Notas iniciais
Espero que gostem.

12:00

Mateus

Acordei sem saber como cheguei em casa, fui até a cozinha para beber água, Alan estava deitado em um colchão no chão do quarto, passei por ele sem fazer nenhum barulho. Achei meu celular no sofá, nenhuma mensagem, minha família tentou manter contato nos primeiros anos, mas desistiram quando perceberam que não era o que queria. A única relação era o dinheiro que meu pai depositava todo mês. Deitei no sofá e voltei a dormir.

08:00

Igor

Marcelo não iria para a faculdade hoje, só no estágio, sabia como hoje era um dia difícil e queria estar ali para dar apoio moral, Roberto, Luan, Rodrigo e Wesley estavam querendo passar na casa dele o que não sabia se era uma boa ideia, mandei uma mensagem para Alecsandra perguntando o que ela achava, mas não recebi nenhuma resposta.

— Ei! — Alguém gritou, me virei e era o Roberto.

— Ei.

— Tudo certo para hoje? Vou levar umas cervejas.

— Não sei se é uma boa ideia. — Respondi.

— É uma ótima idéia, se você tivesse passado por tudo o que Marcelo passou ia querer ficar sozinho no aniversário do evento?

— As implicações psicológicas não são tão simples assim.

— Tudo bem, não precisa me dar uma aula de psicologia. Eu e os meninos vamos, com ou sem você.

— Certo, eu vou, alguém precisa levar vocês para casa.

— Ótimo! — Roberto começou a andar em direção ao bloco dele. — Vamos fazer essa noite uma que ele não vai esquecer!

09:00

Mariana

Marcelo avisou que não passaria na ONG hoje. Depois de tudo o que aconteceu ele usou uma parte do dinheiro que ganhou com os filmes e livros para criar uma instituição destinada a combater bullying nas escolas, a ONG ficava localizada no antigo lugar da escola onde eles terminaram aquela história horrível, o prefeito transformou o local em um marco com uma placa contendo o nome de todos os que morreram nos ataques. Igor mandou uma mensagem falando sobre a reunião na casa do Marcelo para não deixar ele sozinho hoje, mandei mensagem para Giovana perguntando se ela conseguia aparecer lá. Até agora nenhuma resposta.

14:00

Marcelo

Meu estágio era em uma escola de ensino médio, um projeto para adolescentes terem conhecimento sobre os efeitos psicológicos que bullying pode trazer. Alguns alunos gritavam coisas para mim nos corredores, mas hoje ninguém falou nada. Acho que o medo de algo acontecer era maior. No horário de almoço podia sair da escola, mas preferia comer na sala dos professores que ficava no segundo andar, peguei meu celular e nenhuma mensagem importante havia chegado, quando ia guardar no bolso da calça a notificação do Instagram apareceu "Giovane mandou uma mensagem" parecia ser a conta dele, mas seria impossível porque ela foi desativada depois de tudo o que aconteceu.

"Quanto tempo se passou?"

Encarei a mensagem por alguns segundos.

"Quem é?"

Respondi.

"Giovane, quem mais seria?"

"Chega de brincadeira."

"Eu estou apenas começando."

Mandei as mensagens para o Detetive Kauan, observando melhor o perfil percebi que era alguém com o mesmo nome e foto, mas ainda era falso. Meu celular começou a tocar. Número desconhecido. Deixei cair na caixa postal, se ele ligasse novamente iria atender. Ninguém ligou.

14:07

Kauan

Marcelo mandou as informações da conversa com o suposto assassino, os responsáveis pelo TI rastrearam até uma cidade a quilômetros dali, não podia ser alguém perigoso, mas era alguém que havia se empenhado o bastante. Mandei mensagem para Marcelo avisando que não precisava se preocupar, eu estava preocupado. Acabei descobrindo que alguém perseguiu Mateus, um pode ser exceção, dois já começava um padrão. Nos quatro anos anteriores era no máximo uma pegadinha, as pessoas tinham a noção de não brincar com coisa onde pessoas morreram, pelo menos a maioria tinha.

18:19

Wesley

Estava no mercado comprando bebidas, Isadora, minha namorada havia confirmado que passaria por lá então peguei alguns salgados. Quando estava indo para o caixa meu celular vibrou com uma mensagem.

"Pronto?" Número desconhecido.

"Quem é?"

"Prontos ou não aí vou eu!"

"????"

Alguns segundos depois recebi uma mensagem avisando da falha ao entregar a mensagem anterior, como se o número não existisse mais. Achei estranho, mas ignorei e continuei a caminhar em direção ao caixa.

