Vossa majestade

4 A morte do sorriso


Sei que quando mamãe faz uma ameaça, ela cumpre. O que significa que eu tinha que fazer tudo o que não faria. Sem dançar, sem cantar, sem soltar o cabelo

— Astória, não quer ir mesmo a AD? – Insistiu Neville – É bom pra nos defendermos.

Sem amigos.

— Não, obrigada. – Neguei – E pra o seu próprio bem, não me fale nada sobre esse grupo, está bem?

Ele me olhou estranho e seguiu reto. Não podia me envolver.

A Guerra estava separando as pessoas. Meus amigos treinavam na Armada de Dumbledore, que me recusei a entrar. Como Greengrass, sabia que me espionavam e que seria o fim de um bom treinamento para os corajosos. Não expliquei à Gina muito bem porquê, sabia que não entenderia, e ela não se importou tanto.

Não acho que pensava que eu era um deles, mas devia ter coisas mais importantes como eu tinha. Luna foi uma das únicas amigas que me restou – por certo tempo. O pior foi eu não poder falar tudo a ela, não queria que corresse risco de vida. Mas alguém não acreditou que eu estava por fora do grupo delas.

Eu ia para biblioteca, quando ele me puxou para dentro do armário de vassouras.

— Me larga, Draco! – Ordenei, ele segurava meu braço com força

— Lummus! – A varinha dele acendeu – O que você sabe?

— O quê?

— Não se faça de boba! Eu sei que faz parte do grupinho de Potter! O que eles fazem? Como eles fazem? Com quem fazem? Pra que eles fazem?

— O que fazem, como fazem, pouco me importa!

— Mas pra mim é importante, Astória! Nox! – A varinha apagou e ele se aproximou tanto que podia ouvir sua respiração e seu hálito de hortelã – Não sabe como preciso disso.

Podia está tentando me seduzir ou só estava sendo sincero, de qualquer forma, eu nunca diria a ele. Mesmo eu não sabendo nada além de existir um grupo.

— Eu já disse, não sei!

— Pare de mentir, Astória! Você tem que escolher um lado!

Sabe, eu sempre achei que ele repetiu aquela frase de alguém. Demonstrava transbordar tanta mágoa.

— Eu fico do lado da minha irmã! Eu protejo ela!

— Nós podemos proteger ela! Podemos proteger você também!

— Não podem nem proteger a si mesmos – Consegui me livrar dele – Quem dirá os outros!

Tentei sair, só que dessa vez ele não prendeu com sua mão. Me imprensou ao seu corpo. Havia me acostumado com a escuridão e conseguia ver aqueles olhos tristes claramente.

— Você tem que me contar, ou direi à Umbrigd.

— Não teria coragem.

— Quer apostar?

— Como pode ser tão baixo? Eu não sei! Eles... Eles nem mais confiam em mim.

Abaixei a cabeça com um olhar deprimente, tinha um plano.

— O que eles fizeram?

— Não falam mais comigo, me tratam como se eu fosse nada.

— Astória – Tocou em meu queixo com seus dedos frios, me forçando a encara-lo novamente – Você tem que entender que é muito melhor que essa gentinha.

— Sou?

— É claro. É bonita, inteligente. Por que se mistura com eles?

— Eu... Eu não sei, Draco.

— Pode ter certeza que andar com pessoas como nós será bem melhor para você, como para sua irmã. Uma menina como você não pode perder tempo com gente como eles.

— Não posso?

— Não pode – Chegou bem perto – Tem que andar com gente como nós.

— Mas eu só quero andar com você, Draco – Toquei no rosto dele – Só com você.

Ele ia me beijar, ia mesmo. Só que eu preferia minha liberdade. O joguei no outro lado da parede e saí o mais rápido que pude. Para evitar de ser azarada, o tranquei lá.

— Me solta, Astória! Me solta!

— Sabe o que gente como você é? Gente besta, que se acha melhor do que os outros! Pode chamar, não abro! Pensando assim, você só vai se destruir!

— Isso se eu não te matar primeiro!

Foi aí que lembrei que ele estava com varinha, corri até o fim do corredor. E ele não usou um simples feitiço de abrir a porta, ele explodiu ela de uma vez.

— Vai pagar por isso, Astória! – Ameaçou

Estirei a língua para ele. Isso é que era legal em Draco, não tinha medo dele. Podia agir como a velha Astória, sem medos. Só que eu lembrava que não podia conversar com Gina ou Luna – tive que parar depois desse acontecimento:

“... Soube do que aprontou com o coitado Draco Malfoy. Este é meu último aviso, ou para de andar com a gentalha ou eles morrem. Se dúvida, espere até o natal.

Com desgosto

Constance Greengrass”

Elas poderiam sofrer por se aproximar de mim. Creio que Draco não tenha contado, isso não importa. Com tudo acontecendo, ainda tinha alguém com quem podia falar. Só não imaginava que ela também tinha e que não era eu.

— Susan Bulstrode.

Era colega de quarto de Daphne e andavam, praticamente, coladas. Não era ciúmes, queria que Daphne fizesse amigas, era inveja mesmo – volta do monstro verde – parte dois. Inveja dela por poder ter seus amigos sem medo de que eles sejam mortos por comensais da morte que frequentam sua mansão.

Como avisado, o sr. Weasley foi atacado num dia próximo ao natal. Minha mãe é vidente? Nunca saberemos.

O que me salvava daquele momento foi o canto. Cantar tirava um grande peso das minhas costas. O lugar que eu mais cantava era no Três Vassouras, em uma mesa sozinha, com o dedo deslizando sobre o copo.

— Está tudo bem, meu bem?

Às vezes, a ajuda vem do além, de quem você menos esperava. Eu só não imaginei que viria da madame Rosmeta.

— Está – Menti, melhorando minha postura – Estou bem sim. Obrigada por perguntar.

— E onde estão seus amigos?

— Na minha imaginação. Eu meio que... Não posso falar com eles.

— Sei. Eu também, eles morreram – Arregalei os olhos e ela riu – Como é seu nome?

— Astória Greengrass.

— Ah, sim. Aquela loirinha engraçada falou algo de você.

— Luna? O que ela disse?

— Que você se afastou, mas que vai voltar.

— Espero que sim.

Espero sentada.

— Não fique assim, estamos em momentos difíceis, mas logo passa.

Só que não foi tão rápido assim, a Segunda Guerra bruxa durou uns três anos e quase acabou com a minha vida. Sem ter o que fazer nas vindas à Hogsmeade, me tornei garçonete no Três Vassouras. Era bom ajudar à madame Rosmeta, que se tornou tão querida por mim.

Só havia um problema em trabalhar lá, servir a eles.

— O que vão pedir? – Perguntei timidamente

Lá estava Draco com o seu grupinho de sempre. Não podia enfrenta-los, não tinhas forças e nem vontade.

— Espera aí – Zabine me olhou bem – Eu te conheço.

— Se toca, mané! É a esquisita! – Contou Parsy

— Ast, Ast – Zabine tentou tocar na minha cintura e eu me afastei – Por que serve aos outros quando pode me servir no meu quarto?

Crabbe e Goyle riram.

— Não estou servindo, estou... Esquece.

— Por que ela ‘tá aqui, não ‘tô nem aí. Quero um milk-shake de chocolate! – Respondeu Parsy

— Não acha que está muito gorda, não? – Zombou Crabbe

— Gorda é sua mãe, aquela corna! Anota aí, vai.

Todos pediram e trouxe alguns minutos depois. Draco não parecia ter me perdoado e inventou de se vingar de mim do jeito mais ridículo possível.

— Isso não foi o que eu pedi.

Foram exatamente... Nove... Isso, nove vezes. Levei nove tipos de sucos diferentes. Ele mantinha aquela cara sínica e os idiotas dos seus amigos rolavam de rir. Pode parecer idiota, mas tinha medo de que fizesse algo aos meus... As pessoas que haviam sido gentis comigo. Até porque, a vaca rosa lhe deu diversos poderes, incluindo me atormentar,

— Não pedi isso. – Repetiu pela nona vez

— E o que você pediu?

— Vou pedir para que Merlin te dê um bom cérebro de natal, uma servidora deve saber servir seu mestre.

Enquanto eles riam, um velho amigo me fez me sentir melhor. Francis Bulstrode acenava para mim da janela. É, aquele garoto que cedeu um lugar para mim no primeiro ano. Olhei em volta e perguntei se era comigo para quem acenava. Ele assentiu e pediu para me encontrar na entrada.

