Muriel anda em passos alegres, saltitando, pela rua. O Hunter Nero anda um pouco atrás, com Marta a dois passos atrás do professor. Marta tenta raciocinar por que o professor quis tomar aquela garota como sua nova aluna. Ela é uma ladrazinha de feira e não deve ter uma moral ou um caráter dignos para se tornar um Hunter. Aquela garotinha não é como Marta Latynia. Marta é alta: aos seus dezesseis anos, ela já possui um metro e setenta de altura. Carrega sua bola de futebol debaixo do braço, e não é difícil de notar o quanto seu corpo é forte, bastante atlético, e ela se orgulha disso. Seu cabelo loiro claro é cortado na altura do ombro, tendo bastante volume. Sua pele tem um leve bronze, dado o sol que tanto toma.

— Marta, você está bastante quieta — Nero comenta, em um tom de voz baixo para Muriel não ouvir. — Aconteceu algo?

— Não, professor. Não aconteceu nada, eu só… estou pensativa.

— Então aconteceu algo. Algo lhe deixou pensativa, algo está te deixando pensativa — Nero fala, se controlando para permanecer com suas mãos nos bolsos de sua calça, querendo gesticular.

— Por que escolheu essa garota? Ela é uma garota qualquer. Sem grandes motivos ou sonhos para ser colocada dentro da jornada de um Hunter. Ela é uma pessoa, se não ruim, apenas comum. — Marta fica quieta, organizando o jeito mais apropriado de elaborar o que quer dizer.

— Essa garota não é uma qualquer. — Nero diz, convicto. — E talvez, esse seja o desejo d-...

— Chegamos! — Muriel exclama, olhando maravilhada para a confeitaria.

Nero resolve deixar esse assunto para lá, e Marta resolve não insistir, mas isso a deixa com uma pulga atrás da orelha. Ela para, ficando encarando a nova colega, que saltita olhando a vitrine, puxando Nero pela manga do paletó para olhar os doces e bolos. Marta bufa e se aproxima também.

Eles entram e compram um bolo, com Nero cantando parabéns para Muriel, e Marta cantando também, um pouco a contragosto. Marta não sabe como reagir direito quando leva seu olhar para o rosto de Muriel e ela está segurando o choro. O lábio inferior dela treme enquanto ela tenta erguer a cabeça para evitar que a lágrima caia. Nero olha para Marta, como se sugerisse para ela encontrar uma solução. A aluna retorna o olhar para a colega. Marta engole em seco e corta um pedaço do bolo e coloca em um dos pratinhos e oferece para Muriel.

— Feliz aniversário — ela diz, com uma voz dura.

Muriel, ainda tentando engolir o choro, limpa seu nariz com a gola da blusa, pegando o prato e dando um sorriso.

— Podem comer também, eu deixo. — Muriel começa a comer, fazendo sons de aproveitamento exagerado, fechando os olhos para sentir o gosto percorrer sua boca.

Nero ri dela, servindo tanto a si quanto a Marta de um pedaço do pequeno bolo que foi comprado. Antes de Muriel colocar outro pedaço na boca, ela retorna o garfo para o prato e olha para seu novo mestre.

— É, só pra saber, eu vou precisar pagar por isso? — Muriel diz, fazendo um beicinho triste, esperando que isso convença Nero a comprar mais coisas para ela.

Ela precisa jogar esse jogo com cuidado, mas risco é importante nessas horas. É como jogar cartas. Ou roubar a mesma loja várias vezes.

Nero põe a mão à frente da boca, contendo o riso para não passar a ideia de deboche para sua nova aprendiz.

— Não, lógico que não. É seu presente de aniversário, não precisa se preocupar com isso, Muriel.

Muriel solta um alto e curto riso, pega de surpresa, e começa a atacar o bolo. As palavras do Hunter flutuam na cabeça de Marta. "Ela não é uma garota qualquer", ele disse. E o que ela tem demais? Ela soube escapar lá na feira e depois dela e dos demais. Ela é ágil e possui destreza. Isso, por si, não é nada excepcional dentro do mundo Hunter. Então o quê? É o jeito simples dela? Não, não pode ser isso. Marta considera que talvez seja alguém da família da garota, mas não tem conhecimento disso. Seu mestre apenas disse que tinham que vir para cá investigar alguns “fios soltos”, e Nero os fez parar naquela feira após pararem umas poucas vezes em certos lugares, atrás de informações.

