Voltando à Viver

12 Clínica de reabilitação


CHLOË

Confesso que fiquei com vontade de fazer um lanche com o cérebro de Gail no começo. Não porque estava com fome de novo, mas porque aquela loira tapada nos interrompera durante... bom, durante aquele momento estranho entre eu e Ryan.

Saber que Ryan também nunca tivera nenhuma experiência amorosa despertou alguma coisa estranha dentro de meu corpo morto. Até onde eu podia concluir, estava feliz por ele nunca ter namorado. Feliz por ele se preocupar comigo. E irracionalmente feliz por tê-lo ao meu lado.

Gail havia aprontado um banho para mim. Jogara minhas roupas velhas em um canto e me colocara sem cerimônia no chuveiro, ligando-o em seguida. Depois de cinco anos sem sentir o contato de água em meu corpo, minha primeira reação instintiva foi tentar sair dali, mas Gail me empurrou gentilmente de volta.

Ainda estava surpresa por ela ter se acalmado tão facilmente. Uma tênue e cautelosa linha de confiança parecia estar se construindo entre nós duas. Há tempos eu não conversava com outras garotas... mortas ou vivas. Minhas antigas amigas haviam desaparecido á algum tempo da zona de zumbis em que eu vivia.

Gail riu ao ver minha careta de estranhamento causada pela água fria.

– Faz um tempinho que você não se molha, não é?

Balancei a cabeça, tentando assentir, mas a água inundou meu rosto e me fez engasgar.

Gail pegou uma esponja estranha, banhou-a em um sabonete líquido e começou á esfregar meu braço. Um pouco de água entrou no orifício do meu antebraço, e eu tremi ao sentir o líquido inundando levemente aquele ponto. Parecia que eu tinha tomado uma injeção de gelo.

– Você lembra de alguma coisa... de quando era, bom... humana? — indagou Gail, curiosa.

Minha voz saiu mais engasgada do que nunca, por causa da água.

– Sim. De passeios... animais... de quando era criança...

– Você ainda tem família? Ou ela também, sabe... virou zumbi?

Engasguei outra vez, mas não foi por causa do chuveiro.

Minha família...

Desde que Ryan me acolhera em sua casa, as lembranças humanas vinham com uma facilidade incrível em minha mente.

A maior parte da minha família sobrevivera á epidemia e fugira para o Alabama. Menos eu, minha prima Mary e meu pai. Nós três havíamos sido infectados durante o surto. Mary foi uma das primeiras á serem alvejadas pelos tiros dos humanos sobreviventes. Meu pai desaparecera da zona de zumbis e nunca mais foi visto.

Meus olhos arderam, mas também não era por causa da água.

– Todos... vivos. Menos papai e eu... — murmurei, sacudindo a cabeça.

Gail recuou um pouco o corpo, parecendo surpresa. Uma expressão estranha apareceu em seu rosto... uma mistura de bondade e pena. Ela continuou me esfregando, até que estendeu a esponja para mim.

– Quer tentar?

Peguei a esponja e tentei passar no outro braço. A sensação era estranha, mas agradável. Comecei á esfregar, e dali á pouco eu já estava me limpando sozinha.

– Minha família sobreviveu também — contou Gail, enquanto eu continuava á me banhar — estão todos em Washington... só meu primo Carl foi infectado... sumiu tão rápido que nem sabemos se ainda está por aí...

Enquanto falava, Gail pegou um frasco de shampoo e despejou um bocado em meu cabelo. Também esfregou-o, mas depois de um tempo tentou me ensinar para eu continuar sozinha também. Peguei prática tão rápido que consegui esfregar e enxaguar por minha própria conta.

Ela desligou o chuveiro e me estendeu uma toalha. Foi estranho usar aquela coisa áspera em minha recém-lavada pele morta, mas era quente e gostoso de vestir.

Ainda esperávamos as roupas que Ryan fora buscar para mim.

Era tão estranho... aquela sensação de cuidado que eles tinham para comigo. Pela primeira vez, me senti parte de um grupo. Parte de uma "família" outra vez...

Gail penteou meus cabelos com um pente de madeira; teve que segurar firme para tirar os terríveis nós e maçarocas nas pontas. Quando ela puxou uma das mechas sem querer, não pude deixar de sibilar. Caramba, aquilo doía.

– Desculpa, Chloë! — choramingou Gail — foi sem querer!

Suspirei baixinho.

Minha fome parecia controlada, mas dali á algum tempo, eu precisaria comer outra vez. Como eles iam me sustentar? Mesmo que quisessem me manter ali, teriam que caçar por mim, e eu duvidava que os outros humanos não achariam estranho duas pessoas indo e voltando com sacos de lixo grandes o suficiente para abrigarem corpos de gente morta.

Ouvi o familiar tilintar das correntes da loja.

– Ah, ele voltou — disse Gail, saindo do banheiro — eu já volto.

Ouvi ela resmungar alguma coisa para Ryan, e, pouco depois, Gail voltou com um conjuntinho de roupas. Uma marca conhecida...

– Plas Plums? — indaguei, arregalando os olhos.

Gail riu.

– Conhece a grife?

Assenti, animada. Quando humana, sempre havia achado as blusinhas da marca as coisas mais lindas do Universo.

Quase ri... mesmo morta, eu lembrava disso. Parecia que o meu gosto por roupas era imortal.

