Volta por Cima
1 Mudanças
Notas iniciais
1º de março
Faltam 10 meses para o final da tortura e contando...
Acordei com os gritos estridentes da Rihanna cantando Umbrella. Não que eu de fato gostasse daquela música, mas era a única coisa me fazia acordar às cinco e meia da manhã. As garotas lindas e populares devem estar acostumadas a acordar a essa maldita hora da manhã pra fazer toda a sorte de escovas e chapinhas, mas eu definitivamente não estava.
Levantei com o peso do mundo nas costas. Juro que a partir de hoje vou respeitar mais a Tom-tom, a garota mais popular da escola, por conseguir essa façanha todos os dias. Meus pais ainda não tinham acordado e eu abri a porta com todo o cuidado do mundo para não acordar o bebê. Pelo que eu vi ele tinha ido dormir umas quatro da manhã. Era isso aí, como uma garota pode acordar às cinco e meia pra arrumar o maldito cabelo se o irmãozinho acorda ela às quatro da manhã berrando desesperado por leite? Isso que dá ser irmã mais velha.
Tomei um banho mais demorado do que o normal, tendo em vista a quantidade de olhos de banho e cremes que eu tinha que passar. Quando eu saí estava cheirando a morangos silvestres, pelo menos era o que dizia a embalagem. Escovei os dentes e passei à torturante rotina de arrumar o cabelo como o Luigi, o meu cabeleireiro, havia me ensinado.
Aquela seria a partir de hoje minha rotina diária, a nova eu precisava de cuidados especiais. Nos velhos tempos eu acordaria dez minutos antes de sair, engoliria o resto do jantar da noite anterior, o que significaria um xis burguer ou um pedaço de pizza, pentearia o cabelo, enfiaria uma das minhas terríveis camisetas de bandas e correria pra esquina para esperar minha carona.
Mas aquela era a velha Ellie-Emo-Gordinha. A nova Ellie seria diferente. E como não seria? Depois das minhas novas e recém-adquiridas habilidades, da perda de 14 quilos e da tortura do cabeleireiro eu era praticamente irreconhecível.
Coloquei minhas roupas novas. Que incluíam uma blusa branca, um coletinho vermelho, um shortinho que antes eu jamais me atreveria a usar, e uma bota preta até o joelho (eu não desistiria das minhas botas assim tão fácil). Tudo muito na moda. Saí de casa sem tomar café, mas eu estava levando uma maçã na mochila. Nada de cachorro quente na escola, lembrando das milhões de revistas de dietas que eu comprei: proteínas são boas, carboidratos são ruins.
Coloquei minha bolsa no braço, nada de mochila, mochilas acabam com o estilo, apesar de eu sentir como se meu braço estivesse sendo amputado pelo peso do livro de biologia. Caminhei até a esquina para esperar minha carona. Ao longe eu ouvi o bebê chorar, bom quem mandou terem outro filho?
A esquina da minha casa dava direto em uma rodovia bastante movimentada, enquanto esperava no acostamento eu só queria que minha amiga chegasse logo porque o frio estava me matando, talvez eu não devesse ter investido em shorts tão curtos. Enquanto esperava os caminhoneiros que passavam buzinavam, nada que não acontecesse antes, foi só quando um deles botou a cabeça pra fora e gritou que eu pude sentir na pele o resultado da minha transformação.
- Quer uma carona neném?
E o meu queixo caiu. Não pela cantada podre, mas porque tipo, era uma cantada. As garotas normais poderiam estar acostumadas com isso mas não eu. Normalmente eles botavam a cabeça pra fora e gritavam:
- Encalhou aí baleia?
Ou coisas do tipo:
- Quer que eu chame o guincho?
Mas nunca ninguém tinha me cantado assim antes. Muito menos me chamado de neném, o que era ridículo mas mesmo assim... Eu só queria que a Sam chegasse logo pra me pegar antes que algum deles me achasse atraente a ponto de parar o carro no ponto deserto onde eu tava. Foi com um alívio imenso que eu vi o New Beetle da Sam chegando. Foi então que as coisas ficaram realmente estranhas.
