RYAN

Saltei de onde estava quando ouvi as pancadas surdas que ecoavam no fundo da Clínica, onde a passagem havia sido fechada com tábuas. Peguei minha espingarda e a ergui em direção ao som, enquanto Chloë, atrás de mim, segurava meu ombro, assustada.

Gail tinha pegado sua pistola também. Já os outros zumbis haviam se escondido assim que ouviram as pancadas.

– Quem está aí? — gritei. Seria um humano? Ou um zumbi?

– Ryan? Ryan! — arfou uma voz do lado de fora.

Gail deixou o braço cair ao lado do corpo.

– Doutor Shawn?

– Quieta, Gail! — alertei-a.

– Quem é? — sussurrou Chloë ao meu lado.

– Um médico que mora junto com os outros no shopping — sussurrei em resposta, preocupado. O que Shawn viera fazer ali?

– O que você faz aí dentro? — Shawn indagou — posso entrar?

Eu e Gail nos entreolhamos. Se deixássemos Shawn entrar, correríamos o risco de sermos denunciados, ou até de morrer ali mesmo. Por outro lado, não tínhamos escolha, afinal não íamos atirar nele. Nunca teríamos coragem para isso; o doutor Shawn salvou a vida de muita gente da comunidade do shopping, quando alguns estavam em risco de vida. Era uma pessoa boa. Poderia entender o que fazíamos ali.

– Eu vou sair pela claraboia — avisei para eles — Gail, mantenha os zumbis escondidos enquanto entramos... se ele reagir bem, talvez possamos mostra-los.

Chloë choramingou ao meu lado.

– Ryan... não vá... por favor...

Beijei sua testa, inconformado com a angústia em seu olhar.

– Vou ficar bem. Shawn é um cara legal. Vai entender o que estamos fazendo — abracei-a antes de me dirigir à claraboia — não vai me machucar.

Todos os zumbis se encolheram contra as sombras da Clínica. Chloë se juntou à eles, com uma relutância penalizante no rosto.

Mas, antes que eu pudesse subir, uma movimentação desagradável começou acima de nós. Quando nos demos conta, um vulto troncudo caiu da claraboia para as almofadas no meio da loja, se erguendo em seguida. Eu e Gail recuamos quando o doutor Shawn se aproximou de nós. O médico estava estupefato.

– Santo Deus — ele arfou, olhando ao redor — o que é tudo isso? Por que estão nesse lugar? O Comitê pediu para vir atrás de vocês... o que estão aprontando aqui? fazem cinco horas que vocês saíram da comunidade!

Gail ia abrir a boca para responder, mas foi interrompida por uma movimentação veloz aos nossos pés.

Shawn recuou vários passos quando Pim apareceu diante da luz da claraboia. Ela sentou com as pernas cruzadas, olhando para o doutor com uma curiosidade infantil no olhar.

– Ryan! — Shawn ficou branco — é uma criança zumbi! Uma criança zumbi!

– Doutor, se acalme — Gail ergueu as mãos — ela não vai atacar ninguém.

Shawn estava emudecido, encarando a pequena zumbi. Parecia aterrorizado... mas também estranhamente fascinado.

Era um bom sinal.

– Ela parece uma criança zumbi — ele parecia completamente confuso — mas não é igual às que eu vi... ela parece mais clara... e... — Shawn balançou a cabeça, com os olhos arregalados — inofensiva.

Para nossa surpresa, Shawn se agachou e ergueu os braços para Pim. Não foi mais surpreendente, claro, do que Pim abraçando o pescoço do médico e indo para seu colo como uma bonequinha.

– Ryan... você sabe o que isso pode significar?

Pela expressão e tom de voz dele, parecia que já havíamos ganhado mais uma pessoa para nossa causa.

– Eu não acho, Shawn... — sorri — tenho certeza. Há uma cura para os zumbis. Olhe pra ela... não parece estar se curando?

– Sim — ele começou a examinar, cautelosamente, o corpo de Pim — os olhos lacrimejam, olhe só... a pele não está acinzentada... e ela parece muito com uma criança humana... é como se vários fatores psicológicos externos tivessem provocado a mudança no cérebro dela, alterando eu comportamento e, de certa forma, provocando essa transição lenta de volta ao estado humano. Isso é.. — ele começou a sorrir — incrível!

Ele olhou outra vez para a Clínica e somou dois mais dois.

– É isso que vocês fazem aqui? — Shawn arfou — adaptaram esse lugar para tentar tratar essa menina? Isso foi uma completa loucura — ele ergueu a sobrancelha dando uma risadinha incrédula — mas uma loucura que está dando certo. Se o Comitê soubesse...

