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20 Capítulo 19: primeira memória


Notas iniciais
Hey, pessoal. Demorei, mas, para compensar, o capítulo está maior que o usual. O atraso será normal agora (tenho um tcc para terminar, yay, auhea), então já peço perdão. Boa leitura, (:

– Capítulo 19 -

Primeira memória

Horas já haviam se passado desde que voltaram do festival, mas Eslin não conseguia pegar no sono. Esticado no sofá, encarava o teto enquanto repassava a cena que seu cérebro despertou mais cedo, quando segurou Neri antes dela cair no chão molhado. Tinha perdido o equilíbrio ao passar pela janela, que ficara aberta e deixara a garoa fraca daquela tarde entrar. Rapidamente Eslin colocou um de seus braços ao redor da garota após segurá-la pelo pulso. Naquele instante, uma sensação familiar o invadiu. Viu-se de frente para uma figura menor e encapuzada, estática enquanto seu braço era tocado pelo dele. A memória despertou-lhe, de modo repentino e sem explicação, uma sensação energética.

Declarando-se derrotado pela insônia causada pelos pensamentos intensos, levantou-se e, silenciosamente, abriu a porta da frente. Sentindo a brisa fresca da madrugada, suspirou levemente. Levantou os olhos para o céu, contemplando o brilho da lua através de nuvens, e tentou acalmar seu coração ainda acelerado. Distanciou-se da casa, indo em direção à lagoa que costumava coletar água, mas parou após poucos passos. Virou-se rapidamente para trás, com um ruído mínimo elevando sua guarda. Neri ultrapassava a janela de seu quarto como um gato silencioso. Eslin ficou estático, vendo-a caminhar tranquilamente para dentro do bosque. Sua pele começou a formigar, embora com fraqueza, e seu coração parecia não se cansar com o rápido batimento. A agitação que tentava conter só piorou, e não sabia achar o motivo. Vendo-a ficar cada vez mais distante, tentou alinhar os pensamentos. A garota, desde o início, despertava-lhe curiosidade. Seria normal então o que sentia no momento? Deveria ser. Esfregou o rosto, frustrado, e olhou para frente, vendo agora apenas árvores solitárias. Decidindo-se sem certeza, iniciou uma corrida na direção do trajeto de Neri.

Andou durante menos de cinco minutos, sentindo-se sem rumo definido. O que parecia guiá-lo era o formigamento em seu corpo, que se elevava ou diminuía dependendo da direção que tomava. O ápice da sensação veio quando avistou a companheira, sentada com as pernas cruzadas e apoiada em um largo tronco cortado um pouco acima de sua base. Tentou se aproximar sem produzir ruídos para não assustá-la.

— Ei...

A garota virou a cabeça para olhá-lo e sorriu.

— Parece que não é uma boa noite para se dormir hoje — disse distraidamente.

— Perdemos essa batalha — assentiu e retornou o sorriso.

Neri estava, assim como ele, pensativa. Seus olhos centralizavam um ponto mais ao norte na floresta. Pareciam aguardar por algo novo para olhar. Eslin ficou ali, apreciando o frescor propiciado pelas árvores quando um calor incômodo invadiu seu corpo. Não tão longe de onde estavam, sentia que algo se aproximava.

— Eslin — a voz meiga o despertou. — Preciso que volte para casa.

Ele a encarou, surpreso. O que respondeu em seguida o surpreendeu ainda mais, como se outra pessoa tivesse tomado seu corpo e controlado sua boca.

— Essa batalha você não pode perder.

A jovem sorriu levemente e desviou o olhar. O que ele tinha dito? E por que Neri não ficara confusa como ele? Sentia que estava, finalmente, perdendo o controle — e Neri, sabendo disso, deveria estar sendo apenas educada.

Iniciou a caminhada de volta a casa de madeira ignorando o calor constante, que soava como um alarme dentro de si, e tentando não olhar para trás, onde parecia ter deixado Neri junto a um perigo desconhecido. Havia se distanciado o suficiente para perdê-la de vista quando um grito cortou o silêncio. Dizia “não a deixe escapar”. Atônito, girou o corpo e voltou correndo para onde Neri estava, sem se importar com o barulho de galhos e grama secos debaixo de seus pés. Chegou ao tronco curto, porém sem encontrar a garota. Olhou ao redor, movimentando seus olhos o mais rápido e atentamente que conseguia. Não enxergava nada além de árvores e arbustos densos sob a luz da lua. Então teve a sensação de antes, o formigamento subindo da ponta de seus pés até sua nuca. Instantaneamente virou à esquerda, entre duas árvores bem próximas, e andou durante poucos minutos, desviando, agora, com cuidado de qualquer coisa que interrompesse o silêncio. Conforme o terreno se inclinava para baixo, o bosque parecia ficar cada vez mais quieto, tornando até o ruído de sua respiração um ponto de preocupação.