Nero não demonstrou interesse em Muriel na feira e, ainda assim, Marta não entende o que fez ele tomar a atitude de ir atrás dela e de ainda lhe oferecer ser seu tutor. Ela pega um pedaço de bolo para si, a contragosto, e come enquanto seus olhos analisam cada movimento de Muriel, atrás de alguma pista, de algo que mostrasse a capacidade dela. A garota pega um pedaço grande demais para a própria boca e exageradamente a abre. Marta olha para aquilo com desdém.

“Deus, ela é uma criança”, ela pensa.

Muriel acaba deixando um pedaço cair, ficando com a boca cheia de bolo. Ela solta um resmungo choroso e Nero solta um risinho. Marta sente que seus olhos poderiam ficar se revirando continuamente por causa da situação. Muriel se ajoelha no chão, em frente ao pedaço, de modo dramático, com os olhos marejados. Ela tenta falar alguma coisa, mas a quantidade de bolo em sua boca impede Marta de entender o que ela quer dizer. Marta continua olhando perplexa para a garota, sentindo suas sobrancelhas se arqueando cada vez mais.

Muriel resmunga mais alguma coisa e pega o pedaço do chão.

“Pelo menos ela vai jogar em um local adequado. Ótimo, pelo menos ela sabe lidar com o lixo que ela gera”, Marta pensa, expressando um leve sorriso.

E ela é deixada novamente perplexa quando sua nova colega coloca o pedaço dentro da boca, a fechando e bebendo um pouco de suco para ajudar a mastigar. Marta olha horrorizada para aquilo, voltando o olhar para seu mestre, em busca de algum comentário.

“Como ela foi escolhida?” Marta está perplexa.

Só que Nero está tranquilamente comendo seu bolo, dando uma risadinha.

— Muriel, querida, não coma coisas que caíram do chão. — Ele se limita a dizer.

— Eu peguei antes de dar cinco segundos — Muriel fala, sem hesitar. — Então tá valendo, não?

“Não, se passaram uns dez ou vinte segundos”, Marta responde dentro de sua mente.

Nero e Muriel riem, com Marta comendo seu bolo em silêncio.

— Mestre, depois daqui nós iremos para onde? — Marta ergue a voz e o olhar. — Ficaremos nessa cidade por muito tempo?

Nero engole o pedaço de bolo em sua boca.

— Presumo que não. Presumo também que esteja ansiosa para retornarmos ao seu treinamento — o Hunter comenta, girando o suco em seu copo.

Marta assente com a cabeça, com um leve sorriso iluminando seu rosto.

— Só precisamos esperar o Chezan voltar. Aliás, Muriel, que tipo de roupas você gosta? — Nero indaga, tirando um celular do bolso.

Muriel para e pensa. Ela sempre usou o que tinha. Não pensou que poderia criar preferências específicas.

— Eu gosto de macacões. E moletom — ela fala devagar, pensando bem.

— Por quê? — Marta questiona, no mesmo tom seco, querendo ver a resposta da colega.

— Macacões me soam confortáveis. E tem bolsos legais! E os moletons são tão confortáveis. E fáceis de se mexer.

Marta move a cabeça um pouco para o lado, concordando com o que a garota diz. Não conseguiu discordar dela, mesmo a estranhando tanto. Nero mexe um pouco no celular e o guarda novamente.

“Ainda assim, não foi seu gosto de moda que a fez ser escolhida”, ela afirma em pensamento, ainda irritada.

— Marta é minha aluna faz um ano, Muriel. Ela, tal qual você será, está se preparando para o Exame Hunter — Nero explica, girando o garfo por entre os dedos. — Sabe o que é?

Muriel faz que sim com a cabeça, de modo exagerado.

— Sim, sim, sim. Meu tio me explicou o que é — ela fala de boca cheia.

Ela engole o pedaço e limpa o canto da boca com a língua.

— Meu tio era um Hunter. Ele me explicou.

Marta arregala um pouco os olhos, como se algo tivesse estalado em sua mente e uma lâmpada tivesse surgido. Será que o tio de Muriel e Nero foram colegas, ou amigos? A aprendiz de Hunter bebe um pouco da sua vitamina e continua assistindo a conversa.

