Voltando à Viver
15 Lembranças e dor
CHLOË
Minha cabeça, pela primeira vez desde minha morte, rodava.
Eu estava tonta...
O zumbi na minha frente não parecia diferente de tantos outros que eu encontrara durante minha patética vida como morta-viva. Mas ele me era definitivamente diferente.
Por que era diferente, eu não conseguia concluir.
Foi quando ele surgiu na frente da luz da claraboia no teto da loja, foi que eu o reconheci.
Ou lembrar seria o termo mais correto? Eu não tinha lembranças nítidas da minha infância, mas aquela veio com força total, de tal modo que quase me desequilibrou.
–Chloë! Volte aqui, baixinha! — gritou ao fundo o vulto grandalhão que me perseguia na campina.
– Não volto, não volto, não volto não — eu ri. Tinha cinco anos, e corria do homem que vinha atrás de mim, dando gargalhadas. Tinha uma gravata listrada em uma das minhas mãozinhas.
– Chloë, sua mãe vai me matar — riu meu perseguidor — devolva a gravata, pelo amor do Floquinho, vai. Eu tenho que trabalhar, guria.
Eu ri de novo, ainda correndo. Porém, ele finalmente me alcançou e me pegou no colo, erguendo meu corpinho até pendura-lo em um dos braços. A gravata em minha mão voou até o seu ombro. Fingi que estava chateada, encenando uma expressão de choro.
– Oh, Chloë — ele brincou, beijando minha bochecha — quando eu voltar do trabalho, eu prometo que vou brincar com você até a gente não aguentar mais!
– Oba! — gritei, abraçando o pescoço de papai.
Não era possível.
Era ele... mas... não podia ser.
O ferimento no tórax.
Balancei a cabeça. Não, eu não queria me recordar do dia em que nos perdemos de nossa família. Mas a lembrança veio mesmo assim.
– Corra, Chloë! — gritou Meg, puxando a minha mão.
– Não, Meg... papai está em casa ainda! — gritei, puxando-a para trás.
Tio Carl! — Meg chamou papai. Ele surgiu correndo atrás de nós.
– Andem, meninas! — ele nos empurrou para frente.
A caminhonete em que estavam mamãe e Tio Fred estava prestes á acelerar, só esperando que os alcançássemos.
Os zumbis surgiram de dentro na nossa casa, dos lados, de todos os lugares... estavam muito perto de papai.
– Anda, tio! — Meg chamou-o de novo.
Um grito atrás de nós me fez recuar.
Não, não!
Um dos zumbis agarrara papai e o mordera.
– Papai! Não, papai! — voltei correndo.
– Chloë, não! Ele vai virar um deles!
– É o meu pai! — gritei para Meg.
– Fred, volte! — chorava mamãe, batendo em tio Fred.
– Não posso, Makennah! Se eles forem mordidos, nós vamos morrer também se voltarmos!
– Não, mamãe! Vá com tio Fred! A gente se encontra depois!
– Chloë! — gritou mamãe. Tio Fred acelerou a caminhonete e levou-a embora do meu campo de visão.
Os zumbis cercaram Meg e eu.
Empurrei o zumbi que atacava papai. Consegui tira-lo de cima dele, mas ele me mordeu quando o empurrei.
Outro grito. Meg foi atacada e sumiu no meio de um grupo deles.
– Meg! Papai! — eu não sabia se chorava, gritava ou me deitava no chão. O meu pulso doía. Os zumbis iam comer papai e eu. Era nosso fim.
Uma saraivada de tiros choveu aonde estávamos. Senti algo bater e queimar em meu peito. Um dos tiros pegara em mim.
Papai foi atingido também, mas eu ainda podia ouvir sua respiração. Me virei para onde Meg desaparecera. mas ela estava caída, como os zumbis que nos atacaram.
– Meg.. — choraminguei, sentindo meu corpo todo doer. Meg tinha morrido. Papai estava ferido, e eu também. Eu só queria sair dali com papai e dormir um pouco.
Tudo doía.
Fiquei deitada ali mesmo, ao lado de papai.
– Papai, acorda — murmurei
Tudo foi ficando escuro. Papai não estava respirando mais. Tudo foi ficando silencioso. Os tiros sumiram.
– Papai...
