Voltando para a Família

1 Prefácio - Sonhos e desejos


O jovem bárbaro acordou assustado. Foi um daqueles pesadelos que não conseguimos lembrar de tudo quando acordamos. Mas do pouco que ele conseguia lembrar, o jovem não sabia o que era apenas fruto da sua imaginação, e o que era premonição. Não que ele tivesse algum poder premonitório, mas as coisas mais estranhas sempre aconteciam naquele reino, ele não ficaria surpreso se de uma hora pra outra ele pudesse ver o futuro.

Ele abriu os olhos e tentou ver o teto da caverna. A fogueira ao seu lado estava apenas com brasas, avermelhadas em algumas partes, mas a maioria estava coberta com uma leve camada de pó branco. A pouca luz da lua que conseguia penetrar o breu, mal iluminava o resto da caverna, por isso, quando abriu os olhos, por um breve instante, o jovem bárbaro não lembrava onde estava, e até achou que era seu quarto, em casa. Mas o chão duro, de pedra, o trouxe para a realidade, ele odiou um pouco mais aquele lugar.

Ainda deitado, ele buscou com a mão direita o seu tacape. A textura de madeira da arma deu uma sensação de segurança ao jovem. Ele fechou os olhos novamente e respirou fundo, tomando coragem pra levantar. O jovem bárbaro estava dormindo há uns dias naquela caverna, ele sempre se refugiava em cavernas daquele tipo, eram suas preferidas. Aquela em especial não o agradava tanto, pois era pequena demais para o seu amigo dormir junto dele, o animal especial estava naquele momento do lado de fora. O animal não sentia frio, mesmo assim o guerreiro achava que era uma injustiça ele ficar aquecido com o calor da fogueira, enquanto seu amigo ficava exposto ao sereno. Mas não foi possível encontrar nenhuma caverna maior naquela região do reino. O jovem bárbaro levantou ainda levemente desorientado e caminhou até a entrada da caverna, lá fora a luz da lua era muito mais forte, era possível ver a metros de distância, sem problema nenhum. A lua estava cheia, com seu tom amarelado e seu anel brilhante. O jovem olhou ao redor buscando algo de estranho. O pesadelo que o fez despertar, ainda rondava o seu pensamento. No meio da floresta a frente ele viu dois pontos vermelhos, eram os olhos de uma coruja-falcão. A ave deveria estar caçando. Ela deu um pio alto, os pontos vermelhos sumiram no breu.

Ele ouviu o relinchar tímido do seu amigo. Sob a luz do luar, os pelos brancos do animal eram ainda mais lindos e brilhantes. A imagem fez lembrar um dos comerciais de cigarro que ele via junto com o pai, na televisão aos domingos, no intervalo dos jogos de beisebol. Antes que aquela lembrança enchesse seus olhos de lágrimas, ele afastou o pensamento da cabeça. Ele já era experiente em fazer isso, ele aprendeu a deixar sua vida em casa bem guardado no fundo da sua mente. Aquelas lembranças só faziam mal.

Não fosse pelo chifre na testa, o unicórnio passaria por um dos alazões que o bárbaro vira no haras da cidade uma vez, num passeio da escola. Ele se aproximou do animal e fez carinho no seu pescoço pra acalma-lo. O animal soltou ar pelas narinas, que imediatamente viraram fumaça por causa do frio. O bárbaro encostou a cabeça no focinho do unicórnio e ficou pensando no pesadelo, as imagens do sonho ruim não saiam de sua cabeça. Ele não lembrava o que tinha de tão ruim no sonho, mas ele lembrava claramente do chão se abrindo e dentro dele, deitado, com as mãos sobre o peito, estava o Mestre dos Magos com flores nos olhos.

—Uni, há muitos anos eu não sonhava com o Mestre, o que isso quer dizer?

O unicórnio relinchou e ficou com os olhos injetados, de alguma maneira o sonho do jovem bárbaro também abalou o animal.

—Demônio das sombras, você sentiu isso? – A voz soava como um trovão no quarto grande e escuro.

—O que meu mestre? Eu não senti nada – respondeu o Demônio das Sombras, despertando do seu sono.

—É claro que você não sentiu, porque você é um fraco e inútil!

O Demônio das Sombras olhou por todo o quarto procurando seu mestre. O quarto era amplo, ficava na torre mais alta do castelo, na montanha mais alta do reino. Havia uma cama grande no centro do quarto, apesar de seu dono há muito tempo não usá-la. Era um aposento redondo, sem cantos. As paredes eram enfeitadas com grandes quadros e tapetes que contavam histórias do reino, há muito esquecidas. Em todas as histórias havia um cavaleiro montado em um corcel negro. A armadura do cavaleiro era de um brilho intenso, e na sua mão esquerda sempre havia uma espada mais brilhante ainda.

O chão do quarto era de pedra, polida e muito bonita, com joias vermelhas encrustadas ao longo de todo o quarto. Próxima à cama havia uma espécie de sarcófago, onde o mestre do Demônio das Sombras fazia o que poderíamos chamar de sono, mas era muito mais um estado de transe. Do lado oposto ao sarcófago havia uma gaiola grande, onde caberia facilmente mais de três humanos, ou um Orc gordo. A porta da gaiola estava arrebentada, como se o seu hóspede houvesse fugido. No teto do quarto havia um buraco em forma de sol, com um círculo central e vários triângulos orbitando-o. O buraco ia até o topo do castelo, e era fechado com uma tampa de cristal, assim somente a luz do sol poderia entrar por ali, protegendo o quarto da chuva. Quando o sol do reino estava no seu ponto mais alto, a luz no quarto era intensa, e o reflexo das joias vermelhas no chão, davam um aspecto de sangue a todo o ambiente.

O Demônio das Sombras olhou em direção a varanda do quarto e viu a silhueta do seu mestre. Um ser grande, com suas asas imensas e seu único chifre. O sol estava nascendo no horizonte, os primeiros raios de sol apontavam exatamente em direção à varanda, o que dava um aspecto mais gigante a silhueta.

—Mestre Vingador, o que está acontecendo, não estou entendendo – Perguntou o Demônio das Sombras.

—Algo muito importante aconteceu no equilíbrio das forças do reino. Uma grande parte da força do bem ficou neutra. Agora ela pode ser de qualquer um. – respondeu Vingador sem se virar, e continuou contemplando o nascer do sol.

A cara do Demônio das Sombras ficou sombria de repente, mas logo se iluminou, como se ele tivesse entendido tudo.

—O senhor está dizendo que aquilo aconteceu? – O Demônio das Sombras perguntou timidamente, com medo de ter entendido errado e irritar seu mestre.

—Sim seu inútil! Aquilo que eu esperei e lutei por séculos finalmente aconteceu! Agora toda a força dele será minha, e aqueles garotos intrometidos não terão a menor chance. O reino finalmente será todo meu!

Os raios mais intensos do sol começaram a aquecer a pele pálida e esverdeada do rosto do Vingador, aquela sensação era boa. Ele abriu levemente asas para receber mais a luz fresca da manhã e se permitiu fazer algo que não fazia há muito tempo, ele sorriu.