Wait Me Forever...

20 A Fênix de Cristal


Notas iniciais
Oi pessoas maravilhosas!! A capa de hoje traz Suzan e Éomer (lindos e maravilhosos)! O capítulo ficou bastante intenso e espero que gostem e continuem a acompanhar! Agradeço Alana Lysander por recomendar a história! Boa leitura!

— Kendhra – chamou Thranduil, lhe acariciando o rosto com o dorso da mão. – O que tem a me dizer? O que lhe aflige?

— Nem sei por onde começar. – ela engoliu as lágrimas, disposta a não parecer fraca na frente do rei élfico. – Sinto-me tão envergonhada...

— Está me deixando preocupado. – ele a forçou a virar-se para encara-lo, com a agonia estampada em seus olhos azuis.

As imagens voltaram com força arrebatadora à mente da Dunedáin, lhe cegando por ínfimos segundos. Consegui sentir a cimitarra Orc quase lhe partindo ao meio, o sangue lhe escorrendo pelas pernas e a voz de Radagast gritando impropérios em seus ouvidos. Passara meses acamada, sem poder mexer um músculo e sendo carregada para todos os lados pelo mago castanho. Ficara incapaz de cuidar do próprio corpo e isso a perturbava, mas não tanto quanto o que ouvira – naquela maldita noite chuvosa – quando Gandalf foi visita-los.

“- Como ela está, meu caro? – perguntava o mago dando tapinhas carinhosos no ombro do outro.

— Melhor. – sorriu-lhe Radagast. – Minha pequena é forte como as árvores da floresta, Mithrandir, mas não sei como lhe dar a notícia...

— Será um momento delicado. – concordou ele, que ainda trajava vestes cinzentas. – Fizemos tudo o que está a nosso alcance para poupa-la de lesões mais sérias, estou certo de que ela compreenderá.

Kendhra encolheu-se contra a parede da sala, com o baixo ventre latejando, esforçando-se para entender o que os dois magos confabulavam.

— Compreenderei o quê? – questionava-se ela em murmúrios.

— Não tenho tanta certeza, Gandalf. – era a primeira vez que Radagast deixava as lágrimas rolarem de seus olhos. – Ela falava, quando criança, sobre ter uma família. Conseguia divisar três, ou quatro pequenos correndo por aqui, derrubando minhas panelas e espantando os animas... E agora... Agora só me resta o silêncio.

— Pai – grunhiu a moça, revelando-se.

— Mas com quinhentos orcs, Kendhra! O que diabos está fazendo? – o castanho ergueu-se, amparando a jovem até a cadeira mais próxima.

— Sobre o que estavam falando? – exigiu saber, intercalando olhares entre Gandalf e seu pai.

— Minha querida, escute com atenção. – o mago cinzento aproximou-se, tomando-lhe as mãos carinhosamente...”

Tae (amor)— murmurou Thranduil ao ouvido da Dunedáin, envolvendo-a com os braços. Kendhra mal percebera que começara a chorar.

— Você não merece uma mulher como eu! – soltou em desespero, agarrando-se a parte da frente das vestes do elfo.

— Não diga um absurdo desses. – bradou ele, beijando-lhe o alto da cabeça. – Eu a amo, mais do que qualquer coisa neste e no outro mundo.

— Sou estéril, não posso lhe dar filhos.

O pai de Legolas a afastou, mirando os olhos claros da jovem – transformados em grandes lagoas cristalinas, que transbordavam em forma de lágrimas. Escorregou para o lado da jovem e abraçou-a, sentindo-a baixar a cabeça na direção de seu colo. Ele não se importava se ela fosse estéril, pois amava a parte mais profunda e pura de seu ser: a guerreira destemida e forte e a mulher carinhosa e compreensiva que se revelava a cada dia.

— Olhe para mim – pediu Thranduil acariciando-lhe os cabelos crespos.

— Não consigo – balbuciou ela com o corpo percorrido por soluços.

— Eu não me importo. – soltou ele, sorrindo.

— O quê? – volveu Kendhra, erguendo-se para encara-lo.

— Não me importo com isso, meu amor. – o Sindar segurou o rosto da jovem com as mãos. – Podemos... Adotar uma criança. Ajudaremos Marianne e Legolas a cuidar de Elenna. Daremos um jeito.

