Vossa majestade

12 Explosão de merda


Dia quatro de maio, era para ser um dia normal, de torturas e choros, mas foi a noite dos pesadelos. Dormia quando fui sacudida com força.

— Astória! Astória!

— Quê? Quê?

Meu corpo estava mole de sono e o que me acordou foi o som de uma explosão e o corpo de Daphne sobre o meu. Suas lágrimas em meu ombro, me deixava mais angustiada.

— Eu ‘tô com medo! Nós vamos morrer! Vamos morrer!

— Nós não vamos morrer! Calma!

Peguei na mão dela e corri para o andar debaixo, com um monte de gente descendo. Quase fomos acertadas por alguns feitiços. Nem me importei de estar de camisola e descalça, precisava dos meus equipamentos. Esbarrei em alguém e mirei minha varinha imediatamente.

— Susan!

Daphne correu para abraça-la e ficaram assim por alguns segundos.

— Eu te amo!

— Também te amo!

Ela não estava sozinha, o irmão bonitão dela a acompanhava.

— Você está bem, Astória? – Preocupou-se

— Bem mal, temos que ir agora!

Todos me seguiram. Diferente dos outros que fugiam para a Sala precisa, nós iriamos por outra saída.

— Onde estamos indo, Ast? – Quis saber Daphne

Paramos na frente da estátua da Bruxa de um Olho só. Toquei minha varinha nela e disse Dissendium. Ela se moveu, revelando uma passagem.

— Que daora! – Admirou-se Susan

— Vamos logo!

Corremos o mais rápido que conseguíamos e chegamos no porão da Dedosdemel. Procurei por uma bota e a encontrei. Era a nossa fuga.

— Toquem aqui! – Ordenei

— Pra onde vamos? – Quis saber Daphne

— Pra casa – Toquei na bota – Toquem! – Obedeceram rapidamente, tinha que deixá-la segura – Te amo, Daph!

— Astória, nã-

Tirei a mão um segundo antes de partirem, precisava dela viva. Não podia ir embora. Após chorar por dois minutos, tomei coragem para meu novo plano. Corri para Três Vassouras, que era onde estava minhas bombas. Madame Rosmeta não estava mais lá.

Tirei a camisola e coloquei uma roupa minha, prendi meu cabelo num rabo de cavalo e juntei tudo o que tinha numa bolsa. Os comensais ainda lutavam para entrar, já eu sabia o lugar perfeito. A casa dos gritos.

Cheguei lá antes do Lorde das trevas e Snape sequer pensarem em entrar. No maior desconforto, saí de lá pelo Salgueiro lutador, que fez de tudo para me matar. Joguei pedras no buraco para evitar alguém de passar. Lamento se se machucou, foi necessário.

Entrei no castelo e me deparei com dezenas de pessoas lutando. As minhas bombas não eram aquelas que explodiam tudo, não. Quando entrava em contato com a pele humana, o corpo se incha, os olhos pulam, as unhas quebram. Em outras palavras, o corpo humano é destruído do modo mais doloroso e cruel. Mas não era cruel, o que faziam?

Minha primeira vítima foi um comensal que duelava com Angelina Johnson. A bomba era como uma bolinha de gude preta, que grudava instantaneamente. Ficamos paradas observando, só havia testado aquilo em animais mortos. Lembrando que tinha outros, voltei ao plano.

Graças ao meu sobrenome, não era atacada por comensais. Então ninguém desconfiava de mim. Só não esperava que seria pega por um.

— Me larga! – Mandei – Sou uma Greengrass!

— É uma traidora! – Xingou Dolohov – Ava—

— Cruccio!

O homem ficou se contorcendo de dor no chão. Seu atacante era alto, loiro e lindo.

— Draco!

O abracei com toda força que pude. Suas vestes estavam sujas como se tivesse escapado de um incêndio.

— O que aconteceu com você?

— Ia te perguntar a mesma coisa.

Pisei na cara de Dolohov com força e cuspi nele.

— Isso é pelo meu pai!

Pela quarta – e não foi a última – vez, fomos para o armário de vassouras, onde ficamos abraçados por alguns minutos.

