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2 De Volta Ao Luto


Notas iniciais
Voltei! Aproveitem a Leitura

3 Meses Atrás:

Estava escuro. O cheiro de mofo era uma das poucas características daquele porão abandonado. Ali viviam ratos, baratas, e julgando pelo estado das paredes, cupins também.

Aquele lugar poderia ser um típico ambiente que serviria de cativeiro. Não haviam janelas para iluminar nem um metro quadrado dali, não passava um sopro do vento que percorria lá fora.

Uma corrente de ferro, em boa parte oxidada, se estendia do teto até quase dois metros do chão, estava em volta de duas mãos grandes e totalmente sujas, marcadas com muito sangue. Provavelmente o líquido vermelho fora causado pela falha tentativa de desprendimento. Os braços que eram grandes e rígidos, também estavam marcados, mas não com sangue, e sim com algo parecido com queimado. Lembrava muito com as marcas que cavalos recebiam de seus donos com ferro quente.

Sua camiseta estava rasgada e mostrava o peitoral definido com mais marcas de cortes, provavelmente feitos com algum objeto pontudo. Os mesmos eram extramente fundos e ainda não cicatrizados.

Abaixo do Abdomem não continham nenhuma vestimenta. Seu órgão sexual bem notável era o única parte não marcada por nada, porém se encontrava muito inchado e esfolado.

Um claro e triste sinal de abuso teria acontecido sabe se lá quantas vezes, sendo a última bastante recente.

Um de seus olhos também estava inchado em tons arroxeados que circundavam toda aquela região. O mesmo impedia que ele pudesse se abrir e olhar qualquer parte daquela cena de terror. Ele estava com a cabeça suspensa, mas não dormia. Sua respiração era fraca e se continuasse naquele ritmo poderia durar mais alguns dias vivos apenas. Seu lábio ressecado indicava que ele não tomava nenhum tipo de líquido a muito tempo, ao lado havia saliva seca que percorria um caminho pelo pescoço.

Seu estômago roncou. O barulho ecoou por todo o perímetro. Lembrava muito um rugido de um leão ferido que estava entregando a batalha. Um som alto e extenso que poderia fazer tremer aquelas paredes comidas por cupins.

Passos pesados foram ouvidos, uma fechadura se destrancou as pressas e a porta abriu-se rapidamente, deixando uma luz invadir parte do local, que se distanciava totalmente das correntes.

Ao ouvir todo o movimento o sujeito levantou a cabeça rapidamente, esperando que fosse algum resgate. No entanto, um homem saiu do escuro apenas usando cueca e segurava uma seringa que continha metade de um líquido incolor.

— Está pronto Puck? — O homem sorriu diabolicamente após percorrer os olhos por todo o corpo do prisioneiro.

Puck ficou de cabeça baixa sem dizer uma única palavra. Sentiu o toque no seu antebraço, e após, a agulha penetrar em sua veia.

— Isso vai te dar um pouco de ânimo — Ele disse, enquanto terminava de retirar a cueca.

O coração de Puck começou a pulsar mais rápido, e com isso ele ganhou mais folego, como também seu membro foi enrijecendo involuntariamente. Ele pronunciou algumas súplicas, que foram ignoradas pelo homem e sem nenhum sinal de piedade, Adam, recém-reconhecido diante da escuridão, avançou até o membro ereto com violência. O ato fez Puck urrar de dor, mas pelas próximas horas não havia muito o que fazer…

Atualmente:

Quinn mantinha um olhar perdido para o jardim da casa de sua mãe. Aquele foi o lugar que mais marcou sua infância. Ao lembrar de quando ela tinha sete anos e usava suas bonecas para representar sua versão do futuro; A mulher bem-sucedida e casada que cuidava das crianças gêmeas enquanto esperava o marido chegar do trabalho. Hoje em dia ela achava essa versão dela boba, afinal se descobriu lésbica e foi apaixonada por Santana Lopez. Mas independente do gênero, muitas coisas boas haviam acontecido com todos que ela se relacionou, e naquele dia se sentia triste por ter perdido uma das pessoas que ela tanto amou.

Quanto a Santana, a latina corajosa que viajava o país com a nova chefe em sua nova profissão de publicitária deixou a namorada loira incrédula quando disse que trancaria sua matrícula em Yale para começar a trabalhar para Raven, a excêntrica jornalista do New York Times que ganhou fama após expor “o caso de alunos perseguidos pela louca Tina Cohen-Chang”. Era uma matéria bem tendenciosa, na opinião de Quinn, e ela não pensava isso só por que aquela mulher foi a causa do abandono de Santana, mas sim, porque ela viveu tudo aquilo, e ainda assim não achava que Tina fosse um caso perdido.

