Vossa majestade
6 Fuga vocal
Eu não era a única que passava por essa situação. Um lufano, Ernesto Macmillan, também lidava com a balança de seu pensamento e o dos com quem se relacionava. A família dele abandonou a tradição, as pessoas que não abandonaram o preconceito. Estava cada vez mais difícil equilibrar os N.O.Ms e minhas emoções.
— Ast, canta pra gente? – Pediu Daphne manhosa, no quase vazio salão comunal à noite
— Não.
— Por favooor. – Insistiram ela e Susan
Com tantas coisas ruins acontecendo, não era justo deixar Daphne infeliz. Ela precisava descontrair um pouco. Meu cabelo estava solto, vestia meu pijama fofinho e minhas pantufas confortáveis. Meu microfone era a escova de cabelo.
— Não acredito – Francis se jogou no sofá – É a Lady cobra?
— Quieto, broto.
A música da vitrola começou, comecei a cantar (Autora: estupido coração). Foi uma das noites mais divertidas daquele ano, cantei, dancei. Francis se levantou e dançou um pouco comigo, as meninas iam a loucura. Subi em cima do sofá para o último verso.
— O que é isso?
Fiquei tão assustada com a presença repentina de Snape, que caí do sofá.
— Você ‘tá bem? – Perguntou Francis
— O que você acha?
— Achei esplendido! – Admirou Slughorn, me ajudando a levantar – Como se chama, meu bem?
— Astória Greengrass.
— Lady cobra.
Fuzilei Francis pelo olhar, que deu de ombros, sorrindo.
— Lady cobra – Falou Slughorn – Gostei, uma bela voz, lady cobra.
— Obrigada. Bem, está tarde, melhor nós nos deitarmos.
— Sim, sim. Quero ter mais oportunidades de ouvir sua voz, Lady cobra.
— É só ir no Três Vassouras, professor – sugeriu Francis – ela sempre canta lá.
— Esplendido!
— Cama! – Mandou Snape – A você também, Malfoy.
O sorriso de Draco – escondido na escada – sumiu. Ele assentiu e subiu para seu quarto.
— Ast, tem um fã. – Sussurrou Daphne rindo e eu revirei os olhos
Depois daquela noite, Slughorn sempre dava festinhas e adivinha quem ia para cantar. Isso mesmo, eu. Tendo uma nova identidade, não podia ir com as roupas que usava. Lady cobra usava uma saia verde com bolinhas brancas e uma blusa preta de alça. Meu cabelo ficava preso em um coque com um laço verde em volta, sem esquecer do meu batom fortemente vermelho.
Ela não só usava roupas diferentes, agia diferente. Não era boba nem tímida, era social, tinha vários amigos. Você não gostava das festinhas? Eu amava.
— Daph, cadê meus óculos escuros? – Perguntei
— Já olhou embaixo da cama? Porque não vai sem eles?
— A Lady cobra raramente sai sem eles, apenas poucas pessoas podem ver seus lindos olhos.
— ‘tá parecendo que nem quando éramos crianças.
— Por isso que sempre vou nas festinhas de Slughorn, posso voltar a ser quem era. Então, onde está?
— Já disse, embaixo da cama. – Peguei meus óculos e passei batom mais uma vez – Por que não é assim sempre?
— É complicado. Já fez o dever de casa?
— Sim, senhora.
— É bom mesmo, quero ler quando voltar.
— Cuidado pra não trombar com um broto por aí.
— Ha-ha.
Desci as escadas e meu reflexo do vidro me encarava de cima para baixo, com uma cara orgulhosa.
— É, você tem bom gosto. Já tomou seus goles? Precisa ficar perfeita!
— Preciso mesmo?
— Só um golinho não faz mal.
— Tem razão, a Lady cobra é sempre perfeita. – Tirei a garrafa presa na minha coxa e bebi – Um golinho é bom.
Meus lábios fizeram o sorriso e segui meu caminho. Essa festa era diferente, tínhamos que levar um par. Como eu era cantora, não pensei que precisasse. Além do mais, ninguém iria comigo e Francis já estava começando a me irritar.
— Lady cobra – Slughorn beijou minha mão, que estava coberta por uma luva branca – Elegante como sempre.
— Mais do que o senhor, impossível.
— Não me diga que veio sozinha.
— Lady cobra nunca está sozinha, ela sempre tem sua legião.
— Esperta como sempre. Conhece Harry Potter?
Óbvio que conhecia, foi o idiota que fez minha ex-amiga chorar e que queria pegar ela.
— Como poderia esquecer? – Estendi minha mão e ele beijou – Luna?
— Astória?! Está linda!
— Não mais do que você.
Sabia que ela não era talarica, não tinha no que me envolver.
— O que acha de música, em? – Sugeriu o professor
— Por que não?
Fui para o palquinho e comecei a cantar. Cada um pegou seu par e levou para pista de dança. Como é deprimente ser cantor. Acho que foi por isso que nunca quis seguir a carreira, é solitário. E porque vários deles se envolvem com drogas. Fiz proerd, colega. Ah, espera. Eu usava drogas!
