidade. As poucas vezes em que ele falou comigo ele não hesitou em deixar claro que era. – Sua beleza é. – Eu tinha certeza de que neste momento eu não podia ser definida como outra coisa se não chocada. – Você tem ideia do quão irritante é me sentir atraído por você?
— Você precisa muito, e eu não estou exagerando aqui, você precisa muito, muito. – Enfatizei. – Praticar como elogiar uma garota. – Murmurei irritada. – Por que isso... – Abri minha mão e girei fazendo menção ao seu corpo, a ele em si. – Não garante muita coisa depois que você abre a boca.
Para minha surpresa ele riu. Ele realmente riu, eu fiquei tão surpresa com o som, com a expressão do rosto masculino quando o fez, fiquei tão deslumbrada com a forma com que ele jogou a cabeça para trás, tão absorvida pelo fato de ter feito Oliver Queen rir. Que perdi o fato de que provavelmente ele estava rindo de mim. Ele se recompôs aos poucos, seus lábios deixando o sorriso ir quase como se arrependesse da reação espontânea, mas seus traços permaneceram leves quando ele voltou a falar.
— Eu não estava te elogiando. – Negou.
— Não? – Perguntei de forma boba.
— Se eu fosse elogia-la, eu provavelmente falaria de seus olhos. – Falou. Seu tom descendo uma oitava. – De como mesmo parecendo um azul comum, ele ainda é singular, e cálido.
— Mesmo? – Eu poderia me orgulhar de muita coisa, de ser uma garota esperta, inteligente... Mas agora, nesse momento, Oliver havia me transformado em uma garota estúpida que tudo que fazia era repetir palavras.
— Ou eu poderia falar dos seus lábios. – Murmurou descendo seus olhos novamente até minha boca. – Na forma que seu sorriso faz com que seja impossível não encara-los, embora você não seja de sorrir muito para mim. De como eles incitam qualquer homem a se imaginar beijando-os. – Minha respiração se acelerou rapidamente quando senti seu polegar acariciar meu lábio inferior. – Eu poderia falar sobre seu rosto. – Continuou levando sua mão até meu rosto. – Seu cabelo. – Contive um suspiro quando sua mão encontrou facilmente a traseira da minha cabeça, seus dedos emaranhando-se em meus cabelos. – Seu corpo, eu poderia passar horas falando do seu corpo. – Eu era vagamente consciente que seu rosto já não estava mais na mesma distância que antes, que à medida que falava sua mão levou meu rosto mais próximo do seu, que o seu próprio havia diminuído a distância. – Melhor do que isso, eu poderia passar horas amando seu corpo, o reverenciando.
— Oliver...
— Você nunca me agradeceu pela carona. – Murmurou tão próximo que eu sabia em breve não haveria mais nenhuma distância entre nossas bocas. Eu deveria protestar não é mesmo? – Não da forma apropriada.
— Você não pode usar uma carona como barganha. – Sussurrei, eu sequer sabia por que protestava. As razões pelas quais eu não deveria beijar Oliver Queen, todas elas, sejam quais forem, eram incapazes de entrar em minha mente no momento.
— Eu posso. – Retrucou. Seu fôlego unindo-se ao meu. Oh a doce e agoniante expectativa. – Eu disse a você, eu não tenho quaisquer planos de ser um cavalheiro. – Então foi assim, essa foi sua última frase antes que sua boca tocasse a minha com urgência. Havia algo de gratificante na expectativa, na espera. Ela transforma momentos como esses muito mais intensos.
Seu beijo teve o poder de deixar-me completamente fora de mim. Minha mente estava em branco, nada era registrado além da sensação de ser beijada por ele, nada além do seu cheiro, do seu calor. Seus lábios exigentes roubando toda minha sanidade, sua língua entrando em contato com a minha sem qualquer floreio. Seu beijo era erótico e firme, decidido. Como o próprio Oliver era. Sua mão em meus cabelos tornando difícil qualquer tentativa de recusa-lo, quando mudou o ângulo do nosso beijo.
Como se isso fosse acontecer. Minha boca estava tão faminta da sua quanto à dele estava pela minha, ele encontrou em mim uma resposta ansiosa, um desejo igual ao seu. Uma vontade de transformar esse beijo em muito mais.
Maldita necessidade de ar.
