Minha vida mudou completamente assim que a conheci. Eu era apenas uma criança, não sabia o que era o amor... talvez alguém devesse contar isso para as crianças, para desde cedo se prepararem para o que está por vir. Amor... traz a todos inacreditável dor, porém inegável conforto. Que sentimento complexo...

Me lembro exatamente daquele dia. Minha mãe havia me vestido bem, pois disseram que uma família de estrondo reconhecimento havia de visitar nossa humilde loja. Não conseguia me controlar, estava ansioso para saber quem eram tais seres tão louvados. Sentei-me nos fundos junto aos tecidos empoeirados onde costumava ficar na hora do trabalho.

Quando ouvi batidas na porta da frente. Minha mãe correu para atender, enquanto eu corria e me espremia atrás do balcão. Entraram uma mulher de estatura média, tinha os cabelos negros e escondia maior parte do corpo em um vestido, atrás dela, possivelmente, uma criada que trazia consigo duas garotas iguaizinhas, a tirar por um ter uma franjinha.

—Muito bom dia, senhora Nowak. -disse a mulher fazendo um simples e quase imperceptível gesto.

—Madame De Gaulle...

—Minha encomenda está pronta?

—Ah, sim! Sim, sim... -disse minha mãe correndo para trás do balcão e retirando um imenso vestido de festas bordado no mais fino tecido. Um dos vestidos mais caros da loja -Perdoe-me por isso, mas foi uma grande satisfação para nossa família oferecer esse... Menino! Saia daqui!

Eu havia me prendido na barra da saia da minha mãe para me aproximar daqueles seres "brilhantes". Sem que me notassem, falhando descaradamente.

—E quem é você, garoto? -disse a mulher olhando para mim.

—Ah, madame... perdoe-me não vos apresentar. Esse é meu filho Cassiano.

—Adorável!

—Muito obrigada.

A mulher se virou para sua criada pegando as duas garotinhas e trazendo para perto de mim, fazendo eu me encolher mais ainda no tecido da saia.

—Essas são minhas filhas Carlota e Catarina De Gaulle.

A primeira parecia não querer estar naquela situação tanto quanto eu, mas a segunda já estava avançado fazendo gestos delicados e me enchendo de perguntas.

—Sinto muito, senhorita De Gaulle, meu filho é muito tímido. Nem ao menos tem amigos... -disse minha mãe para a segunda que se chamava Catarina.

Mas a garota parecia determinada a me fazer falar. Quando eu estava quase me enterrando em todo o tecido, minha mãe me forçou a voltar para trás do balcão. Uma ideia acertou me jeito e corri para os fundos da loja, onde havia um pequeno jardim. Arranquei uma dúzia de flores azuis do canteiro e carreguei de volta para dentro.

As De Gaulle parecia estar se arrumar para partir. Antes que pudessem partir puxei de leve a roupa da criada que me olhou surpresa, perguntando se haviam esquecido de algo.

—Não... é que... eu queria... dar essa flores... para... a...

—Oi, menino! -disse Catarina se virando para mim. Em um movimento rápido estiquei a flores para frente. Quando abri os olhos, apenas pude ver o brilho nos seus olhos.

Ela sorriu para mim e subiu na carruagem. A porta se fechou e ouvi as rédeas levando embora meu primeiro amor.

E foi assim que aconteceu, foi assim que tudo começou com flores. Mesmo todo o sofrimento que isso me causou, não posso dizer que não faria de novo. Não deixaria de conhecer esse ser maravilhoso mesmo sabendo que teria que sofrer. Tudo pelo meu grande amor...

Catarina...