Ao acabar, vi algo que não gostei. Filch segurando Draco pelo braço e Slughorn lá. No que será que tinha se metido? A música instrumental voltou, várias pessoas me parabenizaram – sem nem saber quem eu era –, fui me aproximando para saber o que acontecia.
— Ele disse que vinha pra cá! – Dedurou Filch
— Chamar o sr.Malfoy? – Slughorn pensou um pouco – Não me lembro de ter chamado nenhum Malfoy.
— Ele está comigo – Me intrometi – Desculpe meu parceiro, professor. Ele não tem pontualidade.
— Bom, qualquer um que esteja com Lady cobra, está do meu lado. Se divirta, rapaz! E não perca ela de vista.
Filch foi embora aos resmungos e Slughorn voltou a falar com alguns alunos.
— Que foi? ‘tá me olhando assim por quê? – Me perguntou, desconfortável
— Nada, pitelzinho.
Segurei em sua mão e o levei para o centro da pista. Se fosse para ser salvo, teria que pagar algum preço. Draco estava mais duro do que qualquer outra coisa, não tinha a menor vontade de estar ali.
— Vamos, Draco! Dance comigo!
— O que eu ganho?
— Eu te salvei, não foi?
— Não pedi para ser salvo.
Tentou ir, o puxei de volta.
— Quando vai entender que sempre vou estar do seu lado. – Tirei os óculos – Gosto de você, mané.
Uma música lenta começou. Me puxou pela cintura, segurou na minha mão.
— Também gosto de você, Astória.
Dançamos várias músicas, seja lenta ou agitada. Na madrugada, saímos um pouco para respirar e caminhar pelo jardim.
— Até que você não dança nada mal. – Comentou ele
— Pensei ter mostrado isso, há dois anos.
— Mostrou, é que... Lady cobra?
— Coisa de Francis. Agora, Slughorn me chama assim também.
— Gosto da Lady cobra.
— Obrigada.
Segurou na minha mão e segurou na cintura.
— Mas eu prefiro a minha Ast.
— Digamos... Que ela não está em condições de voltar agora.
— Por quê?
— Você sabe, Draco. O que acha que fariam se vissem uma puro-sangue contra as leis da sua raça? E você viu como funciona na mansão Greengrass. Como sou tratada.
— Isso nunca te impediu antes. E sobre sua família, bem... Eu...
— Eu tenho uma irmã. Acha que andaria assim se não fosse por ela? Sem esquecer que minha mãe ameaçou matar meus antigos amigos. Se eu disser algo, Daphne e outras pessoas que podem morrer.
— Se viesse pro nosso lado-
— Draco – coloquei as mãos em seus lábios – esqueça da guerra, esqueça do Lorde das trevas, de Harry Potter, tudo. Pense que estamos naquele balanço da mansão, eu te balançando, você reclamando. Gostou de mim?
— Te achei esquisita – suspirei – mas maluca. Não consegui te tirar da cabeça e nunca vou conseguir, Ast. – Sorri – Por isso, preciso que vá.
— Por quê? Gosto de você e você gosta de mim.
Me soltou e ficou de costas para mim.
— Quem se importa?
— Eu me importo.
— E acha que vão deixar?
— Podemos lutar.
— Cai na real, Astória – Se virou para mim – Eu sou Draco Malfoy, o mais novo comensal da morte, pronto para matar gente imunda como você – Dei um passo para trás, com meu coração escorregando entre minhas mãos, tentando não cair e se despedaçar – Acha o quê? Que me envolveria com você? Não passa de uma fraca, tola! Pensa que o velho idiota do Dumbledore vai te salvar? Vai te esquecer, na primeira oportunidade que tiver! Um porco vale mais do que você, então vai embora!
— É o que você quer?
— Meu bem – segurou meu queixo – estou adiando sua morte para que tenha mais tempo nessa sua vida miserável. Eu não sou o imbecil do Reginald e você não é a ridícula da Amélia. Acorda pra vida, Astória! Estamos em guerra e é bom que escolha um lado antes que escolham por você. Traidora.
Algo me dizia que não era verdade. Mesmo assim, deixei algumas lágrimas silenciosas caírem. Abaixei a cabeça e limpei meu rosto. Fiquei de postura ereta e cara séria. Ele fingia me olhar com desprezo, podia ver sua pena em seus olhos.
— Adeus, Draco.
Fui para o banheiro mais próximo, soltei meu cabelo e minhas lágrimas. A maquiagem descia por meu rosto junto com a agonia. Peguei o frasco e bebi mais dois goles. Tossi um pouco.
— Parabéns — Desejou meu reflexo – Esse é seu futuro. Sofrer. E tudo por sua causa! Você confia nas pessoas e deixa elas fazerem o que quiser contigo! Por isso que é uma vergonha para a família Greengrass! Para todos ao seu redor! Você estraga tudo! Tudo!
