Notas iniciais
Peço mil perdões pela demora do último capítulo até esse. Vou tentar voltar a ter uma melhor pontualidade mas bem... Tudo fresco em relação ao último capítulo? Pode dar uma relida se quiser, fico bravo não.

Muriel e Marta estão sentadas no quarto que dividem. Uma de frente para a outra, em suas respectivas camas. Nada é dito entre as duas. Ambas já possuem curativos por causa dos machucados da lutinha que tiveram. Muriel está encarando seus pés, mexendo-os para se distrair. Ela conseguiu vencer por sorte, talvez. Se pergunta o que a fez ter aquele pique de força súbito? Ela estar tão certa do que quer? Ou ter irritado Marta? Ela ainda não sabe. Seja o que for, está curiosa com o que impulsiona tanto a colega de quarto. Ou ex-colega, vai saber o que Mestre Nero faria a respeito das condições da luta.

— Ei Marta — Muriel diz, receosa.

Marta ergue o olhar, triste.

— Pelo quê você luta tanto? — Muriel questiona.

— Agora quer saber? — Ela ri.

Muriel faz que sim e Marta respira fundo, engolindo em seco.

— Minha família é, basicamente, de esportistas. Queriam que eu fizesse um esporte, mas eu queria, digo, eu quero ser uma jogadora de futebol. E para conseguir isso, ter esse direito, eu preciso ter minha licença Hunter. Com ela, meus pais vão autorizar eu me focar nisso. Vão respeitar isso. — Marta explica.

Muriel fica pensativa quanto a isso. Se fosse Marta, ela só seria, sem se importar com autorizações ou respeito vindo de uma família que já não a respeita previamente.

“Será que ela quer isso? A autorização e o respeito” Muriel pensa. “Digo, é só futebol. Não precisa de tudo isso. Dá até dó dos outros jogadores, que são só jogadores normais, contra a Marta.”

No fim, Muriel consegue entender que Marta está lutando por ser quem ela quer ser. Como ela pensou, algo grande e épico. Ela se pergunta se, acaso ela tivesse um sonho épico, poderia ficar automaticamente mais forte. Poderia até ser uma boa ter algo assim, tipo uma daquelas promessas de ano novo.

— Então, por que você desistiu? — Muriel pergunta, curiosa. — Mesmo com tudo isso em jogo, você desistiu mesmo comigo no chão.

Marta, de fato, acabou desistindo no fim. Para alívio de Muriel, mas agora ambas não sabem as consequências que isso vai acarretar. Mestre Nero irá passar ali para informar sua decisão, mas até agora nada.

— Eu vi que não seria certo. — Marta tenta recuperar um pouco da postura. — De nada.

— Mas não vai ter consequência? Digo… O Mestre Nero disse que… — Muriel para de falar, receosa. Ela respira fundo, juntando as mãos, e solta o ar. — Você foi burra. Pra caramba.

Muriel ri, fraco. Marta acaba rindo junto.

— A gente estava brigando pelo quê? — Marta ri, tentando esconder o rosto entre as mãos.

— Ei, foi você que começou! — Muriel aponta para Marta, ainda rindo.

— Você jogou minha bola de futebol para fora do dirigível e comeu todo o meu cereal. — Marta aponta o dedo de volta para Muriel.

— Aha! Então era por isso e não por toda a parada de sonhos e motivação!

As duas continuam rindo. Marta limpa uma lágrima.

— Deus, somos duas crianças mesmo — Marta comenta.

Muriel sorri vendo a colega finalmente demonstrar algo além de negatividade. Ver Marta rindo e conversando daquele jeito, com até a postura de corpo mais relaxada, faz a tensão prévia se esvair totalmente.

— Posso perguntar mais uma coisinha? —Muriel levanta a cabeça.

Marta suspira, melhor que joguem todas as cartas na mesa mesmo.

— Tá — ela responde. — O que quer saber?