Ela sorriu, admirando-se ainda mais com aquela criatura de imensa beleza, que lhe ofertava o mais puro sentindo de amor.

— Perdi a conta de quantas vezes agradeci a Ilúvatar por ter conhecido você.

— Não mais do que eu agradeci.

Thranduil beijou os lábios da dama. Aninhando-a em seu peito e a envolvendo protetoramente em seus braços.

— E quanto a Wilwarin? – questionou Kendhra.

— Deixarei que ela permaneça dentro de meus domínios pelo tempo que desejar. – esclareceu o Sindar. – Se promover atos, que julgar errados, a mandarei embora.

— Não vai consultar seu filho antes de tomar esta decisão?

— Pelo pouco que vi, Legolas compartilha desta mesma opinião. – o rei retirou a coroa de flores silvestres de seus longos cabelos, girando-a nas mãos.

— O que lhe perturba? – a Dunedáin lhe acariciou o rosto, depositando beijos nas bochechas do elfo.

— Depois que todo este tormento passar, quando enfim nos casarmos – ele sorriu, beijando os lábios da dama com ternura. – talvez esteja pronto para passar esta coroa adiante.

— Vai abdicar ao trono? – a jovem deixou o queixo cair alguns centímetros. Via Thranduil sentado na sala do trono por muitos e muitos séculos, mas ele parecia não tomar partido desta ideia.

— Já vi e aprendi o suficiente sendo rei, acho que mereço um pouco de descanso. Legolas foi ensinado, desde muito jovem, sobre os afazeres de um soberano, ele e Marianne manterão a Floresta Verde próspera; assim como minha neta o fará, no futuro.

— Você está mudado – admirou-se Kendhra, ainda sem acreditar.

— Saiba que a senhorita é um dos motivos desta mudança. – o pai de Legolas escorregou para os travesseiros, puxando a filha de Radagast para cima de seu corpo.

Os dois continuaram as carícias, caindo no chão, às gargalhadas.

***

Alícia acordou com suor lhe escorrendo pelo pijama claro e os cabelos desgrenhados pelo sonho perturbador que ainda lhe preenchia a mente. Lançou os olhos para a cama onde os pais dormiam, engatinhando para fora do colchão cuidadosamente. Calçou as pantufas, embora não sentisse frio e olhou para a lua pálida e alva brilhando junto às estrelas, pedindo que ela lhe desse alento. A mensagem que lhe embalara o sono fora bem clara, mas sua realização parecia extremamente delicada. Precisaria deixar os pais e a irmã para juntar-se aos habitantes de Rohan e dar suporte a Suzan.

— Que Ilúvatar esteja comigo – murmurou a garota abrindo a janela com o mínimo de barulho.

Analisou a altura até o chão, sentindo as pernas bambas, qual duas varas verdes. Estava prestes a saltar quando enxergou dois elfos parados junto à entrada da casa, apoiados em arcos longos e com os rostos cobertos por capuzes cinzentos. Prendeu a respiração, temendo que eles a tivessem ouvido, ou visto, mas os dois mal se mexeram.

Voltou a inspirar devagar, com o ar gelado da madrugada entrando em seus pulmões como um convite para o passeio que realizaria. Fechou os olhos, forçando os pensamentos a voltaram ao dia em que caíra no lago congelado em Green Valley. O torpor lhe percorria as veias quando ela saltou, abrindo os braços magros que logo se transformaram em asas azuladas.

Marianne sentiu certo desconforto ao chegar as portas da frente, cumprimentando Haldir de cenho franzido, sem entender o motivo daquele sentimento estranho. Afastou as ideias ruins para o canto mais afastado de sua mente, esforçando-se para prestar atenção ao que o elfo de Lothlórien lhe dizia.

Alícia pendeu o corpo para um lado, desviando-se dos altos pinheiros em seu caminho. Seguiu ao lugar da divisa entre os mundos, tentando manter um ritmo constante e aproveitando as correntes de ar quente para descansar as asas não acostumadas àquele tipo de atividade.

A fenda dimensional abriu-se com um brilho prateado, deixando-a passar. Ela piscou os olhos – da cor das safiras mais resplandecentes – acostumando-se à luminosidade da terra de Rohan e dando consigo em meio a um turbilhão de soldados voltando de alguma batalha.

