Vollfeit - Interativa
6 Capítulo 5: segunda reunião
Notas iniciais
– CAPÍTULO CINCO –
Segunda reunião
Anorus suspirou. Lá fora, uma leve brisa movimentava as folhas das árvores enquanto o sol massageava seu povo com o calor fraco que emanava naquela manhã. Se nada tivesse mudado há dias, poderia estar com sua família aproveitando um pouco do momento, e não preso em uma reunião sombria.
– Nada que façamos desfaz o encanto – uma mulher, aparentemente beirando quatro décadas, falou rapidamente. – Pode ter sido uma poção, não descartamos a possibilidade, mas seria algo de um nível surpreendente. A única chance, talvez, de readquirimos as memórias deles esteja em Milicence.
– Senhor – Kodir pediu licença para falar. – Acha que estamos em urgência para procurar Milicence? – questionou com receio.
– Estamos sempre em uma situação que nos coloca a pensar, primeiramente, em nosso povo – respondeu diretamente. – É sempre bom evitar bruxas, porém não temos a opção de tentarmos outros caminhos e falharmos.
– Ainda mais se isso tudo não passou de isca – Jordef, com a seriedade que apresentava apenas em reuniões, falou.
O salão ficou em silêncio. Todos os presentes, os mesmos da convocação passada e a equipe de técnicas psicológicas, apresentavam olhares distantes, confusos ou frios. A noite anterior, ao contrário do que prometia, não gerou mais de uma informação concreta sobre os inimigos. O que tinham agora eram sete prisioneiros com perda total de memória e a história de Neri.
– Continuem monitorando as ruas e, agora, estejam atentos para qualquer pessoa suspeita, principalmente com estrangeiros — o rei de Diellor olhou para seu general. – Oxfler, organize uma equipe para buscar Milicence. Leve o mínimo que puder, precisamos dos nossos concentrados aqui.
Mais uma vez os guardas, soldados e espiões foram liberados do local. Saíram do cômodo e foram atingidos abertamente pela luz solar que invadia o corredor, agora com algumas criadas andando apressadamente enquanto carregavam roupas e toalhas.
Neri acompanhava Battle, que trocava algumas palavras com Norton e Azan. Sua mente, no entanto, não estava com os homens. Sentia fome. Poderia dizer que estava exausta após passar a madrugada toda se locomovendo entre os reinos – precisou levar o “trio do teletransporte”, como apelidaram, para Ihene, onde os domadores do ar criaram uma sela especial, antes de voltar para Diellor e participar da segunda reunião -, mas dificilmente se sentiria assim enquanto não parasse de treinar. Sem receber nenhuma nova missão até aquele momento, adotou a ideia de descer alguns andares e ser amparada por Aldith. Pediu permissão para seu chefe e, recebendo sinal positivo, não hesitou em correr até a escada.
Chegando à porta da cozinha, parou e observou o interior: Stella gesticulava freneticamente para os cozinheiros, que pareciam preparar os pratos cada vez mais rápidos. Nas costas da princesa, Aldith lavava as louças e esboçava um sorriso de diversão.
– É isso que vai me dar como café da manhã? É sério? – Stella protestava enquanto apontava para um caldo amarelo com ramos crus de espinafre.
– Não, senhora, é para o seu irmão, sua Majestade Herry – o cozinheiro, em pé na frente da garota, curvou a cabeça ao mesmo tempo em que cortava pães.
No balcão que o homem trabalhava, Neri visualizou um pote com ovos quebrados. “Estragados”. Sorriu. Seu olhar mudou para a lâmpada acima das cabeças e achou uma grande mosca rondando-a. Com o ar, empurrou o inseto em direção a Stella, que logo começou a se debater em tentativa de afastá-lo. Sem querer, a princesa tropeçou no balcão, fazendo com que várias tigelas ali posicionadas caíssem. Neri sustentou todas e as retornou à tábua, com exceção dos ovos, que continuaram flutuando perto dos pés da mulher. Esta, livrando-se do mosquito, praguejou e, parecendo ter se cansado da retaliação aos trabalhadores, andou em direção à porta. No primeiro passo, sua sandália dourada de salto chocou-se com o fundo melado do recipiente. Neri se afastou da entrada, escondendo-se atrás da porta, e assistiu com um brilho nos olhos Stella subir, descalça e com amargura, a escada.