— Astória – Chamou Draco preocupado – Ei, Astória! Astória!

Não me importei com suas chamadas, fui ver Francis na porta. Não nos falávamos tanto, só me fazia companhia nas aulas para não me sentir completamente sozinha.

— Oi, Astória – Cumprimentou – O que fez no cabelo? Está liso.

— Queria parar de chamar tanta atenção. Ficou estranho?

— Não, não. Ficou lindo!

Francis era o tipo de cara que prefere meninas tímidas, são mais fofas. Embora ele não tenha se importado de quase casar com Lilá Brow – hoje, Fllint.

— Vai pedir alguma coisa?

— Claro – Passou uma mecha de cabelo meu para trás da orelha, detesto que mecham no meu cabelo, deve saber porquê – A rainha pode me acompanhar em uma cerveja amanteigada?

— Não, ela não pode! – Draco me puxou para si e ficou de frente com Francis – A rainha não pode! Ela não vai sair com você! E não chame ela assim, está bem? Esse é o nosso lance! – Talvez eu achasse fofo o ciúme dele, mas tinha algo por trás, tinha que ter – A rainha vai me servir, panaca!

Fiquei tão irritada que peguei um suco próximo e joguei nele. No início, achei hilário. Depois, me arrependi. Ver ele todo sujo.

— Oh, céus! Sinto muito! Eu...

Parsy me olhou puta, então fugi. Eu fugi de Parsy Parkinson, faz ideia do quanto isso é humilhante? Depois daquele dia, Parsy fez questão de me infernizar de verdade.

O lugar estava quase vazio, Draco sentava sozinho e bufava. Me sentei um pouco envergonhada ao seu lado, com um pano na mão e um baldinho. Limpei seu rosto primeiro, o teimoso não facilitava as coisas. Cantei (Autora: Photograph, Ed Sheeran lindão) bem baixinho. Sua raiva parecia diminuir, mas não demonstrou isso. Fui limpando sua roupa, descendo um pouquinho a pouquinho. Até chegar perto de sua calça e sentir uma coisa. Tirei a mão rapidamente e arregalei os olhos.

Ele deu um sorriso sacana e me levantei na hora. Me puxou pelo pulso, me forçando a sentar e chegando bem perto dando uma rápida, bem rápida bitoca. Eu sei, esse nome é ridículo, mas foi o que aconteceu. Porque a idiota aqui ficou com medo e se afastou. Mal deu para sentir os lábios dele. Não considero exatamente um beijo, parecia coisa de criança. Como o das férias de pascoa do ano passado.

E essa coisa de criança mexeu totalmente com a gente. Ficamos estéticos, encarando um ao outro, de olhos arregalados como dois bobocas.

— I-Isso... Nunca aconteceu!

Ele saiu quase que correndo. Não contei a ninguém porque eu mesma não estava entendendo nada. Contou como primeiro beijo? Foi tão ruim assim? Meu hálito estava fedendo? Devia ter durado mais? Ou não devia ter durado mais? Não e não. Devia esquecer aquilo. Se ele disse... E desde quando eu o obedecia? Ah, que droga! Passei a ignorá-lo totalmente e focar para os exames, minha irmã e meus romances.

Lia mais um romance, As perolas de Amélia. A linda escritora de Almas da paixão fez continuações! Daphne dormia no sofá, estava tão cansada. Duas pessoas entraram, deviam voltar da ronda de monitores.

Ao me ver Parsy puxou Draco pela camisa e o beijou, fiz uma careta de nojo. Draco olhou para mim e empurrou Parsy rapidamente. Para meu sentimento reprimir, lembrava de Draco agia como babaca. Funcionou por um tempo.

— Draco, ela está na sua poltrona!

— Deixa.

— Mas-

— Eu cuido disso!

A idiota sorriu e subiu para seu quarto. Revirei os olhos e voltei para Reginald e Amélia. Se quisesse me tirar, que fosse a força. Ainda me restava um pouco de dignidade. Draco ficou envergonhado e parado, devia pensar no que me dizer. Não nos falávamos desde aquele dia.

— Ast? – Chamou Daphne, acordando

— Shii, calma – Falei – ‘tô aqui, ‘tô aqui.

— Cadê Susan?

— No quarto. Por que não vai pra lá e dorme um pouco?

— Tudo bem – Sentou e abriu um sorriso maroto – Por que seu namorado não está abraçadinho com você?

— Sua!

Antes que eu fizesse algo, Daphne correu para o andar de cima. Olhei para Draco, ambos estávamos envergonhados.

— Crianças.

— Sei. – Draco sentou no braço da cadeira – Sabia que seu cabelo não fica legal com todo esse creme.

— Falou o garoto que passava creme até nos pelos das pernas. O que você quer, Draco?

Fez meu rosto encarar o seu, seus lindos olhos azuis acinzentados me olhava com desejo. Passou o polegar pelos meus lábios. Me esforcei para pensar no Malfoy babaca, não deu muito certo. Fez um cafuné gostoso na minha cabeça e me afastei.

— Não gosta?

— N-Não quero que toque no meu cabelo.

— Tudo bem, não toco. Só vai ser difícil, ele é muito bonito. Só o creme que tem um cheiro estranho.

— Se não gosta, vá embora!

Passou o braço por cima dos meus ombros, deitei automaticamente minha cabeça no peito dele. Ouvir o coração dele bater, adormeci. Parecia que eu estava sendo iludida, mas eu iludia ele.

O beijo proibido. Sabíamos que era errado, que ele era noivo de uma condessa. Mas se não era o que ele queria, por que ele veio para o campo do desejo? Era o destino, tínhamos que nos encontrar assim.

Com os lábios avermelhados, cabelo ondulado. Era eu? De certa forma, sim. Estava de Amélia. Caminhava pelo gramado molhado descalça à espera de seu amor. O Sol estava se ponto, ele apareceu montado em seu lindo cavalo branco. Não corri até ele, teríamos mais tempo para nos ver. Alisei a flor preta, que ali havia sido plantada como diversas.

— Amélia-

— Não, por favor, Reginald. Não diga uma palavra – pus o dedo em seus lábios –, não que irá se casar com ela, não diga que não me verá mais. Se disser, meu coração irá se partir.

— Amélia – Draco, de Reginald, me puxou pela cintura – acha que eu viverias sem ti?

— Mas és o rei Reginald e eu...

— És minha vida. Não existe Nárnia sem ti – (Autora: é, eu coloquei isso mesmo) – Não existe reinado, não existe nada. – Se agachou, segurando minha mão – Amélia, tendo a bondade da rainha Lucia, a inteligência da rainha Susana, astucia do rei Edmundo e coragem do Grande Rei Pedro, és perfeita, mas a beleza – ficou de pé – a beleza és única, és... És... Vê como me deixa? Eu te amo, Astória.

— Eu também te amo, Draco.

Nos beijamos calmamente. Mexeu em meus cabelos com uma mão e me puxou para perto, com a outra.

— Que fofinho. A esquisita apaixonada por romances idiotas.

Esfreguei meus olhos, bocejei.

— Draco?

— Quanta intimidade ela tem!

Não estávamos sozinhos. Crabbe, Goyle, Zabine e Parsy riam e olhavam para nós. Digo, para mim.

— Amélia, Amélia, como te amo — Parsy lia o livro, zombando – Como te amo. Não entrego-te meu coração, pois já és teu. Entrego-te as estrelas para que iluminem seu caminho. Embora nada seja tão radiante como a amada que está em minha frente. Que lindo, Greengrass. Acho que vou vomitar de tanta emoção.

Fiquei de pé, um pouco cabisbaixa. Precisava ter postura e coragem.

— Me devolve... Por favor.

— Ah, não sei. O que faço, Draquinho?

— Pouco me importa, não é relevante.

Draco sentava no mesmo lugar, olhando para o canto. Fiquei tão irritada por ele não ter feito nada, queria bater nele. Mordi meu lábio inferior, precisava ficar calma.

— Por favor, devolve meu livro. É importante pra mim.

— Fique de joelhos. – Mandou – Quero te ver implorar. Cadelinhas devem obedecer caladas.

Não tinha orgulho, não tinha dignidade, não tinha nada. Fiquei de joelhos, olhei para ela, que guardava um sorriso perverso.

— Por favor, Parsy Parkinson. Devolva meu livro.

— Você é patética, esquisita. Como será que a sapata da sua irmã-

Não me aguentei, lhe dei um soco. Parsy caiu e Zabine a ajudou a se levantar. Iria bater em mim, me dar um socão. Se Draco não tivesse se posto na minha frente, iria para Ala hospitalar. Segurou nos pulsos dela e a jogou no sofá.