Na verdade, Santana havia ficado estranha após descobrir que a loira estava grávida de Puck. Elas não se beijavam mais, mal trocavam palavras e quando conseguiam, se tornava uma longa discussão, principalmente quando o assunto era o destino do bebê.

Quinn queria criar a criança e Santana optaria pela adoção. O assunto foi se arrastando até duas horas atrás, na solene homenagem que prestaram a Puck. Ambas se viram pela primeira vez em semanas e pareciam bem decididas em suas ideias;

Eu não quero criar essa criança Santana cortou o silêncio angustiante entre elas Ela irá me lembrar toda sua relação com Puck. Eu quero um filho que seja nosso.

Quinn tocou a barriga e sentiu o bebê remexer dentro dela ao ouvir as palavras. Eram pouco menos de sete meses de gestação, mas muitos planos a frente.

Em toda minha vida eu irei me arrepender de ter dado a Beth. Sei que foi melhor para ela, mas eu nunca esquecerei quando vi aquele rostinho lindo pela primeira vez Ela sorriu ao retomar a memória de anos atrás Eu te amo Santana, mas não vou abrir mão do meu filho desta vez. Então se não consegue lidar com isso… Ela hesitou e percebeu a feição de Santana se contorcer em desgosto.

Deveríamos terminar? Ela perguntou decepcionada.

Quinn ficou encarando a latina sem poder dizer nada. Durante todos os seus pensamentos, ela dizia que ficaria com a criança e ia se aconchegar realizada nos braços da namorada. No entanto, a realidade era diferente. Ela estava ali a um passo de terminar com o melhor relacionamento de sua vida.

Acho que seu silêncio foi mais do que confirmativo.

Santana disse, com a voz embargada ao tentar conter as lágrimas. Ela levantou e saiu rapidamente deixando Quinn sozinha com a cabeça abaixada, falhando ao conter as delas.

A mãe da loira adentrou a cozinha e fez a mesma despertar de suas mórbidas lembranças. Ela usava um vestido de cor escura, que se aproximava muito do preto, propício para a homenagem de Puck.

A mulher notou o olhar de tristeza da filha e não precisou perguntar para adivinhar que se tratava de algo envolvendo Santana, a menina que estava se acostumando a chamar de nora, mas pelo semblante tristonho, não precisava mais se dar ao trabalho.

— Quinn eu sei que seu coração está machucado, mas foi a melhor decisão que poderia ter tomado. — Ela iniciou o assunto, pegando a filha de surpresa e a deixando incomodada.

— Eu sei mãe, e eu também estava pensando em nos afastarmos da cidade. Não sei se estou segura com a volta deste agressor.

A mãe suspirou aliviada com as palavras da filha, pois tinha o mesmo pensamento, porém evitou falar para não causar nenhuma discussão.

— Podemos morar um tempo com sua tia na Inglaterra! — Ela sugeriu com excitação.

Quinn lançou um olhar surpreso para a mãe.

Eu não pensei em ir tão longe. Ela disse calmamente para não causar aborrecimento.

A mulher se aproximou dela e tocou lentamente barriga de tamanho mediano.

— Quando mais longe estivermos desses doentes mentais, melhor nos sentiremos. Pense no bebê — Ela disse cautelosamente, enquanto acariciava a barriga.

Quinn olhou para cima, como se esperasse uma resposta divina. Ela retomou o olhar para sua mãe e lançou-lhe um meio sorriso, seguido de uma resposta:

Ligue para a tia e avise que estamos indo visitá-la.

A mãe soltou um gritinho agudo de animação e correu pegar o telefone. Quinn deixou uma lágrima escorrer em sua bochecha e retomou seu olhar para o pátio.

A escola estava em recesso devido ao acontecimento recente da semana passada. A diretora Sylvester se cansou de ouvir Madison por três horas seguidas, após ela ter encontrado o corpo exposto de Puck em decomposição e determinou que o dia seria livre para quem quisesse prestar suas homenagens aos ex alunos.

Após um dia cheio, Shelby convidou Rachel e Kurt para ajudá-la em uma reunião para recrutar novos integrantes para o clube do coral. Blaine não havia vindo para Ohio, pois de acordo com Kurt, ele estava ocupado com tantas matérias de Medicina. O tom que ele falara aquilo foi de total desgosto e difícil de acreditar, mas devido a tanta coisa que aconteceu, ninguém ousou contestar.