— Fizeram alguma coisa com você? – Me perguntou

— Não, eles que estão se ferrando.

— Astória, você não pode ficar aqui!

— Posso sim! Mandei minha irmã para longe, ela está com Francis e Susan Bulstrode. Vão cuidar dela!

— E quem vai cuidar de você? Não posso segurar sua mão toda hora.

— Caso não tenha percebido, tenho me virado muito bem sozinha. Aquilo-

— Você não vai sobreviver aqui! Não pode ficar! Essa Guerra pode nunca acabar! – Segurou meu rosto com as duas mãos – Eu não sei o que faria se te perdesse.

— Você nunca vai me perder, Draco. Eu sempre vou estar aqui, sempre vou lutar por você.

Como pode perceber, tivemos e teremos milhares de momentinhos fofos e românticos e sem nenhum beijo. É, a vida não ‘tá fácil pra ninguém.

— Tchau, Pitelzinho.

Coloquei uma bomba de dormir nele para que não me impedisse de fugir. Ruim foi que eu não me foquei tanto em produzi-la, então só durou umas duas ou três horas. Lhe dei um beijo na cabeça e tranquei a porta dali. Continuei com o plano por algumas horas. Vi pessoas morrendo, se ferindo gravemente. E pior

— C-Colin?

Meu amigo morto. Um dos únicos que ficaram. Ele desobedeceu o mandado de que apenas bruxos de maior poderiam lutar. É meu grifinório preferido. Me agachei ao lado de seu corpo, com lágrimas escorrendo.

— E-Eu s-sin...

Uma batida que levei na nuca deixou-me inconsciente. Anos depois, descobri que Luna bateu em mim para que eu não morresse. O que em base fazia sentido.

Eu tinha três finais naquela Guerra: O Lorde das trevas podia vencer e eu seria morta como traidora; A Ordem da Fênix podia vencer, e eu e minha irmã seriamos levadas à julgamento e investigação pesada; ou eu podia só morrer. Luna me deu um quarto final, fiquei com uns machucados e levada à St. Mungus. Ninguém se lembrava que eu estava lá e o que fiz. Luna não só me salvou, como a minha irmã também.

Acordei duas semanas depois, com uma enorme dor. Daphne não saiu de lá desde que soube. Ela adorava dizer que a irmã dela era uma heroína e que tinha salvo o mundo. Quem dera fosse verdade.

— Saiam da frente! Saiam! Saiam! – Daphne me ajudava a entrar no Três Vassouras e me sentar – Caiam fora daí, minha irmã voltou, idiotas!

Seitei numa cadeira, estava tão cansada.

— Como vai, meu bem? – Quis saber madame Rosmeta

— Pronta para ajudar a senhora. – Respondi

— Nem pensar, enlouqueceu?! – Discutiu Daph – Vai descansar, isso sim! Trabalhar, pode isso, Arnaldo?

Com o tempo, fui ficando invisível de novo. Meus velhos amigos ficaram apenas nas memorias mesmo. Gina Weasley se tornou a namorada de Harry Potter e a capitã da Grifinória. Luna virou uma aventureira sempre em busca de... Coisas malucas, conseguiu até um namorado, o Scamander – finalmente progrediram. Neville começou a ser respeitado, confesso que queria ver ele matando Nagine. Não gosto de cobras.

E onde eu fiquei? Bem, eu completei dezessete anos, fiz uma franja bem legal – e com o cabelo sempre peso – troquei até de creme, estudava muito, parei de fazer bombas e não tinha nenhum amigo.

— Por que ‘tá me contando essa história? – Quis saber o dono do Cabeça de Javali, após eu contar essa história

— Ah, sei lá. Por que o senhor é legal?

— Era só o que me faltava! Chavos! Trate-se de se arrumar!

Talvez não saiba, mas Abeforth Dumbledore têm herdeiros. Um deles era um garoto bem divertido, Chavos. Ele hoje é da Grifinória, mas não contarei muito sobre ele. Sua filha vai fazer isso por mim.

— Desculpe, vovô – Chavos desceu as escadas, todo arrumadinho – ‘tava penteando o cabelo.

— Sei...