— Nunca toque nela! Nunca!

Só de raiva, Parsy pegou meu livro e rasgou várias páginas.

— Não! – Exclamei – Por favor, não!

Rasgou mais uma página e outra, outra. Teria lhe dado outro soco se Draco não me segurasse.

— Que bagunça é esta? — Interrogou Snape, nos fazendo ficar quietos – Malfoy?

— Parkinson rasgou o livro de Greengrass e...

— Ela me deu um soco! – Acusou Parsy – Bem aqui, professor!

— Zabine, leve Parkinson à Ala hospitalar. Greengrass, já para a cama!

Não tive forças de encara-lo ou responde-lo, apenas assenti. Zabine levou Parsy, que reclamava sem parar. Crabbe e Goyle foram para seus quartos, rindo. Snape saiu de lá. E ficamos nós de novo. Chorava silenciosamente, olhando para meus sapatos.

Draco pegou o livro, sem jeito, e estendeu para mim. Levantei o rosto, devia estar horrível, ele fez uma cara de quem visse um dementador.

— Não serve mais.

Corri o mais depressa possível para meu quarto, me atirei na cama e fiquei a chorar. Não era só um livro, era a fuga da realidade, onde podia esquecer de tudo. E agora, tinha partido. Não tinha nem coragem de ir na biblioteca, sabia que madame Prince aguardava ansiosa para meus comentários.

Depois da madame Rosmeta, madame Prince era minha companhia favorita. Sempre tomávamos chá e conversávamos sobre nossos livros favoritos.

— Muda essa cara, Astória. – Pediu Daphne, na mesa da Sonserina

— Sinto muito, só tenho essa.

— Ah, qual é! É só um livro, pode comprar outro, nas férias.

— E ficar sem saber se o rei Reginald ficou com a doce Amélia? Vou explodir até lá, meu cérebro não para quieto. Será que flagraram eles? Mataram ela? E ele? Casou com a noiva nojenta? Não sei e nunca vou saber! – Bati com a cabeça na mesa – Acho que vou morrer.

— Nossa, como é dramática.

— Sou uma adolescente.

— É uma bocó.

— Greengrass. – Chamou Filch atrás de mim, sendo mal olhado pelos meus colegas – A sra. Umbrigde deseja falar com você agora.

Não gostava da vaca rosa, pensar que alunos estavam sendo torturados era repugnante. O que mais me doeu foi ver Draco na sala dela. Será que contou algo? Me olhou com uma certa pena e desprezo ao mesmo tempo.

— Com licença. – Pediu antes de se retirar

— Sente-se. – Fiz o que ela mandou – Chá?

— Não, obrigada. Prefiro café.

— Não seja por isso – O bule encheu minha xicara – Açúcar?

— Por favor.

Poderia ser um truque, as chances de ter uma poção da verdade eram muito altas. Sabia o que fazer uma hora dessas, soprei o café de leve.

— Astória Greengrass, conheci seus pais.

— Lamento então.

— Não é muito próxima.

— Digamos que temos maneiras diferentes de alcançar nossos objetivos.

— Entendo, também não sou muito próxima dos meus. Mamãe faleceu em meu parto e papai está no asilo.

Mentiu sobre a mãe, li em sua fixa que sua mãe era trouxa e que teve um filho aborto. A vaca rosa convenceu seu pai a se aposentar mais cedo para que não descobrissem que era um zelador e não um homem importante. É gente assim que envergonha a minha Casa.

— Teve filhos?

— Me dediquei muito ao trabalho. Os pais são sagrados. Embora pareçam que não nos amam, eles fazem tudo por nós – Ela tomou um gole de chá com uma cara de eu sei tudo sobre você, garota – Mas não é para isso que te chamei. Soube que foi amiga de uma Weasley?

— Aquela traidora? Tenha dó! Aguentei ela por três anos, finalmente me livrei!

— Então acredita que é superior?

— Um superior nunca se chamar assim, um alucinado faria isso.

— Conhece Robert Runglun?

Um filho da puta desgraçado, falaremos dele depois. Bem depois.

— Deveria?

— Sim, um homem muito sábio. Penso se deveria colocá-lo aqui. Está certo que Hogwarts precisa ser reajustada. Concorda?

— Todos têm seu modo de ver, depende de onde quer enxergar.

— Está se envolvendo com ele?

Fiquei pálida, minhas mãos tremiam levemente.

— Com quem, diretora?

— Não se faça de sonsa, o idiota do Longbotton! Sei que estão se vendo! Por favor, não jogue seu sangue fora por um romancezinho besta! Não importa se ele é um puro-sangue! Força é o que nenhum professor pode ensinar aquele idiota!

Aquele idiota destruiu uma Horcrux. Não me segurei, comecei a rir.

— Olha, professora, eu... – ri de novo – preciso ir, tenho aula de poções e prof. Snape não gostaria que eu me atrasasse. E sobre eu e Longbotton – ri de novo – Adeus.

— Volte aqui, menina!

Fechei a porta e fui às masmorras, rindo. Imaginei que falaria de Draco, Dumbledore e até Finningan, mas Neville? Foi bom ir lá, precisava descontrair um pouco.

— Atrasada. – Declarou Snape sem nem me olhar

— A sra. Um-

— Pouco me importa. Sente-se antes que a mande sair.

Quando fui pegar meu livro, quase tive um ataque. Lá estava ele, o livro que tirava meu sono quase todas as noites. O mesmo livro que Parsy rasgou. E ele estava completo.

Alguém pegou as páginas tiradas e as grudou de volta. Claro, do jeito errado. Mas lá estava e era o que importava. No fim das aulas, fui correndo para o salão comunal.

— Ast, aonde vai com tanta pressa? – Quis saber Daphne

— Tenorespotadolivro.

— Quê?

— Alguém pegou as páginas rasgadas e colou de volta! Colou de volta!

— Quer dizer que vai parar de andar com essa cara de bulldog triste?

— Se me chamar assim de novo, vai ver um bulldog zangado.

— Você não ia ler o livro?

— Valeu, quase esqueci.

Corri o mais depressa para o salão comunal e me joguei no sofá. Devorei aquele livro em poucos minutos. Quer saber o final? Reginald faz de Amélia uma mulher e parte para o castelo. Ela anda pelo bosque encantado. Fim.

— É isso?! – Indaguei furiosa – Esse é o final? Reginald vai embora?! Que bosta!

Fiquei tão irritada que joguei o livro para longe. Tive que ir buscar ou seria pisado. Estava debaixo de um sofá distante, o arrodeei para pega-lo. Só não esperava que alguém entrasse. De novo.

— Só pode estar brincando, Draco? – Bradou Parsy — Qual o problema? Está ótimo assim!

— Não, não está – Descordou o loiro – Estou cansado, Parsy. Porra, deixa eu respirar!

— Fala como se eu andasse grudada com você. Alô? Em que mundo você vive? Não nos falamos já faz tempo, você nem me beija tanto assim.

— Sinal que não te quero mais.

— É por causa da esquisita, não é?

— Não tem nada a ver.

— É claro que tem, nem os professores te dão tanto medo.

— Eu? Medo de Astória? Por favor!

— É sim. Que intimidade é essa, de se chamarem pelo nome?

— Que diferença faz?

— Muita!

— Nos conhecemos desde crianças, pronto!

— Não é só por isso! Ela é especial! Quer que se case com você, não é?

— Parsy, tendo o que tem lá em casa, acha que eu pensaria em ficar? Eu mal consigo comer direito!

— Desculpe, Draquinho. Prometo ser melhor.

— Não, Parsy. Chega, ok? Acabou!

— Mas, Draco! O que vê tanto nela? É tão sem graça. Lembra do vestido dela no Baile de inverno? Tão cafona!

— Eu gostei – Sorri – Deixa ela em paz, Parsy. Astória nunca te fez mal e duvido que faça a alguém.

— Ela me socou, Draco!

— E não faria isso pela sua irmã?

— A minha irmã não presta.

— Isso é problema seu! Astória ama a irmã mais do que tudo e não aceita que tratem ela desse jeito. E nem eu! Não é da sua conta, a sexualidade da menina! E ela nem fez nada, só anda com a amiga. Se tivesse uma de verdade, faria isso.

— É claro. Como não percebi isso antes?

— O quê?

— Está apaixonado por ela.

— Eu não-

— Olha, eu não ‘tô nem aí. Fique com ela, a esquisita precisa de um otário. Adeus, Malfoy.

