Capítulo 19

Ilizant

Passaram por todo o volume de árvores antes de o terreno começar a se inclinar. Sem pressa subiram até os cumes da colina Wildmor, onde a grama era rasteira e apresentava grupos de flores espalhados por quase toda a extensão. O ar lá estava mais gelado, acertando-os em golpes cortantes do norte para o sul. Apesar daquele desconforto, todo o resto era agradável. Sem as árvores agora podiam enxergar claramente o céu azul e com poucas nuvens; a sensação de estar fora da floresta densa também trazia certo alívio para Neri.

Já estavam viajando há dois dias, contornando todo o limite direito de Melandra até se distanciarem completamente daquele reino. Depois das colinas, desceriam novamente até um rio, que Kyprios dissera passar pelo centro de Illizant.

Neri brincava com o ar ao redor, sentindo-se mais leve após o tempo sem se esforçar em lutas. Criava esferas feitas pelo elemento em volta de algumas das flores amarelas e as agitava, fazendo-as terem uma espécie de vida própria e dançando despreocupadas no terreno aberto. O mensageiro assistia às plantas com diversão, perguntando-lhe como poderia fazer aquilo também. Embora Neri explicasse, o garoto não demonstrara mais nenhum sinal de sua antiga habilidade desde Melandra. Talvez só Merlin pra ajudá-lo, afinal.

Merlin… Como ele seria? Neri enchia sua cabeça de ideias e possibilidades, tanto sobre o garoto quanto Camelot. Na noite anterior até sonhara com um rapaz que a cercava com os cinco elementos, criando coelhos de fogo que traziam alces transparentes, escorrendo água pelos chifres, até ela. Sua mente simplesmente não conseguia — e não queria — parar de raciocinar sobre as informações de Kyprios. Eram fantásticas demais para serem deixadas de lado tão rapidamente.

Ao anoitecer voltaram para a beira da floresta, tendo as árvores para ocultá-los enquanto descansassem. Kyprios montou a fogueira com facilidade antes de se deitarem, o céu escuro servindo como teto.

— Talvez não tenha sido eu a usar o ar naquele dia — o mensageiro disse em tom baixo, o rosto virado para as estrelas.

— O que prefere pensar? — questionou neutra.

Ele deu uma olhada em sua direção antes de voltar a contemplar o véu noturno.

— Não sei — disse após um tempo. — Como foi quando você descobriu que podia… Seus poderes?

— Eu também não sabia o que pensar — sorriu fracamente. — A ideia de controlar o ar me encheu de alegria, mas eu sabia que também me afastaria da minha família — respondeu, contando resumidamente sobre a divisão do povo em Vollfeit segundo os elementos. — Eu esperei pra ver se as vantagens seriam maiores que as desvantagens.

— Deve ter sido difícil… — o garoto balançou a cabeça, parecendo se imaginar naquela situação.

Depois de um tempo retomou, fitando-a com olhos brilhantes — era um olhar penoso ou apenas o reflexo das estrelas?

— Tenho medo de me arrepender em pensar que tenho esse poder todo e depois descobrir que estava errado. Que o que senti naquele dia foi apenas coincidência.

— Talvez o sentimento de pensar que algo não é possível, e depois descobrir que estava certo, não seja melhor que o arrependimento — desviou o olhar; sentia-se estranhamente bem ao conversar sobre qualquer coisa com o mensageiro, mas a presença, ainda que adormecida, de Kyprios não abria um espaço confiável para aquilo. Deveria controlar o que falava.

O garoto abriu um sorriso fraco.

— Então continuarei pensando que salvei uma grande controladora do ar de Vollfeit.

Neri bufou baixinho, mas sorriu em seguida. Mesmo que não fosse verdade, aquela ideia de arrependimentos serem piores que muita coisa precisava ajudar alguém.

Os cumes redondos voltaram a aparecer no dia seguinte. Seguiram para o leste, sempre rentes ao limite da floresta, até que esta acabasse e deixasse a paisagem apenas com o terreno ondulado e, no fundo, tocando o horizonte, formas quadradas e escuras que se destacavam em meio ao verde. Finalmente estavam perto de Ilizant.

— Chegaremos lá ao entardecer, então poderemos pegar as mercearias quase se fechando — Kyprios disse.

