Voltando Para Mim
1 Voltando Para Mim
Hoje matei um homem.
Posicionei a arma em sua cabeça e apertei o gatilho. Seu olhar passa a fitar o infinito, e o brilho de seus olhos foram parar nas estrelas, distantes e sozinhas no espaço negro. Só o que resta é seu olhar morto que logo antes estavam em desespero e pediam perdão. O sangue que encharcou a sua camisa branca e se espalhou pelo tapete deixará uma mancha permanente, somente para lembrar que algum dia ele estive ali.
Neste momento ele deve estar com a ela em algum lugar além da nossa compreensão, apenas com seu corpo frio e gélido aprisionado na terra. Quando minha paixão não retornou e os policiais visitaram minha residência, caí em uma depressão profunda alimentada pela fúria. Aquele cretino. Como ele pôde... Ciúme, não há como negar.
Família, filhos, estudos, viagens, amores eternos. Todos esses direitos foram tirados dela no momento em que ele a assassinou. Ela teria futuro. Um futuro comigo. Nunca amei e nem amarei alguém como ela. Fui privado de tudo isso também.
Sinto muito sua falta, mas do que tudo na vida. Estou com preguiça. Estou com preguiça de comer, respirar, pensar, de tudo. Mas não de chorar. Em minha percepção, lágrimas tristes servem para aliviar a dor, e elas saem de forma incontrolável, acompanhada de umidade, soluços e agonia. Mas elas não nos livram de raiva e ódio. É estúpida a forma como a ira nos leva a agir. Não sinto culpa. Não me arrependo do que fiz.
Nada nos diferencia agora. Somos assassinos. Somos iguais.
Nunca descobriram que ele a matou e nunca poderão me punir com nada mais além da dor que eu já sinto. A morte é mais fácil do que sentir dor.
Hoje matei um homem. E ele está me matando também.
– Te amarei... SEMPRE...
Aperto o gatilho novamente, dessa vez em minha cabeça e observo o mundo cair ao meu redor, deixando uma mancha vermelha no tapete.
Talvez naquele lugar eu encontre-os, para, assim, tudo recomeçar.
A morte é só o início.
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