Muriel se lembra do que seu tio falou sobre o Exame Hunter. Sabe que acontece uma vez por ano e gira em torno de todo tipo de prova. Seu tio comentou que precisara de três tentativas para passar no Exame. Na primeira, um cara que ele confiou acabou sabotando ele. Na segunda, ele foi desclassificado nas últimas fases. Na terceira, ele passou com facilidade.

— Eu vou participar? — Muriel pergunta, com medo. — Não sei se aguento. Tipo, é algo difícil, não?

Nero sorri, apontando o garfo para a aprendiz.

— Não, você tem o que é necessário — o homem fala, com um sorriso bondoso.

Muriel se encolhe na cadeira, tímida.

— Obrigada.

— Não tem porque pedir, querida — Nero assegura-a, acabando seu bolo e deixando o garfo sobre o prato.

— Você me salvou daqueles malucos que queriam me cobrar umas paradas. — Muriel começa a contar nos dedos.

“Isso fui eu”, Marta respira fundo.

— Você tá me tirando do buraco que eu vivia. Me dando uma chance de ir pra York Shin e, tipo, sabe? Melhorar. E você comemorou meu aniversário. Me deu um bolo. E ele tá tão, tão, tão bom. — Muriel limpa uma lágrima e então lambe ela. — Salgadinho.

Marta mexe na sua fatia de bolo com o garfo. Sua cabeça ainda busca entender, por pura teimosia, o motivo de Muriel merecer de supetão o mesmo posto que ela tem.

— Muriel, você pensava em ser Hunter? — Marta pergunta, olhando diretamente para a colega.

— Nunca. Eu pensava em ser uma plantadora de coisas. Só que eu queria morar na cidade, então não sei.

Aquilo deixa Marta ainda mais irritada. Ela começa a batucar no prato, fazendo o garfo tilintar enquanto salta com impacto de seu dedo.

— Não tem nenhum motivo? Sabe o quanto a vida de Hunter é perigosa? O quanto exige de você? — A voz da garota se ergue um pouco, perdendo a compostura.

Muriel sorri.

— Sim, eu sei — Muriel fala, dando um sorriso. —, Mas eu acho que vale a pena, sabe?

Nero assiste silenciosamente a conversa das duas.

— E você não tem nenhum sonho? Nenhum objetivo? — Marta insiste, sua expressão demonstrando cada vez mais o quão irritada está.

— Ir no cinema! — Muriel exclama, com olhos bastante abertos, acompanhados de um sorriso largo no rosto.

Marta olha para Nero, em estado de irritação pura. Seu professor apenas ergue a mão, calmamente. O bolo, que era pequeno, havia acabado, e ele se levanta para levar os pratos e copos vazios para o balcão da loja. Muriel fica olhando sorridente para Marta, sem entender que ela está irritada. Para ela, tudo aquilo é fantástico. Tudo que está se passando é coisa de um filme, e não tem porque estar reparando em uma garota que mal conhece, a encarando com olhares duros.

Muriel pensa nas histórias de seu tio e reflete no fato de que, agora, irá poder viver essas aventuras. Viver suas próprias versões. Ela abraça ambas as suas mochilas, buscando um conforto, sorrindo e respirando fundo. Só o fato de, justo hoje, ela ter vivido tudo que aconteceu até agora já lhe é tão mágico. Ganhou até um bolo! Como ela poderia achar qualquer ponto desse dia ruim?

— Ei, qual seu nome mesmo? — Muriel pergunta, se inclinando na direção de Marta.

— Marta — ela responde, respirando fundo. — Marta Latynia.

— Marta, certo. Você já fez o Exame Hunter alguma vez? — Muriel pergunta, ainda abraçada em suas coisas.

Marta nega com a cabeça. Muriel põe o dedo na boca, curiosa.

— Entendi. É que meu tio fez três vezes pra conseguir passar. E fiquei pensando se você já tinha feito. Se poderia me dar dicas — Muriel diz, se reclinando na cadeira.

Marta solta um risinho pela ingenuidade da garota.

— Se você acha que estará em condições para participar em alguns meses, está muito errada.