Do outro lado dos degraus, Belchior apareceu.
– Justo o calçado preferido de minha senhora, espiã? – disse, com falsa voz abalada, após alcançar a amiga já visível.
– Oh, pensei que fosse o trigésimo quarto favorito! – respondeu com chateação.
O rapaz sorriu. Juntos, entraram na cozinha e logo foram recebidos por Aldith.
– Garota, você não aprende? E se ela descobrir que é você?! – ralhou enquanto encarava sugestivamente os ovos no chão.
– Ela não vai, não se preocupe – Neri sorriu enquanto o líquido fétido subia, se juntava e retornava ao utensílio de porcelana.
Aldith reclamou em tom baixo enquanto os outros cozinheiros riram em igual volume.
– E por que está aqui a essa hora? – perguntou após separar duas porções de mingau para a dupla de amigos, que caminharam até a porta oposta e se sentaram.
– Reunião.
– Por causa dos invasores de ontem? – a mulher, de volta ao seu balcão com farinha, falou. – Ouvi algumas coisas dos guardas mais cedo.
– Sim, senhora – disse depois de um gole de mingau. – Pegamos sete ontem... – voltou a comer.
– Não sou sua senhora! – exclamou com chateação. Não gostava de ser tratada, segundo ela, como idosa. – E a garotinha daquele orfanato?
– Está bem... Ela resistiu ao sonífero. Se não fosse por isso, provavelmente não teríamos tempo de ajudá-la.
Aldith olhou para as costas da espiã, que acabava com o mingau enquanto ria levemente por saciar sua fome de forma apetitosa. Sabia que, com tempo ou não, a garota daria um jeito de proteger a órfã. Sorriu.
– Bem, parece que essa garotinha quer falar com você – contou distraidamente.
– Comigo? – Neri perguntou com surpresa.
Belchior riu sarcasticamente, como se fosse improvável alguém querer conversar com a jovem. Aldith o acompanhou.
– Pois é... Talvez ela esteja em dúvida se ganhou um herói ou heroína e precise sanar a questão – voltou a rir.
O rosto de Neri ganhou uma expressão fechada. “Minhas roupas são normais para um espião...”. Suspirou. Aldith sempre implicou com seu modo de se vestir, dizendo que deveria ser mais feminina nos tempos livres. Tirou os olhos da tigela e olhou para Belchior, que desviou o olhar para o jardim e sorriu como quem se divertia.
– Seus bobões... – retrucou, mas logo sorriu.
(...)
Hellene caminhava e observava atentamente cada loja da rua principal de Ihene. Ao fundo, enxergava a grandeza do castelo contrastando com as pequenas construções que margeavam a via larga de pedras escuras. Estavam em um dos bairros comerciais mais movimentados do reino.
– Alteza, deseja que algo seja comprado? – o guarda que a acompanhava questionou.
– Por favor, Merek, não se preocupe com a formalidade – Hellene sorriu e voltou a olhar para as diversas barracas de hortaliças e frutas. – O que acha de pegarmos alguns morangos?
O homem de trinta anos assentiu e, desamarrando uma pequena bolsa de couro de seu cinto, aproximou-se da venda à esquerda. Trocou duas moedas por caixas da fruta vermelha na mesma quantia. A princesa fitou as embalagens antes de sorrir e agradecer o guarda de cabelos e barba escuros.
– O que procura agora? – Merek seguia em passos longos a mulher de vinte e um anos.
– Gostaria de ver algumas apresentações dos trovadores. Sabe que encontrará as melhores cantigas aqui? – disse com brilho nos olhos.
– Entendo. Mas não dizem que só os achamos pela noite?
– Espero que não estejam corretos – respondeu amigavelmente. – Não frequenta muito Ihene, Merek?