Muriel solta seus cabelos, sacudindo as tranças, enquanto pensa como elaborar direto a pergunta. Ela passa a mão pelo queixo e depois para atrás de sua orelha, coçando-a.

— Você acha que ter um objetivo grande é… melhor? Digo, não sei como perguntar isso direito. Só que tu acha que ter uma meta grande te deixa mais forte?

Marta sorri sutilmente com a pergunta e pensa como responder ela de um jeito que Muriel possa entender.

— Na minha opinião, sim. Eu… respeito seus motivos. Eles são básicos, logo você defende eles com unhas e dentes. Só que quando você tem um objetivo ainda maior acaba te dando mais energia. Te faz ir além.

Muriel tenta mentalizar isso. Ela imagina aquelas cenas de um burro perseguindo uma cenoura amarrada no próprio burro. Ela solta um risinho.

— Entendi! — Muriel diz, se deitando na cama. — Eu acho, deixe-me pensar um pouco mais.

Ela fecha os olhos. Talvez ter um objetivo grande a frente fizesse ela ir mais longe, desse impulso para ela já que ela já está vivendo seu antigo sonho. E irá defendê-lo ferrenhamente, mas agora ficou curiosa por ter algo mais, algo grande. Um grande prêmio no fim da estrada.

A mente de Muriel passa pela lista de desejos que tem e começa a o por algo, algo bom o bastante para colocar na prateleira mais alta. Ela tem o combinado que fez com o senhor Thompson e a senhorita Stefani. E todo tipo de acordo para Muriel é sagrado. Ter um responsável. Se divertir no show, quando chegasse a hora e que Muriel não acovarde seus sonhos e desejos por causa dos outros. Ela ter lutado contra Marta e se defender conta como isso, e Muriel sorri ao notar isso. Só que isso não basta. O show logo chegaria e ela precisa de algo a longo prazo, afinal.

Sua mente vai para os filmes que sempre via, em busca de alguma ideia. Marta luta para poder o que quiser com sua vida, e já viu isso em alguns filmes. Muriel se pergunta se em algum momento Marta iria cantar sobre isso. Muriel até aceitaria fazer uma dancinha enquanto ela canta.

“Mas o que eu posso pegar para mim?” Ela pondera. “Não tenho ninguém para me vingar. Tem aqueles caras que queriam me fazer pagar a conta do meu pai, mas são um bando de marmanjo que eu não ligo.”

Ela continua a pensar em pessoas que teria que se vingar e não acha ninguém disponível. Ir atrás de algum tesouro? Também não. Já tem o que ela precisa para viver de verdade, e já está mais que feliz com o que possui. Ir atrás de algo além seria ganância, e em filmes a pessoa sempre se ferra nessa hora. Isso não é do feitio de Muriel mesmo. Ela descarta isso e volta a pensar.

Ela se lembra que várias vezes em filmes, as garotas estão atrás de um verdadeiro amor: um rapaz genérico. Para andar de mão dada e dar umas bitocas. Geralmente demora o filme inteiro, indo desde encontrar esse alguém, aceitar que gosta da pessoa, conquistá-la e finalmente conseguir ficar juntos. Isso é bastante coisa. E geralmente pode ser épico, desde que não seja uma comédia romântica. Muriel poderia muito bem viver isso enquanto é uma Hunter. É até perfeito, as duas coisas casam perfeitamente.

Muriel começa a rir, baixinho. Ela acaba de encontrar seu novo e mais épico objetivo. Encontrar algo que deixaria ela em pé de igualdade com Marta Latynia, sua colega. A partir deste momento, o novo objetivo de Muriel é ir atrás de um namorado. Não há nada mais honroso que o amor, não? Marta, em sua cama, percebe o riso vindo de Muriel e ergue uma sobrancelha. Confusa. Com medo.

— Eu já sei meu novo objetivo, Marta! — Muriel, ainda deitada, anuncia. — Eu iria atrás de um namoradinho!