Recuamos ofegantes. Nossos rostos ainda próximos por que foi esse todo o espaço que ele me permitiu. Nossos narizes se tocavam. Seus olhos carregados de promessas escuras, todas elas que eu deveria recusar, mas que eu tinha certeza não seria eu a dar um fim nisso.
— Venha esse sábado. – Murmurou. Franzi o cenho demorando a entender ao que ele se referia. – Vista algo vermelho.
— É a festa do meu irmão. – Murmurei perplexa. – E você não pode fazer isso, não pode falar para eu ir a essa festa como se fosse uma ordem, como se eu fosse apenas por que você assim falou, eu não assim.
— Não é. – Concordou. – Mas ainda assim você vai vim. – Um sorriso muito pequeno veio junto com a frase.
— Eu não vou. – Neguei teimosamente. – Além de não querer ir para essa estúpida festa, eu não tenho esse estúpido convite.
— Você terá. – Prometeu. Sua boca desceu sobre a minha uma vez mais, e por mais que eu repetisse uma e outra vez que dessa vez eu recuaria, não foi isso que aconteceu. O beijo em si foi mais suave, vagaroso e calmo, e por algum motivo eu achei mais íntimo. Quando ele se afastou eu emiti um suspiro de protesto. – É irritante me sentir atraído por você, mas eu não farei nada para mudar isso. – Falou se afastando. – Até sábado à noite, Felicity. – Murmurou em tom de dispensa, o que me irritou mais do que qualquer coisa. Agi tão rápido que ele foi incapaz de prever o que eu faria até o momento em que eu tinha puxado sua gravata atraindo sua cabeça até a minha, eu o beijei.
Meus lábios moveram-se sobre os seus com quase o mesmo ímpeto do nosso primeiro beijo, minha mão deslizou pelo tecido da gravata a alisando, meus dedos chegaram até a fivela de seu cinto, e por fim toquei em sua ereção enquanto com minha língua tocava a sua eu o provoquei, tão rápido quanto comecei o beijo eu o finalizei, sem qualquer aviso.
— Não é você que tem o poder aqui, Sr. Queen. – Murmurei sem desviar meus olhos dos seus, o acariciei levemente antes de afastar minha mão por completo. – Eu não vou a essa maldita festa. – Murmurei antes de fechar minha mão sobre o trinco da porta e a abri. Afastei-me do carro sem dirigir um segundo olhar para ele. Sua expressão atônita havia sido o suficiente para mim. Antes que eu chegasse à porta da casa eu pude escutar o som do carro se afastando.
No que eu me meti?
— Hey!! – Helena cumprimentou-me quando desceu as escadas minutos depois de que a empregada que havia aberto a porta para mim havia se retirado. – Tomou café?
— Não, mas eu não estou realmente faminta. – Não de comida. Completei internamente.
— Como está seu irmão incrivelmente gostoso? – Perguntou sentando-se ao meu lado. Helena nunca tinha escondido que se pudesse provavelmente subiria no colo de Tommy a primeira oportunidade. O problema para ela, era que Tommy nunca dava a oportunidade, eu tinha certeza que ele era completamente alheio a forma que ela o via.
— Incrivelmente irritante. – Dei de ombros.
— Você está irritada. – Murmurou após me observar alguns segundos. – Vamos. – Chamou-me após se erguer. Estendeu uma mão que eu peguei imediatamente e me puxou. – Vamos comer algo, então você me dirá o que a irritou.
— Tommy irá dar uma festa. – Falei quando sentamos a enorme mesa. — Neste sábado à noite e quer que eu fique aqui no final de semana.
— Faz sentido. – Deu de ombros. Eu a encarei confusa.
— Por quê?
— O dia dos namorados é no domingo. – Murmurou tranquila. – Os que têm namorados vão passar em jantares românticos, as solteironas vão se esconder em casa assistir as maratonas de comédia romântica e xingar todos. E os solteiros, mais precisamente homens como seu irmão... Vão passar em uma noite regada a sexo celebrando o fato de ser solteiro e lembrando-se como as mulheres querem eles como namorados, mas como eles jamais serão. Provavelmente o domingo será apenas parar eles não fazerem nada além de curar ressaca.
— Dia dos namorados? – Repeti incrédula.
— Você é pior tipo de solteira, por que você está tão acostumada a ser solteira que sequer registra a data. – Sorriu. – É um pouco triste por que você ainda é nova. – Provocou-me.
— Devo lembrar que você também é solteira? – Resmunguei.