Ele se calou, arfando.

– Céus, doutor, eles não podem nem imaginar o que acontece aqui! — Gail gemeu — eles não creem numa cura... o senhor sabe disso! Matariam todos nós... eu, Ryan, os zumbis...

Foi a vez de Gail se calar.

– Os zumbis? — Shawn ficou lívido — há mais de um aqui?

Fiz sinal para que Chloë, Carl e Julia se aproximassem. Eles saíram das sombras, aparecendo de um modo temeroso.

– Na verdade — comentei, quando Chloë surgiu ao meu lado — tudo começou com a Chloë.

Ela me abraçou, olhando para Shawn com uma timidez adorável no olhar.

Shawn finalmente deu um sorriso largo, que mostrava todos os dentes.

– Então foi ela quem começou tudo — ele me olhou de um jeito brincalhão, e, para meu choque, ergueu a mão em direção à Chloë — prazer... então foi você que fisgou nosso Ryan?

Chloë arregalou os olhos, olhando para mim. Eu assenti, encorajando-a. Ela levantou a mão e apertou a de Shawn, envergonhada.

Shawn analisava cada reação de Chloë como se visse seu filme favorito, não querendo perder nenhum detalhe.

– Ryan, ela... — ele riu, maravilhado — está à uns três passos de se tornar humana... percebeu? Dá para ver de longe o sangue que começou a correr outra vez pelo corpo. Ela não está corada ainda, mas não falta muito para a pele ficar pigmentada outra vez... ela já fez alguma refeição que não fosse, sabe... a dieta de zumbi? Já chorou ou se machucou?

– Já — murmurei, não querendo lembrar das poucas mas dolorosas vezes em que a vi chorar e sangrar — e ela dorme também.

– Fantástico! — Shawn gargalhou.

Chloë parecia não estar gostando nada de ser citada como se nem estivesse ali. Ela me deu um tapa no peito, como uma criança birrenta. Isso só fez Shawn rir ainda mais.

– Olhe só isso, Ryan! Ela tem toda a gama de sentimentos que se esperaria de uma garota humana da idade dela! Meu Deus — ele ergueu os braços para a Clínica — o que vocês estão fazendo aqui supera qualquer coisa que eu pudesse imaginar ao vir procura-los. Vocês estão dando outra chance da humanidade reviver outra vez! Dois garotos — Shawn suspirou fechando a cara

"Sempre pensei na possibilidade de paramos com essa matança generalizada e tentar recuperar os zumbis em vez de elimina-los... mas aqueles babões do Comitê nunca deram bola para o que eu pensei sobre isso. Eles deveriam ter a obrigação de procurar dar um fim à isso, tentar salvar vidas, e não tira-las. Mas para isso teriam que descobrir que os zumbis tem, sim, no fundo, uma vida que pode ser recuperada."

Ele olhou para nós outra vez, pensativo.

– Só que o senhor é um cara inteligente, doutor — resmungou Gail — mas pense no quanto ia demorar para outro humano assimilar o que o senhor acabou de ver e ouvir aqui. Não podemos nos arriscar à mostrar isso para os sobreviventes agora. Tem que continuar a ser segredo... pelo menos por mais algum tempo.

Shawn assentiu.

– Sim, Gail — ele acenou para Julia, que dera um adeusinho de seu canto, e piscou para Carl — mas acho que posso auxilia-los nisso.

– Claro que pode! — Gail bateu palmas — assim nós poderíamos acelerar o tratamento.

– Mas acho que vou ter que voltar para a comunidade e dar uma desculpa para o nosso sumiço uma vez por dia — ele olhou em direção a claraboia — se vamos fazer isso para valer, vamos ter que nos revezar em acobertar esse lugar e os zumbis que estão aqui.

– Tem razão, doutor — Gail parecia não caber em si de animação.

– E vamos nos curar, não é? — indagou Chloë; Shawn congelou ao ouvir a voz dela, já que ainda não a ouvia falar.

– Sim, minha cara menina — Shawn parecia uma criança trancada dentro de um parque de diversões vazio; estava impressionantemente contente — vocês vão se curar. Se continuar assim, será apenas questão de tempo.

Gail abriu um sorriso arrebatador em resposta. Chloë me abraçou, também sorrindo fracamente.

Parecia que as coisas estavam indo finalmente para algum lugar — um lugar bom, onde zumbis voltariam a ser humanos e todos voltariam a viver com suas famílias e amigos. Um lugar onde tudo fosse normal outra vez.

Eu só não sabia o como fui ingênuo em pensar que tudo continuaria bem nesse trajeto.