Voltando à Viver
10 Conciliação
RYAN
Me separei tão rápido de Chloë que seu ela caiu no chão; uma expressão nova — de vergonha e constrangimento, somados com uma leve irritação — invadiu seu rosto.
Gail socava a porta, com uma expressão aterrorizada, olhando para nós.
Corri para abrir a loja; assim que puxei a porta, usei a outra mão para trazer Gail para dentro, sem nenhuma cerimônia. Tranquei a porta outra vez, esperando ouvir os gritos dela agora que estava na zona de perigo.
Gail estava tão embasbacada que sua boca, apesar de se mexer, não emitia som algum.
Chloë pigarreou baixinho, o que só deixou Gail mais congelada ainda. Ela tremia e seus olhos olhavam horrorizados de mim para Chloë.
Quando ela conseguiu falar, sua voz era um simples fiapo de passarinho.
– O que... Ryan? É... um zumbi... vocês estavam...?
Pela primeira vez, Chloë revirou os olhos. Parecia tão irritada por Gail ter nos atrapalhado que eu quase ri, mas isso provavelmente não ajudaria-a a se recuperar do susto, então me segurei.
Sentei Gail na banqueta do balcão e lhe ofereci um copo de água. Ela esvaziou-o de uma vez.
– Gail.... por favor, por favor... tente se acalmar. Vou lhe explicar tudo se você prometer que vai ouvir de mente aberta.
Gail me encarou, ainda paralisada.
Chloë parecia quase com pena da minha pobre amiga.
– Ela está com medo... de mim, não é?
Gail se virou para Chloë, chocada. Assim como eu ao conhece-la, ela não esperava que uma zumbi assim se comunicasse.
– Ela fala... — Gail estava tão confusa que a pergunta virou uma afirmação.
– Gail... você acabou de vir da reunião, não foi? Lembra o que o Comitê disse sobre os zumbis humanos?
– Ela é uma, não é? — Gail parecia ter recuperado a coragem, e agora sacudia a mão em direção a Chloë — ah, Ryan... ela te enganou e agora você acha que ela é uma pessoa boa, não é? É uma zumbi! Como... mas como...
Apesar de sua acusação, Gail ainda parecia se perguntar o por que Chloë não me atacara durante o beijo. Usei aquela brecha para abrir um pouco a sua mente.
– Ela é diferente de tudo que a gente já viu, Gail... — olhei para Chloë, que parecia um tento encabulada por eu falar dela para Gail — é incrível... ela se comunica normalmente... mesmo os zumbis humanos que o Comitê descreveu não fazem isso...
– Ela não te atacou... — murmurou Gail, parecendo receosa mas quase cooperativa com meu raciocínio.
– Não, e não foi por falta de chances. Ela entrou aqui sozinha... eu estava dormindo...
Gail arregalou os olhos.
– E... — um fantasma de uma risadinha incrédula dançou em sua voz — ela te beijou?
– Não — eu fiquei definitivamente vermelho — fui eu.
Chloë botou as mãos no rosto, parecendo mais encabulada do que nunca. Gail assistiu, surpresa, mais aquela expressão humana vinda de uma zumbi.
Gail olhou para a porta da loja. Agarrei o pulso dela, impedindo-a de se levantar.
– Gail.... você não... — arfei, preocupado — não pode falar sobre ela... pra ninguém... você sabe que o Comitê nunca vai acreditar...
Gail olhou para Chloë. Num esforço estranho, Chloë lhe sorriu... um sorriso mais humano do que os sorrisos que eu já havia visto até agora.
Gail ficou boquiaberta. E, parecendo ainda chocada, retribuiu Chloë com um sorriso confuso.
– Incrível — sussurrou Gail.
– Gail? — indaguei.
Ela me olhou outra vez, respirando fundo.
– Não... não vou falar pra ninguém — ela franziu as sobrancelhas — mas essa menina vai precisar de um banho, se quiser continuar despercebida aqui na loja. Ela quase pode se misturar com a parede mofada ali, mas daqui a pouco vai estar tão suja que nem lá vai poder se esconder mais...
Chloë tremeu quando Gail disse a palavra "menina". Devia ter achado que aquilo era o máximo que poderia esperar de simpatia de Gail por ela naquele momento. Também fiquei surpreso com a palavra tão "gentil".
– E onde você acha que ela pode tomar banho?
Gail realmente abriu uma expressão presunçosa naquele momento.
– Sua casa tem um banheiro, não tem?
Olhei para o banheiro minúsculo que ficava no final da loja. Ainda havia água e sabonete ali — afinal, eu tinha o luxo de poder cuidar da minha higiene bem longe dos olhares públicos do banheiro do shopping ou da fonte.
– Mas e se ela... bom, precisar de... ajuda?
– Você ajuda ela, ué. Vi que você se sente bem a vontade com, hã — ela deu uma risadinha maliciosa — o corpo dela.
Chloë recuou alguns passos, ficando levemente boquiaberta. Me olhava como se exclamasse "mas que garota cara de pau!".
Gail percebeu, sorrindo, o choque de Chloë.
– Brincadeirinha... ah...
– O nome dela é Chloë.
Gail ergueu os olhos para mim.
– Ela... se lembrou do próprio nome?
Assenti levemente, ainda admirando o rosto pálido e envergonhado da zumbi na minha frente. Ela parecia ão humana naquele momento... olhando para o chão, passando a mão nos cabelos sujos, balançando a perna esquerda para trás...
– Hã, bom... — Gail se empertigou, suspirando — acho melhor já ir... preparando o banho para ela, então — ela andou até o banheiro e ligou o registro, sumindo dentro do boxe em seguida.
Chloë me olhou, ainda demonstrando vergonha com nosso beijo interrompido seguido de apresentações de gente nova e banho. Ela sentou-se no lugar onde Gail estivera.
– Ryan? É o seu nome? — ela murmurou, me olhando.
– É... eu ia te falar se não fosse, hum...
– O quase-assassinato. E o... beijo. — ela riu asmaticamente.
– É — concluí, constrangido.
Me aproximei do balcão, me ajoelhando um pouco e ficando ao lado dela.
– Você.. gostou? — ela pareceu apreensiva.
– Do beijo?
Ela fez que sim com a cabeça, evitando meu olhar.
– Gostei... ah, sei lá... — confessei — nunca tinha beijado nenhuma menina antes... nem morta nem viva, quer dizer...
Ela arregalou os olhos para mim.
– Nem eu...
Fiquei surpreso. Uma garota bonita como ela nunca tivera ninguém antes ou depois de morrer? Coisa rara.... ela tinha vinte anos, era linda, provavelmente era simpática e amigável quando viva... como era possível?
– Eu... gostei... — Chloë sacudiu a cabeça, o que parecia ser seu modo zumbi de corar.
Levei meu rosto até o dela, beijando levemente sua bochecha branca.
Os olhos dela se estreitaram de baixo para cima, numa careta envergonhada tão angelical que, por um momento, tirou todas as suas feições de zumbi.
Eu só fazia aumentar meu fascínio por aquela criatura tão impossível e diferente que estava ali ao meu lado. Era algo que ninguém já havia visto ou ouvido falar antes, e, com certeza, isso só a tornava mais especial. Eu estava irremediavelmente apaixonado. Por uma zumbi.
Era um mundo muito estranho.
– Pode vir, Chloë — a voz fraca de Gail chamou-a do banheiro.
Ela me deu outro sorriso nada zumbi e se levantou, indo até o banheiro. Não pude deixar de dar um sorriso nada comum antes de Chloë desaparecer porta adentro.
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