Véspera de Natal
1 Único
Notas iniciais
Boa Leitura
24 de Dezembro de 2004, véspera de natal.
- Oi! – A menina sentava no terceiro banco da fileira D1 do avião.
O menino que estava no segundo banco da mesma fileira olhou para o primeiro banco e percebeu sua mãe se ajeitando.
- É comigo? – O menino ajeitou os óculos e reparou na menina.
Ela tinha cabelos roxos, estava usando um cachecol, uma regata colada ao corpo e um jeans. O menino teve a coragem de olhar para ela, enquanto esperava uma resposta.
- É sim. – A menina olhou um pouco confusa para ele e se sentou.
- Oi! – O menino disse olhando fixamente para o banco da frente, que tinha um papel colado falando sobre as positividades de pegar aquele avião e os benefícios que trazem tal empresa.
- Oi! – A mãe do garoto, que estava no primeiro banco cumprimentou a menina – Eu pensava que ninguém iria sentar mais aí. Até achei estranho. Meu nome é Valeria. Esse é meu filho, Ryan.
- Ah... Eu dei umas palavrinhas com Ryan. – A menina brincou fazendo Ryan ficar um pouco corado – Meu nome é Hikari.
- E você veio sozinha? – Valeria perguntou, notando que Hikari parecia estar só.
- Não, não. É que a gente comprou as passagens na hora. Meu pai e minha mãe estão nos bancos de trás. Tinha três passagens. Duas passagens eram na mesma fileira e uma era em outra. Deixei eles ficarem na mesma fileira e quis ficar nessa. – Hikari olhou para Ryan que ainda olhava fixamente para frente, sem ter coragem de olhar para ela.
- Entendo. Bom, a viagem vai ser um pouquinho longa e vou dar uma dormidinha. – Valeria deu uma risada baixa e Hikari se sentiu na obrigação de rir junto também – Enquanto eu durmo, você e o Ryan podem conversar. Vocês podem ser amigos.
- Sim! Vai ser bem legal dar umas “palavrinhas” com ele de novo. – Hikari riu, na mesma hora que Ryan olhou para a mãe com uma cara que tinha desprezado a ideia.
Valeria virou para o lado. Ryan tomou um pouco de coragem e virou rapidamente para o lado e viu que Hikari estava olhando para ele. Ryan virou a cabeça para frente novamente.
- Por que você está agindo assim? Você tem algum problema comigo? – Hikari estranhou.
Ryan ficou constrangido e voltou a olhar para Hikari – Na... Não é isso! É que... – Ryan deu uma pausa – “O que você está fazendo, Ryan? Ela está certa! O que há de errado comigo? Vamos, Ryan! Enfrente esse medo que você tem! Converse logo com ela e não seja idiota! Ai! Idiota! Será que vou parecer idiota para ela?”
- “É que” o que? – Hikari perguntou vendo que Ryan estava suando um pouco.
- É que... Olha, me desculpe se estou te tratando assim. É que eu não sou aquele cara que fala com todos. Eu sou muito fechadão, muito tímido. Não queria sentir isso, mas não consigo evitar. – Ryan olhou para Hikari que estava com um ar de deboche no que ele falou.
- Há, há, há! – Hikari começou a rir.
- Viu? É por isso que sou tímido. As pessoas ficam rindo do que eu falo e penso.
- Desculpe! É que você foi hilário. O jeito como você tentou encontrar palavras para me dar uma explicação. Me desculpe mesmo, por favor? – Hikari colocou sua mão no ombro de Ryan que ficou corado e quase teve um ataque.
Ryan engoliu a seco e tentou achar coragem para continuar a conversa.
- Ok, então. Eu te desculpo. Só que eu estou me sentindo um idiota.
- “Idiota”? Eu te achei tão fofo quando você ficou pensando em que palavras iriam usar. – Hikari encostou seu corpo para mais perto de Ryan e colocou sua cabeça em seu ombro, fazendo com que o menino de óculos ficasse cada vez mais cabulado com a aproximação.
- E então, Ryan? O que você faz em um avião na véspera de Natal? – Hikari olhou para cima do ombro de Ryan, conseguindo ver seu pescoço por completo.
