Vítimas
3 Capítulo 2
Notas iniciais
É a décima primeira vez que vou à biblioteca essa semana. A bibliotecária está até mesmo familiarizada comigo, já. Embora toda vez ela estranhe o fato de que eu saio sem nenhum livro em mãos, toda vez. Mas eu sempre fico lá até no máximo 5h30, para dar tempo de voltar para casa antes das 6h.
Eu sempre gostei de ler. Minha mãe lia para mim quando eu era bem pequena. Depois eu mesma comecei a ler meus livros.
Mamãe era Professora de Geografia do último ano do ensino médio. Adorava dar aula para os alunos, e eles a adoravam. Uma professora simpática e inteligente. Organizada. Bem eficiente.
Foi um ano antes que ela publicou seu primeiro e último livro. Fala sobre geopolítica. Eu não gosto muito, mas, como são palavras dela, gosto de ler. Às vezes imagino sua voz lendo-me as palavras.
Sinto saudades.
Também procuro por alguma mensagem entre as linhas do livro. Por isso leio, releio e repito o processo inúmeras e inúmeras vezes, para ver se deixei algum detalhe passar. Mas eu nunca achei nada. Nada.
Viro a página. Suspiro. Fecho o livro. Abro-o de novo e olho para a orelha. Lá está minha mãe. Jovem, sorridente. Abaixo da foto: Karen June Miller vive hoje com marido e filha e é Professora de Geografia. Este é seu primeiro livro e pretende escrever mais. Pobre mamãe.
Ela ainda estava desenvolvendo o segundo livro quando aconteceu. Tinha acabado de sair do trabalho para ir ao supermercado. Havia ligado para o meu pai e perguntou do que ele precisava para preparar o jantar do dia. Ele ia preparar um típico churrasco grego e, de sobremesa, cupcakes de veludo vermelho. Nesse dia, ele acabou servindo apenas pão e suco de laranja.
Não gosto de me lembrar do que aconteceu. Balanço a cabeça, querendo enxotar as memórias ruins. Levo o livro até a prateleira e procuro por algum outro título que me interesse. Os Dois Mundos de Charlie, não. Yakisoba e Outras Receitas Japonesas, também não. Contagem Regressiva? Talvez. Entretanto, não o pego.
Ando pelas prateleiras sem nenhum destino em mente, lendo os títulos de livros e seus autores. Albert Grey, Minhas Vidas Passadas. Abigail Clockhill, O Segredo. Bailey Murray-Durham, O Que Seu Sapato Diz Sobre Você!. Bufo. Nenhum me interessa em particular. Nomes normais. Pessoas normais. Vidas normais.
– Atenção clientes – fala uma voz feminina, robótica, despertando-me de meu devaneio. De onde ela vem? Deve ser dos autofalantes. Ouço com atenção. – A Biblioteca Municipal encerra as atividades em trinta minutos, então, se querem levar algum livro para casa, é melhor se dirigir ao caixa o quanto antes! Obrigada por vir.
Espere aí. Ela disse que fecham em trinta minutos? Que horas são? Me perdi tanto em pensamentos que perdi a noção do tempo. Olho para meu pulso. O relógio indica 6h em ponto. “Seis horas?”, penso. O tempo passou tão rápido. Estou atrasada demais. Preciso voltar para casa. Agora. Antes que seja tarde.
Saio correndo, sem nem me despedir da bibliotecária. Metrô? Ônibus? Pé? Qual o modo mais rápido? Escolho o metrô. Só espero chegar lá antes do alarme soar pela cidade.
Antes dos Controladores começarem a caçar os civis.
Chego na estação da minha rua. Estou tremendo de nervosismo e ansiedade. Adrenalina corre por minhas veias, aumentando a ansiedade. Dirijo meu olhar mais uma vez para o relógio, que indica 6h57. Três minutos. Tenho três minutos para chegar em casa antes que seja tarde.
Corro como nunca corri antes.