Voltaram a cavalgar, mantendo um ritmo lento até que descessem os morros mais íngremes. Depois os cavalos ganharam espaço para trotarem sem dificuldade, atravessando a região aberta antes de chegarem a dobras de terra outra vez. A cada quilômetro que percorriam, o ar parecia perder temperatura. O vento também tinha mudado, apresentando uma característica mais castigante e contínua em meio ao verão. De todas as vezes que passara por aquele reino, os ventos tinham sido mais simpáticos — pelo menos nas vezes em que os reis a permitiram se lembrar.

A luz amarelada do céu se desfez antes do trio chegar aos limites de Ilizant. A viagem ficaria mais complicada se não fosse pela iluminação das tochas no vilarejo, formando pontos que os guiavam até o reino. Ao chegarem encontraram as ruas ainda agitadas, com carroças e grupos grandes de trabalhadores andando pelas ruas de terra. Misturaram-se ao som dos outros cavalos trotando, passando pela rua estreita até a mesma se alargar e se dividir em três estradas. Kyprios escolheu a rota do meio e os guiou até o coração de Ilizant, onde o movimento começava, bem aos poucos, a diminuir. Pararam em frente a uma construção de pedras e prenderam os cavalos em suportes de madeira ali perto.

— Irei até um conhecido — Kyprios disse. — Podem comprar o que precisamos enquanto isso?

A dupla assentiu e o espião se distanciou, caminhando pela subida que a rua apresentava até sumir numa curva. Neri tirou um saquinho de uma das bolsas que o cavalo de Kyprios carregava e amarrou em sua cintura, o som das moedas tilintando alegremente. Depois olhou para a porta em sua frente, com um homem saindo com dois sacos pardos em seus braços.

— Vamos? — olhou para o garoto restante antes de entrar.

O local estava repleto de prateleiras, cestas e mesas. Uma parede era toda preenchida por queijos pendurados por pregos, no outro lado inúmeras cestas estavam empilhadas ao lado de tábuas sustentando temperos, utensílios e alguns sacos de sementes e farinhas. Neri se aproximou de cada um apressadamente, com medo de serem expulsos e terem que esperar até o dia seguinte para recarregarem os mantimentos e, consequentemente, perdendo um tempo de viagem. Perto da entrada pegou um pão grande e dourado e um amontoado de castanhas enquanto, como requisitado, o mensageiro escolhia algumas laranjas no fundo do cômodo. No fim levavam também alguns morangos e bolinhos de queijo que haviam sobrado daquela manhã.

Ao saírem perceberam que Kyprios ainda não tinha retornado. Guardaram as compras, dividindo o peso entre Destrier e a montaria do espião, e esperaram ali. Neri olhou para cima, encontrando um céu de estrelas distantes uma das outras. Tão distante quanto ela e Vollfeit. Tão distante quanto ela e Aldith, e Belchior… Seu coração se apertou dentro do peito. Quando estaria de volta ao seu reino, ao lado de seus amigos? Não sabia o que esperar após aquela situação dos ataques acabar — se acabasse antes de ela chegar aos oitenta anos, quando estaria velha demais para aproveitar. Queria conversar, e ficar ao lado, de Aldith e Belchior; treinar com Battle, os ajudantes da cozinheira e aquele grupo pequeno de colegas; voltar para a casa da família Arkan e deixar que Belch a olhasse torto após alguma piada irônica.

Respirou profundamente, tentando afastar aquela saudade horrível que a atingia. Era só esperar. Dali alguns anos não se lembrariam mais dela e tudo que ela poderia fazer seria continuar vagando pelo mundo, afastando-se mais e mais de pessoas que, provavelmente, estavam cansadas de vê-la longe.

— Deve ser interessante viajar todo o mundo — o mensageiro disse de repente, quebrando o silêncio exceto pelas pessoas, em algum lugar, conversando e desmontando suas barracas de comércio de rua.

— Quero visitar todos os continentes um dia — assentiu, despertando de seus pensamentos ruins.

— Divirta-se por mim também quando conseguir e leve algumas comidas boas ao calabouço — deu um meio sorriso.

Neri focou seu olhar no rosto jovem. Ele parecia ter aceitado a ideia de que nunca seria livre.