— Sim, mas eu não lamento isso. – Brincou.
— Nem eu...
— E daí que seu irmão vai dar uma festa? – Cortou-me antes de encher um copo de suco. – Não é como se...
— Oliver me beijou. – Murmurei de repente. Eu esperava uma daquelas cenas de filme em que a pessoa cuspia o líquido devido ao choque, ou que ela no mínimo se engasgasse, qualquer coisa. Só que ela não fez isso, com tranquilidade, quase de forma aristocrata, Helena colocou seu copo de volta a mesa, um sorriso tênue em seu rosto.
— Eu sei. – Murmurou serenamente antes de bater na mesa com as duas mãos, o impacto fazendo com respingos do suco caísse na toalha branca. – Oh inferno como eu sei. – Murmurou soando mais como minha amiga. – Eu escutei o som de carro e fui até a janela do meu quarto, pensando que poderia ser você, e então eu vi. Não tão bem quanto eu queria, mas vi vocês dois no que deveria ser o beijo do ano. Safadinha! Está pegando o Queen.
— Helena!!
— Oh, por favor. – Murmurou com desdém. – Você tem ideia do quão difícil foi agir como a anfitriã perfeita quando na verdade eu queria sacudir seus ombros e perguntar desde quando isso estava acontecendo? Confesse você está orgulhosa. – O pior de tudo, é que eu estava. Helena sempre foi a mais extrovertida de nós duas, enquanto eu era a contida, que ela tenha demorado tanto tempo se controlando era algo a se aplaudir. – Vamos Lis, conte-me o que aconteceu. – Pediu.
A encarei sem ânimo e despejei tudo. Falei sobre sua visita mais cedo, o que não era algo fora do normal, sobre sua oferta de carona, sobre seu silêncio irritante e por fim falei sobre o beijo, os beijos. Não ocultei o quanto eu estava confusa por conta eles, e irritada com a atitude arrogante que Oliver havia demonstrado após me beijar, sua exigência em que eu fosse, sem se preocupar sequer que eu fosse encontrar Tommy, o que era óbvio que aconteceria, afinal era sua festa, nossa casa, e eu sou sua irmã. Máscara nenhuma me esconderia de Tommy.
— Eu não sei por que você está tão surpresa e irritada com a arrogância de Oliver. – Helena murmurou após escutar meu relato. – Eu tenho certeza que desde que o conhecemos essa foi à palavra que você mais usou para se referir a ele, algumas vezes você colocou bastado na frente. – Lembrou-me.
— Isso é sério Helena. – Murmurei chateada.
— É claro que é sério. – Falou meneando a cabeça. – Na verdade eu não acho que você pegou o quanto é sério.
— Oliver é o melhor a melhor amigo do meu irmão. – Falei a encarando duramente. – Eu não nego que me sinto fortemente atraída por ele, por Deus, tem três beijos que podem comprovar isso. Mas ele continua sendo o melhor amigo de Tommy. O divertido, comediante e adorável Tommy, o irmão mais velho super protetor Tommy. Que é da idade de Oliver, a propósito. Tommy jamais ficaria bem com isso.
— Você está preocupada com a idade? – Perguntou confusa.
— É claro que não. – Neguei rapidamente. – Mas sabe quem liga? Tommy. Eu não sei se você percebeu aqui, mas o grande problema é Thomas Merlyn. Eu poderia ficar com Oliver, tudo bem, Tommy ficaria puto, mas eventualmente ele me perdoaria e voltaríamos ao que era antes, eu não duvido nisso, ia ser um saco no começo, mas no final eu ainda seria sua irmã. Agora a amizade de Oliver e Tommy? — Murmurei fazendo com que ela se encostasse a cadeira com uma expressão de solidariedade. – Nunca seria a mesma. Para Tommy, Oliver seria o cara que transou com sua irmã e depois a deixou.
— É ridículo. – Helena meneou a cabeça. – Quem vai transar com Oliver é você...
— Eu não vou transar com Oliver. – Murmurei, mas ela prosseguiu me ignorando.
— E não Tommy. – Continuou.
— Graças a Deus por isso. – Falei com horror. Não que o lance homem com homem me trouxesse horror, mas o homem com quem eu adoraria estar transando com meu irmão... Bem, que horror.