Parsy foi para seu quarto, Draco sentou no sofá no qual eu me escondia. Levantei a cabeça e me segurei para não alisar aqueles sedosos fios platinados. Cheguei bem perto de seu ouvido.

— Oi, pitelzinho.

Draco deu um pulo de susto, eu ri e me sentei ao seu lado.

— É maluca? O que fazia aí?

Não queria que pensasse que eu era uma enxerida.

— Cantando.

— Aí?

— Não restaram muitos lugares para nos soltar.

— Espere até isso acabar, o mundo será nosso de novo.

Mais uma vez, senti como se repetisse a frase de alguém.

— O mundo não é e nunca será nosso, é de todos.

— Meu pai diz que isso é papo de drogado.

— Seu pai é um idiota.

— Você não tem medo de mim, não é? Do que eu posso te fazer?

— É mais fácil eu te assustar do que você a mim.

— Ah, é? Como?

— Eu posso muito bem dizer a todo mundo que Draco Malfoy foi empurrado no chão e cuspido por uma garotinha de nove anos.

— Você é impossível, Astória.

— Complexa é mais bonito, obrigada.

— Seu cabelo é complexo – Fez cafuné em mim – Devia soltar ele outra vez.

— Caso não se lembre, da última vez que fiz isso, deu merda. E é bom que tire essa mãozinha daí agora mesmo.

— Ela fala palavrão.

— Merda não é... Esquece.

Revirei os olhos e segui para meu quarto. Me virei nas escadas, mostrando o livro.

— Isso é uma merda.

— Devia terminar de ler.

— Eu terminei.

— Será?

Desconfiei um pouco, mas não liguei tanto. Deixei meu amado livro de lado e foquei um pouco mais nos estudos. Embora os sonserinos estivem mais preocupados em outra coisa.

— Que porcaria é essa?

Crabbe e Goyle distribuíam a idiota

— Música Weasley é o nosso Rei – Respondeu Goyle – Malfoy que fez.

— Isso não é música, é lixo! Não vou cantar essa porcaria, vai humilhar o pobre coitado!

— Essa é a intensão – Bufei ao ver Draco sentar do meu lado – Pense, Astória, lá vai está o jogo quando de repente...

Weasley não pega nada

Não bloqueia aro algum

Ei, ei, ei, ei, Weasley é nosso Rei

— Isso é o maior desastre!

— Depende pra quem, meu bem. É bom começar a ensaiar, o jogo é amanhã.

— Prefiro virar amiga de Parkinson do que cantar isso.

Fiz os dois.

— Uma pena, queria ouvir sua bela voz. Tudo bem, terei outras oportunidades. Além do mais, temos a outra Greengrass.

Bastou eu ver Daphne cantar, com Susan, a parte do ei e Rei, que me levantei e rasguei o papel.

— Astória, eu-

— Não cante esse lixo!

Mesmo tendo parado de falar com Gina e os outros Weasley, precisava avisá-los de algum jeito.

— Gina?

Só não pensei que seria daquele jeito.

— Ah, oi. – Ela se afastou do namoradinho – Como vai, Astória?

— Olha, hoje é o jogo entre nossas Casas e-

— Vão trapacear. Obrigada, Astória, mas isso, todo mundo já sabe.

— Não! Quero dizer, sim! Mas... Droga! Olha, eles-

— A gente pode falar depois? Eu meio que estou ocupada.

— Com ele?

— Ele é o namorado dela – Connor passou o braço em volta da cintura dela – E você, quem é?

— Ninguém importante.

— Astória – Me virei – Outra hora, está bem?

— Como quiser.

Não desisti, tentei falar com o próprio humilhado, mas o estado dele estava ruim demais para deixarem me aproximar.

— Neville, me escuta! Preciso falar com ele!

— Outra hora, Astória. Rony não parece estar bem e não pode ser incomodado.

E a capitã do time?

— Oi? – Ela olhou minha roupa com as cores da Sonserina – Olha, precisamos de um pouco de espaço. Falo com você depois.

Ela, eu entendo. O time da minha Casa não era muito honesto e fariam uma pessoa espiona-los. Tentei falar com os gêmeos, Finningan, Mcgonagall e até você.

— Não tenho tempo agora, ok?

— É importante, Granger! Vão ser massacrados se-

— Por que não volta pro seu namoradinho, em? Ele combina mais com você.

— O que quer dizer com isso? E que namoradinho, garota?

— Eu quero dizer que todos nos preocupamos com Rony e que não temos tempo para te ouvir agora! Olha, você é uma menina aparentemente legal, então por que não nos deixa um pouco para lidar com a situação?

Vocês não souberam nem um pouco como lidar com a situação. Ninguém me deu ouvidos, ninguém parou para ouvir que iam humilha-lo. E por quê? Por causa da minha Casa? Draco estava certo, nunca tinha feito mal a ninguém. Até aquele dia.

— Me dá isso aqui!

Agarrei um papel de Crabbe.

— Vejo que-

— Cala boca, Draco!

Sentei junto da minha irmã, Susan e Francis com a maior cara de cu.

— Tudo bem, Astória? – Ele me perguntou

— Tudo ótimo, por quê?

Não lhe deu tempo de responder, o gigolô da Sketter ficou narrando e a canção teve seu início. Até hoje lembro a droga da letra.

— Astória, para! – Mandou minha irmã

— Por quê? É uma bela música! Ei, ei, ei, ei, Weasley é nosso Rei!

Daphne nos deixou para correr dali. Obviamente, fui atrás. Susan teria ido se seu irmão não tivesse a segurado.

— Daph! – A chamei no corredor – Daph! Daphne!

— O QUE É? O QUE É QUE VOCÊ QUER? – Meu coração ficou apertado ao ver lágrimas em seu rosto – É disso que você gosta? Desse terrorismo? Porque é isso que eles estão fazendo! O coitado do Weasley está sendo HUMILHADO! ELE ESTÁ SENDO HUMILHADO E VOCÊ ESTÁ AJUDANDO A FAZEREM ISSO!

— Não grite!

— POR QUE NÃO DEVO GRITAR? PAPAI E MAMÃE VIVEM GRITANDO, POR QUE EU NÃO POSSO GRITAR? POR QUE EU NÃO POSSO FALAR PALAVRÃO? POR QUE EU NÃO POSSO TER UMA VIDA NORMAL?

— ACHA QUE EU NÃO QUERIA TER UMA VIDA NORMAL? ACHA QUE GOSTO DE SER HUMILHADA?

— ENTÃO POR QUE CANTOU? Por que... Não volta a ser minha manona de volta?

Daphne correu para as masmorras e fui atrás, quando fui parada por

— Licença, Gina.

— Você cantou?!

— A gente resolve isso depois. Não foi o que você disse?

— Como você é egoísta!

— Egoísta? Eu? Você que não largou daquele namorado, quando fui te avisar!

— Gente... – Chamou Luna assustada

— Então só por causa disso, você resolveu que ia se vingar? Pois bem, conseguiu! MEUS IRMÃOS E HARRY FORAM EXPULSOS DO TIME!

— O quê?!

— É, e tudo graças ao seu namoradinho!

Por causa daquela coisa de criança, perdi meus amigos. Ou talvez não tenha sido isso. Talvez nossa amizade eterna não é para ser. Pelo menos, não comigo. Vocês ainda andam todos juntos.

— Ele não é meu namorado! E eu não quero namorar com ele! Eu não quero namorar ninguém! Diferente de você, que fica aclamando por um! Isso tem nome, Gina! Se chama hiperatividade! Vai ver, ter tantos irmãos te impede de ser lembrada!

— Gente...

— Os meus pais me amam! Os meus irmãos me amam! Os meus amigos me amam! Quem ama você? SUA ESTÚPIDA IMUNDA! ESPERO QUE MORRA JUNTO COM SEUS AMIGUINHOS COMENSAIS!

Ok, ela não falou essa última parte, mas para uma garota de catorze anos com grandes problemas psicológicos. Ela não cutucou a ferida, abriu sem piedade e enfiou a espada mais pontuda. Chorando sem parar, corri para meu quarto. Alguns sonserinos comemoram, bando de idiotas. Esbarrei em Draco, ele pegou nos meus ombros, muito preocupado.

— Astória, o que aconteceu?

Não era que com quem devia falar. Mesmo com o rosto todo machucado, não era meu problema. Ele quem tinha pedido por isso. Subi as escadas e abri a porta da minha irmã devagar. Ela não estava sozinha, Susan conversava com ela. As duas se entendiam muito bem. Eu que não entendia o que estava rolando – chegaremos nesta parte dentre de dois ou três anos.