- A mesma coisa que você: viajando. – Ryan se sentiu um pouco feliz pela frase que acabará de dizer.
- Não seja grosso comigo, Ryan. É sério! Eu quero saber.
Ryan ficou observado à animação de Hikari.
“Como alguém pode ser tão animada assim? Aposto que ela sempre está de bem com a vida.“ É que os parentes da minha mãe vivem em Rio Grande do Sul, e ela falou se eu queria ir ou ficar com meu pai. Então eu preferi vir junto. Até por que, além de rever todo mundo, eu ainda posso andar pela primeira vez de avião.
- É sua primeira vez, também? Interessante.
Ryan ficou um pouco surpreso com o uso da palavra “interessante”.
- E você? Vai pra onde? Até por que, como eu, você também está em um avião na véspera de natal.
— Meu avô, pai do meu pai, está doente e eles resolveram visitar ele. Francamente, eu não estava muito a fim de vir, mas eu fui obrigada. Preferia estar na casa de praia junto com as minhas amigas. – Hikari olhou para o teto enquanto continuava – Pelo menos eu tenho você. Peguei a fileira onde só restava uma poltrona na esperança de ter alguém para conversar. Você caiu que nem uma luva.
- Perfeito! Me sinto tão útil! – Ryan ironizou – Mas então, por que “Hikari”?
- Como assim? – Hikari foi para trás.
- Tipo... “Hikari”. Esse nome é tão diferente.
- Ah... Todos comentam isso. – Ela deu um sorriso – É que eu nasci no Japão, então meus pais resolveram me dar um nome natural de lá. Hikari significa iluminada.
- Então temos uma japonesa a bordo do... avião?
- Na teoria seria, mas tecnicamente, eu sou brasileira. – Hikari voltou novamente para o ombro de Ryan.
Ryan olhou no relógio e notou que faltavam 5 horas e alguma coisa para terminar a viagem.
- Que um pouco de salgadinho? – Ryan retirou um pacote da mochila e ofereceu para ela.
- Claro!
Ryan e Hikari ficaram conversando por alguns minutos, até que a menina dormiu.
“Caramba! Estou me sentindo tão bem.” – Ryan analisou seu corpo inteiro – “Poxa! Ela é tão linda e... Uau!”
Ryan olhou pela janela e percebeu que o céu ficou negro e com alguns detalhes amarelos.
- O que é isso? – Um cara que estava em outra poltrona perguntou para a aeromoça.
- Estamos em uma área de turbulência. – Repetiu a mesma frase em inglês.
As máscaras de oxigênio caem e todos colocam, enquanto Ryan foi acordar Hikari e Valeria.
- Hikari! Acorda! Mãe! Acordem!
- Que foi? – Hikari acordou já olhando para a janela.
Hikari e Valeria botaram suas máscaras. A velocidade do avião começou a aumentar. Algo negro, parecido com um lençol, envolveu todo o avião, cobrindo as janelas e tirando a visão dos pilotos.
Aquele lençol foi envolvendo cada vez mais e começou a espremer o avião, fazendo com que algumas janelas quebrassem e que algumas partes do avião se abrissem.
- Meu Deus! A gente vai morrer! – Gritou uma mulher desesperada.
Alguns tentaram se levantar mais foram barrados pelas aeromoças que tentavam acalmar os viajantes.
- Por favor, senhores. Todos devem ficar sentados. — Dizia uma aeromoça, repetindo a frase novamente em inglês.
- Desse jeito iremos cair! – Ryan avisou Hikari.
- Eu não quero morrer, Ryan.
- Eu também não, Hikari. Eu também não.
Um raio amarelado passou pelo avião e o dividiu pela metade. Uma metade é deixada para trás, enquanto a parte da frente, onde estavam Ryan, Hikari e Valeria ainda seguia em uma velocidade incrível.
Ryan notou que aquele lençol negro que ainda estava na parte de fora do avião, entrou e foi direto nele. Ryan tentou tirar aquilo, mas foi em vão. O lençol o envolveu e foi para Hikari, que sem ter lugar para fugir foi envolvida também.
