Volta?
4 Remorso
Não sei quanto tempo leva para o desespero tomar conta de meu ser. Os médicos disseram que ele está fora de perigo e só precisa de um tempo para se recuperar. A parte racional de minha mente consegue compreender isso. Mas o meu coração, não.
Sentado na cadeira, observo uma das únicas pessoas que eu já amei de verdade em toda a minha vida respirar lentamente, imersa em seu sono profundo. A todo momento, sinto o impulso de correr até a cama, segurar os seus ombros e chamar seu nome.
Um segundo depois, mudo de ideia e tento desviar os olhos, mas eles logo retornam ao corpo imóvel de Kurapika. Sinto um gosto azedo em minha garganta. Acho que é a culpa. Se eu não tivesse sido tão estúpido... Se eu não tivesse deixado ele ir embora, batendo a porta da sala ao partir...
O orgulho sempre foi meu maior defeito. Agora eu colho as consequências desse sentimento tão desprezível. Eu sabia que isso podia acontecer. Mesmo assim, peguei minha maleta, assobiei para o Kurode e abandonei o apartamento. Abandonei Kurapika. A única pessoa que faz meu coração bater mais forte.
Na minha primeira noite fora de casa, dormi em um motel. A atendente me olhou assustada quando percebeu que eu trazia um cachorro. Mas não pôde dizer nada, pois, na parede atrás dela, havia uma placa com os dizeres “Não fazemos julgamentos. Divirta-se como quiser. Apenas não quebre a cama e a pia do banheiro”. Se eu não estivesse tão frustrado na hora, acho que teria dado risada.
Kurode e eu não destruímos a cama. Mas o regulador da torneira quebrou na minha mão quando eu fui escovar os dentes na manhã seguinte. Passei o dia inteiro sentado no parapeito da janela, observando os gatos lá embaixo e os bêbados do período vespertino.
Ao cair da noite, prendi a guia na coleira de Kurode e o arrastei para as ruas mais uma vez. Para ser sincero, não estava com um pingo de fome, mas meu cachorro já estava ganindo há um bom tempo, e eu não achei confiável entregar a ele aquelas batatinhas murchas que achei em um pacote esquecido na gaveta do criado-mudo.
Perambulamos solitários pelas ruas em busca de um boteco minimamente limpo ou de um restaurante que servisse algo um pouco melhor do que um hambúrguer gorduroso ou um cachorro-quente com salsichas de origem duvidosa. Encontramos uma pastelaria, mas como a entrada estava cheia de ratos mortos, achei melhor não arriscar.
No fim das contas, entrei em uma loja de conveniência e comprei macarrão instantâneo e comida de gato enlatada. No primeiro momento, Kurode não ficou muito satisfeito com o cheiro de sua refeição. Mas, quando percebeu que era aquilo ou nada, devorou o conteúdo da lata e lançou um olhar desejoso ao meu pote de macarrão. Eu havia acabado de jogar água fervida ali dentro e esperava que ele cozinhasse. Foi então que lembrei que não tinha talhares para comer meu jantar. Frustrado, entreguei-o a Kurode.
Depois de passar quase três dias nesse ritmo, decidi voltar para casa. A atendente pareceu aliviada ao ver que meu cachorro estava saudável e feliz. Em consideração ao sadismo, apontei a placa atrás dela e agradeci por ela não ter me julgado. Acho que a coitada vomitou depois disso. Ao menos seu rosto parecia verde quando eu passei pela porta.
Assim que cheguei a meu apartamento, percebi que ele estava diferente. Tudo estava exatamente da forma como eu deixara, mas, não sei explicar, havia alguma coisa que não parecia certa. Kurode foi mais rápido do que eu. Correu pelos cômodos, cheirando tudo que seu focinho conseguia alcançar e latiu alto, abanando a cauda.
Kurapika!
Disparei para o elevador, o cachorro a apenas alguns passos atrás de mim. Era noite, e eu não enxergava direito na rua sombria. Kurode, mais uma vez, foi um herói. Ele correu em direção ao parque, atento a todos os cheiros. Eu o segui, meu coração batendo tão forte que parecia a ponto de subir por minha garganta.
Quando encontramos Kurapika, o horror preencheu meu rosto. Caí de joelhos no chão, desolado. Minha voz sumiu. Minha sanidade sumiu. Eu sequer tinha forças para chorar, mas não precisei. Kurode chorou por mim, jogando sua cabeça para trás e soltando um uivo tão ferido que parecia que era ele quem estava com o corpo todo dilacerado.
Um policial apareceu para verificar aquela barulheira e chamou uma ambulância. Poucos minutos depois, o socorro chegou, e Kurapika foi colocado em uma maca. Eu tentei ir com ele, tentei de verdade, mas os paramédicos disseram que não poderiam transportar um cachorro. Deixei Kurode no apartamento às pressas com um pote cheio de ração e uma vasilha de água e corri até o hospital sem sequer tomar banho ou trocar de roupa.
Agora estou aqui. Sentado nesta cadeira, o estômago vazio, o rosto, pálido. Uma das enfermeiras me ofereceu um almoço, mas eu recusei. Algumas horas depois, ela me ofereceu um jantar, mas minha resposta foi a mesma. Ela insistiu em fazer alguma coisa por mim, então eu apenas pedi um telefone emprestado. Liguei para Senritsu, essa mulher abençoada, e pedi para ela ir até o meu apartamento fazer companhia para Kurode. Ela tem a chave da porta da sala.
Em silêncio, apoio os cotovelos sobre minhas pernas e enterro o rosto em minhas mãos. Estou com tanto medo. E estou arrependido. Muito arrependido. Eu abandonei a pessoa que amo quando ela mais precisava de mim. E isso custou tão caro. Seu corpo ferido, seu pulso dilacerado. Seu olho, ah, seu olho! Como ele parecia horrível quando eu vi!
Acompanhei tudo o que pude. Passei horas na sala de espera, aguardando uma notícia dos médicos, qualquer notícia. Demorou um bom tempo para eles deixarem Kurapika ser conduzido a um dos quartos. Seu corpo coberto de ataduras, seu pulso envolto em curativos. Seu olho coberto, oculto, vazio. Eu sinto tanta dor por vê-lo assim. Mas dói mais ainda não saber se algum dia ele poderá me perdoar.
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