— Astória – Chamou Susan – Pode vir.

Fui lentamente, com muito medo. Havia uma pequena nuvem soltando neve na minha irmã.

— Daph, me desculpe — Implorei – Eu... Eu... Sou tão egoísta! E-E burra! E-E-

— É a melhor pessoa que conheço! – Daphne me abraçou com força e chorou no meu ombro – E-Eu q-que... S-Sempre t-te atras-so.

— Claro que não, quanta besteira! – Limpei suas lágrimas e a nuvem de neve sumiu – Você é o que tenho de mais precioso e nunca fez ou me faria mal. Não se culpe pelos meus erros, está bem?

— Que erros, Ast? Pare de ouvir mamãe, ela é louca e cruel! Só queria que tudo voltasse a ser como antes.

— Eu também, maninha. Eu também.

Cantei para Daphne até que dormisse. Susan voltou ao quarto e disse que ficaria com ela. Desci para o salão comunal e encontrei Draco com bandeides e angustia, na nossa poltrona.

— Astória! – Ele se levantou e deu um rápido movimento nas pontas dos lábios como um sorriso – V-Você-

— Me deixa, Draco – Pedi – Minha cabeça está uma confusão e preciso de um tempo. Por favor.

— C-Claro – Se desanimou um pouco – Se precisar, eu... Bom, você sabe.

Eu sei? Eu sei que era natal e não podia ficar em Hogwarts para os servidores do Lorde das trevas perceberem o quanto o apoio. Qual é! Os caras não sabiam nem meu nome

— Então pode voltar a andar com a gente!

Ok, eu ainda falava... Falo com Luna de vez em quando. É aquela amiga que não importa quanto tempo se passa, sempre te trata igual.

— Não, Lu, eu não posso.

Nos encontramos no banheiro de Expresso de Hogwarts e ficamos conversando um pouco.

— Uma pena, sinto sua falta. Neville também.

— É, eu também sinto. Falam sobre mim?

— Neville disse que você o ignorou depois da humilhação de Rony Weasley.

— Espero que ele não leve pro lado pessoal, eu não podia falar com ele.

— Eu sei, expliquei a ele.

— O que você disse, Luna?

— Que nos amava demais para continuar.

— E? – Não respondeu – Luna.

— Gina te chamou de sonsa, ainda está muito irritada com você.

— Sei que agi mal, mas não vou pedir desculpas. Ela me magoou muito.

Luna me olhou com pena e me abraçou por trás.

— Não vai me abandonar, não é?

— Claro que não, prima.

— Vovô Greg não vem? – Questionei

Além de Luna, tenho outros integrantes na família. Só moram meio mundo da gente, quase nada.

— Diz que prefere visitar o cemitério da Suíça do que nossa mansão – Papai rasgou a carta, na sala de estar – Babaca. Constance, e seus pais?

O natal é um período que mamãe prefere ficar só em seus pensamentos. Devia lembrar dos presentes que vovô Norman. Ela olhou para papai como se fosse uma pessoa qualquer e suspirou.

— Mamãe? – Bati na porta do escritório – Posso entrar, por favor?

— Sim.

Ela olhava para os novos corpos do quintal, abraçando as pernas. Sentei na sua frente.

— Trouxe seu presente.

— É bom que preste. – Abriu a caixa e tirou um livro – O que é isso?

— Um livro.

— Um livro?

— De moda. A senhora está sempre reclamando por não saber como anda as coisas lá fora, pensei que gostaria de ter um pouco de informação.

— Está bem.

Ela colocou o livro ao seu lado e ficou calada. Seus olhos tinham profundas olheiras e sua dentadura parecia um pouco mau cuidada.

— Pare de me olhar assim, ainda fico mais bonita que você.

— M-Me desculpe.

— Burrinha. – Ela tirou um frasco velho de uma gaveta – Para você.

— O que é?

— Seu presente de natal. É infalível! – Abriu a garrafa com uma poção – Sabe, Astória. Somos um bando de hipócritas. Falamos dos outros e agimos como eles. O que nos faz melhor? Dinheiro? – Bebeu um gole – Temos que ser perfeitos, meu bem! Se não formos perfeitos, quem serão? A gentalha? Não, eu não nasci pra isso! Eu não ando com a ralé! Isso, querida. Vai solucionar seus problemas. Não precisa tomar agora, só quando se sentir pronta. Fracassada do jeito que é, vai tomar tudo de uma vez.

— Um gole para a perfeição – Li, no meu quarto – Tome um gole quando estiver em aflição, depois, tome antes de cada refeição. Com um mês, os goles serão multiplicados por três. E quando acordar, perfeita estará. – Tirei a tampa e senti o cheiro – Parece álcool, peixe e ovo cru.

— Ast – Daphne entrou e escondi o frasco – O que está fazendo?

— Só... Praticando as posições de feitiços.

— Ah, ok. Ei, os pais de Susan vão dá uma festa legal de ano novo, você quer ir?

— Não.

— Ah, vamos. Vai ser divertido!

Com certeza. Passar horas sozinha num sofá enquanto todos se divertem. Tem coisa melhor?

— Olha, pode ir.

— Até parece que vou te deixar aqui sozinha.

— E quem garante que vou ficar aqui?

— Como assim? Não me diga que foi chamada para uma festa?

— É, fui.

— Sério? De quem?

— Você não conhece, é uma galera bem legal!

Óbvio que ninguém acreditaria nisso, mas estamos falando de Daphne de doze anos. Minha irmãzinha. Eu podia falar que era homem de três pernas e ela acreditaria. Às seis horas da tarde, Daph se despediu da gente.

— Feliz ano novo, manona.

— Feliz ano novo.

E claro que mamãe não ficou quieta.

— Viu? Até sua irmã te abandonou? Espero que veja que nem a pessoa que você mais ama te quer!

— Ok. – Entrei dentro da lareira – Tchau, mamãe.

— Aonde pensa que vai? – Interrogou papai

— Para bem longe daqui.

Fui para o Três Vassouras e encontrei um bilhete da madame Rosmeta no balcão.

“Ast,

Estou nos EUA e só volto próxima semana. Pode beber um copo de cerveja amanteigada.

P.S: Se for um ladrão, tá perdendo tempo, amigo”.

Saí de lá, as ruas estavam desertas. Os moradores dali tinham as casas cheias de visitas e sorrisos. Olhei meu reflexo, parecia uma perdedora. Sem rumo, andei por vários cantos desconhecidos. Acabei esbarrando em uma pessoa.

— Me desculpe.

— Eu é que peço – Uma moça muito gentil segurava uma enorme panela de comida – Você é a menina que mandaram, né?

— Menina que mandaram?

— Graças a Merlin, estamos perdidos aqui! Venha!

Ela me levou para um lugar onde parecia ser um tipo de refeitório um pouco humilde.

— Eu sei, não é às mil maravilhas, mas é o que temos até o Ministro fazer alguma coisa.

— Fazer alguma coisa?

— Ajudar os pobres, é claro. Acho que não te explicaram direito. Oi, eu sou Agatha, Agatha Mavis – Apertamos as mãos – Eu sei, nome estranho. Bem, eu e um grupo de pessoas nos reunimos para ajudar os pobres necessitados.

— Pobres necessitados?

— Moradores de rua, abortos abandonados, pessoas doentes ou ignoradas. Vamos fazer seis anos e sempre enchemos muitas barrigas. Pena que não são todas.

— Vocês ficam aqui até que horas?

— Até que toda a comida acabe. Por sorte, fizemos muita. O que significa que muita gente voltará feliz hoje. Venha, vou te mostrar o lugar. – Entramos na cozinha – Aqui é onde toda comida está. Teremos lavadores e secadores de louça. Ao lado, está o banheiro. Ele já foi bem lavado e será a cada uma hora. Você... Quantos anos você tem?

— Catorze, vou fazer quinze em junho.

— Ok, você servirá os pratos. É, qual é mesmo seu nome?

— Astória Greengrass.

— Bom, seja bem-vinda a nossa família. É bruxa com poderes?

— Bruxa com poderes?

— Espero que não se importe, nossa equipe tem as mais variadas pessoas. Eu, por exemplo, tenho síndrome do descontrole. Mas veja, nada me impediu de fazer o que quero.

Pessoas como Agatha que me fizeram ingressa no meu trabalho. Ajudar gente assim é o que me deixa feliz.

