Vollfeit - Diellors e ihenes
11 Capítulo 11
Notas iniciais
Capítulo 11
Seu maior aliado
A barriga de Neri começava a gritar por comida quando o grupo de guardas retornou. Notou que suas expressões estavam ligeiramente mais neutras que antes. Não deixou de sorrir discretamente ao imaginá-los no festival, esforçando-se para agirem normalmente, longe daqueles rostos duros e nervosos.
— Boa noite, senhores — disse amigavelmente.
— Você pode voltar ao seu posto agora — o líder deles ordenou, fechando sua expressão outra vez.
Neri assentiu, achando graça, e vestiu seu capuz, lançando um último olhar ao mensageiro antes que se retirasse. Com os olhos claros em sua mente, voltou em silêncio aos andares comuns do castelo. As dores vindas dos machucados pulsavam com força — após todo aquele tempo parada na cela, esquecera-se momentaneamente de todos aqueles cortes. Ofegou após todas aquelas escadas, tossindo e disfarçando quando um criado passou ao seu lado, e apertou o passo como podia até sua casa.
Ao abrir a porta viu cabelos curtos e escuros descansarem em sua poltrona. Foi até ela, encontrando um Belchior de olhos cerrados e expressão neutra.
— Belch…? — sussurrou, não tinha certeza se o amigo dormia.
— Como foi com o rei Anorus ? — respondeu ainda de olhos fechados.
— Como gostaria que fosse — sentou-se no sofá ao lado. — E você, como foi com o senhor Alamand? — sua voz tinha um leve tom de expectativa.
— Entendeu quando eu disse que fui raptado por arquiinimigos de Erikan. Andam doidos atrás dessa pessoa, querendo saber sua identidade — rebateu a provocação.
— Sério? Gostaria de surpreendê-los com a resposta – encarou-o. — O que está fazendo aqui? Talvez tenham te expulsado de casa por ser rebelde?
— Rowena virá quando estiver livre — mudou de assunto. — Não pense em recusar a sessão de cura.
— Talvez eu melhore quatro por cento com isso — falou com ironia. — Nada que uma noite de sono não ajude mais, Belch.
O rapaz abriu os olhos, fitando-a. Neri sorriu. Em meio às preocupações, pensando na fuga dos prisioneiros, dos inimigos e não sabia mais o que poderia estar envolvido, conseguia se sentir relativamente bem — mesmo no fundo achando que não devesse — por ter a companhia de Belchior por tantas horas seguidas. O garoto, com dias livres no trabalho até o fim do festival, deveria ter várias opções interessantes para escolher durante aquela semana. Poderia sair todos os dias e conhecer pessoas novas, até de outros reinos, durante os quatro dias restantes da festa. Mas então o que ele continuava fazendo ali?
— Desculpe por isso…tudo, Belch — começou, tentando manter seu olhar nele. — Acho que você sente que precisa me ajudar, por ser meu amigo, mas não precisa. É um cargo grande que não precisa tomar.
— Certo — balançou a cabeça positivamente.
Neri esperou que ele se retirasse, mas continuou estendido na poltrona, começando a bocejar. Suspirou.
— Você anda muito rebelde. Não está tendo contato com boas pessoas.
— Não mesmo. O tal do Erikan plantou a semente da rebeldia em mim — deu mais um bocejo.
Neri bufou, mas logo sorriu. Queria lhe perguntar se outras coisas não eram mais importantes naquele momento, mas decidiu não falar nada.
— Quer acender a lenha? — apontou para a lareira. — É um bom jeito de ajudar a dormir — deu de ombros ao ser encarada.
— Estamos no verão e só acendi ontem por pena de você. Parecia um coelho indefeso. Ou era um — imitou o gesto feminino.
— Quando Rowena me curar, espere para invertemos o papel de coelho — rebateu com uma simpatia que não se encaixava no momento.
— É, parece aterrorizante. Acho que vou te prender no quarto e dizer para Rowena não vir.
Sorriu novamente. Embora ainda sentisse um grande peso por estar inativa em seu reino, ouvindo sobre todos os prisioneiros que escapavam e invadiam as vilas, Estava satisfeita por ter algo para fazer, por ter algo que mantivesse sua paz após a última noite. Afinal, sentia que toda a sua raiva voltaria e seria consumida pelo medo e culpa caso ficasse sozinha.