Muriel, rindo, se senta e vê o Hunter Nero Blanco no quarto, a olhando com uma expressão calma, sorrindo ao vê-la percebendo sua presença. Marta Latynia tem o rosto vermelho de vergonha, desviando o olhar para um canto vazio do quarto.

— Fico feliz que tenha alcançado um novo objetivo, querida — Nero comenta. — Espero que isso te impulsione ainda mais longe.

Muriel fica com as bochechas vermelhas e dá um risinho nervoso, voltando o olhar para o chão.

— Bem, sonhos novos na mesa, eu vim até aqui anunciar a penitência que Marta irá sofrer por ter perdido o duelo — Nero fala. — Prontas para ouvir?

Marta respira fundo, com tristeza no olhar. Suas mãos se apertam contra o tecido de sua roupa e seu olhar se volta para sua colega à sua frente. Ela dá um sorriso fraco. Muriel tenta sorrir também, baixando o olhar, envergonhada.

— Marta não será expulsa — Nero anuncia. — Yay!

As duas garotas olham para seu professor com surpresa, Marta com alegria pura surgindo em seus olhos, lágrimas começando a brotar. Nero sorri para elas.

— Só que você não irá fazer o Exame Hunter esse ano, Marta — Nero complementa. — Mais especificamente, você só fará o Exame quando a Muriel estiver pronta. Basicamente, Marta querida, você está presa à progressão de Muriel já que duvidou dela.

O queixo de Marta cai, em choque. Ela olha para Muriel, alegria virando indignação de volta. Muriel, por sua vez, permanece sorrindo por fora, mas bastante nervosa por dentro.

— Mas ela acabou de começar, Mestre Nero! Demoraria… Muito! Muito tempo até ela estar pronta.

Nero acena positivamente com a cabeça.

— Você duvidou, julgou e pôs os desejos e metas de sua colega em cheque por não achá-los dignos. Agora, você está à mercê deles. — Nero explica, começando a gestuar com as mãos. — Te expulsar seria injusto, e eu, na verdade, nem iria fazer isso com ela. Apenas faria Chezan ou Angela tomarem ela como aluna. E não quero te dispensar também. Por isso, achei isso muito mais justo.

Nero faz uma pausa para engolir a saliva. Ele olha para Marta novamente e diz:

— Não concorda?

Marta respira fundo e deixa o ar sair, fazendo que sim com a cabeça. Seu professor não está errado, e dói admitir isso. Só que a ideia toda dói. Bastante. Estava tão perto de poder se tornar uma Hunter. E agora terá que esperar mais. Por causa de ter se achado no direito de julgar uma novata, vinda de uma realidade totalmente diferente da dela.

— E Muriel — Nero volta seu olhar para a outra aluna. — Três semanas sem sucrilhos.

Muriel fica indignada.

— Como assim? Isso é injusto! Eu ganhei!

— Porque eu desisti — Marta comenta, resmungando.

— Quatro semanas — Nero diz, ainda com um sorriso calmo no rosto.

Muriel começa a chorar.

— Não aumente, por favor, eu sou uma sonsa! Perdão, agora volte para três semanas, por favor. Eu sou uma tola!

Marta respira fundo, soltando um risinho sem querer. Nero olha para ela e também sorri.

— Você pode ajudar Muriel a treinar também, Marta. Você é, por certo ponto, a irmã mais velha dela agora. — Nero solta um risinho. — Bem, preciso sair para ir ao trabalho, meninas. Se cuidem e tentem se dar bem daqui para frente, sim?

O Hunter sai do quarto tranquilamente. Marta olha para Muriel, deitada na cama, claramente abalada. Teria que fazer Muriel ir de zero a herói se quiser participar do Exame Hunter esse ano.

