Vítimas Das Circunstâncias
5 Fazenda
Notas iniciais
05/02/2016
Sexta-feira
11:27
Marcelo
Um dia depois sem nenhuma ligação, perseguição ou morte quase me senti adulto normal. Até ter que ir ao enterro de um dos meus amigos mortos por minha causa, Felipe teve um velório só para a família e foi cremado. Não vou poder me despedir adequadamente dele nunca. O caixão era branco, Neto estava usando um terno preto e um cabelo com muito gel que ele nunca usaria na vida real, no fundo fiquei esperando ele levantar falando que estava tudo bem. Durante o velório todos olhavam para mim por ser o culpado disso, Bia e a mãe dela não pararam de chorar, todos os outros também estavam chorando, parecia que só depois da morte do Neto o sofrimento entre eles começou o que me deixou um pouco irritado pois passava a impressão que ninguém dava a mínima sobre a morte do Felipe.
— Como está indo? — Era Thainara que apareceu do nada.
— Eu que devia perguntar.
— Engraçadinho, mas estou falando sério.
— Ainda não tive um surto então diria que estou segurando as pontas.
— Ótimo, precisamos de você totalmente focado nisso.
— Prometo que vou acabar com isso antes que mais alguém morra.
Resolvi não ficar para o enterro, não ia conseguir lidar com toda a culpa que iria cair sobre mim então sai sem que ninguém notar, entrei no carro e fiquei parado no estacionamento. Não sabia para onde ir. Peguei meu celular e não tinha nenhuma mensagem, por um segundo pensei na possibilidade do assassino ter parado depois de ver como todos estavam tristes no velório, claro que ele estaria lá para assistir tudo de camarote, mas desconsiderei quando lembrei que ele ainda tinha Vinicius e Daniel. Dei partida no carro e sai já com um destino em mente.
12:37
Kauan
Os relatórios do legista eram muitos contraditórios, os trinta corpos foram mortos de várias maneiras e com espaço de dias, no caso do Felipe o braço dele foi quebrado provavelmente por sem empresado contra alguma coisa e o corte na garganta era limpo, quase profissional, Neto foi esfaqueado várias vezes, mas as facadas acertaram ossos o que indica inexperiência, em casos normais seria considerado dois assassinos, mas seja lá quem for é experto, talvez ele fez de propósito para nos despistar.
Desconhecido
Vinicius
Acordei assustado e bati a cabeça em alguma coisa. Estava escuro. Estendi minha mão para ter noção de espaço, mas elas mal passaram de um metro. Percebi que estava em uma caixa.
— Socorro! — Gritei.
— Vini? — Era o Daniel — Graças a Deus.
— Onde nós estamos, onde você está?
— Você está em uma caixa de madeira e eu estou amarrado em um dos pilares do barracão.
— Aquele que você costumava ir quando era menor?
— Não, parece um barracão de fazenda.
— Por que estou em uma caixa e você está aí fora?
— Você não vai gostar da resposta.
— Fala.
— Sua caixa está em uma esteira de um triturador de madeira.
— Merda! — Comecei a chutar a madeira.
12:55
Marcelo
Fui até a delegacia, mas o Detetive Kauan estava em horário e ninguém tinha ideia para onde tinha ido, antes de chegar na saída meu celular tocou. Número desconhecido.
— Alô.
— Vi que já saiu do seu período de luto. — A voz robótica dele estava um pouco diferente.
— Que bondade sua nos dar um tempo para chorar pelas pessoas que você matou.
— Qual seu plano?
— Espere e verá. Desliguei.
12:00
Lucas
Como não conhecia o cara que morreu decidi ficar em casa. A campainha tocou. Quando abri o portão um garoto e uma garota estavam parados com um sorriso quase assustador.
— Desculpa, não acredito em Deus, boa tarde. — Fechei o portão.
— Não somos testemunhas, estamos aqui para falar com o Marcelo na verdade. — Abri o portão novamente.
— Da faculdade, viemos trazer a matéria para ele devido aos acontecimentos ele não aparece lá faz um tempo.
— Ele não está aqui agora.
— Podemos esperar? — A garota perguntou parecendo um pouco animada demais.
— Claro...
13:10
Marcelo
Cheguei em casa e duas pessoas estavam sentadas na sala rindo de alguma coisa que Lucas falou.
— Oi...
— Finalmente chegou! — Lucas falou levantando do sofá — Esses são Fernanda e Mike, eles são da sua faculdade e vieram trazer a matéria que você perdeu.
— Olha, eu agradeço, mas não sei se vou voltar para a faculdade até tudo isso acabar.
— É uma pena. — Fernanda falou — Na verdade a gente não veio só pela matéria.
— Não?