Porque a Sam, a minha melhor amiga desde a primeira série, tá bom, a minha única amiga desde a primeira série passou reto por mim! Eu tinha voltado um pouco pro início da rua pra não chamar muita atenção com o meu estúpido short curto e a Sam passou reto por mim e foi parar quase na outra esquina para me esperar, porque ela sabia que eu devia estar ali esperando.
Me resignei a caminhar até ela enquanto mais carros passavam buzinando. Eu definitivamente ia matar ela. Cheguei ao lado do carro e fui logo entrando.
- Ei, o que você... Oh meu deus, ELLIE?
Foi então que eu percebi, tanto pela frase quanto pela expressão apavorada dela, que ela não tinha parado o carro longe de propósito como eu tinha pensado, ela parou porque não me reconheceu.
Eu sempre fui a garota estranha e gordinha que estudava no Gensa, colégio de gente rica da minha cidade, pura e simplesmente porque o meu avô tinha estudado lá desde criança, e nos tempos das vacas gordas tinha sido o maior doador da história da escola. Dava pra adivinhar que eu não era a garota mais popular da escola. Logo na primeira semana de aula eu deixaria minha marca, e depois disso a Sam era a única que falava comigo, de um jeito sério, não para rir de mim. Durante meus longos anos no Colégio Cenecista Nossa Senhora dos Anjos (Gensa para os íntimos) a Sam foi a minha única amiga.
Ela era dois anos mais velha do que eu apesar de estarmos na mesma série, acontece que o pai dela, Ministro da Defesa, morou com a família durante dois anos na Índia para “avaliar a situação da guerra civil no país”. Quando voltou a Sam já tinha passado da idade que uma criança normal entra na escola, isso não a fazia tão popular também, o que nos fez reconhecer uma à outra como almas gêmeas. Desde o ano passado a Sam tinha conseguido a carteira de motorista e vinha me buscar para ir pra escola, já que minha casa ficava no caminho, e antes disso o chofer dela vinha me buscar, fazia anos que seguíamos a mesma rotina, até agora.
- Qual é Samantha? Até parece.
Em nossa longa convivência juntas eu só a chamava de Samantha quando estava realmente irritada. Como era o caso agora.
- É serio. O que você fez com o seu cabelo?
Me olhei no espelho do carro. Meu cabelo estava perfeito, exatamente como o Luigi disse que estaria. Mas eu não culpava a Sam, o verão inteiro eu tive que usar tocas, bonés e chapéus para esconder o meu cabelo. Sabe, quando se é morena a vida inteira, morena mesmo, tipo cabelos negros de verdade, quando você descolore o cabelo ele tende a ficar manchado por um bom tempo, até pegar a outra tinta. E sem condições sair na rua com o cabelo manchado. Até o dia anterior ele ainda tinha algumas manchas, até o Luigi aplicar o último tubo do Loiro Claro Dourado no meu cabelo, aí ele ficou, sabe como é, loiro, claro e dourado. E é claro que também tinham as sessões de escovas e permanentes que fizeram meu cabelo ficar perfeitamente liso em cima e cacheado nas pontas. Claro que isso tudo me custou muito tempo e dinheiro. Quase todo o meu fundo para a faculdade, mas quem se importa?
Por isso eu entendia o espanto da Sam, mas não aquela frase dela.
- Do que você tá falando? Está perfeito.
- Exatamente. Está perfeito, desde quando o seu cabelo é perfeito? Você tá parecendo a Barbie. Deve ter dado um trabalhão.
Pelo menos ela reconhecia o meu esforço.
- E deu mesmo, tive que acordar às cinco e meia. Foi quase uma hora só passando toda a sorte de produtos. Agora quer arrancar o carro por favor, não quero chegar atrasada no primeiro dia de aula.
Sam me olhou como se eu tivesse acabado de dizer que tinha sido abduzida mas não disse mais nada e arrancou o carro.
