Voltando à Viver
23 Esse instinto maternal
CHLOË
Eu mal acreditava no que estava acontecendo; Mais um humano havia acabado de concordar em cuidar de nós.
De início, achei o doutor Shawn quase suspeito e inconfiável. mas quando vi um sorriso surgir quando olhou para Pim, senti que realmente tínhamos convencido mais uma pessoa a nos ajudar.
Os dias seguintes transcorreram com muito mais calma. Com Shawn encobrindo a Clínica, todo o esquema de tratamento de zumbis continuou com muito mais serenidade e sossego.
Eu não tinha inteligência humana o suficiente para perceber as melhoras nos zumbis ao meu redor, mas eu me sentia mudar cada vez mais — ao menos por dentro.
Meu coração, pobre órgão, estava começando a se acostumar a bater outra vez. Eu me sentia com um vigor físico que nenhuma vez senti quando ainda era uma zumbi comum. E tinha aquele sentimento irritantemente maravilhoso que saltava em meu peito morto toda vez que via Ryan.
Eu estava começando a achar que ele realmente nunca me abandonaria... eu voltando a ser humana ou não. Ryan era um garoto maravilhoso com o coração do tamanho do mundo, fazendo algo que a maior parte das pessoas sequer cogitaria se arriscar à fazer. Quem se arriscaria tanto para salvar pessoas que todos consideram simples bestas sem sentimentos?
– Pim, me ajuda aqui, coisa fofa? — brincou Gail ao meu lado, fingindo segurar com dificuldade uma bola de praia nas mãos.
Pim veio saltitando até Gail, e puxou a bola dela com um sorrisinho maroto no rostinho pequeno. Era como uma boneca do mal — fofa e arrepiante ao mesmo tempo.
Papai riu, e senti meu peito estufar outra vez, como uma bola murcha sento enchida com ar. Quanto tempo que não fazia desde a última vez que ele rira assim...
– Ei, Chloë! — a voz de Ryan ribombou da claraboia da Clínica — temos novo paciente.
Vi a silhueta de Ryan cair na torre de almofadas, acompanhada de uma sombra minúscula em seus braços, que, para minha surpresa, nem sequer se debatia.
Quando ele apareceu diante da luz, todos recuaram, chocados.
Meu coração se partiu em mil pedaços cadavéricos quando olhei o que Ryan segurava.
Gail deu um gritinho e pôs as mãos na boca, parecendo prestes a chorar.
Era um bebê. Um bebê zumbi.
Parecia ter uns cinco ou seis meses quando morreu. Uma coisinha minúscula, do tamanho de uma caixa de sapato grande, toda cinzinha, com um buraco enorme no pequenino tórax, que podia ser visto através do rasgo que havia em sua roupinha azul encardida.
O bebê estava com os olhos abertos, com a boquinha escancarada como se fosse chorar, mas tudo o que fazia era emitir um rosnado rouco e baixo, como um gatinho faminto.
Aquilo me provocou algo que beirava à angústia. Minhas pernas tremeram de aflição.
Ryan se aproximou, parecendo confuso com minhas reações.
– Quer pegar? — ele estendeu o pequeno zumbi para mim — ele nem sabe andar, que dirá atacar alguém — a voz dele quebrou no final; parecia tão angustiado em ver a situação do bebê quanto eu.
Peguei a criança desajeitadamente, fazendo um tipo de ninho trêmulo com meus braços. Senti o corpinho gelado do bebê entrar em contato com minha pele.
Meus olhos arderam. Eu tinha vontade de chorar. Meu Deus, aquilo era irracional e errado. Um bebê, uma pessoinha tão inocente e pura, passando por aquele inferno.
– Ryan — gemi, soluçando — ele é só um dos milhares de motivos... que temos para... nos curar.
Ryan assentiu, com uma expressão penalizada.
– Achei-o junto com uma zumbi — ele parecia star escolhendo cuidadosamente as palavras — devia ser a mãe dele. Mesmo depois da transformação, acho que ela estava cuidando do pobrezinho. Afinal, como ele teria sobrevivido sem comer um corpo, sendo que nem sabe andar ainda?
– O que aconteceu... com ela? — indaguei, olhando para o bebê que me encarava impassível e quieto.
Ryan ficou levemente pálido, e eu descobri que não queria ouvir o que ele diria.
– Morta... — ele suspirou — alguém deve ter atirado nela.