Teve de controlar o bater das asas e ajustar seu corpo esbelto, esgueirando-se em meio aos transeuntes, que começavam a perceber sua presença. Avistou Suzan na multidão, agarrando-se a mão esquerda de Éomer, que jazia inconsciente sobre uma maca improvisada. Tentou gritar, mas o que saiu por entre seus lábios – ou melhor, um bico pontudo de tom violeta – foi um pio agudo, que chamou todos os olhares para si.

Abriram espaço para que aterrissasse e a garota se espatifou de encontro às pedras, voltando a forma humana antes que o tombo fosse pior.

— Alícia? – Suzan voltou a si, correndo para socorrer a pequena, que batia a poeira dos joelhos. – O que está fazendo aqui?

— Vim ajuda-los. – respondeu sem acreditar que cometera aquela loucura. – Recebi uma mensagem, dizendo que estavam em apuros.

— Senhorita Alícia – Faramir desvencilhara-se do aperto da esposa, cumprimentando a garota com uma reverência. – Sua irmã sabe desta visita?

— Creio que não. Não tive tempo de avisa-la sobre minha vinda, mas espero que compreendam – desculpou-se Ali, com as bochechas corando.

— Seja bem-vinda à terra dos cavaleiros, pequena – Éowyn lhe beijou as faces, secando as lágrimas que escorriam por seu rosto.

— Preciso falar com todos vocês. – tornou a fênix de cristal baixando o tom para um murmúrio. – Peço que levem Éomer para um quarto reservado e não chamem ninguém que não seja de sua confiança. Fui incumbida de uma tarefa bastante complicada, por alguém de extrema importância neste mundo.

Suzan surpreendeu-se com as palavras da garota, a qual parecia ter amadurecido vários anos em alguns minutos, bem diante de seus olhos.

— Darei as ordens para os homens, sinta-se à vontade – Faramir afastou-se, intrigado com o que a menina dissera.

Depois de colocarem o corpo debilitado de Éomer sobre a cama e retirar a bandeira de Rohan de seu corpo mutilado, Alícia e os outros permaneceram ao lado do leito do cavaleiro, rogando para que ele melhorasse.

— Tem certeza de que pretende ficar? – a irmã de Marianne tinha a seriedade estampada nos olhos ao visar o rosto de Suzan.

— Tenho, não vou ficar longe dele por um segundo sequer.

— Muito bem. – concordou a garota, prendendo os cabelos castanhos em um coque baixo e arregaçando as mangas. – Vou retirar as ataduras que fizeram e preciso de panos limpos e água quente, além de folhas de athelas.

Faramir aquiesceu, deixando o quarto apressadamente para buscar o material que a garota pedira.

— Quando vai começar a explicar o que aconteceu? – Suh cruzou os braços sobre o peito, intrigada.

— Tudo começou com um sonho que tive – iniciou Alícia desenrolando os panos sujos de sangue do braço de Éomer. – com Manwë.

— Desculpe a ignorância, mas que é esse tal de Manwë? – volveu Suzan, desviando o olhar das feridas de seu noivo, temendo que seu estômago fosse lhe trair.

— Manwë é um dos Valar, os Poderes de Arda, senhor dos ventos e todos que nele habitam. – Ali mal parecia se importar com o estado do que sobrara do braço do Rohirrim, amputado na altura do cotovelo. – Ele veio a mim na forma de uma águia gigantesca e disse que minha missão era ajuda-los, até que todo o mal esteja findado.

— Um dos Valar falou diretamente com você? – exasperou-se Éowyn, que permanecera calada até aquele momento.

— O eco de sua voz ainda está em minha mente, enquanto conto isso a vocês – Faramir entrou no quarto e a garota pôs-se a limpar o ferimento, esmagando as folhas de athelas para preparar um unguento.

— O eco da voz de quem? – perguntou o irmão de Boromir.

— De Manwë, um dos Valar. – repetiu Suzan boquiaberta.

— Mas isso é sinal de que és uma pessoa muitíssimo especial, senhorita Greyhood – concordou o gondoriano.

— Ele disse algo sobre isso... – cantarolou Alícia refazendo as ataduras, em tom sonhador. – Disse que eu sou a Fênix de Cristal, senhora das neves e protetora dos que sofrem... Faz algum sentido?

***

— Meu senhor, parece um tanto cansado. – Almarvarnë serviu o vinho preferido de Alagos na taça onde esmagara as ervas, pegas por Turelië no jardim. – O que acha de receber uma massagem relaxante?