— Não fala assim comigo! Por favor, não fala assim! Eu tentei melhorar!
— Você não é suficiente! Nunca vai ser o suficiente! Não passa de uma perdedora! Uma irracional! Consegue ser pior que seus pais juntos! Beba, Astória! Vamos, beba de novo! É só isso que sabe fazer, não é? Não consegue andar com as próprias pernas, precisa sempre de alguém!
— E O QUE VOCÊ QUER QUE EU FAÇA? O QUE VOCÊ QUER DE MIM? ME DIZ, QUE EU FAÇO! ME DIZ!
Meu reflexo voltou ao normal. Tentei beber de novo, mas já não restava goles da perfeição. Joguei o frasco no espelho, que voltou e bateu na minha cabeça. Desmaiei. Como saí de lá, não interessa.
Segui minha rotina normalmente. Aluna discreta e dedicada, uma boa cantora de Lady cobra, amante de romances. Como se Draco não tivesse machucado meu coração e os goles tivessem acabado. Até o imbecil do Testa rachada me procurar.
Eu lia um livro romântico na biblioteca, quando Harry Potter sentou na minha frente. Não disse nada, esperei ir embora.
— Astória Greengrass?
— Sim?
— Pergunta logo! — Gritou Weasley, no fim do corredor
— Eu já vou!
Me levantei.
— Não, espera! Preciso te fazer algumas perguntas.
— Já passou na sua cabeça que posso não ter vontade de responder.
— Por favor!
Como um ninja, vi que Draco nos observava na estante próxima. Queria ver até onde esse joguinho ia.
— ‘tá – Sentei – O que quer?
— Soube que é amiga de Gi e-
— Gi? Quanta intimidade.
— É, estamos namorando.
— Depois de ter feito ela chorar várias vezes? Trocou de óculos?
— Não gosta de mim, não é?
— Não gosto e nem desgosto.
— É importante, Greengrass. Estamos em Guerra.
— Vocês estão em Guerra, esse problema não é meu.
— Muita gente está morrendo!
— E o que quer que eu faça? Me junte a elas? Ótimo, enfie uma espada na minha garganta. Não me meta nisso, Potter, já tenho meus problemas!
— Por favor, não posso suportar que gente inocente morra por minha causa.
Lindo foi que eu via os corpos e não podia dizer absolutamente nada.
— A culpa não é sua se tem um maníaco matando geral. Isso vai acabar, tem que acabar.
— A pergunta é: de que jeito? Se a gente perder, milhões de vidas serão mortas. Sei que não está envolvida na Guerra, mas anda com quem está.
— Quem?
— Malfoy, acho que ele pode ser um comensal da morte.
Puta merda, ele descobriu a América.
— Draco? Comensal? Tudo bem que é idiota, mas comensal?
— Falta aulas demais, volta pro quarto tarde e parece que nem se alimenta direito.
— Credo, parece que é seu namorado.
— Que merda!
— É, eu sei. Como sabe dessas coisas? Anda perseguindo ele? Se apaixonou, foi?
— Isso é sério! E se ele planejar matar alguém?
— Ele pode ser o babaca que for, mas Draco nunca mataria alguém. Isso, posso confirmar.
E como na maioria das vezes, acertei. Pitelzinho não matou Dumbledore, nunca matou ninguém. É um menino sensível e perdido que se escondia em uma forte e espinhosa armadura. Quando saí da biblioteca, me puxou pelo braço e me jogou contra parede.
— Ai, Draco!
— O que ele queria?
— No que te interessa? Não tem mais o que fazer, não?
— Responde minha pergunta, Astória!
— Eu não sou obrigada, agora me larga ou faço um escândalo!
— Solta ela, Malfoy! – Ordenou Potter, acompanhado de Weasley
— Cuida da sua vida, Potter! – Mandou o loiro
— Não, cuida você! – O empurrei – Não posso andar com meus amigos porque comensais podem matar eles! E não posso andar com você porque não passa de um idiota! Por que não esquecem de vez que eu existo?
Dando fortes passos, fui embora. Quando saí do corredor, corri para meu quarto e lá me tranquei. Sorte que as garotas não estavam, não queria que zombassem de mim. Tranquei a porta, sentei abraçando minhas pernas e chorei baixinho. Não era justo eu estar passando por aquilo, não era!
Ou era? A maldição dos Greengrass não se referia a mim e minha existência? Em como estragava tudo e a todos? O que tinha de errado comigo? O que tinha de certo? Por que eu existia? Por que não me abortaram?
— Ast! – Daphne bateu na porta do meu quarto – Ast, abre, por favor! Sou eu, sua maninha!
— Vai embora, Daphne.
— Abre, vai! Vamos cantar, você ama cantar! O que acha de irmos na biblioteca e ler um livro bem meloso? Você adora! Ast...
Não queria que minha irmã me visse destruída. Horas depois, vi ela dormindo no lado de fora, no chão. Abri um sorriso triste e a levei para sua cama. A cobri com o lençol e lhe dei um beijinho.
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