— Você não pode, e nem irá limitar suas relações, sexuais ou não, de acordo com a lista de contatos de Tommy. – Falou com veemência. – Você se sente atraída por ele, eu diria que mais do que isso até, mas vamos partir apenas do ponto atração, você pode e deve ficar com quem você bem entender. – Assentiu. – Desde que não seja seu parente. – Acrescentou rapidamente.
— Eu preciso decidir meu voto agora? – Brinquei.
— Você não está levando isso a sério. – Balançou a cabeça com aborrecimento.
— Eu já disse que sim, Oliver...
— Eu não quero as razões pelas quais você não pode ficar com Oliver. – Negou. – Que são ridículas, a propósito. Você não percebe que Oliver responsável Queen, o cara lindo, sério que precisa procurar o significado de sorriso no dicionário...
— Ele sorri. – A interrompi. – E é lindo.
— Mais uma razão, você o faz sorrir. – Murmurou. – Ele sabe que Tommy é seu irmão, sabe que é seu melhor amigo, e com certeza já deve ter se questionado se seduzir a irmã do seu melhor amigo é um risco que vale a pena, você tem razão, Oliver é mais velho, o que o torna mais sábio...
— Eu não tenho certeza se isso é válido.
— Ele sabe de tudo isso, e ainda assim disse que não faria nada para mudar isso. – Falou me ignorando mais uma vez. – Ele a chamou para uma festa no dia dos namorados, Felicity. Ele quer passar o dia dos namorados com você.
— Ele não me chamou. – Neguei. – Ele ordenou. E a festa não é exatamente no dia dos namorados. – Embora se eu fosse... Eu duvidava que saísse antes que fosse.
— O que pode significar que ele não queria lhe dar a chance de dizer não. – Falou em tom suave.
— Por que você está insistindo tanto nisso? – Perguntei com um suspiro.
— Por que você quer isso. – Falou tranquila. – E quer que alguém a lembre disso. E acima de tudo eu seria muito feliz se o idiota do seu irmão acordasse de repente ansioso para me levar para cama.
— Eu não preciso dessa imagem. – Murmurei rapidamente.
— Eu adoraria ter essa imagem. – Retrucou. — Você vai à festa? – Perguntou após um tempo. Mordi meu lábio inferior enquanto cogitava sua pergunta. Eu iria?
— Eu poderia. – Assenti ganhando um sorriso seu. – Se eu tivesse convite. E um vestido vermelho. – Acrescentei lembrando-me do pedido de Oliver.
— Ele disse que você ia ter. – Deu de ombros. – Provavelmente ele vai dar um jeito nisso.
— Ou o idiota arrogante acha que eu vou mover céus e terras para conseguir um. – Falei.
— Os convites estão em sua casa. – Falou me lançando um olhar impaciente. – Quão difícil seria você roubar um?
— Eu não vou fazer isso. – Neguei. – Se Oliver me quer nessa festa, ele vai ter que trabalhar para isso.
— Você é irritante.
— Eu não sou. – Neguei fazendo com que ela sorrisse.
— Você é. – Assentiu. Lancei um olhar sujo a ela, que foi recompensando com uma piscada. Sem demora mudamos o rumo de nossa conversa, embora eu percebesse que Helena certamente tinha uma ou duas coisas para dizer a mais sobre o assunto. Nos dois dias seguintes eu não voltei ver ou receber quaisquer notícias de Oliver. Eu fiquei remoendo em minha cabeça que ele provavelmente havia percebido que uma aproximação nossa não era uma boa ideia, e tentei me convencer que estava feliz com isso.
Eu só voltei a ver Helena quando cheguei em sua casa no sábado pela manhã. Os preparos em minha casa estavam me dando nos nervos, assim como Tommy. Assim que entrei em sua casa ela percebeu de imediato meu humor, a falta dele para ser mais precisa e me guiou de imediato para seu quarto.
— Nada de Oliver ainda. – Presumiu.
— Eu já falei como ele é imbecil? – Perguntei deitando-me em sua cama e jogando minhas coisas nos pés da mesma, eu sempre ficava no quarto ao lado em caso de pernoite, mas no momento eu não estava com a paciência de primeiro organizar minhas coisas e só depois papear. Ou resmungar. – E arrogante, como ele é arrogante.
— Você pode ter dito uma ou outra vez, exceto pelo último. Esse é novo. – Brincou. – Ele vai entrar em contato, eu tenho certeza que ele vai. Eu acho que...