A noite cai, e ambas retornam para seu quarto após um banho e um dia bastante cheio. Os outros jovens da casa, alunos de Chezan e Angela, encheram elas de perguntas e comentários. Não treinaram hoje, visto que estão bastante exaustas e Nero lhe permitiu um dia de folga, sob a condição de compensarem no próximo dia. Cada uma segue para seu canto do quarto e em silêncio permanecem um bom tempo, de costas uma para a outra enquanto arrumam e mexem em seus pertences.

— Então, você está pronta para começar a treinar mais pesado? — Marta pergunta, seriamente, enquanto arruma sua cama para dormir.

Muriel, que estava se olhando no espelho enquanto fazia alongamentos (tentando imitar Marta), se vira para ela. Um pouco confusa pela pergunta.

— Acho que sim? — Ela não sabe direito como responder a isso.

Marta, de costas, assente com a cabeça, mexendo com os lençóis e o edredom.

— Então, você quer ter um namorado? — ela questiona, enquanto vai se deitar, com um pouco de riso na voz.

Muriel solta um risinho, desviando o olhar e coçando a orelha.

— É. Eu achei que seria uma boa meta — Muriel responde. — O que você acha?

Marta, já deitada, puxa o edredom para seu corpo.

— Não sei o que dizer, sendo sincera. É bobo para mim, mas presumo que seja ou possa ser algo incrível para você — Marta fala com bastante pausas, tentando elaborar bem.

— Você já namorou? — Muriel pula na cama, deitando e se enrolando em sua coberta.

Marta cora um pouco com a pergunta.

— Não tenho tempo para isso — ela responde, aborrecida

— Isso foi um não? — Muriel pergunta, sorrindo.

— Vamos dormir, Muriel — Marta responde, ficando quieta em sequência.

Muriel fica tateando o medalhão de seu colar até dormir, sem muita demora. Agora a pergunta é: como ela arranjaria um namorado?

Algumas horas depois, Angela Nery e Nero Blanco finalmente chegam em casa após um longo e cansativo dia de trabalho como guarda-costas de Midas Tira-Dentes, que foi a um programa na televisão e depois acabou fazendo hora conversando com pessoas. Chezan ficou na casa, tanto para cuidar das crianças e para pesquisar algumas coisas a pedido de sua colega Angela. Ela tira o paletó de seu terno e seus sapatos e se espreguiça, cansada. Nero faz o mesmo após fechar e trancar a porta de casa.

Nero está um tanto irritado, apesar de tentar mascarar isso. Não gosta de Midas e de como ele se porta.

— Hoje foi cansativo, hein? — Angela comenta, tentando dar um riso, que sai fraco.

Nero concorda com a cabeça.

— Midas é sujeito chamativo, extravagante. Ele gosta disso — Nero comenta, igualmente cansado. — Infelizmente, dias assim serão normais em nossa estadia.

— E como é estar escoltando um antigo colega da época da RDG? — Angela pergunta, curiosa.

Nero tira o paletó e afrouxa a gravata, indo se sentar no sofá. Ele deixa seu corpo despencar, soltando um longo suspiro de cansaço, massageando seus pés.

— Cansativo e desgastante, mas necessário. Eu sinceramente nunca fui um amigo de Midas. Entendo a importância atual dele, mas seus ideais? Não sou um fã. Na verdade, tenho até um pouco de aversão. — Nero endireita sua postura no sofá. — Midas pode até dizer que nos contratou por questões de segurança por causa do movimento Igualitarista mas é uma mentira. Midas fez isso para mostrar o poder que possui. Um Hunter contratando outros Hunters como seguranças apenas para não precisar lidar com inconveniências.

Angela assente com a cabeça e vai até a cozinha, pegando um copo de água para ela e para seu superior. Mesmo atuando juntos, ela sabia que Nero está acima dela e de Chezan. Ela respeita e admira Nero, mas sabe que não está no mesmo patamar. Nero dá um longo gole de água e fica encarando a televisão desligada a sua frente, pensando na época que fazia parte do grupo governamental de Hunters conhecido como RDG, as Raízes da Guerra. Midas Tira-Dentes fazia parte disso tudo, e após o fim da RDG, ele se tornou um empresário e uma figura pública, indo atrás de mais lucro.