Muriel começa a rir, primeiro baixinho, tentando conter-se, e depois gradualmente rindo mais e mais alto, gargalhando. Marta range os dentes e cerra os punhos.

“Ela não merece ser treinada”, Marta determina. “Ela seria uma desgraça como aluna e como uma Hunter”.

Nero retorna, com celular em mãos. Ele solta o coque e sacode a cabeça, o cabelo branco se armando. É como um leão, com o cabelo adornando seu rosto igual uma coroa.

— Bem, Chezan ligou e disse que já acabou de comprar o que lhe pedi. Muriel, Marta, estamos indo para o hotel. Amanhã partimos para York Shin — ele anuncia, guardando o celular no bolso interno de seu paletó.

Muriel sorri, batendo palmas. Ela se levanta se impulsionando com as pernas para fora da cadeira. Muriel se pergunta se as roupas que Chezan comprou seriam boas ou se as que ela já tem não bastariam. Não quer ser chata perguntando coisas assim. Desde que as roupas sirvam, já está de bom tamanho. E se ficarem grandes, é até bom. Para Muriel, se a roupa ficar grande é um sinal que vai render mais, já que ainda é jovem. Ela respira fundo, tateando o colar de seu tio por debaixo de sua camisa. Ela se pergunta se Jorge Andrade, seu tio, ficaria orgulhoso ao vê-la finalmente sair dessa cidade. Dessa vida. Seguir a vida de Hunter, que ele mesmo tanto se orgulhava.

Muriel não vê Nero a tomando como aluna como algo estranho. Inesperado, no máximo. Ela se considera habilidosa. Se considera bastante forte, ágil e engenhosa. Vê a proposta oferecida para ela como algo mágico, talvez até marcado para acontecer. Ela anda ao lado de seu novo professor saltitando, não conseguindo conter a alegria e empolgação em seu corpo. Se pergunta se vai poder ter um quarto só dela. Se vai poder ter uma cama boa, imaginando um enorme quarto com um grande e macio colchão nele, e sorrindo com a ideia da sensação de se deitar e sentir um colchão macio.

Alguns minutos caminhando e se maravilhando com as ideias de sua cabeça, ela se vê passando na frente do beco onde mora a Dona Solange. Muriel agarra o braço de Nero, o puxando duas vezes.

— Seu Nero! Antes de irmos, eu posso me despedir de alguém? — Muriel pede, ainda saltitando.

O Hunter sorri, achando o jeito energético e inquieto de sua aluna amável. Ele assente com a cabeça e a vê correr para dentro do beco.

— Mestre, eu… Eu ainda não entendo seus motivos para recrutá-la. — Marta suspira, passando a mão pela testa, tirando o cabelo da frente e jogando-o para os lados.

— Eu tenho meus motivos, Latynia. Disso você pode se assegurar. Também não pretendo prejudicar o seu treinamento. Seus objetivos não serão deixados de lado ou atrasados. — Nero ajeita a gola do seu terno enquanto fala, com a voz ainda calma. — O fato de você não ter sentido, naquela hora que Muriel se libertou do sufocamento, o por que meu interesse mudou, mostra que seu treino está… Longe de uma conclusão.

Marta range os dentes, sentindo frustração percorrer seu corpo. Muriel, por outro lado, está caminhando pelo corredor e, ao invés de virar para a direita — que a levaria de volta para o local da feira —, ela ruma para a esquerda. Vê a porta para a casa da senhora que muitas vezes a ajudou, seja com um local para dormir, comida ou companhia, e sorri. Seria bom dar a boa notícia para alguém, só fica triste que agora não poderia mais fazer companhia para a boa e velha Solange. Também não poderia levá-la, não acha que o senhor Nero a aceitaria como aprendiz.

Ela chega na porta e a vê entreaberta. Ela coça a parte de trás da orelha, pensativa.

“A Solange tinha o costume de deixar a porta aberta?” Muriel reflete, parada na frente da porta. “Ela às vezes esquece quando chegava cheia de compras, é verdade.”

Muriel ri e bate duas vezes, enquanto a abre.

— Ei, Dona Sol, é a Muriel — a garota fala, conforme dá o primeiro passo para dentro. — Tô entrando, okay?

Solange vivia sozinha desde que Muriel a conhece. Seus filhos não a viam há muito tempo Raramente, muito raramente, vinham visitá-la. Se vinham, geralmente Muriel acabava vendo a senhora bastante triste.