— Com licença. – Nós duas encaramos a figura feminina vestida em seu uniforme de empregada. Não havíamos percebido que tínhamos deixado à porta aberta. – Mas chegou uma encomenda para a senhorita.
— Pode mandar subir. – Helena falou empolgada. A empregada assentiu e se retirou, Helena se virou para mim com um enorme sorriso – Algo me diz que é um convite.
— Não se iluda. — A adverti. Eu duvidava que fosse. Apesar de me perguntar como uma encomenda comum seria entregue no sábado. Fazendo-me pensar que esta não é uma encomenda comum. – Por que mandar subir um convite? Ela mesma poderia ter entregado.
— Você está certa. – Murmurou perdendo o ânimo.
— E ainda que fosse... Eu não tenho o estúpido vestido vermelho. – Falei rapidamente.
— Eu tenho vários. – Ofereceu.
— Você tem mais seios, e eu tenho mais bunda. – Argumentei.
— Pare de desejar que tudo dê errado. – Pediu. – Eu não quero mais...
— Chegou. – Falei apontando para a porta. A mesma empregada entrou carregando uma caixa retangular. Uma caixa que ela poderia ter subido de primeira, devo acrescentar, e colocou no centro da cama. Sem hesitar ela entregou o envelope a Helena. Helena olhou o envelope e abriu um enorme sorriso.
— Ha! – Comemorou. – Não é para mim. – Entregou o envelope que tinha apenas meu nome nele. Ela não perdeu tempo e foi até a caixa, enquanto eu abria o envelope com meu coração batendo a mil.
“Dois estúpidos convites, uma estúpida máscara e um estúpido vestido. Tudo isso para a garota que me deixará ao admira-la, com um estúpido olhar. Estarei te esperando, não perca tempo questionando o porquê daria errado, vamos gastar tempo juntando os motivos pelos quais vai dar certo. O.Q”.
— Quem diria. – Escutei a voz de Helena soar atrás de mim, eu não ideia de como ela havia se movido tão rápido e silenciosamente. – Oliver Queen sabe usar as palavras, ele devia tentar falar elas também. – A fuzilei com o olhar, não queria admitir, mas o bilhete havia sido uma surpresa agradável. – Mas ele está errado, aquele vestido não tem nada de estúpido. É lindo. – Murmurou apontando para cama. Ela já havia aberto a caixa e tirado cada item e colocado sobre a colcha. Eu não sabia que havia durado tanto tempo lendo o bilhete, mas provavelmente a culpa era do choque, que me fez relê-lo várias vezes até perceber que era real.
— É lindo. – Repeti bobamente. O vestido não poderia ser descrito outra coisa se não... Perfeito. Aproximei-me mais e toquei o tecido, minha mão correndo por ele, minha mente registrando a textura.
— Ele mandou dois convites. – Helena murmurou atônita.
— Eu acho que ele sabe que eu jamais iria sem você. – Falei a encarando. Ela cruzou os braços, e levou um polegar a boca o mordendo, enquanto tentava esconder o sorriso por trás. Ela estava empolgada, e eu tinha que admitir, eu também estava.
— Felicity. – Helena chamou-me, uma centelha brilhando em seus olhos. – Nós vamos invadir a festa do seu irmão, nos escondermos dele, tudo isso para você se encontrar as escondidas com o melhor amigo dele?
— Sim. – Murmurei com expectativa. – Nós vamos.
[...]
Esta é uma terrível ideia.
— Pare de ter pensamentos arrependidos. – Helena murmurou ao meu lado.
— Como você...
— Eu conheço você. – Falou. – E máscara nenhuma poderia esconder esse seu olhar de corça assustada.
— Eu não...
— Está. – Cortou-me. – Olhe, nós temos pouco tempo antes de qualquer uma dê a sorte de topar com seu irmão nessa festa decadente. – Falou em tom azedo. Era de se esperar que ela estivesse animada agora que finalmente estamos dentro dessa maldita festa, mas ela estava ultrajada, por que já havíamos visto Tommy de relance, e ele estava acompanhado de não apenas uma, mas duas ruivas. Eram gêmeas. Por que homens tem esse lance com gêmeas? – Então é melhor você encontrar Oliver o mais rápido possível sim? Tão logo o encontre me mande uma mensagem, então eu poderei sair daqui.
— Você sabia que ele ia estar com outras mulheres. – Intervi.