Fechei os olhos, absorvendo a situação daquele pobre corpinho morto-vivo que estava em meus braços.
Julia e Pim se aproximaram para ver o bebê mais de perto. Pim parecia especialmente curiosa para vê-lo.
– Qual vai ser... o nome dele? — indagou ela, olhando para nós.
– Ele tem cara de Charles.
Olhei feio par Ryan, que riu baixinho.
– O que foi? É um nome...
– Um nome comum — passei minha mão cautelosamente pela cabecinha do bebê — ele é especial.
Ryan bufou.
– Tá. escolhe você então, ó grande Mestre dos Nomes.
Todo mundo riu, até mesmo Pim.
– Podia ser... — sugeri, receosa — Isaac...
– Isaac... — Ryan repetiu, testando o som — é, bonito. Vai ser Isaac, então.
– Ei, Isaac... — arrulhei para ele, me sentindo uma completa bobinha — gostou do nome? Vai ser seu nome agora...
Para meu espanto completo, uma contração mínima ocorreu na boquinha de Isaac. Por um segundo, me pareceu que ele sorrira.
– Vai ser uma babá perfeita, Chloë — disse Gail, rindo — é muito fofo, apesar de tudo.
– Ele é lindo — contestei, encostando a ponta do nariz no rostinho do bebê — é um lindo anjinho...
Ryan sorriu, e beijou minha bochecha. Fiquei quase irritada com a ardência que começou no meu rosto em reação àquele beijinho. Será que eu nunca me cansaria de gostar de seus contatos no meu corpo?
– Coitadinho — Julia murmurou — ele não tem nem família... mesmo quando... se... nos curarmos... ele não vai ter ninguém para cuidar dele....
– Quem disse? — arfei, erguendo a sobrancelha — claro que vai... nós vamos ser a família dele...
Olhei para Ryan, receando ver alguma contestação ou relutância ao que eu dissera.
Tudo o que eu vi foi um contentamento imenso.
– Chloë tem razão — ele falou para todos ao nosso redor — enquanto for possível, o Isaac aqui vai ser da nossa família.
– Não somos beeem uma família — Gail brincou — mas chega perto.
– Com metade da família literalmente morta... fica difícil... — papai disse, parecendo feliz com a própria piadinha fúnebre.
– Morta ou viva... é uma família, casseta — bufei, fazendo Ryan rir.
O doutor Shawn surgiu sabe-se lá de onde no meio da conversa, olhando estarrecido para meus braços.
– Céus — ele arregalou os olhos para Ryan — um bebê? Como pode ser?
– A mãe biológica provavelmente ainda estava cuidando dele mesmo depois de morrerem — Ryan expôs sua teoria.
Shawn pegou Isaac de meu colo e o aninhou no próprio braço.
– E é relativamente igual à um bebê humano saudável — ele sacudiu um pouco o corpinho de Isaac, como se medisse o peso em seu colo — imagino que a mãe tenha mastigado algum órgão ou feito uma pasta deles para alimentar o bebê... bom, seja lá quem for, fez um "bom trabalho".
– Ela morreu — disse Julia sem rodeios, fazendo Shawn se calar e ficar levemente lívido.
– Que horrível. Pobre garotinho — ele devolveu Isaac ao meu colo — como estão as coisas por aqui?
– Tudo bem — Gail respondeu — quer ver as novas anotações do prontuário?
Enquanto Gail levava Shawn para mostrar o registro da Clínica, voltei à olhar para o bebezinho zumbi que se remexia em meus braços, pensando nos cuidados que tivera da mãe verdadeira mesmo depois da morte dos dois.
O que a levou a continuar cuidando de uma criança da qual nem deveria se lembrar foi provavelmente o mesmo estopim que provocou aos poucos minha cura até agora. Algo que estava intrínseco no âmago da mente dela — e, provavelmente, em todos os outros zumbis — que, ao ser libertado, causava essa mudança radical que nos trazia aos poucos de volta à vida humana.
Infelizmente, ela não conseguiu sobreviver tempo o suficiente para que isso se desenvolvesse. Restava a nós torcer para que os outros zumbis, incluindo eu e todos da Clínica, não tivessem o mesmo triste destino.
– Vamos conseguir — disse Ryan perto de meu ouvido, abarcando a cabecinha de Isaac em sua mão — você vai ver. Todos vão conseguir se recuperar.
O que eu segurava no colo já não era mais um simples bebê zumbi. Era, na verdade, a esperança de uma nova vida para todos nós.
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