“Famílias são problemáticas”, Muriel pensa, tristemente.

A casa está silenciosa. Pouquíssima luz entra no lugar que Solange mora, visto que mora em um beco cercado de outros prédios, e Solange sempre reclamou bastante disso. Muriel se pergunta se a senhora foi dormir depois do almoço. Ela tem o hábito de tirar cochilos após o almoço, mesmo. Assim que passa pela sala, ela vê a cozinha, e de fato, tem comida recém feita no fogão. Muriel suspira aliviada e ao respirar fundo, sente o cheiro da comida. Pelo jeito, ela fez arroz, feijão e frango. Algo simples, mas tem um cheiro fantástico. Muriel para e retorna para a cozinha, fuçando se sobrou carne e tomando uma concha de feijão.

Após engolir a comida, ela limpa a boca suja com a manga da blusa e retorna ao corredor. Andando mais um pouco, ela vê a porta do quarto entreaberta, e olhando pela fresta, ela consegue ver a senhora na cama, deitada e dormindo. Muriel para e se encosta na parede, pensativa.

— Eu posso acordar ela e me despedir, mas acordar alguém dormindo não seria sacanagem? — a garota se pergunta, em um tom de voz baixa. — Eu posso tentar escrever um bilhete avisando e contando… Mas não sou a melhor das pessoas escrevendo. Eu posso tentar desenhar um quadrinho!

Muriel tapa a própria boca ao notar que ergueu a voz demais. Ela volta para a fresta da porta, passando o olhar rapidamente pelo quarto, e volta para a parede. Muriel retorna a pensar se deveria acordar Solange, tentar escrever ou até fazer o quadrinho quando finalmente nota que viu um rosto ao olhar pela a fresta da porta. Um rosto que, com toda e total certeza, não era Solange. Muriel sente uma brisa fria e se perguntar se aquilo foi medo ou uma brisa de verdade. Sua respiração começa a ficar acelerada. Sua mão esquerda começa a ir até ao bolso lateral da mochila, tateando o martelo.

Em passos silenciosos e cautelosos, Muriel toca a porta e a empurra devagar, a ouvindo ranger, ainda segurando o cabo do martelo.

— Dona Solange? — Muriel fala. — Aquilo foi você ou você tem um… namoradinho?

Com o pouco aberto, ela vê o tapete ciano ao lado da cama manchado, praticamente ensopado, de um líquido vermelho.

“Não, ela não fez nada com tomate hoje”, Muriel pensa, em horror.

A garota sente sua visão desfocar e o sangue de seu corpo cair. Um homem sai de trás da porta, com um olhar de puro horror, e avança para cima da criança. Muriel saca o martelo e acerta a mão direita do homem. Ele grita em dor, recuando para trás. Na mão esquerda ele possui uma faca, ainda suja de sangue. Muriel sente repulsa. Sente raiva. Ela precisa correr. Ir chamar Nero, um Hunter profissional. Ela é só uma garota com um martelo, em uma mão que começa a tremer de nervosismo. O homem rosna de dor e de raiva.

Muriel se pergunta se aquele é o filho de sua antiga amiga, que jaz na cama. Nos pequenos segundos em que tudo isso se passa, Muriel consegue perceber: Solange não respira.

— Você é uma desgraça — Muriel fala, atônita.

O homem não responde, mas foi pego de surpresa, os olhos em surpresa e a boca se contorcendo em nojo pela criança a sua frente. Não pode deixá-la escapar. Não pode deixar ela avisar alguém. Ele avança uma vez mais, mas Muriel já esperava isso, usando os dentes do martelo para puxar o trinco da porta. Ela recua, ouvindo ele bater contra a porta e a xingar.

Ele abre a porta, e escuta a porta do banheiro se fechando, com força. Em passos pesados, ele vai até ela e a abre. O cômodo está vazio, ele vê um vulto no canto do olho, se virando e sua vista escurece. Muriel jogou o feijão que havia na panela contra o homem. Ela ergue o braço, levando a panela até suas costas, e acerta a panela com força contra a cabeça do homem. O som ecoa. Ela repete o ato, o homem atordoado demais. Muriel precisa correr. Deve. Ir chamar Nero ou qualquer ajuda adulta, ajuda devida e apropriada. Só que ela não quer. Ela quer fazer isso ela mesma.