— É diferente de ver. – Argumentou. — Apenas vá e encontre Oliver. Apesar de tudo eu gostaria que ele tivesse feito como um cara normal e a convidasse para sair.
— Helena...
— Vá. – Insistiu. – Eu ficarei bem. – Mesmo hesitante em deixa-la sozinha assenti concordando. Uma onda de insegurança passou por mim, eu não estava pronta para passar a noite toda andando pelos corredores da minha própria casa me escondendo do meu próprio irmão. Demorou mais alguns bons minutos antes que eu desistisse, eu já tinha desviado de dois convites para subir a um dos quartos, e me esbarrando em mais corpos bem vestidos e mãos ousadas, eu já havia chegado a minha cota. Mandei uma mensagem ansiosa para Helena perguntando onde ela estava, e ela surpreendentemente me respondeu rapidamente que estava na casa da piscina. Exalei um suspiro de alívio. A casa da piscina era mais como um chalé com o essencial, um lugar perfeito para eu me esconder.
Não havia luzes ligadas, apenas o brilho tênue em uma janela que eu sabia ser do único quarto que havia lá, no momento em que entrei na casa eu soltei uma respiração longa.
— Ok, Helena, isso foi divertido, mas eu estou pronta para ir embora. – Murmurei ligando as luzes e retirando minha máscara, joguei-as na primeira superfície plana que encontrei e parei abruptamente ao notar a figura masculina sentada no sofá. Sua postura mostrando que ele estava à vontade, um copo com liquido escuro em uma mão.
— Você não pode ir agora. – Negou. – Ainda sequer começamos a nos divertir.
— Suponho que você ache divertido me deixar procurando por você como uma barata tonta. – Murmurei irritada.
— Eu não havia chegado à festa até pouco tempo, e quando o fiz precisei cumprimentar seu irmão. Enrola-lo um pouco, tive que responder suas perguntas curiosas como “Onde está sua companhia Ollie? Companhias, notei que levou três convites.” respondi que estavam chegando. – Murmurou em tom culpado deixando a bebida de lado. – Quando ele por fim se afastou eu vi sua amiga e pedi que avisasse assim que possível que eu estaria aqui esperando. Por você.
— Por quê? – Perguntei sincera. Ele endireitou-se ao escutar minha pergunta, seu olhar me atraiu para mais perto. – Eu não entendo. – Confessei. – Não é como se você de repente se descobrisse apaixonado por mim, você está atraído, eu entendo isso, mas por que hoje? Por que aqui na festa dele, e por que agora vale a pena arriscar sua amizade com Tommy? – Parei em sua frente. – Helena falou algo certo, você poderia apenas ter me convidado para um encontro, ou algo do tipo. Por que fazer tudo isso? – Perguntei apontando para o vestido. Ele inclinou a cabeça me analisando, suas mãos circundaram minha cintura como se meu gesto tivesse sido um convite, colocando-me entre suas pernas, sua cabeça se apoiando em meu estômago. Observei atônita ele fechar os olhos, minhas mãos indo automaticamente para sua cabeça o abraçando. Acariciei seus cabelos. Foi tão natural que eu não perdi muito tempo me perguntando o que estávamos fazendo. Notei que ele já havia desfeito a gravata borboleta e que seu paletó estava jogado no braço do sofá, ele também havia deslizado os suspensórios para baixo. – Primeiro você me surpreende com um beijo explosivo, agora você me abraça. Você não poderia ser mais confuso, Sr. Queen.
— Oliver. – Murmurou levantando seu rosto. – Eu me lembro de que você me chamou de Oliver.
— Eu chamei. – Assenti. – Você vai me explicar à razão por trás desse seu jogo?
— Eu acho que esse é nosso jogo. – Murmurou em tom baixo. Suas mãos espalmaram minha barriga sobre o tecido macio do vestido, e desceram lentamente para minhas pernas. – Um jogo de espera. – Esclareceu. – Temos feito isso por um bom tempo, não foi de repente. – Negou encostando-se ao sofá. – Não era certo antes, e eu não tenho certeza se é certo agora. – Admitiu parecendo cansado. — Mas eu tenho certeza que posso lidar com as consequências, diferente de antes.
— E eu posso? – Perguntei insegura e até mesmo um pouco aborrecida por ele não ter levado isso em conta. Suas mãos estavam preguiçosas quando ele voltou a se endireitar, elas escorregaram para dentro do vestido, fazendo com o ritmo do meu coração acelerasse rapidamente. As mesmas carícias eram feitas agora diretamente sobre minha pele, me aquecendo e me distraindo.