— A gente como estudante de psicologia queria saber como sua cabeça está nesse momento com tudo isso acontecendo.
— Sinto que ela pode explodir a qualquer momento, isso responde sua pergunta?
— Não exatamente.
— Olha não tenho tempo agora, outro dia a gente marca pode ser?
— Claro, Lucas passou seu número para a gente.
— Ele fez o que? — Olhei na direção dele, mas ele já tinha perdido o interesse na conversa e estava olhando alguma coisa no celular.
— Domingo está bom para você?
— Se não morrer até lá domingo é o dia perfeito.
Depois de algum tempo consegui fazer os dois irem embora.
— O que estava pensando em dar meu número?
— Um assassino tem ele, não vejo em dar para dois estudantes.
— Bom ponto, mas isso não importa agora, temos que fazer uma armadilha.
— O que?
— Vamos descobrir quem é o assassino
— As pessoas na internet estão chamando ele de assassino de porcelana
— É um péssimo nome. O que importa agora é a nossa armadilha.
— O que vamos fazer?
— Já volto.
13:31
Lucas
Marcelo voltou com um caderno e uma caneta.
— Que merda é essa, só me falar o plano.
— Não posso, precisamos supor que ele está ouvindo a todo momento então vou escrever o plano e se ele descobrir vou saber que você está envolvido de algum jeito.
— Isso é ridículo.
— Se não quiser me ajudar tudo bem.
— Tanto faz, vamos fazer isso.
— Para o banheiro.
— O quê?
— É o único lugar sem nenhum aparelho eletrônico.
— Meu Deus, não vou precisar tirar a roupa para você ter certeza de que não estou usando uma escuta ou câmera escondida, certo?
— Prefiro não ter essa visão do inferno.
— Muito engraçado.
Fomos até o banheiro e ele me obrigou a deixar o celular na sala, trancou a porta e ligou o chuveiro.
— Serio?
— Cala a boca.
Ele começou a escrever e depois de um tempo me entregou o caderno e comecei a ler.
— Isso vai demorar sé for só nós dois e acho que não temos todo esse tempo.
— Por isso vou incluir o Detetive.
— Mesmo que não seja um plano ótimo pelo menos é um plano.
— Esse é o espirito.
Ele arrancou a folha, rasgou, jogou na privada e deu a descarga.
14:37
Ana
Não conseguia parar de pensar no meu irmão, pensando que ele estava morto em alguma vala ou sendo torturado, peguei meu celular e liguei para o numero dele pela milionésima vez. Começou a chamar e ele atendeu.
— Alô, Dani? — Estava tão aliviada que podia chorar.
— Passou perto. — Era a mesma voz que falou comigo pela porta. — O celular quase caiu da minha mão
— O que fez com meu irmão?
— Até agora nada, mas estou muito triste que você escapou naquele dia, talvez desconte nele.
— Não! Por favor não faça nada com ele.
— Tudo bem, vamos jogar fazer um acordo.
— Que tipo de acordo?
— Como todo mundo sabe estou com seu irmão e o Vinicius. É muito simples se você quiser seu irmão é só falar, mas em troca eu com certeza vou matar o pobre Vini, agora se não quiser ser a culpada pela morte dele eu falo onde encontrar os dois você fala para o querido Marcelo aí vamos descobrir se algum dos dois sobreviveu quando chegarem
— Eu quero meu irmão, não me importa o que acontece com o Vinicius.
— Nem pensou duas vezes. — Ele riu. — Gostei.
— Então, cadê ele?
— Calma, vou mandar uma mensagem com as instruções para você. Esteja sozinha na hora.
Ele desligou.
19:03
Kauan
Marcelo me ligou falando que tinha bolado um plano para acabar com isso e que precisava ir até a casa dele porque era o único lugar seguro, como não tinha um carro na cidade ainda estava usando uma das viaturas, quando estava a quatro quarteirões da casa dele meu celular vibrou e era mensagem de um numero desconhecido a mensagem era um áudio e em baixo estava escrito “Ainda acha que sou o pior? ” Dei play no áudio e era Ana falando “Eu quero meu irmão, não me importa o que acontece com o Vinicius” Liguei a sirene e acelerei o carro. Cheguei na casa dela e não tinha ninguém lá, corri até a casa do Marcelo.
— Já vai — Lucas gritou.
— Ana está aí? — Perguntei
— Não, Detetive é você? — Ele abriu o portão
— Acho que armaram uma armadilha para ela
— Como assim? — Marcelo perguntou saindo da casa — Coloquei o áudio para eles escutarem.
— Temos que achar ela — Marcelo estava desesperado.
— Como, gênio?
Meu celular tocou.
— É ele? — Marcelo perguntou.