Dormira bem após a curandeira antiga do castelo amenizar alguns de seus machucados. Não via a hora de se livrar daquelas dores, mas elas também serviam como um lembrete, um importante de não confiar em tudo tão facilmente.
Quando se levantou Belchior estava sentado, torto e aparentemente desconfortável na poltrona. Sem fazer barulho foi até a entrada e saiu; não queria acordar o garoto após noites em claro apenas para avisá-lo que estava de saída. Com esperanças em ganhar um bom café-da-manhã, restaurando a força perdida no jantar anterior, passou na cozinha antes de voltar aos calabouços ocultos. “O que fez com suas mãos, garota?”, Aldith exclamou ao vê-la. A explicação que dera se resumiu a galhos malvados enquanto treinava na floresta, faminta demais para prestar atenção nas dores. A narração, mesmo secretamente irônica, rendeu-lhe um bom prato de arroz e frango cozido e um pedaço generoso de bolo de laranja. Não era de chocolate, mas ganhara mais coisas do que esperava. Comeu rapidamente e embrulhou o bolo, dizendo que guardaria para o momento cansativo de seu treinamento.
Depois refez o caminho até os andares mais profundos e logo encarava, pela segunda vez, os guardas pouco simpáticos.
— Bom dia, senhores, e tenham um bom festival.
Os homens nada perguntaram, afastando-se como se fossem um grupo de dançarinos ensaiados até suas presenças desaparecerem. Neri foi até a cela, onde o mensageiro se colocava sentado na cama.
— É uma pena eles não entenderem ironia — disse.
— Não sei do que está falando — mostrou um sorriso ligeiro.
O garoto sorriu de volta. Seus olhos pareciam menos cansados naquela manhã e aquilo a deixou um tanto aliviada. Saber que ele estava ali, trancado a semanas sem ver o sol ou sentir uma brisa fresca, por mais que fosse um inimigo, não parecia algo fácil de aguentar. Você realmente é forte, não é…?
— Talvez você goste de bolo de laranja — tirou o embrulho de dentro do manto e passou pela abertura na porta.
O mensageiro desenrolou o tecido branco e se deparou com o pedaço fofo de bolo. Suas sobrancelhas se arquearam e um brilho tomou seus olhos. Enfiou um pedaço da sobremesa na boca, curvando as sobrancelhas ainda mais enquanto mastigava.
— Isso é muito bom — falou feliz entre mordidas. — Você quem fez, Neri…? Se puder te chamar assim.
— Fique à vontade, e não, foi uma amiga — sorriu. — Acho que não tenho muita habilidade na cozinha.
— Me pergunto se eu era um bom cozinheiro — disse mais para si mesmo.
Neri esperou que ele terminasse o bolo, desse modo sem distraí-lo com algo além do sabor delicioso. Todavia, antes que pudesse dar sequência a conversa, uma presença mínima a perturbou. Kyprios descia até eles. Aumentou sua presença como aviso?, pensou.
Rapidamente o garoto apareceu no corredor, cumprimentando-a um tanto tímido.
— Pensei que pudéssemos treinar enquanto estiver aqui, se quiser.
— Ah, tudo bem — assentiu após refletir por um tempo. Por que Kyprios treinaria ali, na frente do “inimigo”? Ao pensar que ele poderia apagar a memória do mensageiro como quisesse – e mesmo que não precisasse de verdade, tendo em vista a situação atual dele -, sua garganta pareceu se fechar, revoltando-se.
Isso pode influenciar ele, o prisioneiro… A recuperar as memórias. A voz do garoto apareceu dentro de seus pensamentos, exatamente como a de Auren. Peço desculpas pela invasão… Gostaria de manter algumas coisas em silêncio. Neri assentiu, apesar de ainda se sentir meio confusa com a atitude de Kyprios.
— Podemos treinar a base do teleporte. Você estava indo bem nisso, não acha?
— Fiquei dias parada tentando, então acho que sim — zombou de si mesma. Não estava indo nada bem naqueles treinos.
— No início precisamos de foco e imaginação. Você tinha tudo isso bem trabalhado — Kyprios começou a explicar. — Só precisa saber o que imaginar. O ar é seu amigo. Seu aliado mais importante. Então pense que ele abre as portas pra você sempre que quiser… O segundo passo é acumular uma massa de ar o mais rápido que puder, deixando-a em sua frente, como se você estivesse entrando de verdade numa porta.