Midas fez diversos livros, álbuns musicais, eventos para se divulgar e começou a fazer toda uma linha comercial ao seu redor, sendo visto como uma pessoa muito caridosa, e que investe muito em ações de reconstrução e amparo a pessoas afetadas por desastres, sejam naturais ou vítimas de conflitos. Para isso, criou uma indústria de construção extensa, sua atual maior fonte de renda.

— No fim, mesmo Midas não pode ser deixado de lado, certo? — Angela pergunta com um sorriso, se sentando.

Nero assente, com um sorriso.

— Que força tem uma formiga sozinha? Um lobo solitário? A união é o que nos deixa fortes no fim das contas, Angela. E, infelizmente ou não, Midas tem unido pessoas, aproximando-as e criando laços com elas. Mesmo que pelos motivos dele. E eu prefiro estar por perto e vigiar para que ele não se aproveite delas do que repassar o trabalho para outro Hunter qualquer — Nero reflete, gesticulando um pouco com a mão direita. — Por mais duvidosas que sejam suas atitudes, ele ainda, de fato, ajuda as pessoas. Ainda as une. Ainda traz paz.

— Sua filosofia de união e de paz é sempre interessante de se escutar, sabe? — Angela termina seu copo de água e suspira, aliviando o corpo. — Você e Midas cumprem bem as ideias que ocupavam na RDG, devo dizer. E inevitavelmente, você acaba sendo o melhor dentre eles. Não é à toa que o governo de Kur’it Iba preza tanto por você e pelo papel que desempenha.

Nero solta seu cabelo e o sacode para deixá-lo voltar à forma original dele. Não aprecia quando é tão elogiado assim. Não fica bravo, apenas não se sente confortável com tanta coisa sendo dita sobre ele.

— Você realmente acha que as Armas podem estar afiliadas com o movimento Igualitarista? — Nero pergunta, ainda olhando para a televisão desligada.

A suspeita que Nero possui é que o grupo criminoso conhecido como as Armas, esteja também aqui em York Shin. Um grupo criminoso que ele já teve que enfrentar mais de uma vez e escutar histórias diversas vezes, tendo surgido após o fim da RGD e que talvez esteja se aliando ao movimento que tem criado mais forças pela internet e pelos ventos. O movimento Igualitarista. E isso enquanto ninguém menos que Midas Tira-Dentes está na cidade. É como ver uma bomba sendo desarmada. A qualquer momento pode ir tudo pelos ares.

Angela termina de dar um gole de água e diz:

— Sinceramente? Sim. Ambos os movimentos em questão tem visões, objetivos e ideais que se tocam em diversos pontos. E para as Armas seria ótimo ter uma aliança desse tipo, mesmo que talvez a troco de criminalizar os Igualitários.

— Precisamos descobrir quantos deles estão aqui — Nero pontua. — Eles raramente atuam todos juntos. E se as Armas se envolverem com os Igualitários, tudo vai piorar.

Nero foca seu olhar em seu reflexo na televisão desligada.

“Armas dadas aos que precisam” Nero pensa. “Os Igualitaristas são o que as Armas mais buscam auxiliar. E Midas… O tipo que eles adoram perseguir.”

— E o que faremos, Nero? — Angela pergunta, preocupada. — Precisamos ir atrás deles o quanto antes. Antes que...

Angela Nery nota que estava erguendo o tom de sua voz e fica quieta, se repreendendo pelo súbito descontrole. O Hunter se inclina para frente, colocando as mãos à frente da boca, pensativo. Um semblante sério em seu rosto.

— Vamos manter a paz, senhorita Nery. Manteremos a paz — ele diz.