— Sim, é uma localização.
— Vamos.
Desconhecido
Vinicius
Não consegui quebrar a caixa só consegui que meus pés doessem assim como minhas mãos.
— Daniel? — Sem resposta, será que o assassino veio e levou ele? Ou pior, matou?
Alguém bate na minha caixa do lado de fora e escuto a máquina ligando.
19:11
Lucas
Entramos no carro, acabei ficando no banco de trás onde normalmente os bandidos ficam, tentei reclamar e eles ignoraram.
— Marcelo eu sei que não deveria perguntar isso agora.
— Então não pergunte.
— Mas vou perguntar assim mesmo. Qual sua história com a Ana?
— A vida dela está em risco e você quer saber isso?
— Seja lá quem for que está fazendo isso tem alguma coisa relacionada com seu passado, talvez se a gente souber o seu passado com todos os envolvidos descobrimos quem é.
— Ele está certo. — Kauan falou.
— Viu?
— Tudo bem. Quatro anos atrás no ano da nossa formatura eu e ela estávamos em um tipo de relacionamento, não era nada sério como namoro. Na festa acabei bebendo algumas a mais e comecei a dançar com outra garota sem nenhuma outra intenção, ela viu, chamou a mãe para buscar ela já que o Daniel também estava bêbado e como era um local onde tinha vários salões de eventos também tinha alguns motoristas bêbados e um deles bateu no carro a mãe dela.
— Como você estar ou não em um carro é motivo para ela ficar brava?
— A mãe dela morreu, o motorista fugiu, se alguém tivesse ligado para a ambulância talvez ela tivesse sobrevivido. E eu era o único que tinha levado o celular, os dois estavam com medo de serem roubados na festa, Ana ficou gritando por vários minutos até alguém chegar.
— Desculpa, eu não sabia.
— Isso é passado agora, já chegamos?
16:30
Ana
A mensagem chegou, era a localização de uma fazenda que ficava na beira da estrada, todo mundo falava que o dono morreu e como não tinha herdeiros rapidamente usuários de drogas tomaram conta do lugar, sai dirigindo bem acima da velocidade permitida dentro da cidade e logo estava na estrada, meu celular vibrou. “ Quando chegar na estrada que leva até a fazenda pare no meio do caminho e espere mais instruções. ”
16:40
Parei no meio do caminho e esperei.
19:19
Já estava desesperada achando que tudo era uma brincadeira de mal gosto e que meu irmão estava morto. Meu celular tocou, era o número do Daniel.
— Alô!
— Pronta para encontrar ele?
— Sim.
— Saia do carro.
— Pronto.
— O que é isso?
— O quê?
— Lá na estrada. — Me virei e vi as luzes de uma sirene vindo na minha direção. — Eu não disse para você vir sozinha?
— Eu vim, eles não estão comigo!
— Ah, é. Eu chamei eles, agora vou ter que matar o pobre gêmeo.
— Desgraçado, não cumpriu o acordo.
— Claro que cumpri, eu disse esteja sozinha, não tinha nada falando sobre convidar outras pessoas. Agora a questão: vai correr para a fazenda e ter a chance de salvar seu irmão, mas parecer que está fugindo da polícia ou vai explicar tudo e deixar seu irmão morrer?
Sai correndo na direção da fazenda.
19:21
Marcelo
Enquanto descíamos a estrada de acesso da fazendo vi o carro da Ana e ela parada do lado gritando no telefone.
— Ali! — Apontei. — Ela saiu correndo na direção da fazenda.
— Que merda ela está fazendo? — Lucas perguntou.
— Acelera!
— Não adianta, a estrada só cabe um carro, vamos ter que descer e correr o resto do caminho. — Detetive Kauan falou.
Descemos correndo atrás dela
19:22
Alguém observa os quatro correndo para a Fazenda.
19:24
Ana
Corro até a casa e entro sem pensar que posso dar de cara com o assassino, não consigo pensar em nada.
— Daniel! — Olho em todos os quartos, escuto passos atrás de mim, me viro é o Marcelo, Detetive e o outro amigo que não lembro o nome.
— Achou ele? — Marcelo pergunta.
— Parece que eu achei ele?
— Estão escutando isso? — O amigo fala.
— O quê? — Tento escutar.
— Parece o som de algum tipo de máquina.
— Ele tem razão. — Marcelo falou.
— Está vindo lá de fora.
Nós corremos até lá.
— Tem um barracão ali em baixo.
— Vamos!
Se não fosse barulho da máquina ninguém ia saber da existência daquele barracão, estava completamente escuro.
— Cadê a porta? — Perguntei.
— Aqui! — Detetive gritou.