– Pouquíssimas vezes, Alte...”Senhorita” – logo se corrigiu — Digamos que eu seja fã de tomar raios solares...
Hellene sorriu ligeiramente, embora tivesse vontade de suspirar e contradizer a ideia, que por sinal era arcaica, do guarda em relação aos reinos de Vollfeit. Não o escolheria como companhia, mas confiava na sugestão de seu pai. “Ele é um dos guardas mais leais do castelo”, lembrou-se das palavras ditas pelo velho rei antes de convencê-lo a dar permissão para o passeio. Não a deixariam, ainda mais com a situação misteriosa dos sequestros, abandonar a segurança do castelo sozinha por mais que fosse apenas para visitar o reino vizinho. Não que estivesse totalmente satisfeita. Adorava ver Ihene ao anoitecer, com todas aquelas luzes e dançarinos alegrando as ruas ao som das vozes dos trovadores, que quase sempre optavam por melodias sobre amores misteriosos e cenários surreais. Agora, era obrigada a voltar antes de o sol desaparecer.
Chegando ao fim da rua, passaram por um curto túnel e encontraram uma praça vasta e redonda, cortada em diagonal por um rio de água clara. Lojas parecidas com as anteriores, com exceção da altura maior, deixavam espaço suficiente para que seus diversos clientes andassem ao redor do chafariz, construído dentro e no centro do rio. Este era acompanhado, nas laterais, por jardins baixos e árvores de folhagem volumosa. Os balões presos nas últimas, apesar de apagados, ainda pareciam mágicos à luz do sol.
Hellene andou em direção aos bancos próximos ao rio e convidou Merek a se sentar.
– Bem, parece que os artistas de rua não aparecerão – o guarda proferiu descrente.
A garota sorriu e olhou tranquilamente para os lados. À direita, tentou achar o fim do rio através das folhas verdes que tampavam boa parte do arco, que era a única saída, ou entrada, da água calma na praça. No lado oposto, o mesmo se repetia. Avistou carroças carregadas de arranjos de flores coloridos, roupas e acessórios – talvez broches ou anéis -, todas espalhadas embaixo das sombras projetadas pelos toldos das lojas, que deixavam, em sua maioria, cadeiras e mesas em suas frentes.
Após minutos apenas sentindo o cheiro agradável que os alissos emanavam e olhando as compras alheias, Hellene sorriu ao ver um rapaz, de aparentemente vinte e sete anos, parando a poucos metros dali e soltando a voz. Merek, com expressão de tédio, parecia não ter reparado no fascínio da princesa no trovador.
“Nas sombras da vida
Nas sombras da sobrevivência
Quem vem me pegar?
Leve algum da audiência
Vistes a guarda quente?
Que dirás quando me escapares?
Por graças me levares
E não a incongruente parente”
Na segunda estrofe, o encanto feminino pareceu evaporar. Apesar de não ter problemas com cantigas de escárnio, aquela criticava Vollfeit – ou, aprofundando o assunto, denunciava seus pais, os reis vizinhos e todos os trabalhadores reais. Hellene continuou assistindo o canto, embora pensasse em correr diretamente para Anorus e apresentar a situação em que Ihene, e provavelmente Diellor, estavam com os últimos acontecimentos.
– Eu realmente não consigo entender o objetivo dessas canções. Nunca as entendo – Merek olhava sem interesse para o trovador.
– É preciso estar atento e disposto a refletir – sorriu levemente. – O que acha de voltarmos? Gostaria de aproveitar o clima desta manhã mais um pouco com o Suntaria.
Seguida pelo guarda, refez o caminho e entrou em uma rua menor e menos movimentada. Suntaria, um cavalo de pelo sedoso castanho, e Bornes, o cavalo manchado de Merek, descansavam em frente a grandes árvores. Por um momento, Hellene pensou em se juntar a ambos, puxando um bom livro da bolsa e aproveitando a sombra fresca. Fugindo da ideia, desamarrou a corda que prendia seu animal e o acariciou rapidamente antes de montá-lo.
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