Você lisossomo, eu amor vencido.
2 Friends, Virginia Woolf e Tacos
Notas iniciais
– Ana, são sete horas da manhã, o que você faz de pé?
Deduziu que a carne roxeada estivesse rasgada em um sorriso periférico. Ana expeliu por entre os dentes todo o ar sugado de uma atmosfera suja, a chama que até então estivera acesa dançou por entre sua composição invisível, afastando os teus átomos até se desintegrar por completo.
Antônio tinha um riso absurdamente ritmado, as letras de sua melodia deveriam possuir uma sequência infinita de aliterações e assonâncias. A voz sendo espremida pelo travesseiro, abrigando uma certa sonolência. Bocejava sem escândalo, contudo com dificuldade, o que lhe aderia mais charme a tua estrutura pragmaticamente bela. Ana havia decorado seus truques: uma frase de efeito seguida de uma risada, sem exageros ou faltas em ambas as partes, na medida certa.
Caminhou rumo à esquerda sem fitar-lhe, depositou o suporte na mesa defronte ao armário, e, com a face oculta, empurrou o casaco de linho que cobria seus braços. Puxou os fios encrespados para uma única lateral de seu rosto, permitindo a exposição de seus ombros. Eram pálidos e estavam frios como granizo. Antônio a observava, as pupilas carregadas de libido. Ele a desejava como o mar deseja uma praia para suas ondas desaguarem. Desejava profundamente os ossos saltados de sua coluna vertebral, os fios escuros e escassos de sua nuca; a cintura delgada, as unhas curtas pintadas de azul turquesa. As sobrancelhas arqueadas. A pinta próxima ao nariz, a mancha de nascença abaixo do umbigo. Um desejo oculto, e sublime.
Observava aquela pequena criatura a sua frente que, apesar de possuir mãos minúsculas, era a única provida da habilidade de desmanchar a muralha em sua volta, ou de desarmar o exército enorme o qual o escoltara por toda vida contra esse lance em que os jovens de 25 anos mergulham ao encontrar uma garota de vestido florido e sapatilhas vermelhas na fila de estreia do novo filme dirigido por Quentin Tarantino. Os cabelos presos em um coque como quem saiu de casa atrasada. Ela deixa cair no chão o bilhete e você se pronta a pegar o papel para a moça sem a menor pretensão de prolongar o diálogo depois do agradecimento formal.
Mas aí ela sorri e instantaneamente você se vê naquele episódio de Friends em que Ross toma em seus braços Rachel em um beijo molhado pela chuva no café em que esta trabalha logo após findar seu expediente. Em poucos minutos as informações que possui são as seguintes: ela está no segundo ano de Letras, sua escritora favorita é Virginia Woolf, marca seus compromissos sempre em horários ímpares, tem um gato cujo nome é Ramón porque segundo ela “o bigode a faz pensar em tacos” e atribui Bob Dylan como o cara mais sexy de todos os tempos, enquanto o único livro em que você pegou foi qualquer um do Paulo Coelho por indicação de sua irmã, e que por algum motivo “x” não conseguiu concluir, somado a sua alergia a felinos. Evidentemente os contras são em proporções maiores as quais desejaria, porém o corte que usa é idêntico aquele aderido pelo cantor no álbum Blonde on Blonde e pensa que talvez isso seja um prol considerável. A questão levantada é por qual razão estes pensamentos estariam estrangulando seus neurônios e você percebe que está na dela o bastante pra lembrar da garota ao ouvir Just Like a Woman no seu apê de aluguel atrasado num sábado a noite. E que sua partida acrescentaria a seus vícios cervejas quentes e seu número na discagem rápida. Tudo isso em menos de cinco minutos. Porém, cinco minutos constantes dentro do que é ter Ana Clara por perto. Ana sempre é aquela menina do cinema e toda a sensação estranha e intensa que traz consigo nos primeiros instantes de conversa de quem é capaz de quebrar tua estrutura constituída de aço. Mergulhar em Ana, é ficar suspenso em algo cuja profundeza não encontra um limite. Uma queda destrutiva em alta velocidade.
Ana ergueu os olhos, fitando o rapaz numa expressão rígida. Antônio sustentou seu olhar, este, contudo, embargado em doçura.
– Ei, Nana…
– Deite-se.
– Como é? – A sobrancelha arqueou, atribuindo a face um ar dubitativo.
– Eu quero que você se deite, de bruços — Expeliu um risinho e todo o universo tristonho o qual aparentava carregar no estômago desaparecia, cedendo espaço a uma criança maliciosa e astuta.
– Vai me assediar.
Antônio se posicionou como Ana pedira, os braços alinhados ao corpo. Esta, com a ponta dos pés se aproximou, permanecendo estagnada a lateral da cama.
– Agora feche os olhos.
– Okay, agora estou me sentindo a Anastasia Steele – Ergueu a cabeça, desconfiando.
– Encoste a merda da cabeça no travesseiro e feche os olhos. Vai.
– Se Christian Grey fosse como você, eu até consideraria um encontro as escuras com algum cara fan da Oprah.
– A comunidade LGBT agradeça que eu não seja. Você seria um gay horrível.
Antônio obedeceu, resmungando, um tanto inquieto. Ana apoiou os joelhos no colchão, levou os braços até suas costas e por fim, posicionou-se por cima do garoto, deitando em seu corpo coberto apenas por um samba canção na parte inferior. A bochecha macia encostada na linha da coluna vertebral, os dedos fazendo um carinho sutil próximo a nuca. Antônio gargalhou.
– Era só por isso? Como você é boba, Nana.
– E você fala demais.
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