— Você não estaria aqui se não pudesse. – Retrucou. – Você sabia o que ia acontecer quando veio, e mesmo assim veio. — Segurei em seus ombros e aproximei-me ainda mais de si quando senti suas mãos sobre minha bunda, espalmando-a. Oliver não tentava ser discreto, ou se esconder por trás de elogios e distrações, ele mostrou desde o começo o que ele desejava. – Você tinha razão. Quando falou mais cedo, você é a que tem o poder aqui. Você vai determinar quando isso vai acabar, você vai determinar se está pronta para revelar a seu irmão. Você vai determinar se vale a pena e até onde devemos ir. – Segurei um suspiro quando suas mãos pararam no cós da minha calcinha, dedos enganchados nas laterais. — Você tem o poder. – Sussurrou enquanto arrastava minha calcinha para baixo sem nunca desviar os olhos dos meus. Eu deixei. Não havia muito do que protestar no momento. Eu queria isso tanto quanto ele. Talvez mais. Ele voltou a se encostar, suas mãos indo até sua calça e a desabotoando. Liberando sua ereção. Eu lambi meus lábios, merda eu lambi meus lábios. Observei a mão masculina acariciar sua extensão, e engoli em seco. — Use-o.
Eu estava molhada. Excitada, quente, e incrivelmente molhada apenas observando-o acariciar a si mesmo. Suas mãos haviam me tocado apenas levemente antes de tirar minha calcinha, o que aconteceria se ele realmente dedicasse sua atenção a mim?
— Isso acaba quando eu disser. – Murmurei encarando-o firmemente. Ele assentiu. – Eu tenho a palavra final. — Sussurrei erguendo a barra do meu vestido e tirando-o por cima da minha cabeça, observei ele engolir em seco e voltar a assentir. Eu estava hipnotizada pela forma que ele trabalhava em si mesmo. Minha mão desejando substituir a sua. Ele ergueu-se apenas o suficiente para retirar uma camisinha do bolso traseiro, rasgar o plástico e coloca-la. – Eu pensei que levaria horas adorando meu corpo... – Murmurei apoiando um joelho ao lado de sua coxa, minha cabeça baixando para encontrar a sua, mas ainda assim mantendo uma pequena distância.
— Amando. – Corrigiu-me. – E vou fazer isso. –Prometeu.
— Eu acho que isso serei eu a decidir. – Sorri gostando da ideia. – Agora me dê um beijo, Sr. Queen, por que não começarei nada sem um beijo.
— Com prazer. – Murmurou levando uma mão aos meus cabelos, segurando-os com firmeza e guiando minha boca até a sua, sem hesitar sentei em seu colo, suas mãos correndo para encontrar minha cintura, apertando-a e guiando-me enquanto eu descia sobre seu membro, segurei seus ombros enquanto sentia-o entrar centímetro por centímetro, eu estava tão escorregadia que a penetração foi mais do que bem vinda. Sua boca sugava todos meus pensamentos coerentes e gemidos, movendo-se sobre a minha com a familiaridade de um amante. Um novo gemido escapou de meus lábios quando o senti preencher-me completamente, ondulei meu quadril fazendo com que ele também gemesse em resposta, quando seus lábios liberaram os meus eu vi o desejo cru em seus olhos. Seu olhar desceu para meu seios que ainda estavam cobertos, e suas mãos foram até minhas costas, com destreza ele me ajudou a me livrar da peça e em poucos segundos sua boca fez um verdadeiro estrago sobre eles, ergui-me lentamente apenas para voltar a descer, voltei a fazer uma e outra vez com deliberada lentidão, jogando toda nossa sanidade fora, intensificando o ritmo gradualmente até que ele murmurou uma maldição. Suas mãos voltaram a segurar-me fortemente antes de inverter nossa posição, seu corpo subindo sobre o meu deitado, minhas costas batendo contra o estofado duro, sua mão possesiva envolveu minha coxa e ergueu minha perna guiando para trás de si, abrindo-me mais.