— Agatha, cheguei – Um moço, carregando um barril entrou – Um barril cheinho de suco de abóbora. O prof. Dumbledore é muito gentil em nos ajudar.

— Com certeza. Astória, esse é Millo Rush. – Apresentou

— Prazer, senhorita – Beijou minha mão – Sou o entregador mais rápido que você já viu.

— Entregador?

— Nem todas as pessoas podem vir, então vou até elas. Melhor se preparar, eles chegam às sete.

Coloquei um avental, rede de cabelo e luvas. Millo estava certo, de uma hora para outra, o lugar foi se enchendo. E não era só a gente, de ajudante. Tinha pessoas que monitorava a fila e o banheiro; outros servidores de comida; limpadores.

Ver os sorrisos das pessoas ao receberem um simples prato de comida é encantador. Enquanto tem gente reclamando com muito, há pessoas sorrindo com pouco. Não eram como os esnobes que frequentavam a mansão Greengrass, eram pessoas gentis e amigáveis. E gente com mais educação do que qualquer outro.

— Moça, pode dá um pouquinho de cumê pro cachorrinho? – Pediu uma menina

— Claro, meu bem.

Coloquei um pouco de carne de panela em um pratinho. E quantas vezes ouvi gente reclamando de não gostar disso ou daquilo?

— Pessoal! Pessoal! – Agatha subiu em cima de uma cadeira – O ano vai começar! Que Deus abençoe todos vocês! Contagem regressiva! DEZ! NOVE! OITO! SETE! SEIS! CINCO! QUATRO! TRÊS! DOIS! UM! FELIZ MIL NOVECENTOS E NOVENTA E CINCO!

— UUUUUUUOOOOOOOOOOOOO!!!!

Abracei tanta gente que nem conhecia e gostei muito. Gostei de me sentir importante, de que eu fazia diferença. Uma diferença boa.

— Obrigada, Astória! – Agatha me abraçou chorando – Obrigada! Obrigada! Que você cresça, estude e faça coisas muito boas!

Como alguém pode se tornar tão importante para você quando a conhece em menos de doze horas? Às cinco da manhã, todos já tinham ido e arrumávamos o lugar.

— Ei, tem sopa de cordeiro – avisou um dos ajudantes – quem quer?

— Eu!

— Eu!

Sentamos numa mesa só e todos saboreavam a sopa. Eu nunca tinha comido e fiquei com um pouco de frescura.

— Não vai comer? – Perguntou Millo

— Vou – Respondi – É bom?

— Prova aí.

Todos olhavam para mim bem atentos. Enchi a colher e coloquei na minha boca. Meus olhos arregalaram, coisa boa da porra. Aquilo estava bom demais, bicho.

— Incrível. – Resmungou um ajudante, lendo o Profeta diário

— Que foi?

— Não divulgam o que fazemos, mas o fato de Jeffeson Viquen casar, todo mundo precisa saber.

— Não fazemos por reconhecimento, fazemos porque gostamos – Explicou Agatha – Só de ver aquelas pessoas sorridentes, já ajuda muito. Reparou que veio mais gente esse ano?

— É, Agatha. Mas não dá pra ajudar mais gente com o dinheiro que temos. Bater de porta em porta, pedindo esmola não é o suficiente.

— É, e ninguém quer empregar a gente.

— Ora, vamos deixar isso pra lá. Novo ano, novos sonhos. O que acham que terá esse ano?

Morte e desgraça. Cheguei na mansão lá para as sete da manhã.

— Como vai, festeira? – Perguntou Daphne – Se divertiu muito?

— Não sabe como, foi incrível, Daph! E você?

— Dormi de oito e meia.

— Que droga, em.

— É. Mas foi legal. Francis perguntou por você.

— Quem é Francis? – Intrometeu-se mamãe

— Irmão de Susan – Ela franziu a testa – Minha amiga.

— Ah, ela. Não gosto daquela garota, ela tem um jeito.

— Que jeito, mamãe?

— Nada, esquece.

Após me banhar, me tranquei no quarto e fiz algo do que não me envergonho. Uma falsificação. Escrevi uma carta para Gringotes como se fosse Daphne, pedindo uma transferência de cinquenta mil galeões para conta de Agatha. Era muito nova, não entendia tanto de matemática. Devia ter mandando um milhão.

Uma hora depois, eles mandaram uma carta confirmando a transferência. Hoje, Daph sabe disso e diz que eu devia ter mandado mais. Me senti uma pessoa melhor com meu ato. Ajudar as pessoas sempre é bom. Só que depois eu precisei de ajuda.

Os N.O.Ms seriam no ano seguinte e não estava nem um pouco a fim de repetir.

— Nunca cheguei a fazer essas coisas – Contava Hagrid, quando o ajudava com suas feridas – Enquanto meus antigos colegas estudavam, eu cuidava de dragões.

— Dragões?!

— Não devia ter dito isso. Não devia ter dito isso. – Olhou para a janela – Ei! Saiam daí!

Draco e seus amiguinhos pisavam nas aboboras de Hagrid. Ele pegou a pá e os idiotas correram com medo.

— Nojentos! – Xingou Hagrid – Não se aproxime deles, Ast. Merlin que me perdoe, mas não são boas pessoas.

Quanto mais diziam para eu me afastar de Draco, mais eu me aproximava. Mesmo que não fosse propositalmente.

— No que está pensando? – Quis saber meu grande amigo

— No próximo passo do Lorde das trevas.

— Sabe de algo?

Sim.

— Não. E nem quero saber, essa guerra não é minha.

— É nossa. Temos que lutar pela igualdade social.

— Acho lindo, a sua disposição, Hagrid, mas nunca vai haver igualdade social. Sempre terá um babaca que quer nos rebaixar. Em uma guerra, não existe vencedor, todos perdem.

— Sábias palavras. – Dumbledore me deu um susto, aparecendo sentado na grande poltrona – Srta. Greengrass, poderia me fazer um favor?

Seu amigo caçava Horcruxes? Eu era uma espiã. Ok, espiã não é bem a palavra certa, espião foi Snape. Dumbledore sabia que eu estava certa e que não me juntaria totalmente a um lado, eu estava entre os dois. Tudo o que tinha que fazer era continuar com as minhas ideias e compartilhar com meus parceiros sutilmente. Segundo ele, meus argumentos eram bons demais para que alguém não concordasse.

— Oi, Astória – Cumprimentou Francis, quando andava no corredor

— Oi, Francis.

— Então... Soube de um novo filme que vai estrear?

— O que é um filme?

— É... Como se fosse fotos, várias fotos juntas e elas duram por muito tempo.

— Quanto tempo?

— Ah, depende. Alguns duram duas horas.

— Duas horas?!

— É, e é bem legal. Eles falam e tem uma história bem bacana. Aposto que iria gostar.

— Se eu não dormir antes. Como alguém pode ver uma foto por duas horas?

— É o que minha irmã sempre diz quando vejo sua foto.

Mais direto que isso, só a cara do Lorde das trevas. Ok, piadinha ruim porque não tem nariz. Fiquei um pouco boquiaberta sem saber o que dizer. Quando vi uma garotinha do primeiro ano sendo atormentada.

— Me devolve! – Mandou ela

— Vem pegar! – Draco esticava o livro dela no alto e seus amigos riam – Pega, sangue-ruim!

Podia está tendo a guerra que fosse, não deixaria alguém sendo humilhada assim.

— Devolve a ela, Draco! – Pedi sem paciência

Não estávamos sozinhos, ele estava com os amigos. Então faria o papel de babaca.

— E o que eu ganho com isso?

— Que tal não levar uma surra na cara? – Ameaçou Francis

— Deixa – Me aproximei lentamente – Poderia devolver o livro dela, por favor?

Sem tirar os olhos de mim, Draco deu a garota. Seus amigos ficaram espantados. Parece que nunca vão se acostumar que eu que mando nessa porra.

— Obrigada, pitelzinho.

Apertei a bochecha dele e continuei a caminhar.

— Como fez aquilo? – Interrogou Francis, me acompanhando

— Educação e gentileza são coisa que Draco Malfoy não consegue combater.

E nisso, eu tenho razão.

— Eu disse, ele gosta de você.

Eu e Luna nos arrumávamos no banheiro, faltava um dia para o jogo da Grifinória VS Corvinal, e os leões estavam mais envergonhados do que nunca.

— Espero que eles ganhem a taça. – Desejou Luna

— Sério? Não quer que sua Casa ganhe?

— Os corvinos já ganham na vida, os grifinórios gostam de aproveitar o momento.