Solange tinha uma boa saúde. Um bom humor. Um bom coração. E esse homem tirou a liberdade dela. Tirou qualquer perspectiva futura. Tirou de Muriel a chance de se despedir. Ela sente uma mão segurar seu pulso, alguém atrás dela. Ela se vira e vê Nero, com um olhar sério. Não bravo, apenas sério, ainda sereno. Muriel sente seu sangue descer ainda mais.

— Senhor, eu, eu. Eu vim ver essa conhecida minha. A Solange. Eu queria me despedir dela, só que daí tinha esse cara aqui. E a Solange tá morta, e ele tentou avançar pra cima de mim, eu não fiz nada, eu juro, eu… — A voz da garota é de ansiedade pura, nervosa pela situação, pelo o que viu.

Muriel retorna o olhar para o homem caído e nota que ela parecia a agressora. Não ele. E quando retorna o olhar para o Hunter, ele ainda está sério. Ele a solta, e Muriel se gruda as costas na parede, respirando afobadamente. Ela morde o lábio de leve. Nero se ajoelha e checa a respiração do sujeito. Não está morto. Ele levanta e se ajoelha novamente, agora ao lado de uma das mãos e nota que tem algo embaixo. Puxa o braço pela manga, para afastar a mão e vê a faca. E tem sangue nela.

— Ele cortou você? — Nero pergunta, olhando para Muriel.

Muriel balança a cabeça, sem forças para responder. Nero se levanta e vai até o quarto, vendo a mesma coisa que a garota viu. Ele confere a respiração da mulher na cama, e, infelizmente, ela já está morta. Ele fecha os olhos dela e sai do quarto. Ele para na frente de Muriel e a abraça.

— Vamos sair daqui, sim? — ele fala, baixo, enquanto acaricia os cabelos dela.

Muriel faz que sim e não desgruda do professor até estarem fora do beco. Marta olha assustada para os dois.

— O que houve? — Marta pergunta, vendo o estado de Muriel.

Nero ergue a mão, pedindo por um momento. Ele tira seu celular do bolso e chama por Chezan e pede para ele trazer as autoridades. Muriel se senta no meio fio e suspira. Olhando para suas mãos, que tremem, ela respira fundo. As mãos lentamente param de tremer. Ela tira a mochila rosa das costas e pega um dos pães roubados mais cedo e o come.

Nero, vendo isso, se senta ao lado dela.

— Posso comer um? — ele pergunta.

— Não — Muriel responde, de modo calmo.

— Quer conversar? — Nero desabotoa seu paletó e retira ele, ficando só com a camisa social preta.

— Sobre?

— O que aconteceu. Você parecia, e ainda parece, bastante assustada. Mexida com isso. E se quiser conversar, eu estou aqui. Sou seu professor.

Muriel fica quieta.

— O que eu fiz foi errado? — Ela não faz contato visual, deixando seu olhar focado no asfalto.

Nero passa a mão pelo cabelo, fechando os olhos.

— Foi humano — ele diz. — Sua reação? Entendível. Não há como te culpar. Foi errada? Sim. Você reagiu com violência. A mesma que matou aquela mulher.

Muriel nada diz.

— Mas você é jovem, Muriel. E você não o matou. Você não cruzou a linha.

— Porque você me impediu! — Ela não grita, mas ergue a voz e sua mão bate contra sua própria coxa em frustração.

Nero assente, concordando.

— Acho que por isso eu sou o professor e você a aluna — Nero comenta, dando um leve sorriso para ela. — Não perca fé em si mesma. Como Hunter, situações extremas acontecem, mas não podemos perder o rumo. Não podemos perder a visão da linha que estamos andando.

Muriel morde o pão, mastiga-o e engole.

— Meu tio dizia que, se olharmos para trás e ainda conseguirmos ver o caminho por onde viemos, sempre podemos dar o próximo passo. — Muriel conta. — Mesmo que demore.

Nero sorri e oferece a mão para ela segurar. Ela aceita.