A porta se abriu e lá veio ele. Sim, Draco. Mal olhou para mim, sentou numa mesa discreta. Até porque, aquele era o único lugar onde não olhavam tanto de cara feia. A situação dos Malfoy não estava nada boa.

— Você não ia trabalhar, Astória? – Lembrou o menino

— Droga! – Me levantei – Valeu, cara. Te devo uma!

Na correria, quase esbarrei com duas crianças da idade de Chavos.

— Desculpa, Genésia. Desculpa, Arcolo.

Não tive nem consideração de ouvir suas respostas, corri o mais rápido possível.

— Está atrasada. – Reclamou madame Rosmeta

— Me desculpe – Pedi – Estava-

— Jogando conversa fora com quem não quer ouvir?

Antes eu falava com a madame Rosmeta, mas ela meio que se estressou.

— É, tipo isso.

— Pois trate de trabalhar, sim?

— Sim, senhora.

Coloquei o avental em volta da cintura e o bloquinho de notas. Essa foi a primeira das muitas vezes que servi a você e seus amiguinhos.

— O que vão pedi? – Perguntei

— Astória?! – Surpreendeu-se Gina – O que faz aqui?

Sou tão importante na vida de vocês que só me notaram de garçonete lá quatro anos depois, que legal!

— Digamos que... – não queria falar que trabalhava para falar com alguém, é muito deprimente – trabalho comunitário. Sabe, ajudar as pessoas. É legal.

— Lave o banheiro o masculino! — Mandou madame Rosmeta, do balcão

— Agora não é mais tão legal – Sussurrei – Então?

— Eu quero um hambúrguer – avisou Weasley – e Mione também.

— Ah, eu também quero – Afirmou Gina – E você, amor?

Não resisti fazer uma careta com essa ceninha fofa, nem parecia Gina ogra. Gosto de ler romances, viver eles são muito chatos.

— Por mim, tanto faz. – Respondeu

— Ok, quatro hamburguês e-

— Pode me dá um autografo? – Pediu uma sem noção

É por isso que detesto celebridades. Sempre que vocês iam lá, era um monte de gente para atender e poucas para me ajudar. Na mansão, as coisas iam sempre... Perturbadas. O namoradinho de mamãe a abandonou porque tinha que fugir. Semanas depois, descobrimos que habitava em uma casa afastada com uma velha colega minha, Kat. Boa sorte pra se lembrar quem é.

— Aquele canalha me usou! – Bebeu um gole da sua caipirinha – Filho da puta! É bom que morra!

A melhor parte foi ver ela triturando as roupas dele, chorando. Fiquei um bom tempo sem falar com meus pais, acho que sentiram medo de mim por causa dos últimos acontecimentos das férias de natal. Fiquei a frequentar cada vez mais a biblioteca pública, lendo dezenas de livros maravilhosos.

Distraída no Beco diagonal, acabei esbarrando em alguém.

— Me desculpe.

— Desculpe? Olha o que... Você!

Com, aproximadamente, sete bilhões de pessoas no mundo, eu tinha que justamente esbarrar em Miguel Connor e fazê-lo se sujar com seu suco.

— M-Me d-desculpe. N-Não v-vi.

— Não viu?! É cega, por acaso? Já não basta ter vomitado em mim, agora isso? Você pensa que é quem, em?

Ele se aproximou e dei passos para trás.

— Ela já pediu desculpas, entendeu? – Blasio Zabine me defendeu – Por que não cai fora agora?

— Ô, filho de comensal, por que não cai fora você, que eu não ‘tô falando contigo?

— Pode ir, Zabine. – Sussurrei um tanto constrangida – E-Eu resolvo isso.

— É bom mesmo! Pensa que é quem, menina?

— Escuta aqui – puxou Connor pela camisa – vai embora ou os nossos vai atrás de você, entendeu? ENTENDEU?

— Zabine, as pessoas estão olhando. – Murmurei

Ele jogou Connor no chão e foi embora.

— Obrigada. – Falei bem baixinho, após sua ida

Sorte que quase ninguém me reconheceu. Devo logo adiantar que contarei muitos fatos deste ano pois foi cheio de... Ah, você sabe, estava lá.