Não há mais ninguém por aqui. Só uma vez ou outra eu vejo alguém correndo para chegar em casa assim como eu. E então eu avisto meu prédio. Horário: 6h59. Um minuto ou menos para estar em casa. Forço-me para correr mais rápido.
Ouço o alarme segundos antes de atravessar o portão. Estou a salvo. Sento-me no chão com uma mistura de alívio e exaustão. E então ouço um grito não de muito longe. Fico em pé em um salto e olho pelo vidro que rodeia o prédio. Um menino de no máximo oito anos corre desesperadamente em minha direção. Não, em direção ao prédio.
O menino é Owen Willis, do nono andar. Eu o conheço. O que faz na rua tão tarde?
Exclamo de surpresa quando vejo uma sombra surgir de um beco atrás de Owen. Um Controlador. Arregalo os olhos diante da cena.
– Corra! – grito. – Corra, Owen, corra!
Ele nem me dá ouvidos, só continua, o mais rápido que pode. Quando está próximo ao prédio, abro o portão. Ao chegar perto, agarro seu braço e o puxo com o máximo de força que sou capaz. Logo, ele está dentro. Fecho o portão rapidamente.
Observo quando o Controlador passa por nós, agora trotando ao invés de correndo. Ele nos encara por longos e excruciantes segundos e vai embora.
Volto-me para Owen, agora deitado no chão, arfando. Não o conheço tão bem, só o vejo às vezes ao subir ou descer no elevador. Ele é meio tímido, mas depois ele começa a conversar e ficar amigável.
Dez minutos se passam e não dizemos nada um para o outro. De repente, Owen começa a chorar. Logo me adianto para confortá-lo com um abraço, fazendo carinho no topo de sua cabeça.
– Meu… meu pai… – ele gagueja. – Ele se sacrificou por mim. Me deixou ir na frente e distraiu um grupo de Controladores. Ele disse para eu não olhar para trás. Mas… eu olhei, Sky. Eu olhei. E vi ele sendo apanhado pelos caras.
Agora Owen olhava para mim. Eu só conseguia sentir pena dele. Eu conhecia o Sr. Willis. Um homem gentil. Trabalhava junto com meu pai no restaurante. Ver o pai virar uma Vítima era demais para uma criança.
Isso me fez lembrar de minha própria mãe. Quantos anos eu tinha, uns nove? Quase a idade de Owen. Uma sensação de simpatia imediatamente invadiu meu peito. Segurei-me para não me juntar a ele no choro.
– Vamos, Owen – disse. – Vamos para casa, está bem?
Ele não falou uma palavra, apenas assentiu com a cabeça. Então me levantei do chão e o levei junto. Subimos no elevador. Desci com ele no nono andar. Vi sua mãe chorar e abraçar o filho. Vi ela chorar ainda mais quando soube do marido. Ela me agradeceu e eu fui embora. Olhar para aquilo era simplesmente triste demais.
Respirei fundo para criar coragem antes de apertar a campainha de minha casa. Meu pai nem esperou um segundo sequer para abrir a porta e me abraçar com força. Ele soluçava. Eu senti suas lágrimas no meu ombro.
– Eu estou aqui, pai – disse eu, tentando tranquiliza-lo. – Acalme-se. Está tudo bem.
Papai se afastou de mim e segurou meus ombros com força. Ele olhou bem dentro de meus olhos.
– Eu sei – ele disse. – Eu só acho que não aguentaria te perder também. Primeiro a mamãe, depois você… Eu não aguentaria.
Assenti. Eu e minha mãe éramos o amor da minha vida do meu pai. Ele nunca conseguiria viver em um mundo sem nós duas. Já era difícil sem uma, agora, sem as duas…
Depois papai pediu uma explicação, como um pai preocupado pediria. Eu expliquei de todos os detalhes, desde a biblioteca até Owen. Ele se sentiu orgulhoso de mim. Também disse que ligaria para a Sra. Willis amanhã.
Esse foi um deslize e tanto da minha parte. Devo prestar mais atenção ao relógio de agora em diante. Não quero acabar como mamãe. Ela serviu de exemplo para nossa família e nossos vizinhos.
Fale com o autor