— Faz sentindo. – Daphne e Susan entraram cantando Ei, ei, ei, Weasley é nosso Rei – Daphne, o que eu disse sobre essa música?

— Mas é uma paródia! – Explicou Susan

— Uma paródia?

Weasley é nosso rei
Weasley é nosso rei
Não deixou a bola entrar
Weasley é nosso rei

— Luna, ‘tá pensando no que eu ‘tô pensando?

— Cabeças de leões.

— Vem comigo.

Fazer uma ação boa me inspirou em fazer outras ações boas, como essa.

— Quer que a gente toque isso? – Perguntou o líder da banda de Hogwarts, Boggie Lowes

— Por favor. – Pedi

— Não.

— Te pago cem galeões.

— Não me vendo tão facilmente, garotas.

— E o que você quer?

— Conhece alguém que sabe tocar tuba?

Tem mil instrumentos legais, no mundo. Me colocaram para tocar justamente essa merda. Fazer todo mundo cantar foi fácil, até alguns professores colaboraram.

— Muito criativa, Greengrass. – Elogiou Mcgonagall

— Ah, não fui eu. Foi minha irmã.

— Parabéns às duas.

— Obrigada.

Alguns professores nem se lembravam quem eu era.

— Obrigada, srta? – Questionou a madame Houch

— Greengrass.

— Não está no segundo ano?

— Essa é a minha ir... Deixa pra lá.

Detalhe: tivemos que fazer tudo isso dentre de catorze horas. Não foi fácil.

— Essa é a roupa?

Parecia aquelas camisas brancas de soldadinhos bonitinhos. Usava uma calça preta, sapatilha e aquele chapéu estranho.

— Solta o cabelo. – Mandou ele – Parece um homem assim. Você não é um homem, né?

— Não!

— Ah, melhor assim.

Suspirei e soltei o cabelo.

— Lindona! – Daphne tirou uma foto – Sorria!

Dei um sorriso sem mostrar os dentes.

— O jogo já vai começar – Anunciou Luna – Boa sorte, Ast.

Nos abraçamos. A banda meio que divide o vestuário com os atletas, os panos que separam, pude ver Gina um pouco nervosa. Ela me notou e sorri para ela. Ela pensou um pouco e não correspondeu porque tinha que sair. E eu também.

Onde eu aprendi a tocar tuba? O pai de Luna me ensinou, ela que não quis muito aprender. Fiquei um pouco nervosa, era para sair como tinha sido planejado. Os capitães apertaram as mãos, os jogadores voaram e a música começou.

Weasley é nosso rei
Weasley é nosso rei
Não deixou a bola entrar
Weasley é nosso rei

Weasley defende qualquer bola
Nunca deixa o aro livre
E por isso a grifinória canta
Weasley é nosso rei

Weasley é nosso rei
Weasley é nosso rei
Não deixou a bola passar
Weasley é nosso rei...

Não olhei tanto para os jogadores por estava mais concentrada em soprar, só sei que Weasley foi muito bem no jogo e o carregaram para dentro do time. Aquela vontade de ir lá e comemorar com vocês foi grande, mas... Eu não pertencia e nem pertenço a isso. Troquei de roupa e segui para meu quarto.

— Ei, Ast. – Luna me chamou – Mandou bem na tuba.

— Valeu.

— Só uma coisa: eu sabia tocar.

— Safada!

— É, eu sou. Tchauzinho.

Subi para o salão comunal, parecia um enterro. E meu sorriso só irritou mais o povo.

— Qual a graça? – Perguntou Flora Carrow

— Nada, nadica de nada.

Dormi feliz naquela noite e sonhei como teria sido se eu fosse para Grifinória. Se eu ainda seria amiga de Gina, se estaria comemorando com vocês, se ganharia cinco pontos por um espirro. É, podia ter sido legal. Mas é porque não estamos na parte boa da minha adolescência.

Devolvi o livro à madame Prince e tivemos nosso chá, como de costume.

— E o que achou do final? – Me perguntou

— Não gostei, Reginald deixa Amélia partir? Cadê a paixão? O amor? Acabou assim?

— E a continuação?

— Continuação?

— Sim, depois do final, têm folhas manuscritas.

— Mas eu não... Posso pegar de novo?

O novo final era lindo. Amélia havia dormido no bosque quando Reginald voltou. Disse que fugiria com ela e nada impediria. Ela engravidou e juntos criaram o novo herdeiro, Morgano. Já deve saber de onde veio o nome do meu filho.

— É lindo! – Exclamei na mesa da Sonserina – Tem que ler, Daph. Nunca li coisa tão... Tão... Majestosa!

— O que é majestosa? – Perguntou minha irmã

— Algo lindo, como eu – Respondeu Susan – Quem escreveu?

Não queria dizer que foi Draco, podia ferir o orgulho másculo dele. Vai entender.

— Um amigo.

— Por que não diz essas coisas pra ele? Vai que consegue um namorado.

Daphne morria de medo, então sempre ficava perto de mim e de Susan. Mais perto de Susan, eram melhores amigas e falavam de tudo. Principalmente em me arranjar um namorado.

— E-Eu não preciso de um namorado e c-com licença.

Susan estava certa, eu devia agradecer ao meu novo escritor favorito. Após o treino de quadribol, tive a brilhante ideia de procurar Draco no vestiário. Péssima ideia. Ele estava sem camisa e com a toalha enrolada na cintura.

— Astória?! – Ele perguntou – O que faz aqui?

— Eu-Eu – Gaguejei muito nervosa, os garotos já estavam rindo de mim – P-P-Preciso falar com você e com roupa. É, é isso!

Me virei de costas, morrendo de vergonha.

— Saiam! – Mandou ele

— Ah, Malfoy – Reclamou Zabine – Não posso ver um pedacinho?

Draco jogou um sapato nele, o que me fez rir. Todos saíram e me virei de volta.

— É pra estar com roupa! – Reclamei

— Não, assim fica mais divertido. Ver você com essa sua cara é hilário. – Revirei os olhos – Então, o que a rainha quer?

— Queria... Te agradecer.

— Agradecer?

— É, o que você escreveu foi... Muito legal, eu gostei muito.

— Do que está falando?

— Disso – Mostrei o livro – Foi o melhor final que já li, até a madame Prince gostou.

— É mesmo? Acha que eu escreveria uma porcaria dessas?

— Não, tenho certeza.

— Até parece que eu ia perder meu tempo com uma idiotice dessa.

— É, tem razão. Nunca faria isso.

— Acha que não capacidade de escrever isso?

Dei um passo à frente.

— Acho que não tem capacidade de mostrar seu verdadeiro eu, que isso não passa de uma máscara. Você é um menino sensível.

— Sensível? – Riu – Na boa, Astória, vá embora. Que diferença faz? Você não passa de uma esquisita! Por que não vai atrás da sua turma de perdedores? Ah, é. Nem eles te querem!

Fechei os olhos e suspirei.

— Tchau, Draco.

Saí normalmente, os jogadores do time estavam do lado de fora, esperando por algo. Sem querer causar fofocas, fiquei com minha cara normal, como se nada tivesse acontecido.

Disse que Draco usava uma máscara, e eu? Devia ganhar o Oscar por tanta atuação. Era tão quietinha, só fazia questão de falar com minha irmã, os outros eram insignificantes para mim.

— Rápido! Ela está vindo!

Era o que eu queria que fosse verdade. Neville, Luna e Gina fugiam. Logo em seguida, Crabbe e Goyle iam atrás. Vi Draco andando com um sorriso malvado, segurei em seu pulso e o puxei para o armário de vassouras.

— Me solta, Astória!

— O que está acontecendo? Por que estão perseguindo eles?

— Por que se importa? Eles não querem mais saber de você!

Apontei a varinha para seu pescoço.

— Pode falar do jeito fácil, ou no difícil. Você escolhe.

A porta foi aberta.

— O que o casalzinho pensa que está fazendo aqui? – Interrogou Filch

— Essa maluca me trouxe até aqui e quer me torturar!

— Não seja cínico, Draco!

— Filch, a diretora precisa de mim!

— Vá!

Draco me deixou, sem antes, tocar em meus dedos.

— M-me desculpe, sr. Flich. O senhor sempre será muito importante pra mim.

— O quê?

Pisei em seu pé. Sua gata maluca tentou agarrar minha perna e a chutei para a janela, quebrando o vidro. Filch foi atrás da gata e eu, de quem precisava de mim. No corredor, te vi sendo levada sendo levada pela vaca rosa, junto com seu amigo. Coisas ruins aconteciam.