Foi parar sua busca após ver uma larga árvore a dez metros de distância, com um volume estranho atrás. Respirou lentamente e se aproximou. Dois homens, com arcos e aljavas abandonados ao lado dos corpos inertes, estavam com as mãos juntas, como se estivessem presas por algo invisível. Em pé, perto deles, uma pessoa com o rosto escondido pelo capuz do manto o encarava. Assim que suas sobrancelhas se ergueram em espanto – ou medo – um riso leve saiu debaixo daquela escuridão.

— Não se preocupe, sou eu – Neri avisou gentilmente, retirando o capuz.

— Você...está bem? — perguntou, embora visse que a resposta era positiva.

A jovem balançou a cabeça para cima e para baixo duas vezes, tentando sorrir no final. Eslin via que ela estava desconfortável e sentia culpa. Culpa por esconder tantas coisas dele.

— Só gostaria que me explicasse tudo — foi o que disse, contendo todas as preocupações que o dia lhe trouxera anteriormente.

Mais uma vez, só assentiu com a cabeça.

— Antes...preciso levá-los aos guardas — olhou para os homens desmaiados em seus pés.

Eslin pensou em perguntar se precisaria de ajuda, mas, vendo o estado dos desconhecidos, concluiu que seria melhor apenas observar. Logo assistiu aos sujeitos flutuando no ar como grandes beija-flores, com Neri acompanhando-os atrás. Controlou sua curiosidade e continuou quieto, tentando acalmar a ansiedade que crescia em seu peito. Perto do limite oeste da floresta, Neri pediu para que a esperasse. Recolocou seu capuz e saiu em direção à vila em uma velocidade admirável, levando os intrusos.

Ficou ali, torcendo para que seus pensamentos turbulentos não explodissem antes de a garota voltar. Após o que pareceu uma década, uma figura pequena apareceu entre as casas da rua mais próxima.

— Acho que vamos precisar de chá e biscoitos na lareira — falou ao se aproximar, esboçando um sorriso.

Neri passou minutos contando sobre suas últimas semanas a Eslin após servir chá de salva-púrpura. Dava pequenos goles entre cada pausa. Falou sobre como o garoto fora encontrado, sozinho e sem memória, nas ruas de Diellor, e como os guardas reagiram a isso, levando-o para a prisão com medo de que fosse uma armadilha. Explicou sobre tal receio e sobre os ataques que o reino começara a sofrer junto ao estado de suspeita em que os reis caíram. 

— Por que acha que eles estão sequestrando crianças? – perguntou. 

— Gostaria de saber, realmente gostaria – Neri respondeu. – Depois disso, um grupo invadiu Diellor e descobrimos que possuem aliados aqui. 

— Por isso o número alto de guardas nas ruas... 

— Sim – concordou com a cabeça. – E agora encontramos aqueles dois na floresta. 

Eslin assentiu. 

— Neri...você disse que se voluntariou para cuidar de mim até eu recobrar a memória – pensativo, fitou-a. – E só aceitariam pessoas que pudessem me proteger com magia. Por quê? 

— Nós não sabemos nada sobre você – disse naturalmente. – Pode ser só alguém que vive sozinho e nenhum familiar veio ajudar, como pode ser alguém importante de outro reino. Independente disso, preferem que você esteja sempre em segurança. 

Apesar de achar que algo estava sendo ocultado dele, continuou ouvindo atentamente – a voz dela, desde o primeiro dia em que a viu, parecia magnética.

— Desculpe-me por esconder tantas coisas... 

— Faz parte de sua missão não contar para mim, certo? – sorriu. 

— Teoricamente – soltou um sorriso de volta. 

O jovem, de repente, inclinou-se para frente, cruzando as mãos em cima das pernas, e a encarou com seriedade. 

— Agora que sei sobre suas habilidades...acredito que seria útil, para ambos, se me treinasse. Ainda mais tendo falhado em parte dela, certo? – tentou manter a expressão séria, mas logo sorriu divertidamente. 

As sobrancelhas da jovem pareceram se arquear levemente.

— Isso foi uma tentativa de me chantagear? – questionou com o mesmo tom de brincadeira, escondendo o ânimo de ver um pouco do Eslin que conhecera naquela primeira noite.

 — Estou me aquecendo. 

Eslin se divertiu com a conversa, que se estendeu até o fim da madrugada. Os sentimentos incômodos do começo cessaram e pôde finalmente sentir sono ao longo das histórias que Neri contava. Sua voz, sempre calma e fina, possibilitava certa sensação de descanso para seu corpo e mente.

Antes de adormecer, já deitado no sofá, lançou um último olhar para a garota, que se dirigia ao quarto. 

— Obrigado, Neri – pronunciou sinceramente.

A espiã retornou o olhar e, por alguns instantes, nada falou.

— Boa noite – sorriu, acenou e desapareceu atrás da porta.