Logo os policiais chegam e cuidam das coisas, com Nero e Chezan explicando o ocorrido. A mente de Muriel não consegue se fixar no agora. Só consegue pensar que ser Hunter talvez não seja uma boa ideia de verdade. Talvez ela deva, de verdade, pegar carona com Nero até York Shin e só sumir. “Dar perdido”, como Muriel dizia. Ela havia ficado tão feliz com a possibilidade, de poder ser alguém “capaz” como disse Nero, de estar seguindo os passos de seu tio. Só que, após o que aconteceu agora, ela sente que talvez ela não leve jeito. Talvez ela tenha criado expectativas demais e se achado capaz de coisas que não é.

Muriel se sente flutuando no assento do carro que a leva para o hotel onde o Hunter Nero está hospedado, olhando as linhas brancas da rua deslizando pela paisagem do carro. Se sente como se o destino tivesse a deixado ir ao parque, ver as crianças tomando sorvete, mas apenas isso. Ela só podia ver as crianças tomando sorvete. Só que o destino havia dito que hoje ela poderia provar sorvete.

Agora, parando para pensar, Muriel vê certa lógica no que Marta disse para ela durante a ida à confeitaria. Muriel tenta e tenta encontrar uma resposta, mas tudo que consegue são mais dúvidas, ou respostas que, na verdade, não respondem a nada. Ela não quer falar sobre. Sente que Nero só irá ser bom, e só porque ele é uma boa pessoa.

Ela pisca e o resto de todo o dia passa de um jeito estranho. Memórias que não se gravaram. Muriel se sentia com dor de barriga e com pessoas tentando falar com ela, vozes abafadas tentando alcançá-la.

Agora está no quarto do hotel com Marta. Ela ajeita sua cama, deixando as sacolas de compra que Chezan trouxe. Muriel se recorda do quanto ele estava empolgado para saber se ela gostou, mas Nero notou o estado da garota e pediu para deixar isso para amanhã.

Muriel toca o lençol da cama com encantamento, só que, junto com essa sensação, vem um zumbido estranho. "Isso não lhe pertence", diz o zumbido. Nada disso parece para ela. Novamente, se sente apenas tendo um gosto do paraíso antes de ser jogada de volta para sua realidade. E fica com medo de aproveitar. Porque o padrão de cama que ela tem é um, ela só tem a ideia de como deve ser uma boa cama. Uma cama com estrado e tudo, não um colchão em um canto de uma kitnet. Esse é o padrão dela. E se ela conhecer o que é uma "cama boa" e voltasse a sua vida antiga, para sempre estaria angustiada por saber o que é uma "cama boa".

Marta Latynia sai do banho, enxugando o cabelo, já pronta para dormir. No entanto, antes de começar sua sessão de alongamentos — que faz sempre antes de dormir, para ter um sono com o corpo relaxado —, ela percebe que sua colega de quarto está há um bom tempo de pé, alisando o lençol.

— Você está bem? — ela indaga, bebendo um gole de sua garrafa de água.

Muriel sacode a cabeça positivamente e olha para Marta, abrindo um sorriso e fazendo uma pose.

— Eu estou sim! Só estava sentindo o quão incrível é esse lençol! — Muriel ri.

Marta suspira, colocando a garrafa de volta em cima do móvel ao lado da cama.

— Você deveria tomar um banho — Marta sugere. — Você está fedendo.

Muriel cora, desviando o olhar, mas ainda rindo. Vai até sua surrada bolsa de golfe e começa procurar por uma muda de roupa. Marta se aproxima e pega uma camisa que Muriel jogou no chão. Aquilo está entre cinza e marrom, mas Marta consegue notar que a cor inicial daquela camisa era branca.

— Use uma das roupas que Chezan comprou. Estão limpas. — Marta fala, em tom de bronca. — Melhor que essa.

Ela devolve a camisa para dentro da mochila e sente que deveria lavar suas mãos. Só que sabe que não seria bacana implicar com essas coisas, com Muriel abalada daquele jeito. Marta está triste pela garota, de fato aquilo foi trágico e sabe que, para uma pessoa comum como Muriel, aquilo deve estar sendo impossível de se lidar. E talvez agora ela note que a vida de Hunter não é para ela.

“Ela nunca iria longe com objetivos como o dela. Ela ainda não sabe o que é vida”, Marta reflete. “E quando estivesse lutando e treinando com tudo de si, sentindo todo seu corpo doer de exaustão, não seria o desejo de comer algo gostoso que a motivaria para um novo patamar de força.”

