Voltando à Viver
25 Ataque
CHLOË
Uma bizarra nuvem de fumaça surgiu do nada enquanto observávamos Julia ir em direção ao seu ninho, acompanhada de um barulho ensurdecedor.
As paredes pareciam cair ao nosso redor. Eu não estava enxergando nada.
– RYAN!!! — gritei, chamando-o.
– Chloë, estou aqui! — ouvi alguém chamar à alguns metros de mim.
– PARADOS! TODOS PARADOS!! — berrou uma voz que eu não conhecia.
Estava confusa com tantos gritos e pó ao meu redor. Andei a esmo até trombar em Ryan, que me amparou.
– Chloë... — a voz de Ryan era angustiada e apavorada; ele apertava meu braço — são eles...
Ah, não. O Comitê. Os humanos que não acreditavam em nossa cura.
Ameaçadas por armas que não podiam ser vistas em meio à fumaça, as pessoas na Clínica pararam de gritar e aparentemente ficaram imóveis.
Quando a fumaça se dissipou, um quadro terrível se expôs ao nosso redor.
Sete homens armados miravam ao longo da Clínica, cada um mirando em alguém ali.
Julia estava caída no que momentos antes era sua cama. Uma barra de ferro atravessava seu corpo, prendendo-o ao chão, e dali pingavam várias gotas de sangue para o piso da loja. Seu rosto, que há pouco tempo estava clareando, voltara a ficar cinza. Ela não se mexia ou se movia.
Estava morta.
Choraminguei, enfiando o rosto no peito de Ryan.
– Ryan! — o mais velho dos homens avançou um pouco. Tinha um rosto velho, contorcido de ódio, e trazia na mão uma espingarda.
Ryan me abraçou mais forte.
– Ninguém se mexe, ou vamos atirar! — disse um dos homens atrás do velho.
Shawn se pôs entre nós e os invasores.
– Bob... espere um pouco...
O velho — Bob — deu um sorriso sem humor algum.
– Quando ouvi falar de um zumbi dentro de sua casa, Ryan, eu custei a acreditar — Bob olhou para Ryan — ainda mais depois da reunião, quando me disseram que o mesmo zumbi ainda estava em sua casa. Achei uma ideia ridícula... imaginei que você tivesse se iludido, fingindo ter visto algo nessa coisa que justificasse não atirar na cabeça dela — ele lançou um olhar para mim. Não se via nada em seu rosto além de desprezo.
Os homens ainda estavam com as armas erguidas.
– Mas confesso que nunca imaginaria isso! — Bob exclamou — vocês desertando das incursões para ajuntar monstros em um único lugar, colocando a segurança de todos da cidade em risco! Gastando tempo e mantimentos para alimentar zumbis! O que passou em sua cabeça, hein? Que eles tivessem algo de bom nesse corpos podres?
– Sim, foi isso mesmo! — Ryan ficou na minha frente, me cobrindo com o corpo. Tentei sair de trás dele, mas Ryan agarrou meus braços — olhe ao seu redor, Bob! Você já viu zumbis assim? Já viu?
– São zumbis, Ryan — Bob ergueu o cano da arma — diferentes ou não, não passam e corpos mortos que andam por aí comendo cérebros.
– Não, não são, Bob — Shawn disse, erguendo os braços.
– Olhe quem está falando... o médico que cuida de zumbis! — Bob deu uma risada desarticulada — vai defender uma teoria ridícula de que os zumbis se curam também, doutor Shawn?
– Não aja como cego, Bob — Shawn franziu o rosto, irritado — olhe para esses zumbis! Fiquei semanas acompanhando a evolução deles. Comprovei mudanças em cada um deles... mudanças essas que você insiste em negar e fingir que não existem! Olhe para essa jovem! — ele me indicou — chegou aqui como qualquer outro zumbi e agora é quase humana! Eles comem, dormem, sonham...amam, Bob... — Shawn olhou para os outros homens armados — se essas coisas não são indícios de humanidade para você... o que são?
– O meu conceito de humanidade não vem ao caso, Shawn — Bob resmungou — o que importa é a regra clara de nossa sociedade. Zumbis devem ser mortos. É simples assim.
– Você tem medo — Ryan arfou, e, para meu choque, vi seu rosto se anuviar de choque e decepção — você não quer a cura para os zumbis. Você não quer que o mundo volte a ser como era.
Pela primeira vez, Bob pareceu se descontrolar.
– Claro que não queremos! Por que a sociedade deveria voltar a ser como era? Guerras, misérias, famílias desfeitas, excesso de pessoas no mundo? Por que não começar uma nova sociedade? Uma sociedade onde todos irão procurar o objetivo comum... obedecer às ordens e as leis de um governo superior? As pessoas lutam por liberdade, matam e morrem por isso... vai ser muito mais simples quando apenas uma parcela da humanidade sobreviver e ficar subordinada... aí sim todos poderão ser felizes, pois não tentarão procurar se libertar de nada.