Olhando pela janelinha da porta, meus antigos amigos foram encurralados por integrantes da Brigada inquisitorial. E eu tinha um plano. Uma distração resolveria tudo. Fiz o que uma adolescente comum faria, drama. Me joguei no chão, fechei os olhos e gritei bem alto.

— Astória? – Draco se abaixou e deu leves tapinhas no meu rosto – Astória, Astória!

Não deu outra, o disparo de feitiços iniciou. Não vi, ouvi, Draco se levantou e levou um soco no olho do seu marido. Abri os olhos e tentei sair dali.

— Sua traidora!

Parkinson teria me acertado se Luna não tivesse conjurado feitiço de proteção. Tentando ignorar o olhar magoado de Draco, segui Luna e os outros. Então lembrei da ameaça, nossa amizade morria ali.

— O quê? – Questionou Luna – Eu não vou te deixar, não! É minha família!

— E como sua prima, mando você embora. Vai, Luna!

Ela me abraçou e voltou a correr. Já esperava o pior, a sentença. Talvez Draco só me ignorasse até as coisas voltarem ao normal, mas tinham outras pessoas envolvidas. Pessoas que queriam minha cabeça. Me escondia debaixo das arquibancadas, abraçando minhas pernas. Procurei pelo livro que Draco havia terminado e acabei pegando o presente de mamãe por coincidência. Será que era mesmo?

— Bem, estou em um conflito.

No frasco tinha a imagem de uma menina se olhando no espelho, ela era muito bonita. Talvez desse certo. Tirei a tampa, respirei fundo, apertei o rabo de cavalo e tomei um gole. Coisa ruim, ruim, mais pense em coisa ruim. Não fez muito efeito no início. Já estava para anoitecer, alguma hora, tinha que voltar.

Entrei lá e todos se viraram para mim. Uma reunião séria do que fariam comigo, a traidora. As pessoas que me lembro que estavam lá era Blásio, Parsy, Draco, Crabbe, Goyle, Flint, Pucey, as Carrow, Nott e... Acho que era só eles, não me lembro muito bem. Todos esses citados são meus amigos.

— Sente! – Mandou Flint e eu fiz – Astória Greengrass, catorze anos, boa aluna, não muito social. Mudou seu comportamento radicalmente. Passou a agir como uma pessoa descente. Surpreendeu a todos. Agora me diga, calmamente, o que te fez nos trair assim? Porque sempre fomos acolhedores, sempre te respeitamos, até quando andava com aqueles pobretões, ninguém mexeu com você. Estou errado? – Não respondi – Não precisa ter medo, Greengrass. Ninguém aqui vai te julgar. Queremos ouvir o que tem a dizer primeiro. Alguém te machucou?

Poderia dizer que foi Parsy, mas ela só me irritava por causa de Draco. Ela até parecia um pouco assustada.

— Não.

— E o que te levou a isso? Informações seguras comprovam que você se afastou dos traidores, chegaram até brigar. Estou errado?

— Briguei apenas com a Weasley.

— Agora, me diga: por que ajudar ela? Por que se importar? Não gostamos deles por serem pobres, nãos gostamos deles porque é uma desonra ao nosso sangue, saber que eles se misturam com qualquer um. É triste dizer isso, mas tiveram momentos passados que nossas famílias passaram por certas fases. Sabe o que fizemos? Nossos amigos nos ajudaram. Eles são dignos de ajuda?

— Por que brigou com a Weasley? – Se interessou Adrian Pucey

— Cantei Weasley é nosso Rei e ela não gostou.

— Só isso?

— Ajudei a humilhar o irmão da minha amiga.

— Ex-amiga. – Corrigiu Draco, como se gostasse de pronunciar essa palavra

— Greengrass, eles mesmo já se humilham. – Explicou Parsy – Não precisa nem da nossa ajuda. Já você, é problema nosso.

— Desde quando?

— Desde o momento que colocou essa correntinha – Respondeu Pucey – Ou segue as regras, ou-

— Ou o quê?! – Enfrentou Draco – A gente não vai partir pra violência, né? Tudo bem que ela errou, mas a gente não precisa agir assim!

— Calma, Malfoy – Pediu Flint – Ninguém aqui vai partir pra violência até que o caso pareça extremamente sério. E sabe o que acho? Que ela é uma pobre menina ingênua que foi influenciada.

Pode ter sido efeito da poção, fiquei calada. Mesmo tendo meu pensamento já feito e meus argumentos formulados, sentia a necessidade de ficar quieta. Hestia levantou a mão e Marcus permitiu que falasse.

— Não acho que ela é ingênua, porque a conheço – Lascou, pensei naquele tempo – Sei o que pensa: que somos um bando de esnobes ridículos. Não é, Greengrass?

Passei a língua pelos meus lábios e apertei meu rabo de cavalo.

— Todos tem um jeito de agir e pensar. — Falei — E todos podem mudar. Meu pensamento pode ter mudado.

— Assim tão rápido? Só se passaram horas desde o ápice da sua traição.

— E o que você sugere, Hestia? – Quis saber Marcus

Ela e Flora se olharam e assentiram.

— Ela pode se tornar uma de nós – Sugeriu Hestia – Faça algo que nós faríamos, uma brincadeira que seja.

— Ou ela pode pagar o preço agora – Propôs Flora – Uma marca permanente.

— Ela escolhe. – Finalizaram

— Alguém tem mais algo a declarar? – Draco levantou a mão – Sim?

— Não precisa ter violência, ok? Por que a gente simplesmente não esquece isso?

— Porque não funciona assim, Draco! – Irritou-se Blásio – Cara, elas nos traiu! Mesmo que não pense como a gente, não tinha o direito de se meter no nosso caminho! Ou você quer pagar pela traição dela?

Todos olhamos pra ele. Draco gaguejou um pouco.

— E-E se eu q-quiser pagar pela traição dela? Qual é, isso é ridículo!

— Ast?

No viramos para a escada. Daphne estava de camisola, um pouco sonolenta e muito preocupada. Me levantei da poltrona, me abaixei da altura dela e peguei nas suas mãos.

— Ei, o que faz aqui? Está tarde.

— Ouvi um barulho, tinha alguém gritando.

Draco, Crabbe e Goyle deram barrote em Blásio.

— Já passou, ok?

— Por que está todo mundo aqui?

— Estamos... Falando sobre quadribol. Pensando nas próximas táticas e tudo mais.

— Vai entrar pro time?

— Não, a atleta é você – Toquei no nariz dela – Vai dormir, vai.

Daph me abraçou, beijou minha bochecha e subiu para seu quarto. Me sentei na poltrona de coluna ereta e com a expressão séria. Não demonstrava fraqueza, efeito da poção.

— Flint – Ele olhou para mim – Se envolver minha irmã, vai ser enterrado no meu quintal – Ele arregalou os olhos – Pode deixar que eu pago pelos meus erros, já sei o que fazer. Por hoje é só, boa noite!

Fui para o quarto da minha irmã, dividia a cama com Susan. Não suspeitava de nada, no momento. Fui para o meu quarto e coloquei a camisola.

— Sabe, Astória – Falou Hestia – Não precisa ser algo escandaloso.

— Empurrar um sangue-ruim já basta.

— Obrigada pelos conselhos.

Dormi um pouco, mas fui acordada por gemidos. Não esses gemidos. Acendi minha varinha e vi Draco apanhando de todos os meninos que estavam na reunião. Não era tudo de uma vez, cada um dava um soco. Eu quis ir, tentei mesmo. Minhas pernas não obedeciam, a poção não deixava. Deve ser porque damas não se intrometem em lutas. E tive que assistir tudo de camarote.

Após dez ou quinze minutos, Draco foi deixado no chão e os garotos subiram para seus quartos. Então consegui o controle das minhas pernas.

— Draco! Draco!

O rosto dele estava todo roxo e cheio de sangue.

— Melhor te levar para Ala hospitalar.

— Não... Vá... Bora...

— Bora?

— Em... Bora... Vá...

— Mas, Draco-

— Vá...

Ele tossiu. Tempos depois, descobri que fazia parte das regras ficar sem ajuda por três horas. Os meninos voltaram após esse período.

Ele fez isso por quê? Gostava de mim ou não? Qual era a dele? Sei que horas depois, Sirius Black foi morto, o pai dele foi preso e a volta do Lorde das trevas foi confirmada. Sabia que ele tinha voltado, do estrago que faria, do medo que eu e Daphne sentíamos.