Naquele fim de noite, sonhou que estava batalhando contra a figura pequena e misteriosa de sua lembrança. Ela se movia como Neri.

(...)

Estar aprisionada numa cela a metros abaixo de Diellor não confortava Myra. Estar lá a dias respondendo a mesma coisa nos interrogatórios também não ajudava. Não tinha relação alguma com os invasores misteriosos e sabia que o resto do Corpus se encontrava na mesma posição. Olhou para Will, ao seu lado e adormecido. Sua cabeça com uma fina camada de cabelo castanho pendia para o peito enquanto suas pernas estavam esticadas. Sorriu internamente por tê-lo como companhia e se levantou, ciente de que não conseguiria pegar no sono até que a queima de fogos terminasse. Andou silenciosamente pelo espaço escuro, imaginando as ruas dos reinos repletas de cores e pessoas. A vontade de estar no meio delas, aproveitando e participando do festival, despertava sempre que um som distante e vago de algum instrumento ou grupo de cantores chegava até o calabouço.

Sentou-se de volta e aguardou o silêncio. Os fogos de artifício se prolongaram por mais uma hora, aumentando o cansaço de Myra. Não estava andando o dia todo como os moradores no festival, mas ficar dias num ambiente deprimente como a prisão se mostrava psicologicamente cansativo. Tentou se sentar de forma mais confortável no banco de madeira bruta do lugar e fechou os olhos. Com a cabeça encostada no canto entre suas paredes, imaginou uma mulher de cabelos acobreados e olhos quase do mesmo tom, desfilando lindamente pelo palco do teatro Romaniv. Ao terminar a peça sobre uma fazendeira abandonada, acenava gentilmente para o público, sempre com um sorriso que alegrava o coração da garota. Esta corria para trás do palco, na área dos atores, e procurava por sua mãe animadamente até que fosse vista e recebida com um abraço caloroso. Aqueles olhos de cor de mel sorriam para ela, e eram umas das coisas que mais faziam falta para a garota do Corpus — e para Joseff também.

Com essa lembrança, adormeceu. Não por tanto tempo, pois despertou, talvez no meio da madrugada, com ruídos similares a batidas em metais. Levantou-se confusa e se aproximou da porta, tentando descobrir o que acontecia pela abertura pequena em forma de janela. Nas pontas dos pés, enxergou um tumulto perto dali, a algumas selas à direita. Novos prisioneiros haviam chegado e estavam se rebelando, tentando escapar das mãos dos guardas. Inesperadamente, dois deles se soltaram e lançaram esferas de fogo nos rostos dos homens, que caíram fumegados. Os outros dois soldados tentavam, agora, deter os cinco banidos, que pareciam ter mais força. Myra tentou formar uma barreira de terra entre eles com o objetivo de dar tempo aos guardas. No entanto, nada aconteceu e os homens continuaram avançado para o grupo menor, armados apenas com espadas. Logo caíram como os companheiros, deixando os cinco livres. Estes sorriram brevemente e se parabenizaram.

⁃ Hora da fase dois — um deles disse.

Assim, recolheram as chaves dos guardas desmaiados e começaram a destrancar todas as selas. Myra acordou Will antes que chegassem na deles, pronta para revisar qualquer ataque. Ao contrário do que esperava, apenas deixaram a porta aberta e sorriram para eles, embora a garota os encarasse com dureza.

O silêncio costumeiro do calabouço não existia mais. Explosões enfeitaram o ar e os prisioneiros, agora livres, gritavam frases de vingança, escárnio ou apenas alívio por todos os corredores, que se estendiam a metros acima e abaixo de onde estavam. Os cinco de antes desapareceram, deixando um caminho aberto nas paredes para os restantes. Joseff logo apareceu na porta aberta, acompanhado por outros integrantes da gangue.

⁃Temos que ir — seu pai a olhava preocupado.

⁃ Não podemos fugir — rebateu. — Temos que ajudá-los.

⁃ Mesmo que tentemos, nos acharão e voltaremos pra cela — falava rapidamente. — Nunca entenderão que não somos os culpados pelo que pensam.

⁃ Pai, eles fizeram isso, você está vendo — sua voz tinha um tom moderado de súplica. — Se conseguirmos pegá-los, talvez tenhamos a resposta e poderemos ser livres do jeito certo.

Atrás deles, mais prisioneiros passavam agitadamente para a nova saída, sem se importarem em empurrarem uns aos outros no caminho. Joseff parecia pensar intensamente.

⁃ Quero que você a tire daqui — finalmente disse, olhando para um Will confuso, e depois retornando a Myra. — Nós acharemos aqueles homens.

Myra quis reclamar, mas ficou quieta. Sabia que seu pai não mudaria de ideia. Will a olhou por instantes e começou a correr para fora do cômodo, guiando-a. Sem olhar para o pai, passou ao seu lado e alcançou o amigo, certa de que não faria o que o homem pediu.
Ela também participaria dessa caçada.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.