- O que houve com você Ellie? Desde quando você liga pra roupas, cabelo e... ah meu deus você tá usando maquiagem também?
Claro que eu tava usando maquiagem, a pessoa não gasta três meses no cabeleireiro pra macular o recém adquirido rosto lindo com espinhas, imperfeições e olhos grandes demais como era o meu caso.
- Qual é o problema?
- Você é o problema. Pra quê isso agora? É o nosso último ano, achei que íamos nos divertir, e não só passar horas arrumando o cabelo. Eu juro que se você passar o intervalo no banheiro passando gloss eu nunca mais falo com você.
Por que ela simplesmente não entendia?
- Exatamente Sam, é o nosso último ano na escola, e eu não vou passar ele fazendo as mesmas coisas e sendo humilhada pelas pessoas. É o meu último ano aqui, e eu vou entrar pra história dessa escola, pode esperar.
Sam apenas me olhou com resignação. Era claro que ela duvidava muito que eu conseguisse fazer isso, mesmo com meu visual novo. Mas é claro que ela não sabia que eu tinha uma carta na manga.
- Sei lá, é só que depois do acidente você ficou estranha.
- Sam, eu realmente não quero falar sobre isso.
E não queria mesmo, porque se eu falasse do acidente teria que falar sobre o tempo que eu fiquei no hospital. Se eu falasse do hospital teria que falar das coisas estranhas que aconteceram depois que eu saí de lá. E se eu tivesse que tocar nesse assunto acabaria contando tudo pra ela, e eu nunca fui boa em guardar segredos.
- É só que, não tem nada de errado em ser você mesma.
- Isso porque você não é eu Sam.
E era verdade. Apesar da temporada na Índia ter atrasado em dois anos a vida da Sam, fazendo com que ela fosse completamente excluída pelas garotas da escola, eu sei crianças são cruéis, ela deu a volta por cima há alguns anos.
Sam era morena, tinha longos e lindos cabelos negros. E é claro, o que mais chamava a atenção nela, um belo e avantajado par de peitos. No início os garotos riam dela e a chamavam de estranha. Mas é claro que na sétima série eles praticamente beijavam o chão que ela pisava. A Sam nem se importava, apesar da popularidade recém adquirida na comunidade masculina, ela continuou conversando comigo. Ela realmente não sabia o que era ser eu.
- Por favor me diz que isso não tem a ver com o Robert!
O Robert era um carinha de quem eu tava afim há muito tempo. Tipo, uns dois anos. Ele estudava na minha turma desde que tinha sido transferido porque o pai dele mudou de estado. O pai dele era dono de uma montadora de automóveis e resolveu abrir uma filial na capital, por isso eles tiveram que se mudar. O Robert jogava futebol no time da escola, e era absolutamente lindo. Do tipo moreno, alto, musculoso com belos olhos negros e cabelo compridinho.
- Não tem nada a ver com o Robert.
De certa forma até tinha a ver com ele. Eu esperava que ele me notasse com meu visual novo é claro. Imagina o que seria da minha vida se eu conseguisse namorar o cara mais lindo da escola, tá bom, o segundo mais lindo. Ninguém podia superar o Chaz.
Quando a Sam finalmente conseguiu vaga no estacionamento da escola eu pulei do carro o mais rápido que eu pude. Esperei a Sam e entramos juntas pela cúpula do saguão de entrada. Como se não bastasse ser uma escola de gente rica, o que eu claramente não era, eu ainda estudava em uma escola de freiras. Eu me encolhi um pouco passando embaixo da imagem da Nossa Senhora dos Anjos, eu sempre fazia isso mas hoje eu me encolhi ainda mais pelo meu short curto. Se a Irmã Marion me visse hoje eu tava morta.
Paramos no saguão, os portões que davam para as salas de aula ainda estavam fechados, foi nessa hora que eles entraram. Eles eram conhecidos como os Anjos do Gensa, isso que dá estudar em um colégio de freiras. Cada um tinha o seu próprio carro mas chegavam sempre na mesma hora, obviamente para deixar os pobres mortais não abençoados com a popularidade assisti-los passar. Eu e a Sam os chamávamos de Robôs do Gensa, porque obviamente eles não tinham personalidade e faziam tudo o que era esperado deles.