Seus lábios voltaram a encontrar os meu com luxúria, seu membro voltando a me preencher, seu corpo movendo-se uma e outra vez com ímpeto, seu quadril batendo contra o meu com urgência, nossos gemidos ecoando pela sala. Quando sua mão envolveu meu seio e sua boca desceu sobre o bico, sua língua provocando-o eu senti todo meu corpo convulsionar em um perfeito orgasmo. Meus músculos interiores abraçando-o. Escutei o som rouco quando seu orgasmo seguiu o meu após uma última estocada. Seu rosto deitando entre meus seios. Nossas respirações ofegantes. Entrecortadas. Por um tempo abracei a sensação de ter seu corpo pesado sobre o meu, de tê-lo dentro de mim, meus dedos encontrando seus cabelos novamente, os acariciando.
Até que ele se afastou.
Fiquei observando o teto enquanto escutava ele se mover pela casa. Ele havia decidido que bastava? Era isso? Ia se vestir e então sairia com talvez um “obrigado”?
—Vamos. – Chamou-me tirando dos meus pensamentos enquanto envolvia minha mão na sua e puxava-me para junto de si. – Eu prometi algumas horas adorando esse corpo. – Sorriu.
— Amando. – O corrigi. Isso em vez de retrai-lo fez com que seu sorriso abrisse ainda mais. Eu havia dito a Helena que o sorriso de Oliver era lindo. Até o momento eu não havia percebido o quanto.
Ele levou-me até o quarto, deitou-me sobre a cama com delicadeza, e assim como prometeu, amou meu corpo, cada pedaço dele, assim como eu fiz com o dele. Nossos corpos estavam suados, cheirávamos a sexo, e cada um já havia decorando cada ponto sensível do outro, já reconhecia cada sinal de que o outro estava perto, já sabia como levar o outro a loucura, cada um já conhecia o corpo do outro.
— Feliz dia dos namorados. – Escutei-o murmurar quando mais uma vez, em meio do que deveria ser uma inocente ducha, ele conseguiu que meu corpo se quebrasse em um orgasmo.
Quando amanheceu eu acordei sozinha, a sensação de ser abandonada não durou mais do que alguns segundos, mas foi o suficiente para me deixar saber que não gostava dela. Eu sabia que ele estava por perto, mais por que eu ainda vestia sua camisa do que por qualquer outra coisa, eu duvidava muito que Oliver sairia por aí sem sua camisa. Levantei-me e caminhei seguindo o cheiro de comida até a cozinha, ele estava lá, vestia apenas sua calça, e estava de pé descalço enquanto mexia nas panelas.
— Bom dia. – Murmurei hesitante, mesmo tendo reagido um pouco decepcionada quando imaginei que ele havia ido, eu não estava preparada para como agir agora que ele havia ficado. Oliver virou-se, um sorriso perfeito combinando com seus lábios perfeito, seus olhos descendo pelo meu corpo com descarado interesse.
— Essa é uma visão que eu gosto. – Murmurou caminhando até ficar em minha frente, sua boca descendo sobre a minha para um beijo doce, um beijo que me deixou desconcertada. – Você está surpresa. – Murmurou ao ver minha expressão. – Por eu ainda esta aqui. – Eu dei de ombros não podendo negar. Ele moveu-se tão rápido que eu não pude premeditar sua intenção, suas mãos seguraram minha cintura e colocaram-me sobre o balcão. Emiti um pequeno grito surpreso.
— Você estava todo mal humorado antes, falando como era irritante me desejar. – Gracejei. – Você não pode me culpar.
— Eu também disse que não faria nada para mudar isso. – Deu de ombros. – E eu te disse, você é quem tem o poder, isso vai acabar quando você disser. – Murmurou encaixando-se entre minhas pernas antes de beijar-me. Esqueci quaisquer protestos, se havia algum, esqueci até mesmo que havia acabado de acordar e que eu provavelmente deveria escovar meus dentes, esqueci o tempo. Tudo por conta de seu beijo.
— Algo está queimando. – Murmurei o soltando. O cheiro de queimado invadiu minhas narinas. Oliver exibiu um olhar de terror que fez com que eu risse e correu para desligar a boca do fogão, ele estava jogando água sobre a frigideira quando o chamei ainda sentada confortavelmente em cima do balcão. – Hey. – Ele me encarou com curiosidade genuína. — Isso ainda não acabou. – Murmurei suavemente. Para ser sincera eu achava que este era apenas o começo. Observei admirada, um sorriso deslizar lentamente pelos lábios masculinos.
Isso definitivamente ainda não acabou.
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