— O que acha que suas memórias são? — perguntou. Precisava tentar apressar o retorno do antigo garoto. Do seu oponente original.

— Elas… Devem ser parte de um passado ruim. Acho que mereço ser um prisioneiro — olhou para as portas da mercearia, agora se fechando. — Talvez eu tenha feito coisas detestáveis. Então… Não tenho certeza se é uma vantagem ou desvantagem não me lembrar do resto.

— Erros são necessários se quisermos evoluir — respondeu. — Pelo menos é isso que dizem — e, dando de ombros, sorriu discretamente.

Kyprios apareceu cinco minutos depois. Alcançou-os e, montando em seu cavalo, contou que tinha encontrado um lugar para dormirem — seu conhecido cedera alguns quartos na casa em que morava com a família. Trotaram até o fim do vilarejo, para uma via larga e, naquele horário, vazia. Uma fileira de casas iguais enfeitava o lado direito dela, enquanto o outro era tomado por uma vegetação alta e bege como palha. Numa das portas uma garota baixa, enrolada em um manto fino nos seus ombros, observava-os se aproximarem.

— Obrigado pela ajuda, Cylies — Kyprios disse ao desmontar. Depois subiu pela escada curta até a menina. — Estes são Neri e…

— Eslin — o mensageiro disse prontamente. — Às vezes até eu me esqueço — sorriu.

Neri suprimiu um sorriso e cumprimentou a garota.

— Não há de que — a jovem acenou com a cabeça e entrou, estendendo o braço. — Entrem, mostrarei os quartos, os cavalos serão levados por meu empregado até os fundos.

O trio saiu do ar gelado da vila para descobrirem um sobrado bem mobiliado e de bom gosto. Uma escada fora construída bem na frente da entrada, com tábuas de madeira envernizadas e corrimão largo. Subiram-na e entraram num corredor grande, com três portas para cada lado. Viraram à esquerda e Cylies apontou para as duas últimas aberturas.

— Estarei no primeiro quarto caso precisem. Espero que descansem bem — deu um sorriso discreto e voltou para o início do corredor, desaparecendo atrás de uma das portas.

— Certo — Kyprios disse após um tempo. — Neri pode ficar com o último quarto. Amanhã cedo voltamos a cavalgar.

A espiã assentiu e o observou entrar na porta ao lado. O mensageiro não o imitara, direcionando um olhar brilhante a ela.

— Está com fome, Eslin? — sussurrou e sorriu divertidamente ao pronunciar o nome. Por algum motivo, a palavra caía bem para o rapaz.

— Bem, admito que provar um daqueles bolinhos de queijo agora não parece ruim — retornou o sorriso.

Neri apontou com a cabeça para seu quarto temporário e o adentrou, seguida pelo mensageiro. O cômodo era relativamente grande, com uma cama de casal, poltronas marrons, um extenso tapete estampado e quadros em cada parede. A janela era tampada por uma cortina branca que se arrastava por uma parte do assoalho. Era bem mais simples que Melandra, mas ainda assim confortável e menos frio que nas ruas.

A garota se sentou na cama e descansou a bolsa em seu lado, retirando um embrulho médio de dentro.

— É realmente o seu nome? — perguntou enquanto oferecia bolinhos amarelos, que separara do resto das compras antes de desmontarem.

Aceitando, o jovem demorou para responder.

— É de alguém que conheci — disse após discordar com a cabeça. — Lembro um pouco de um grupo de crianças brincando… E Rodhol, Devaron e Eslin são nomes… Escolhi Eslin instintivamente.

— É um nome diferente — comentou, secretamente pensando na rapidez com que as memórias dele pareciam estar voltando. — Li uma vez que significa proteção, e caracteriza uma pessoa com qualidades escondidas.

— Parece verídico… — o garoto disse sem graça, provavelmente notando o tom misterioso em sua voz. — E o significado de Neri?

— Luz de Deus ou luz incandescente — deu de ombros.

O mensageiro sorriu, fitando-a de um jeito que Neri não conseguia interpretar. Ficaram em silêncio, acabando com mais alguns bolinhos, antes do garoto voltar a falar.