Eu gemi ao ver que o Robert estava lá. Eu tinha que salvá-lo antes que eles acabassem com qualquer traço de sentimento que ele pudesse demonstrar. Dos dois lados dele estavam os micos de torcida, que era como eu costumava chamá-las. Kelly e Amber, gêmeas siamesas, embora uma fosse loira e outra fosse morena, mas obviamente elas dividiam o mesmo cérebro. Do outro lado o Michel, o gorila praticante de boxe que não conseguia formular uma frase completa, o que lhe devia esse apelido porque ele não parecia em nada com um gorila já que ele era tão loiro que era quase albino, apesar do tamanho e dos braços maiores que o corpo. Do lado do gorila estava o Victor, o descendente de espanhóis bonitão que todas as garotas sonhavam em ter. Ele até seria pegável não fosse o complexo de Dom Juan que ele tinha em ficar com uma garota hoje e amanhã abandoná-la chorando e falando as coisas mais melosas possíveis, sem contar as poesias, canções e o complexo de artista não compreendido. Na frente do grupo vinham os líderes de mãos dadas. Eles namoravam é claro, como a Barbie e o Ken.
Tom-tom e eu nos odiávamos desde o primeiro dia que eu pus os olhos naquele cabelo loiro quase branco e naqueles olhos azul bebê. Ou melhor, desde o dia que eu conheci a boca grande dela. Para muitos artistas ela poderia parecer uma boneca de porcelana, com aquela pele pálida de pêssego, para mim ela parecia uma mulher afogada. Ao lado dela estava inegavelmente, embora eu quisesse muito negar, o cara mais lindo que já tinha visto. E olha que ele nem fazia o meu tipo, eu gostava de morenos. Charles Edward Sullivan III, ou simplesmente Chaz, era o filho único do Ministro de Relações Exteriores que por sua vez era um dos cargos mais importantes do país. Não foi por acaso que eu comparei ele com o Ken, ele era loiro alto de olhos verdes, mas não aquele verde puxado pro azul, tampouco aquele puxado pro mel, eram verdes de verdade, verdes como grama. Sem contar o rosto lindo esculpido pelos anjos, ele ainda era capitão do time da escola, presidente da turma e praticava boxe nas horas vagas. Eu sabia disso porque ele frequentava o centro de boxe que fica do lado da loja da minha mãe. Não que eu já tenha espiado ele treinar, mas tipo, eu podia ver ele saindo de lá todo suado com as luvas na mão. Era uma pena que um cara tão gostoso fosse completamente desprovido de qualquer coisa que se assemelhe a uma emoção humana.
- Fica aqui um pouquinho que eu já volto. – eu cochichei pra Sam.
- Onde você pensa que vai? Vai se atrasar pra aula.
- Vou no banheiro retocar o gloss. – E pisquei pra ela.
A verdade é que eu não ia retocar o gloss, embora fosse mesmo pro banheiro. Eu só precisava de um lugar seguro pra fazer o que eu tinha que fazer. Entrei no banheiro e de fato tinham umas dez garotas se acotovelando pra ocupar um espaço no espelho. Eu fui direto pros boxes dos sanitários, tranquei a porta, tampei o vaso e sentei na tampa. Tentei ficar o mais confortável possível ou eu ia ficar com uma dor impossível depois, eu tinha muito o que fazer e ia demorar.
Eu sorri pra mim mesma. Eu havia sentido a maldade daquelas pessoas por anos a fio. Agora eles iam sentir a minha maldade. O destino havia me dado esse poder depois daquele acidente. Que eu não sabia até hoje quem havia causado, mas havia um motivo pra tudo aquilo, havia um motivo pra eu ter esse dom. e eu ia usar ele em meu proveito agora.
Encostei a cabeça na porta do banheiro e fechei os olhos.
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