— Onde o Mr Schue está? — Perguntou Kurt, surpreso.

— Schuester está treinando o Vocal Adrenaline. — Ela respondeu nervosa. — Ele conseguiu o emprego após fazer a turma ganhar as Nacionais.

— O que? — Ambos perguntaram em uníssono.

— E porque você quis assumir o coral, pensei que Sue tivesse acabado com ele. — Rachel disse, num tom curioso e ao mesmo tempo decepcionado.

— Eu implorei por um emprego no coral, e depois que ela parecia bastante irritada, aceitou com bastante relutância.

Kurt riu, pois Sue agia exatamente daquela forma, as vezes até sentia saudades daquela mulher.

— Veja, eu chamei alguns alunos novos e antigos integrantes do coral para propôr que façam parte e vocês precisavam me ajudar. — Shelby parecia nervosa ao contar o que pretendia fazer.

A campainha tocou e Rachel foi apressada atender a porta. Após abri-la, uns sete adolescentes entraram, observando cada canto da casa com cuidado.

— Jane, Roderick, Mason, Madison, Spencer, Kitty, Unique e Ryder sejam bem vindos em minha casa. — Shelby cumprimentou cada um, animada.

— Senhorita Corcoran eu até imagino o que você queira e minha resposta é não. — Kitty se antecipou e percebeu a reação negativa da professora.

— Eu não sou o tipico gay clichê que entra em corais — Spencer continuou e Kurt se mostrou ofendido, pronto a responder, mas foi impedido por Rachel.

Eles se entreolharam e riram. Os outros ficaram encarando com desdém, e então, ambos acalmaram Shelby e a fizeram sentar.

— Quando o coral foi fundado, ninguém queria entrar, pois só tinha perdedores. Hoje vocês já ganharam duas competições Nacionais e estão indo para a terceira. Todos são tão talentosos e há grandes chances de vencer, principalmente sendo treinados por essa recordista em vencer.

Rachel fez um discurso e os alunos pareciam começar a concordar.

— Mas quem está no clube pode morrer. O agressor voltou. — Jane se manifestou saindo do fundo. Ela exibia um semblante assustado.

— Tina está trancada, Adam foi preso. Tenho certeza que ele pagou alguém para expor Puck e assustá-los.

Kurt tentou acalmá-la, mas no fundo nem ele acreditara nas próprias palavras. O corpo de Puck exposto os fizeram retomar um luto, do qual mal haviam se desprendido. E o pior que isso ainda vinha com um aviso de que todos eles continuavam em perigo.

— E então? Podemos começar os ensaios na segunda? — Shelby tomou postura ereta e perguntou entusiasmada.

— Bom, acho que vai ser bom cantar novamente — Kitty cedeu e segurou a mão de Ryder.

Os outros com exceção de Spencer aceitaram. Ele ainda parecia em dúvida, até que suspirou e disse:

— Ok, mas sem mashups de Katy Perry.

Todos riram e se abraçaram. Shelby olhou agradecida para Kurt e Rachel, que retribuíram sorridentes.

Uma Semana Atrás:

Era quase fim de dia, mas a escuridão já tomara a cidade de Ohio. Um pouco mais afastados da mesma, ouviam-se passos arrastados, seguidos de reclamações. Duas pessoas encapuzadas carregavam pela mata um saco preto de tamanho grande.

— Mesmo em decomposição isso continua pesando! — A primeira pessoa reclamou alto.

— Quieto! Quer que algum caipira nos veja carregando um corpo? — A segunda pessoa o repreendeu e continuou caminhando.

— O que faremos quando chegarmos na escola? — A primeira não se conteve em perguntar. — Quero dizer, alguém vai nos ver, a não ser que estejamos sob proteção da capa de invisibilidade do Harry Potter.

O segundo já estava perdendo a paciência. Ele olhou em volta para se certificar que estavam realmente sozinhos e respondeu em tom baixo:

— Estamos recebendo ordens para levar Puck até a escola e é o que faremos. Sem mais reclamações ou eu vou colocar você em um saco igual a este, entendeu? — Ele o ameaçou, deixando o primeiro realmente assustado. — Ah, e dá próxima vez que citar Harry Potter, eu vou me certificar que será a última vez.

Ele estremeceu e baixou a cabeça continuando a carregar aquele saco pela mata.

“Ele realmente mudou muito depois de ter se envolvido com….” Balançou a cabeça para afastar os pensamentos e resolveu pensar em como era sua vida antes de entrar para o time dos agressores.