— Quando Kyprios me explicou que vocês me levariam junto, naquela manhã, não vi nenhum motivo pra que vocês quisessem isso. Talvez tivessem sido obrigados… Mas não é isso, não é?

— Não — deu um sorriso de lado ao se lembrar da reunião que tivera com o rei Joseff. — O objetivo é ajudar as suas memórias…a se recuperarem mais rapidamente.

Eslin continuou encarando-a. Seus olhos perguntavam “por que me ajudar?”, mas seus lábios expressaram algo diferente.

— Foi você que me tirou de lá — continuou após Neri concordar a cabeça. — Você é realmente uma luz — e sorriu, seu rosto ficando mais brilhante que qualquer luz.



Neri acordou e mal teve tempo de arrumar a cama — precisava ter bons modos sempre — antes de Kyprios abandonar a casa de Cylies, levando-os juntos para retornar à cavalgada. A garota pareceu um tanto cabisbaixa ao se despedir, mas o espião não demonstrara nada; ficou imaginando há quanto tempo eles se conheciam.

Atravessaram o restante de Illizant antes do almoço, passando pela ponta norte — onde as casas se tornaram cada vez mais sofisticadas -, até saírem numa floresta parca, de árvores com folhas mais longas e dominada por gramíneas. A cada hora gasta na viagem, sentia-se mais ansiosa por Camelot. Imaginava como o reino era e as possibilidades que existiam lá. E Merlin, o tão famoso — só para ela e Kyprios, talvez — dotado de poderes em Camelot… Não via a hora de conhecê-lo e aprender coisas novas, além de, se tivessem sorte, ter a mente de Eslin renovada. Riu internamente, lembrando-se da noite anterior e da conversa que tiveram. Devo ser uma luz mesmo… Aquela de um farol quebrado.

De cima de Destrier olhou para o lado, onde o jovem observava com olhar distante a trilha em sua frente. Queria tanto ver o antigo mensageiro mesmo com os riscos consequentes… E eles não seriam nada se comparados à vantagem que daria a Vollfeit. Suspirou, precisava ser paciente até chegarem em Camelot. No entanto, a ideia de estarem há mais dois dias daquele reino criava uma euforia mal controlada em seu peito, fazendo-a tentar voltar sua atenção à qualquer coisa além do garoto ao seu lado. Talvez pudesse praticar teleporte, com Destrier junto, até que ficasse sem energia ou ânimo para cancelar a ansiedade. Era isso, iria tentar se teletransportar com sua montaria — e sabia que daria errado — até que a viagem estivesse completa. Parecia melhor se sentir frustrada outra vez no lugar de impaciente.

No fim Neri gastou parte de sua energia montando casas de pássaros com folhas, que dançavam rapidamente para cima e para baixo até formarem pequenas mansões verdes, e coisas maiores como imitações de cachorros feitos de galhos que corriam para acompanhá-los. Foi divertido durante um tempo, ganhando a companhia de criaturas fictícias até a noite.

Nos dias seguintes Neri tentou inovar, a pedido de Eslin, criando colchões macios somente com o ar durante as pausas da viagem. Segundo ele, era divertido se deitar em algo invisível. E, para ela, era engraçado vê-lo agir como uma criança com novos brinquedos. A presença dele, embora fosse como um intensificador, nas últimas horas, para a ansiedade de Neri, acobertava todo o silêncio que Kyprios parecia preferir manter.

Após a extensão cansativa de florestas, passaram por um rio, que saía do Prackes, e o seguiram até verem, ao longe, muralhas altas, pardas e sem qualquer abertura. O coração de Neri disparou com o cenário, finalmente descobrindo a esperada Camelot. Como pensara, não se tratava de um reino pequeno chamado Sigebert… Ali era Camelot e, de algum jeito, os reis realmente tinham uma maneira de mudarem pensamentos alheios. E fazia sentido; se deixassem um grande buraco nas memórias dela, poderia ter enlouquecido ou suspeitado. Então… Parou de pensar, não ousava imaginar aquilo. Poderia deixar o fato para depois. Agora Camelot a aguardava. Era ali, Neri pensou com um sorriso no rosto, que poderiam mudar tantas coisas do futuro.

— Vamos contornar a direita, acharemos a entrada em breve — Kyprios disse, levando-os para cada vez mais perto da construção imponente.