Em um prédio comercial de York Shin, três pessoas ocupam uma sala bastante espaçosa. As luzes estão apagadas com exceção de três lâmpadas que pouco iluminam o lugar. Boa parte da iluminação que entra naquele lugar vem das grandes janelas, que expõe toda a cidade, e todas as luzes vindo de outros prédios, casas e ruas. Jazz toca nos alto-falantes da sala e dos corredores também, visto que a porta está entreaberta. A sala é composta de uma grande mesa de reunião, com diversas cadeiras e três sofás que formam um “U”, com uma pequena mesa no meio.

Uma pessoa está sentada no sofá do meio, um homem em torno dos quarenta anos, usando um belo terno cinza e uma gravata vermelha. Sua respiração sai de modo pesado de sua boca. Ele ergue o olhar, em puro medo, tentando conter a tremedeira em seu corpo. Ele tem machucados em seu corpo. Facas e bisturis cravados em suas coxas, pés, mãos, orelhas e ombros. Ele encara seus agressores em clemência.

— Por favor, eu faço… eu faço tudo, tudo! Tudo o que vocês quiserem. Eu tenho família, okay? — O homem gagueja, tomado por nervosismo e dor.

A mulher na frente dele, que gira uma faca em sua mão direita, ri baixinho dele.

— Você quer dizer a mesma família que você traiu toda terça e sexta? — Ela ri. — E, qual é, cara. Você tem seguro de vida. Sua família não vai sentir sua falta. Você raramente está em casa mesmo. Sempre no trabalho, no bar ou em festas.

O homem no sofá engole em seco.

— Faca, minha cara colega, isso é crueldade. Ele é um homem de família, um trabalhador. Rir dele não ir para casa por trabalhar é cruel, é cruel. Agora, rir dele por trair e deixar a família como segunda prioridade? — O homem segura um riso. — Isso, isso é simplesmente patético.

A mulher, chamada por Faca, começa a rir novamente e o homem tenta segurar o riso mas acaba rindo, os dois começando a gargalhar do homem sentado à frente deles. O executivo baixa o olhar, em pânico. Sua mandíbula inferior começa a tremer sem parar. Ele não entende como tudo aconteceu, em um momento estava organizando algumas coisas antes de ir para casa. Para um bar e depois para casa. Para um bar e depois talvez para outro lugar, e depois para casa. E então ouviu barulhos estranhos vindo do lado de fora. Um segurança veio falar com ele, alertando-o sobre algo que o pobre homem nunca conseguiu concluir. Um buraco é feito na cabeça do homem, do tamanho de uma maçã, ou até maior. E então aqueles dois chegaram. Um homem e uma mulher. O homem sendo negro, de cabelo cacheado caído sobre o rosto e a mulher tendo o cabelo loiro escuro curto. Ele não consegue ver muito dos olhos dele, já que ambos usam óculos escuros. De noite. O executivo, tomado de refém, sente só confusão borbulhar e ferver dentro de seu corpo.

— O que vocês querem? Por favor, digam, eu não aguento mais — ele chora, erguendo a voz. — Vocês estão com os Igualitarista, né? É isso?

As duas pessoas à sua frente param de rir, voltando toda sua atenção para o homem, com um leve sorriso no rosto dos dois. O homem de pé passa a mão pela nuca e fala, em um tom de voz calmo:

— Eu poderia dizer que estamos aqui atrás de vingança pelas coisas que você fez, cara. E a gente sabe os podres que você fez e fique tranquilo, sua família também vai. As funcionárias que você assediou. Os empregados que você tratou feito lixo. Ah, sim. Eles vão saber. Só que na real, você é uma mensagem.

— Mensagem? — Ele pergunta, confuso.

A mulher faz que sim.

— Para todos os outros caras, que nem você dessa cidade. Para Midas, por exemplo — ela explica. — Digo, você sabe quem nós somos né?

O homem nega com a cabeça. Faca suspira, um pouco desapontada.