– Um governo superior — Gail avançou alguns passos, alarmada — vocês querem que todos os zumbis morram para instalarem uma ditadura que suprime a liberdade! Isso não é a Segunda Guerra Mundial, Bob!
– E nem precisará ser, Gail — Bob sorriu outra vez, mas não havia ali sentimento algum — nós apenas teremos que limpar a Terra do que a imunda e formar uma nova humanidade. Humanidade essa que finalmente viverá em paz.
Ouvi armas sendo engatilhadas ao redor de Bob. Virei-me para papai, que estava atrás de Gail. Pim estava agarrada em sua perna, chorando baixinho, e Isaac em seu colo, sem reação.
Um dos homens atrás de Bob vacilou ao olhar as crianças.
– Bob... não... não podemos fazer isso — ouvi ele arfar — talvez os adultos... mas ali.. são crianças.
– São corpos, Garret! — Bob rosnou — já estão mortos! Você tem pena de um pedaço de carne quando o corta? Por que teria pena de um corpo morto?
Garret empunhou a espingarda outra vez, mas ainda parecia hesitante.
– Quem contou a você sobre Chloë? — Ryan perguntou, com o rosto contorcido de raiva.
– Uma menininha de seis anos, Ryan — Bob deu outra risada sem emoção — que viu sua amiga se escondendo nos fundos da loja. E sim, penei para acreditar numa criança daquele tamanho... mas às vezes temos que ouvir as pessoas mais improváveis.. e desconfiar das pessoas mais improváveis também... — Bob balançou a cabeça — que decepção, Ryan... como sua família reagiria se soubesse disso?
– Diria que estou fazendo a coisa certa — Ryan ainda prendia meu pulso. Eu podia sentir a raiva através do tremor em sua mão.
– Ryan... — murmurei, aflita.
– Você vai ficar bem, Chloë — Ryan disse vagamente.
Bob voltou a se virar para nós.
– Você escolhe, Ryan. Entregue esses zumbis para nós... e você, Gail e Shawn ficarão bem. Poderão voltar a viver como antes, sem toda essa loucura. Mas se vocês e negarem a cooperar... — Bob suspirou, mas seu suspiro não podia ser mais satisfeito — vamos ter que lhes dar o mesmo destino desses monstros.
Gail avançou, parecendo enlouquecida. Nunca a vira assim.
– Monstros!! — ela gritou — você olha para pessoas recuperando sua humanidade e quer mata-las! Quem está sendo o monstro aqui, Bob?
– `Preparem as armas — Bob acenou, Os homens votaram a mirar em nós — a decisão é de vocês, Ryan.
Ryan vacilou um pouco. Meu estômago corroído se revirava.
Não, não.
Eles iam morrer por nós. Isso não podia acontecer. Não podia...
– Ryan... não... — solucei — vá...vão com eles... salvem-se...
– Nunca — ele se virou para mim; sua expressão triste e resignada partiu meu coração surrado em mil pedaços — prometi que sempre ficaria com você. Não vou quebrar essa promessa. Ainda mais agora.
Abracei Ryan, finalmente deixando as lágrimas escarlates rolarem pelo meu rosto. Vi Garret recuar ao me ver chorando. Dois homens ao seu lado pareceram reparar também e, embora ainda mirassem em nós, cochichavam um com o outro.
Pim começou a chorar alto atrás de Gail e Shawn.
– Não quero... morrer,,, de novo... tio Carl — ela choramingou para papai.
Olhei para papai, que retribuiu o olhar. Ele acenou com a cabeça.
– Vai ficar... tudo bem... pardal — ele murmurou. Funguei ao ver seus olhos se embaçarem de lágrimas vermelhas — shh... calma, Pim... calma...
Os homens pareciam estar ficando chocados com o fato dos zumbis ali estarem conversando e chorando. Alguns chegaram a fazer menção de abaixar a arma.
Bob olhou para aquelas demonstrações de humanidade, sem se enternecer. Seu rosto explodiu em fúria com a insegurança de seus homens.
– O que estão esperando?? — Bob berrou — seu tempo acabou, Ryan! Se não vão voltar para a comunidade, então vocês vão acompanhar esse malditos zumbis até o inferno! Atirem!
Esperei ouvir tiros, mas nada aconteceu.
Os homens de Bob se entreolhavam, parecendo confusos.
Garret olhou para Bob.
– Não, Bob. Ryan tem razão... não podemos mata-los depois do que acabamos de ver. Aquilo não é um zumbi... é uma criança chorando... — ele gesticulou para Pim.
Bob parecia fora de si ao voltar o olhar para Garret.
Pressenti o que aconteceria. Tudo pareceu acontecer em câmera lenta.
Eu já havia me jogado na frente de Ryan antes mesmo da arma de Bob disparar em nossa direção.
Senti um solavanco familiar em meu corpo. Uma quentura acompanhada de uma dor que eu realmente não havia esperado sentir.
Tudo o que eu ouvi antes da escuridão me engolir foi o grito de Ryan:
– CHLOË!!!! NÃO!!
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