Neri conseguia visualizar melhor a muralha de acordo com o tempo que usavam até a entrada. Parecia um lugar velho, mas tão forte quanto uma montanha natural. Após andarem ao redor de parte dela, alcançaram uma abertura grande, onde algumas pessoas passavam com suas carroças cheias de produtos para comércio. Dois guardas estavam posicionados nos dois lados do portão aberto, apenas observando a deslocação alheia. O som das rodas se arrastando pelo chão de pedra, que se estendia até onde não podiam ver, misturava-se aos relinchos dos cavalos e às crianças brincando nos espaços vazios dos transportes.

Seguiram o fluxo de movimento, com Kyprios liderando, e descobriram uma vila grande, com casas e lojas — ou as duas juntas — de mais de três andares em diversas fileiras que cercavam as ruas rochosas e sempre largas. Algumas das construções eram ligadas, através de uma ponte no meio do ar, em outras do mesmo tamanho. Neri também reparou nas plantas presentes em todos os cantos, mesmo que nos menores possíveis. As cores das flores e arbustos podados davam um ar mais alegre e leve à atmosfera monumental e arcaica que o lugar emanava. E o ar que aquela cidade apresentava… Neri sentia pessoas se teletransportando em diversos cantos, algumas aparecendo perto deles, fogo e água dançando juntas em carroças estranhas — talvez fosse algum mecanismo incomum, pensou -, e algo a mais, que não conseguia denominar. Por um momento, perguntou-se como pudera esquecer de um reino como aquele. Ali a magia parecia mais viva que nunca.

O trio seguiu por mais quinze minutos antes de entrarem numa esquina agitada. Neri começou a sentir cada vez com mais clareza as auras mágicas que vinham dos moradores. Sem dúvidas era mais intenso — e incrível — que em Vollfeit. O sol começava a se pôr e as pessoas iam saindo de suas casas, enchendo as tabernas e as ruas com espetáculos ao vivo. Passaram por uma dupla de garotos que praticavam malabares de esferas de fogo até um jovem solitário, que segurava duas flores. Neri teria continuado a caminhada se não tivesse notado a apresentação dele. Uma das flores murchava enquanto a outra voltava a ser um broto pequeno e esbranquiçado. As pessoas que o assistiam bateram palmas animadas e depositaram moedas brilhantes numa boina no chão, perto do jovem, que pareceu notar o olhar incrédulo da espiã. Ele sorriu e, olhando para o broto, sussurrou algo que Neri não compreendeu; parecia outra língua. O broto se abriu, revelando as pétalas amareladas de antes, e entregou a ela. Com um aceno de cabeça e sorriso, aceitou e ordenou que o ar levasse uma moeda de seu saquinho até o chapéu.

A dupla de Vollfeit a observava quando se aproximou para continuarem o trajeto. Era possível usar o ar para sufocar alguém e até reviver alguma flor, mas fazer a planta murchar, e naquela velocidade… Neri encarou Kyprios e, com o olhar que recebera de volta, entendera que sua surpresa naquela magia era causada, mais uma vez, por suas memórias apagadas. Então aquilo era o significado de “outras coisas” citado pelo espião?

Deu poucos passos, dividida entre ficar com raiva e se sentir totalmente curiosa com sua nova descoberta, quando alguém, no outro lado da rua, acenou e começou a correr em direção a eles. Era um rapaz magro, mas incrivelmente alto, de cabelos curtos e pretos ao redor do rosto alongado e oval. Seus olhos, no entanto, eram os mais claros, de tom azulado, que Neri já tinha visto.

— Neri! — ele abriu os braços, sorrindo de orelha a orelha. — Que surpresa, voltou mais cedo do que previu!

Ele tirou uma bandana azul amarrada em sua cintura e limpou as mãos nela antes de esticar os braços outra vez e se aproximar, sorridente. Neri o encarou por um momento; era estranho abraçar alguém que não “conhecia”, mas seria errado deixá-lo sem respostas — afinal, ele ainda não sabia de nada. Deu poucos passos até ele e o tocou pelas costas, logo sentindo os braços compridos do rapaz se fecharem ao seu redor.

— Olá, Merlin.