Você atingiu minha alma
2 Capítulo Dois
Passava das sete da noite, quando Regina chega à lanchonete principal da cidade e encontra todos os mesmos rostos. Observa cada um deles e procura gravar suas fisionomias, tentando dar importância para aquelas pessoas, dentro de suas lembranças. Não busca uma mesa e vai para o balcão, pedindo uma bebida pra esquentar sua noite.
Ouve alguns comentários a seu respeito, mas ignora a todos eles. Aquela rápida aventura com o desconhecido havia rendido algumas risadas durante a trajetória até o centro da cidade e ocupado sua mente pelo resto da tarde. Ela ri com as lembranças. Vasco Agilulfo era o nome dele.
– Quem ri sozinho é porque está lembrando-se de suas maldades!
– Ou planejando outras. – Regina retruca sem olhar para a loira que se senta ao seu lado. – O que quer além de perturbar, Swan?
– Apenas vim lembrá-la do jantar que faremos amanhã. Meus pais querem que esteja presente e Henry quer o mesmo!
– Sabe que irei. Adoro jantares em família... – Regina volta seus olhos para a figura que entra na lanchonete, elegante em suas roupas escuras e bem cuidadas. Sorri ao vê-lo sorrir também e o acompanha com os olhos até que ele se sente noutro canto do balcão.
Emma também olha o homem com curiosidade.
– Você o conhece?
– Eu não sabia que ele tinha barcos em nossas docas.
A xerife sorri e percebe a nítida atração da prefeita sobre o jovem desconhecido.
– Bonito mesmo. – Emma sorri. – Ele tem pelo menos quatro barcos. Está interessada nele?
Regina volta sua expressão furiosa para a loira e franze o nariz numa careta de reprovação.
– Discrição não é o seu forte, Srta. Swan. – sem esperar a resposta da loira, ela se levanta de onde está e caminha até a porta. Ainda dá uma olhada de viés para Vasco.
Alguns segundos depois, ele se levanta e sai da lanchonete. Alguns comentários são ouvidos.
– Excelência, posso acompanhá-la até o portão de sua casa?
Regina encosta-se no carro e olha pensativa para o mar lá longe.
– Não. Eu quero sair desta cidade esta noite. Sugere algum lugar?
– Há um bar bastante simpático na cidade vizinha, com música ao vivo, decoração rústica e com preços mais simpáticos ainda. Entretanto, não me atreveria a levá-la nesse lugar.
– Corro o risco de contrair tétano?
– Sim. – Vasco sorri amplamente. Era um hábito exibido várias vezes.
Na manhã seguinte, Regina encontra novamente sua cama parcialmente vazia. Mas desta vez, tinha lembranças para conseguir sorrir. Por longos e preguiçosos minutos, ela fica deitada olhando para o teto branco. Até o branco do teto não estava tão sem graça como das outras vezes. Ela ri ao recordar-se dos passos atrapalhados de dança naquele bar horrendo e nem um pouco nobre. Mas e daí? A diversão tinha sido intensa e as lembranças também.
Ao chegar ao seu gabinete na prefeitura, Regina não contém a surpresa ao deparar-se com flores sobre sua mesa. Não hesita e procura o cartão, alargando ainda mais o sorriso. Surge uma pontada de tristeza ao deparar-se com a solidão de uma mulher que não tem com quem compartilhar sua alegria daquele momento.
“Obrigado pela noite! Foi divertida e espero que não tenha contraído tétano! Vasco”.
Precisava sair mais vezes com aquele rapaz. Era divertido e não parecia importa-se com o status dela. Apenas a chamava de Majestade, porém não se mantinha curvado e temeroso como os demais habitantes daquela cidade. Vasco poderia ser encarado com um cara legal!
No final da tarde, Regina dirige-se até as docas e fica por ali,observando os trabalhadores em suas tarefas. Todos que passam por ela, a cumprimentam demonstrando curiosidade e temor. O que a Prefeita ou Rainha Má estaria fazendo ali? Vigiando as atividades ou buscando alguma brecha para punição?
Mas ela pouco se importa com os olhares ou comentários voltados para sua presença. Depois de algum tempo, a figura esguia de Vasco é avistada e ele demonstrar ter visto a visitante. Um sorriso é exibido e ele fica ainda mais bonito. Aliás, todos ficam mais bonitos quando sorriem, exceto o Sr. Gold!
– Excelência! Sua presença neste lugar desentoa as notas! Isso não é cenário para a senhora!
– Não é cenário para sua beleza e você continua aqui. – ela sorri e entrega uma garrafa térmica para ele. – Vamos tomar um café quente?
Outra noite agitada. Um novo bar, novas pessoas, muita dança e algumas câimbras devido a uma vida sedentária da prefeita. Gargalhadas e a apreciação do nascer do sol, num banco qualquer, ombro com ombro com um homem desconhecido e para completar a aventura, a perda do celular. Tudo parecia quase completo e bom demais para ser verdade!
Somente depois do meio dia, Regina chega à Prefeitura e inicia sua reunião de despacho com alguns secretários. Não conseguia irritar-se com a mediocridade daqueles homens e suas conjecturas, porque justamente naquele dia, sua alma estava livre. Não totalmente livre, uma vez que as imagens da noite anterior ainda latejavam ali dentro. Latejavam e lutavam na disputa de um lugar com as imagens da figura bonita de Vasco. A beleza dele havia atingido em cheio o seu coração e provocado um incômodo com a novidade.
Como havia passado despercebido aquele mercador? O homem era dono de barcos nas docas e sua presença nunca tinha sido notada? E nas assembleias realizadas no paço municipal? Por que nunca o vira participando? Cerca de um ano estava ali? Talvez tenha sido o ano em que todos ficaram amnésicos. Mas de onde ele tinha vindo?
Outro dia chega ao fim. Antes de alcançar seu carro, Regina avista Vasco parado em pé ao lado do veículo. Ele exibe aquele sorriso, de novo.
– Você deixou o seu celular no bar. Eu o trouxe.
A mulher se aproxima do visitante e recebe o aparelho. Olha a tela e identifica várias chamadas não atendidas e eram todas de Henry. Sequer tinha se lembrado do jantar em família e o filho deveria estar furioso.
– Quer jantar comigo? – ela pergunta aproximando-se do homem e invadindo seu espaço pessoal. – Poderíamos cozinhar juntos.
– Vim apenas entregar-lhe o celular, Srta. Mills. – ele retira a franja que caia em sua testa e roubava a sua pose esnobe. – Além disso, estou com cheiro de mar e preciso de um banho.
Regina faz uma careta de desaprovação e segura o braço do rapaz, conduzindo-o para o carro. Ele se mostra insubmisso, tornando-se charmoso.
– Minha casa tem chuveiro e poderemos conseguir roupas para você. Além disso, estou faminta e quero que experimente a minha comida caseira!
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