Meus olhos arderam, e minha visão ficou avermelhada.
Ele havia morrido. Ele tinha desaparecido...
Mas estava ali.
Minha voz saiu mais rouca do que de costume. Eu não podia acreditar...
– Papai?
Ryan arfou. Ouvi sua arma cair e Gail dizer algo nada bonito.
– Pai? — Ryan murmurou, me encarando.
Papai me olhava. Mas não reagiu. Não atacou ninguém... mas nem se aproximou.
Ele não lembrava de mim.
Meu coração recém-despertado começou á doer como se eu tivesse sido alvejada por outro tiro.
– Papai..? Sou eu... Chloë...
Cheguei mais perto. Papai me encarou, paralisado.
– Chloë volte aqui — disse Ryan.
Eu olhei para ele. Santa Paciência... ele não ia me impedir de chegar perto do meu pai. Ah, não ia.
– É o meu pai — sibilei para ele. O que é que havia com Ryan?
– Eu sei, Chloë. Mas se afaste um pouco... nós ainda não...
Me virei para papai outra vez. Levantei minha mão até pousa-la em seu peito.
Ele ficou rígido.
Eu ia me virar para Ryan, tentando tranquiliza-lo, mas meu braço começou a doer.
Puxei-o para mim, recuando. Caí de joelhos. O que estava acontecendo.
Gail ergueu sua arma para papai. Eu não entendi o que havia acontecido. Só quando vi meu braço, me dei conta do que ocorrera.
Papai havia me mordido.
– Chloë! — Ryan me ergueu do chão, segurando delicadamente meu braço, de onde
pingava sangue.
Eu estava sangrando.
Papai me mordeu.
Comecei a soluçar.
– Papai...
– Ele não se lembrou de você, Chloë... ele não se lembra... — sussurrou Ryan, me abraçando.
– Não — gemi. Queria ir até papai... mas ele me mordeu... Por quê?
– Não, Chloë... tudo bem, calma — Ryan apertou o abraço quando comecei a chorar.
Ouvi o som do rasgar de tecido e virei o rosto ao sentir a pressão do curativo que Ryan improvisou em meu braço. Gail ainda mirava em papai. Queria que ela abaixasse aquela coisa. Enfiei o rosto no peito de Ryan.
Olhei para papai outra vez depois de um tempo. Ele mudara de posição; estava sentado no chão. Olhando para nós.
– Chloë — disse Ryan — qual nome dele? Qual o nome do seu pai?
– Carl... — eu disse, confusa.
– Ei! Carl! Carl! — chamou Ryan.
Olhei para papai, atônita. Ele parecia incomodado toda vez que chamavam seu nome.
– Carl!
–Ele reconhece o próprio nome, pelo menos.
– Você... — solucei, esperançosa — acha... que ele vai se... lembrar?
– Talvez.
– E talvez não — suspirou Gail.
Ela cercou papai com a arma. Eu ia perguntar o que ela estava fazendo, mas Ryan respondeu minha pergunta ao puxar uma corrente do chão e prende-la na perna de papai quando ele se virou de costas para nós.
Quando se virou, papai rosnou ao ver aquilo em seu tornozelo.
Olhei para Ryan, querendo chorar outra vez. Tive que desviar o rosto.
quilo era horrível demais. Papai preso como um bicho.
– Desculpe, Chloë... me dói a alma ter que prende-lo... mas... não posso correr o risco dele te atacar outra vez. Ou atacar Skype. Não dá...
Eu sabia disso... mas ainda assim, era doloroso.
– Eu... sei, Ryan... só achei... que ele se lembraria...
– Nós vamos tentar. Prometo, Chloë... — ele me olhou, e a determinação em seu olhar me reconfortou um pouco — nós vamos fazer de tudo para você e seu pai ficarem bem e voltarem ao normal outra vez.
Abracei-o mais forte. Ryan era definitivamente a pessoa mais maravilhosa do mundo. Meu peito morto parecia concordar ao ressoar outra batida do meu maltratado coração. Ele ia nos ajudar. Ia conseguir nos curar, se fosse possível.
E papai e eu ficaríamos bem outra vez.
Olhei para papai, suspirando.
"Vamos ficar bem, papai" disse a mim mesma. "Nós vamos ficar bem".
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