Ela me deu as peças uma por uma — primeiro as íntimas, depois a calça jeans, a blusinha e, por último, uma sandália rasteirinha. Fui vestindo-as com calma para não errar — e mesmo assim consegui colocar a calcinha no avesso duas vezes. Gail parecia se segurar para não rir de minhas trapalhadas.

Quando terminei, Gail puxou os lóbulos das minhas orelhas atrás de mim. Eu ia perguntar o que raios ela estava fazendo, mas, ao me encarar no espelhinho do banheiro, percebi o que era. Haviam dois brincos prateados ali agora. Sacudi a cabeça, e eles balançaram de um lado para o outro.

– Gostou?

Olhando o conjunto, eu estava bonita. Tipo, se não fosse pela minha pele morta, os olhos prateados, as olheiras e aquele maldito buraquinho no braço, eu parecia um tantinho como eu era em vida.

Sorri levemente e e olhei para Gail.

– Gostei.

Quando fui desfilar meu modelito para Ryan, fiquei um tanto presunçosa — e muito envergonhada — ao ver sua expressão ficar surpresa e maravilhada.

– Isso são brincos de pressão? — ele perguntou.

Gail riu e respondeu.

– Ah... achei que ia ser legal... os buracos já haviam fechado, então, bom, achei que de pressão iam ficar melhor.

– Como eu estou? — murmurei. Ele parecia tão apalermado que fiquei preocupada. Será que estava ridícula com aquelas rasteirinhas?

– Está... linda. Muito linda, Chloë.

Um sorrisinho bobo contorceu minha boca. Então me lembrei de algo que percebera durante o banho.

– Olha — ergui minha perna, aquela que tinha o dedo mindinho do pé faltando.

Por mais chocante que fosse, lá estava ele, se mexendo como os outros. Eu ainda e perguntava como era possível.

Gail se aproximou, e Ryan fez exatamente o contrário, recuando vários passos.

– Caramba... Chloë! — ele estava chocado, com as mãos na boca e os olhos arregalados — ela não tinha esse dedinho. Nem uma das pálpebras — ele explicou a Gail.

Gail fez praticamente um moonwalk, até tropeçar e cair no chão.

– Tipo... quer dizer... você acha que ela... está se curando? Se regenerando, sei lá..?

– Se tornando humana de novo... — Ryan me olhou, parecendo orgulhoso... não pude deixar de ficar encabulada — o que quer dizer que talvez s outros também possam.

– E o que será que faz esse processo começar? — disse Gail.

– Lembranças — eu respondi, sem pestanejar. Afinal, tudo isso havia começado desde que eu começara á ter lembranças da minha vida humana. Esse poderia ser o gatilho para um processo de recuperação da humanidade da pessoa...

Pelo menos, estava sendo assim para mim.

– Lembranças humanas? Pode ser... algo que lembre ou traga á tona sentimentos humanos... — concordou Gail, pensativa.

– O que você está sugerindo? — Ryan riu — que façamos uma clínica de reabilitação de zumbis?

Gail se ergueu, dando um sorriso conspiratório.

– E por que não? Já temos uma cobaia para testes dessa teoria bem aqui — ela me indicou com a cabeça;

– A Chloë não é um rato de laboratório.

"Mas chega perto", brincou meu cérebro sarcástico.

Gail revirou os olhos.

– Eu sei, seu mané. Mas e se isso der certo? E se pudermos fazer com que tudo volte ao normal?

Ryan balançou a cabeça.

– Precisaríamos de um lugar. Maior. Seguro. Para começo de conversa. E de mais gente envolvida. Já imaginou como vai ser fazer isso embaixo do nariz do Comitê?

Me ergui de um salto. Eu e todos os outros zumbis tínhamos a chance de recuperarmos nossa humanidade e Ryan colocava um empecilho atrás de outro para colocarmos tudo em prática. E daí que precisávamos de um lugar e de mais humanos envolvidos nisso? Ele não me acolhera em casa? Não me alimentara? Não fizera Gail confiar em mim também?

Todas estas indagações saíram num único rosnado meu para ele.

Ryan recuou, um tantinho indignado.

Gail deu uma risada escandalosa.

– Bom, dois votos á favor — Gail sorriu outra vez.

Ryan chacoalhou a cabeça. Santo Zumbi dos Palmares... quando queria, o moleque era um completo cabeça-dura.

E por que isso me parecia tão fofo, eu nunca soube dizer.

– OK — suspirou Ryan — mas vamos ter que ir atrás desse local. Protege-lo contra fugas ou invasões, sejam humanas ou zumbis. E, bom, alguém vai ter que ajudar nisso... e não vai ser minha namorada.

Ele engoliu em seco. E eu e Gail também. A palavra "namorada" disparou uma corrente estranha pelo meu corpo. Minhas pernas bambearam. Só que para frente, como se alguém tivesse empurrado minhas costas.

Quando fui dar por mim, já tinha abraçado ele de novo.

Gail olhava nós dois com uma expressão surpresa e simpática.

– Ah, que fofo.

– Cala a boca, Gail — murmurou Ryan sob meu ombro. Não pude deixar de sorrir ao sentir os baques em meu peito outra vez, aumentando em frequência e força a cada hora.

– Se você me dissesse que tudo isso aconteceria, á uma semana atrás, eu nunca acreditaria — Gail confessou.

– Nem eu — concordou Ryan.

Só para não ficar de fora, sibilei:

– Nem eu.

Gail riu de novo, esfregando as mãos.

– Bom, vamos lá, Ryan. Temos muitos zumbis para tratar.... e um mundo para salvar.