— Eu e meu amigo aqui, Pistola, nós fazemos parte de um grupo que luta pela liberdade, sabe? Somos as Armas. Nunca ouviu falar de nós? — Faca pergunta, um pouco abismada.

O homem nega uma vez mais e Faca passa a mão pelo queixo do homem, apertando-o com força.

— Caraca, amigo. Você é muito desinformado. Digo, nós temos uma certa fama já. Não é como se fossemos treze pessoas aleatórias que fizeram uma coisa e só — Faca comenta, com a voz áspera. — Pelo jeito nós vamos ter que deixar uma mensagem bem feia. Talvez assim a gente fique mais conhecido e gente como você fique com medo de quem entra na sala deles.

O homem tenta falar algo, gaguejando, e uma faca se crava em sua bochecha, perfurando-a e saindo do outro lado do rosto. O homem grita, piorando o corte ainda mais.

— Ai, grita não. Você vai se machucar e piorar esse corte na boca — Faca aconselha. — Ah, tome esse presente aqui.

Ela tira do bolso um colar com um pendrive e coloca no pescoço do sujeito, ainda em choque com a dor.

— Os Igualitaristas encontraram ótimas armas para por aí — o homem conhecido como Pistola sorri, diabolicamente. — E as armas devem ser dadas a aqueles que precisam.

— Não aqueles que as querem — Faca completa.

O executivo finalmente morre, sentindo uma breve, intensa mas rápida dor, como se tivesse levado um tiro. Ele tenta gritar, mas sua voz não sai de sua boca aberta, que se contorce em dor, encarando o teto. A vida escapa de seu corpo junto com o vapor residual. Pistola observa o buraco na cabeça da sua vítima. Faca solta um suspiro triste e se volta para seu colega.

— “Os Igualitaristas encontraram ótimas armas para por aí?” — A mulher pergunta, olhando para seu colega.

— Que? Qual foi? — O homem pergunta, tímido.

— Essa era a melhor coisa que você tinha para dizer, Tom? — Faca indaga, com um sorriso surgindo em seus lábios.

Thompson revira os olhos. Stefani, a Faca, vê o que o executivo não consegue ver: o braço esquerdo de Thompson Ali está tomado por um metal líquido, indo de seu ombro até sua mão, tomando a forma de uma arma. Através dela, os disparo tanto contra o guarda e contra o executivo que acabaram de executar foi feito. O metal se torna líquido e se torna sua pulseira novamente, com ele se espreguiçando.

— Vamos indo então? — Thompson diz, abrindo e fechando a mão esquerda.

— A vista daqui é bonita, né? — Stefani, a Faca, comenta. — Tudo parece tão pequeno.

Os dois param e observam a paisagem da janela, não conseguindo negar a beleza da visão de cima da cidade, que vem junto com um gosto amargo na boca de ambos sabendo o que aquela visão simbolizava e trazia. Thompson assente positivamente.

— Tenho uma dúvida a dias na minha cabeça — ela fala. — Mas não consegui formular nem arranjar tempo para te perguntar.

— E qual é? — Thompson olha para a colega, curioso.

— Aquela garota, Muriel, por que deixou ela ir? — Stefani questiona.

— Não quer ela no show? — Thompson faz uma cara triste. — Poxa, golpe baixo com a garota.

Stefani bufa e revira os olhos, fazendo seu amigo rir.

— Você entendeu, explica logo — ela o empurra de leve para o lado.

— Ela claramente tem potencial. E sim, deixar ela voltar para o senhor Blanco é arriscado mas… — o olhar de Thompson se perde em algo muito além daquela paisagem na janela. — Como você experimenta a liberdade sem antes ser cativo numa gaiola?

Os dois ficam se encarando em silêncio por um tempo. Stefani bufa, desviando o olhar e dando as costas para o colega, indo rumo a saída.

— É uma jogada perigosa, mas, em tese, você tem certa razão — Stefani resmunga. — Agora vamos logo, os outros já devem ter acabado a parte deles.