Neri guardou todas aquelas informações com certo receio. A presença do espião ali ainda parecia suspeita, por mais que sua explicação fizesse sentido — e também desejasse que o mensageiro recuperasse suas lembranças.
Fechou os olhos e tentou esvaziar sua mente até que visualizasse apenas um mar calmo, com as águas cristalinas brilhando sob o sol fraco. Seu corpo pareceu estar no meio daquele ambiente relaxante, com toutinegras cantando alegremente ao redor. Preciso de sua ajuda, clamou pelo ar em sua volta. Se eu merecer, me ajude, por favor. Então, da forma mais veloz que conseguia, criou uma forma comprida de ar em sua frente, como se fosse uma porta feita exclusivamente para si. Deu um passo, adentrando-a e se lembrando da sensação nauseante de se teleportar. Todavia nada aconteceu, continuava no corredor de cheiro desagradável com Kyprios. Encarou o chão, sentindo-se como um grão de poeira prestes a ser varrido.
— Não foi tão rápido — o garoto disse, tentando apoiá-la. — Tente pensar em um local mais familiar pra você aparecer, costuma facilitar.
Neri assentiu, agradecendo.
— Tenho que fazer algumas coisas agora, então… Até mais — e voltou as costas, andando a passos largos e rápidos para fora dali.
Ao ter a certeza de que ele já estava longe dali, colocou-se sentada no chão frio, de frente para a cela. Suspirou profundamente. A sensação de falhar após várias tentativas não era algo bem-vindo. Além disso, o que acabara de acontecer? Kyprios estava com pena dela, tentava ganhar sua confiança e carisma ou existia outro motivo para aquela visita surpresa e curta?
— Seja lá o que você queira… Você vai conseguir.
A voz do mensageiro a alcançou, arrebatando seu olhar.
— Talvez, não é?
— Tenho quase certeza que sim — sorriu satisfeito. Era um sorriso extremamente diferente de um dia atrás.
— Tentarei mais uma vez… E depois podemos conversar sobre meu primeiro dia de aula há treze anos atrás — disse com ironia.
Com o peito menos pesado, fechou os olhos novamente. Certo, ar, desculpe-me por ser uma amiga tão ruim. Prometo que tentarei melhorar mais. Contou cinco segundos e repetiu a forma retangular em sua frente, colando-a velozmente nas pontas de seus pés. Tinha certeza de que alcançara uma velocidade maior daquela vez e pensado num local melhor — seu quarto a andares dali -, mas o resultado não se alterou.
— Bem, meu primeiro dia de aula foi mais interessante que isso — deu de ombros e olhou para o jovem na prisão, que a observava com olhar curioso. Era como uma raposa de olhos brilhantes atrás das grades.
— É realmente possível...se teletransportar?
— Sim — balançou a cabeça. — Talvez só não comigo — lembrou-se do que Kyprios contara sobre suas memórias apagadas. Ela realmente fora capaz de alcançar aquele nível?
— Não irá desistir, irá? — fitou-a com determinação, como se não aceitasse uma resposta negativa.
— Não — disse após um tempo. — Não irei.
O jovem sorriu e assentiu. Neri desviou o olhar e ficou imaginando que tipos de coisa já vivenciara fora de Vollfeit e que não se lembrava mais. Criou imagens de criaturas incomuns, mas com uma beleza e poder hipnotizantes. Talvez grandes corujas capazes de falar com humanos e lobos de olhos violetas, dominadores de fogo. E dragões, será que existiam como nas histórias que sua mãe conhecia? Seria fascinante se ela se lembrasse que já avistara um antes.
— Você gosta de lobos? — questionou-o ainda visualizando o mamífero.
— Acho que não lembro de todos os animais… — disse pensativo. — Mas gosto de lobos. São seus preferidos?
— São — falou com um sorriso. — Na nossa escola, antes de alguma competição, os professores nos faziam repetir: como uma alcateia de vinte lobos, uma floresta, uma visão, nenhum leão. Era algo pra unir os alunos e não deixar que a competitividade nos afetasse — riu, pensando em como sempre achara aquilo irônico. — Mas tirando esse tipo de uso, é uma boa frase.
— Como uma alcateia de vinte lobos… — o mensageiro repetiu, absorvendo a informação. — Interessante — finalmente focou seu olhar na garota, sorrindo.
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