18:50

Roberto

Sabia onde Marcelo deixava a chave reserva, debaixo de um tijolo solto na entrada da casa, sempre achei estranho alguém com tantas neuras decidir morar em uma casa sem grades ou muro alto e ainda deixar o portão aberto, cada um com sua loucura. O estágio dele terminava às sete da noite e ele só chegaria em casa às oito. Coloquei as bebidas na geladeira, liguei a TV para passar o tempo, meu celular tocou com uma ligação. Número desconhecido.

— Alô?

— Alô. — Era uma voz estranha.

— Quem está falando? — Perguntei.

— Gostaria de falar com Roberto.

— Quem é? — Perguntei irritado.

— Um amigo, ou inimigo, você decide.

— Tudo bem.

Desliguei o celular.

20:09

Marcelo

Só queria minha cama, só queria que o relógio marcasse 00:01 para eu poder continuar minha vida, todos os dias eram ruins, estava sempre esperando um próximo assassino aparecer, mas no aniversário era pior, como se alguém falasse que te daria um soco em algum momento do dia, você sabe o intervalo de tempo preciso e só tem que esperar, no meu caso eu tinha o intervalo de tempo, mas nem a promessa de um soco eu tinha. Assim que cheguei no portão, vi a luz da sala acesa, sempre desligo antes de sair, tirei o pequeno canivete do meu bolso da frente e escondi na minha mão, atrás das costas, minha arma estava dentro do cofre na casa. Me aproximei com cuidado, abri a porta com força e todos que estavam ali se assustaram, deslizei o canivete no bolso traseiro.

— Marcelo! — Igor gritou. Os outros também gritaram.

— O que é isso? — Perguntei enquanto fechava a porta.

— Uma reunião de amigos, o que parece? — Ele me deu uma garrafa de cerveja, que tomei um gole generoso.

Queria sair dali, que todos fossem embora, mas não podia expulsar eles de casa, Mariana, Natália e até a amiga delas, Giovana estavam ali. Wesley estava com sua namorada, Isadora. Os meninos, Igor, Roberto, Luan e Rodrigo estavam conversando no canto. Pelo menos Detetive Kauan não estava ali. Nem Mateus. Nem Lucas. Nem Alecsandra. Cumprimentei todos e fui para o meu quarto me trocar. Deitei na cama, alguns segundos depois, Igor abriu a porta.

— Você sabe que a intenção disso foi para que não ficasse sozinho, certo?

— Desconfiei.

— Então vamos, vamos!

— Eu te odeio.

— Eu sei.

20:15

Luan

Igor estava alegrando Marcelo, eles tinham essa dinâmica. Conheci Marcelo primeiro, dois anos depois, ele era bem mais fechado. Com Igor ele parecia tolerar mais interações pessoais. Os dois saíram do quarto.

— Terminaram? — Perguntei.

— Ciúmes? — Igor respondeu.

— Sabe que sim.

— Como vai a faculdade? — Marcelo perguntou.

— Acabando com a minha vida, você?

— Contando os segundos para acabar.

— Esse é o espírito. — Levantei a garrafa de cerveja.

— Sim. — Marcelo se levantou, como se fosse uma criança que havia perdido o interesse em um brinquedo, ele fazia aquilo às vezes.

20:48

Rodrigo

Conversamos, rimos, a noite não foi um fracasso, Marcelo parecia bêbado o suficiente para dormir depois que todos fossem embora. O que era bom. Me preocupava com Marcelo, algo nele parecia estar prestes a quebrar a qualquer momento, nós secretamente tínhamos um esquema para vir visitá-lo e garantir que ele não ficasse tanto tempo sozinho em casa, Marcelo se excluía sempre que tinha uma chance. Falava que estava pesquisando sobre o TCC, mas era mentira, ou meia verdade.

20:49

Giovana

Trabalhava com no ateliê da Alecsandra, mas conhecia Mariana desde a escola, não acreditamos quando eu consegui um trabalho no ateliê e ela na ONG, dois dois cinco sobreviventes, o destino estava realmente nós ligando por algum motivo, Mariana estava no último ano da faculdade de serviços sociais e eu no último de moda. Marcelo pagava bem, ela estava guardando dinheiro para viajar quando terminasse a faculdade, conhecer Paris era o sonho dela, resolvi guardar dinheiro também. Por relação com os dois, acabamos entrando no círculo de amigos deles. Não era um muito grande, mas era interessante. Nenhum dos meninos tentou dar em cima de mim ou Mariana e eles eram de cursos tão diferentes, mas funcionam. Era divertido de assistir. E foi isso o que fiz durante a reunião, Marcelo e Mariana começaram a conversar sobre assuntos da ONG, ajudei os meninos a arrumarem os jogos e até conheci melhor Isadora.