3 segundos depois de envolver Ryan e Hikari por inteiro e uma parte do chão, a metade da frente do avião bateu contra uma árvore que o dividiu em outras cinco partes menores que se chocaram com outras árvores, assim fazendo voar alguns destroços contra o ar.
Um dos cinco pedaços que se chocaram contra as árvores, explodiu, fazendo com que uma bola negra fosse jogada ao chão com tudo.
A bola começou a se mexer e se abriu depois de algum tempo. O que saiu, foi Ryan com uma gosma que estava em todo seu corpo. Ele olhou para os lados rapidamente e reparou que havia destroços e várias partes de corpos mutilados em todos os cantos.
- Que diabos foi isso? Como eu consegui sobreviver? – Ryan falava consigo mesmo, enquanto tentava ignorar os pedaços de corpos e tentava achar alguém vivo.
Ele conseguiu achar um homem de mais ou menos uns 40 anos. Ryan o ajudou a sair de alguns destroços e eles, juntos, foram procurando por outras pessoas.
Enquanto tentavam achar algum sobrevivente, Ryan percebeu que uma luz imensa vinha na direção deles. A luz os cegou rapidamente e se apagou. Um cheiro forte começou a perambular pelo ar.
- Como é seu nome mesmo? – Ryan o perguntou.
- Valdir.
- Valdir, continua procurando aí. Eu vou ver o que aconteceu por lá, ok?
- Ok, eu acho.
Ryan tentou achar o local certo onde aquela luz foi solta e conseguiu localizar uma enorme cratera no chão com grandes rastros de sangues e com algumas malas jogadas pelas árvores e roupas em volta dela.
Ele chegou mais perto e quando foi ver o que tinha nela, uma luz surgiu em direção a Ryan que, por impulso, botou as mãos na frente do rosto, fazendo com que a luz batesse em suas mãos e rebatesse em uma árvore. O impacto não levou nenhum dano nas mãos de Ryan.
- Caramba! O que foi isso? – Observou a árvore pegando fogo.
O menino de óculos tentou chegar mais perto da cratera novamente e viu que Hikari estava lá embaixo com a mesma gosma envolta dela.
Ryan desceu a cratera e foi ao encontro de Hikari. Notou que na explosão Hikari teve sua regata toda rasgada. Ele tirou sua camisa azul claro e colocou nela e na sequência tentou acordá-la mais foi em vão.
- Está desmaiada. – Ryan olhou para cima e o céu começou a voltar ao normal – “Minhas mãos nem queimaram e deve ter sido a Hikari que soltou essa luz. Será que foi por causa daquela coisa preta que parecia um lençol?” – Nessa hora, Hikari abriu os olhos e notou que estava com a camisa de Ryan.
Hikari tentou falar alguma coisa, mas de sua boca só surgiam gemidos. Hikari se assustou e colocou sua mão na boca, descobrindo assim, que sua língua não estava mais no lugar onde deveria.
Hikari apontou para dentro da boca para Ryan e esse foi ver.
- Sua língua foi cortada! – Ryan tirou um pano do bolso e colocou sobre a boca dela – Está saindo sangue. Tem como você segurar?
Hikari fez um sinal positivo, ainda assustada.
Ryan se levantou e queria procurar se tinha mais algum sobrevivente. Estava muito preocupado com sua mãe. Ao dar um passo, Hikari começou a chorar e deu um gemido alto, fazendo Ryan olhar pra ela.
Ele olhou pra Hikari que parecia estar querendo dizer: “Estou assustada! Não me deixe sozinha!”. Ryan a olhou e notou que a enxerga bem. Colocou sua mão em volta dos olhos e percebeu que não tinha nenhum óculos. Ele ignorou esse detalhe a abraçou Hikari. Ela fez um gemido, que Ryan deduziu sendo como se ela tivesse mais confortável com ele perto.
Sem camisa, Ryan sentiu que Hikari a abraçava sorte, sentindo que ela quase o arranhava com suas unhas. Ele olhou pra ela e ela ainda parecia bem assustada. Ele voltou a olhar em sua volta.
“O que será que foi isso tudo?” – Pensou, apertando mais o abraço, tendo a sensação que sua vida iria mudar.
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