Quando conseguimos abrir a porta duas luzes ascenderam iluminando muito mal o interior, tinha várias telhas que acabaram caindo e no meio uma máquina grande com um tipo de caixa em uma de uma esteira que estava indo lentamente na direção da abertura.
— É um triturador de madeira! — O amigo do Marcelo gritou.
— Acho que tem alguém naquela caixa. — Nós corremos e tentamos puxar, mas ela parecia colada na esteira.
— Tem alguém aí?
— Ana? — Era o Vinicius.
— Vini! O Daniel está aí com você?
— Não, ele estava aí fora.
— Vamos conversar depois, temos que tirar ele dessa caixa. — Marcelo tentava abrir a caixa por cima.
— Está pregada eu acho.
— Procurem alguma coisa para quebrar isso. — Detetive falou. — Cada um correu para um canto procurando qualquer coisa.
— Achei. — Marcelo segurava uma coisa que parecia um pedaço de facão.
— Não tem cabo, é mais provável você pegar um tétano que quebrar aquilo. — Falei.
— Eu tenho uma ideia. — Ele tirou a camisa, enrolou na mão e segurou o pedaço do facão.
— Vini, quando eu quebrar aqui você precisa chutar o mais forte que conseguir.
— Ok.
Ele começou a bater, mas parecia que nem uma lasca da madeira saia, só conseguia olhar a distância da caixa até o triturador que diminuía a cada segundo.
— Rápido!
— Estou tentando, Lucas!
— É uma máquina. — Falei mais para mim que para eles.
— Não precisamos de observações obvias. — Lucas falou.
— Tem um botão de desligar!
— Isso! — Lucas saiu correndo para a parte de trás. — Consegue ver alguma coisa?
— Não, a luz mal chega aqui.
— Rápido! — Detetive gritou.
— A caixa já chegou no triturador, Vini vem para o nosso lado de se conseguir! — Marcelo gritou enquanto batia desesperadamente.
— Achei! — Lucas falou. — Corri até ele, mesmo não sendo muito nova o painel tinha vários botões e o que cada um fazia não dava para ler.
— Rápido! — Marcelo gritou.
— E agora? — Lucas perguntou.
Peguei uma das telhas e jóquei no painel, voaram faíscas, a máquina fez um barulho alto e parou. Todos suspiramos aliviados. Desligada a esteira fez o caminho inverso sem problemas e graças ao triturador, Vinicius conseguiu sair sem problemas.
— Nenhum sinal dele? — Vinicius perguntou.
— Não, ele estava mesmo aqui?
— Sim, ele ainda disse que estava amarrado na...
— O quê?
— Daniel falou que estava amarrado em um pilar, mas não tem nenhum pilar aqui.
— Tem certeza que ouviu pilar? — Marcelo perguntou.
— Tenho, isso significa que ele está envolvido?
— Provavelmente. — Detetive respondeu.
Depois de procurarmos em volta do barracão só para ter certeza de que Daniel não estava caído inconsciente ou amordaçado ali por perto voltamos subimos a pequena estrada.
— Estão sentindo esse cheiro? — Perguntei
— Si— Antes que Vinicius terminar ouvimos um barulho e meu carro explodiu e a viatura que estava perto também, estávamos longe e nenhum pedaço acertou a gente, mas foi o suficiente para fazer nossos ouvidos zumbirem e ficarmos desnorteados, senti alguém tocar no meu braço, era o Lucas falando alguma coisa, mas não consegui entender.
20:44
Kauan
Os dois carros explodiram, o primeiro provavelmente uma bomba e o meu pela proximidade, ficamos todos desnorteados e eu sabia que esse era o movimento do assassino, talvez ele fosse matar nós quatro agora ou pelo menos um, mas não podia deixar isso acontecer, falei para Marcelo que precisávamos voltar para a casa, ele e Vinicius levantaram, Lucas ainda tentava levantar Ana.
— Rápido!
Estamos abertos ali, ele poderia atacar a qualquer momento e ninguém conseguiria impedi-lo sem antes ele matar um de nós, talvez ele está na casa esperando a gente, mas lutar em um ambiente controlado é melhor que ficar aqui fora, entrei primeiro para ver se estava seguro e pelo menos a sala estava, colocamos um sofá velho atrás da porta e na outra que dava para um corredor colocamos uma cadeira.
— Todos estão bem?
— Sim — Eles responderam em uníssono.
— Preciso de um celular, deixei o meu no carro.
— Aqui. — Lucas me deu o dele.
— Alô, é o Detetive Kauan, preciso que você veja a última localização da viatura que estava usando e mande reforços o mais rápido possível, ótimo.
Não gostava da sensação de ter caído direto na armadilha desse maldito, e não gostava nada da ideia de ficar muito tempo nessa casa.
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