— Isso soa como música em meus ouvidos. – concordou ele, envolvendo a cintura da elfa com as mãos e depositando-lhe um beijo nos lábios. – O dia foi, deveras, estressante.

— Tenho permissão de perguntar o motivo? – ela massageou os ombros largos do elfo, beijando-lhe o pescoço com certa repulsa.

— Meus servos ousaram desobedecer às ordens que lhes dei. – resmungou Alagos de olhos fechados. – Quase mataram o rei de Rohan.

Almarvarnë engoliu em seco, controlando a voz. – O senhor Éomer?

— Exatamente, minha bela dama, exatamente. – concordou o elfo.

Ele estava prestes a encostar a taça aos lábios quando parou, pensativo, olhando para o fundo do copo. A irmã de Turelië sentiu arrepios subindo-lhe pela espinha. A expectativa aumentava a cada segundo e, diante da demora de Alagos em sorver o líquido, presumiu que algo estava errado.

— Diga-me uma coisa, Almarvarnë. – proferiu ele, chamando-a pelo nome. – Por que não está bebendo?

A elfa serviu-se de uma taça de vinho, dando dois goles pequenos.

— Estava cuidando do senhor primeiro – respondeu inocentemente. – mas se insiste eu posso...

— Mais uma coisa, querida. – sibilou, com a aura negra rodopiando ao redor de seu corpo quando estendeu a taça que segurava para a elfa. – Beba.

As mãos pequenas da dama tremiam ao pegar o objeto dourado e ela derramou algumas gotas carmins sobre o tapete claro que cobria o chão. A taça estava perto o bastante de seus lábios. Ela sentia o cheiro forte da bebida fermentada, misturada ao cheiro acre da descoberta. Alagos sabia sobre seu plano e ele a faria pagar por tudo o que tramara. Pensou em fingir um desmaio e deixar cair o vinho, mas de nada adiantaria.

— Ordenei que bebesse! – continuou o elfo, com as mãos tremendo e raiva pura estampada nas faces.

— Não posso, meu senhor – choramingou Almarvarnë.

— Como ousa? Pensou que seria fácil colocar algo em minha bebida sem que percebesse? – ela a agarrou pelos braços, causando-lhe feios hematomas. – Será que é tão estúpida assim?!

— Me perdoe, eu...

— CALE-SE! – ele a esbofeteou, fazendo-a cair sobre a mesa de refeições, causando uma bagunça de comida e cacos de vidro.

Duas costelas quebradas, talvez três. Sangue lhe escorria pelo canto dos lábios e a dor lhe impedia de levantar.

— Levei tanto tempo para confiar em você e agora me traiu! – continuou ele forçando-a a ficar em pé. Ela cambaleou dois passos, deixando o corpo ferido cair sobre a cama, de encontro aos travesseiros. – Por que fez isso? Por que?

Ela tossiu, cuspindo algumas gotas de sangue e gemendo.

— Achei que ainda existia esperança de que voltasse ao normal, achei que poderia retornar para a luz, achei que... – Almarvarnë tremeu, culpando-se por deixar-se iludir. – Achei que pudesse ama-lo.

A aura de magia negra ao redor do elfo, falhou, desaparecendo. Ele passou as mãos largas pelo rosto, parecendo horrorizado com o que fizera. Principiou-se na direção da dama, mas ela o repeliu.

— Não toque em mim! – gritou, sendo abalada por soluços. Chorar lhe causava dores, mas não podia evitar. – De agora em diante só vamos dividir o leito quando eu quiser!

— Por favor, Almarvarnë. – ele sentou na beirada da cama, tocando os longos cabelos negros da jovem elfa. – Deixe-me cuidar de você, deixe-me provar que pode... – os olhos claros se encontraram. – Que pode me amar, assim como a amo.

Ela arregalou os olhos, surpresa com a verdade ardente nas palavras de seu algoz. Estendeu a mão pequena para tocar a do elfo, que entrelaçou os dedos aos da irmã de Turelië. Estava cansada de lutar e precisava de descanso, por poucos dias, até que estivesse forte novamente. Não podia desistir, sabia que sua existência dependia de seu desejo pela vida, caso negasse essa força motora morreria, sem ajudar os outros milhares de elfos que precisavam de sua vitória.

Notas finais
E então, o que acharam? Beijinhos