Muriel segue para o banho, receosa. O ambiente é limpo, bem iluminado e bastante bonito. A garota não consegue se conter e acaba mexendo em tudo. Ligando e desligando a torneira. Abrindo gavetas e portinholas. Toca o papel higiênico e se surpreende com a textura macia. Ela solta um risinho de puro encanto e segue para o banho. A água quente abraça seu corpo e ela sente todos seus músculos relaxarem. Ela abraça o próprio corpo, se encolhendo e sentindo aquela água quente. Ela gostou daquilo. Ela soluça, baixinho. Ainda está com o colar de seu tio. Ela se encolhe um pouco mais. Pelo menos o barulho do chuveiro e a água escorrendo pelo seu rosto escondem dela mesma o fato de estar chorando.

Marta vê a porta abrir e uma sorridente e saltitante Muriel saindo do banho com um pijama. O colar, que balança conforme a garota salta e gira, chama a atenção de Marta, que não tinha notado-o até então.

— Você parece melhor — ela resmunga, enquanto lê um livro.

— E como não estar? — Muriel gira em seu próprio eixo. — Você já usou esse chuveiro? Que água gostosa! É tão quentinha! Eu amei!

Marta respira fundo, fechando o seu livro e erguendo o olhar para a garota.

— Muriel, podemos conversar? — Marta se endireita na cama.

Muriel para de girar e tenta ficar de frente para a colega, ainda zonza e não conseguindo ficar exatamente parada.

— Claro! — ela responde, fazendo posição de sentido com uma risadinha.

Marta demora para falar, ficando um tempo em silêncio, pensando em como melhor colocar em palavras o que pretende dizer.

— Você deveria chegar em York Shin e fazer sua própria vida. — Marta fala, olhando diretamente para Muriel.

Muriel inclina a cabeça para o lado, se fazendo de confusa.

— Mas como assim?

— Muriel, a vida de Hunter é dura. Exige muito de alguém ser um. Com certeza seu tio deve ter falado sobre isso. — Marta não queria tocar no tópico do tio dela, mas no fim parece inevitável para fazer seu ponto. — Você não precisa se pôr a tanto. Com certeza vai conseguir cumprir seus sonhos mesmo sendo, como você mesmo disse, uma agricultora.

— “Agricu” o quê? — Muriel inclina a cabeça para o outro lado.

Marta respira fundo.

— Alguém que planta as coisas — ela responde, em um ato quase doloroso.

— Ah! Então é disso que são chamados! — Muriel sorri, juntando as mãos. Seu olhar se enche de choque. — Eu não deveria ter deslocado o braço daquele cara.

— O que?! — Marta exclama, em confusão.

Ela respira fundo e decide deixar para lá.

— Enfim, meu ponto é: A vida de Hunter é difícil, Muriel. E você não vai tão longe com o que você tem em mente. Você não serve para isso. Ninguém vai te julgar se desistir. Chegue em York Shin e eu te ajudo a despistar o Mestre Nero e o senhor Chezan. York Shin é grande e fazer uma vida lá é fácil.

Muriel fica quieta por um momento, séria até. Ela abre um largo sorriso.

— Você está certa, sabe? — Muriel comenta, rindo e coçando a parte de trás de sua orelha esquerda. — Eu até já pensava em fazer isso, mas fica mal falar isso na frente do Nero, né não?

Muriel ri e Marta força um sorriso amarelo.

— Boa noite, então. Caso não acorde até vinte minutos depois de mim, eu vou te acordar — Marta avisa, apaga a luz do abajur ao lado dela e dá as costas à colega.

Muriel fica um bom tempo de pé, encarando a cama. Encarando algo muito além da cama. Se Marta chegou à mesma dedução que ela tinha chegado, talvez desistir seja a opção correta. Já deveria ser grata. Ela segura o pingente com a mão direita. Um sorriso largo se abre em seu rosto.

“Pelo menos vou levar aquele chuveiro”, ela decide, indo atrás de seu martelo e das outras ferramentas na bolsa de golfe.

Notas finais
Ia postar quinzenalmente MAS fiquei empolgadinho... Espero que tenham gostado de mais uma parte da história da Muriel