21:00

Isadora

Estávamos no carro, voltando para casa, gostava de passar tempo com os meninos, a energia deles acabou carregando a minha por aproximação, com a faculdade, trabalho e pesquisa, só queria dormir.

— Tudo bem? — Wesley perguntou.

— Sim, cansada.

— Podemos dormir até tarde amanhã.

— Por isso que você é o namorado perfeito. — Encostei a cabeça no braço dele e ri.

21:00

Kauan

Fui convidado para a reunião, mas decidi não ir, não pessoalmente. Fiquei dentro do carro na esquina a noite toda, vigiando, caso algo ruim acontecesse. Nada aconteceu.

22:02

Lucas

Vi os amigos de Marcelo postando a reunião nas redes sociais, achei legal eles fazerem isso por ele no dia de hoje.

"Festa e não me convidou?" Mandei para Marcelo

"Eu nem sei onde você está, lembra? Como vou enviar o convite?"

"Ouch! Mas justo."

"Como vai o projeto secreto?"

"Secreto. Bem. Primeira adaptação em algum tempo que me deixa interessado."

"Vamos nos reunir segunda, provavelmente, pode aparecer?"

Sabia que ele estava falando dos cinco se reunirem, lamber as feridas metafórica e talvez literalmente. Era algo que a gente fazia todo ano para garantir que ninguém estava ficando doido.

"Claro."

"Vou dormir, bebi demais."

"Tchau."

22:05

Mateus

Acabamos dormindo o dia todo, depois pedimos comida e ficamos conversando, gostava da companhia de Alan, sóbrio ou não. Alan era o único que não citava o incidente, todas as reuniões dos alcoólicos anônimos alguém falava sobre isso. Muitas vezes Mateus levantava e ia embora, já fazia cinco anos, será que as pessoas não tinham outra coisa para se preocupar? Achei o resto de uma garrafa de vodka no armário. Coloquei um pouco no copo e virei de uma vez.

— Não vai compartilhar? — Alan perguntou entrando na cozinha.

— Fique a vontade. — Passei a garrafa para ele.

— Quando é a próxima reunião?

— Depois de amanhã.

— Tempo o suficiente.

— Não é minha primeira vez bêbado dias antes de uma reunião.

Alan não colocou um segundo copo, se sentou na cadeira com uma expressão pensativa.

— Qual o problema? — Perguntei.

— Você sabe que não ligo em falar sobre, mas não está preocupado com o cara da máscara?

— Para você pode ser estranho, mas aquela não foi minha primeira vez e também o aniversário é hoje, todo ano alguém faz esse tipo de coisa.

— Não sei, ele parecia tão sério.

— Se fosse sério, teria parado de nos seguir?

— Hmm, tem razão.

— Vamos mudar de assunto. — Ofereci a garrafa para ele.

22:07

Marcelo

Não iria dormir, estava feliz que todos foram embora, finalmente conseguira começar meu ritual diário, que envolvia verificar duas vezes se cada porta e janela estavam trancadas, olhar dentro de qualquer lugar grande o bastante para uma pessoa entrar ali. No quintal instalei uma luz parecida com de estádio que ascendia por sensor de movimento. Fui até o meu quarto, abri o cofre, a arma estava ali, suspirei aliviado. Coloquei o canivete no móvel ao lado da cama, peguei meu notebook e comecei a revisar planejamento para ONG. Quando estava ficando com sono meu celular tocou, era Detetive Kauan.

— Alô. — Falei.

— Tudo certo? — Seu tom de voz era sempre sério.

— O melhor que consigo hoje.

— Certo, qualquer coisa é só ligar.

— Eu sei.

Ele desligou.

Aproveitei que estava com o celular na mão e mandei mensagem para Mateus, não conversamos o dia todo.

"Tudo certo?"

Ele visualizou, mas não respondeu.

"Pode responder, por favor?"

Outra vez.

"Sério?"

Visualizado.

Coloquei o celular na cama e continuei trabalhando, algum tempo depois, Mateus mandou uma mensagem.

"Não morri ainda."

"Bom saber."

Ele não visualizou, encostei no travesseiro e acabei dormindo.