Você atingiu minha alma
10 Capítulo Dez
Um mês após o casamento, tudo parece organizado na vida de Regina. A casa alugada por Vasco havia sido entregue ao locador e seus pertences estavam agora dividindo espaço com os pertences de Regina dentro do casarão.
Embora feliz, Regina ainda não permitia modificações em seu comportamento e personalidade. Era a mesma mulher autoritária e impaciente de sempre, com respostas afiadas e desdenhosas para quem a desagradasse. Mas de quando em quando era flagrada em momentos de suavidade e ternura, admirando a aliança em seu dedo.
No meio daquele dia, Henry chega ao escritório de Vasco e dá algumas batidas leves contra a por entre aberta. Recebe um gesto do homem, autorizando sua entrada. O garoto entra e senta-se diante da mesa repleta de papéis ricamente organizados e etiquetados.
– O prazo era de vinte e quatro horas, meu amigo! E eu já esperei trinta horas, contabilizando seis horas de tolerância! O contrato é claro e objetivo e vou exigir o cumprimento dele: cancelamento e o pagamento de multa! – Vasco fala ao telefone e caminha de um lado a outro na sala. – Quando fechamos o contrato, sabíamos da existência de imprevistos e por isso deixei um prazo longo, porém você não obedeceu!
Ele fica em silêncio apenas ouvindo e leva seus olhos grandes e atentos para o rosto do visitante. Sequer se altera com o sorriso dado pelo garoto.
– Não estou em negociação, meu caro! Eu tenho prazos, clientes, taxas e sou um homem de palavra! Por sua causa vou deixar meus clientes sem matéria prima e correrei o risco de perder meus investimentos e minha credibilidade!
Novo silêncio. O comportamento arrogante de Vasco provoca incômodo na alma de Henry. Estava vendo Gold esculpido naquela figura, apenas mais jovem e mais bonita. Era a encarnação perfeita da figura do seu avô.
– Quem não tem competência, não se estabelece! Não quero mais a sua mercadoria e devido a sua incapacidade, terei de ordenar a saída de um de meus caminhões, para conseguir essa matéria prima em outra cidade, simplesmente porque me envolvi com amadores! Saiba que não teremos mais assuntos e deverá tratar com minha advogada a partir de agora!
Ele desliga o telefone e vai sentar-se para atender Henry.
– O que houve, Vasco? Por que a fúria?
– Não recebi a matéria prima solicitada, porque o fornecedor alegou problemas com o clima da região onde estava o barco.
Henry sorri e dá de ombros.
– Killian sempre diz que aquele que depende do clima, precisa ser amigo dele. O clima é alguém imprevisível. Eu seria mais tolerante nesse assunto, se fosse comigo.
– É por isso que você é um empregado e eu sou um patrão.
– Ah! Mas na minha idade você não era patrão! – o menino sorri.
– Na sua idade, eu ainda não existia. Mas o que o trouxe até aqui? – ele se inclina para frente.
– Bem, hoje acontecerá a noite dos Pais na Escola. Meu avô David e meu padrasto Killian irão...mas eu gostaria que você também fosse. A partir das oito da noite...
Vasco estreita as sobrancelhas e fica silencioso por alguns segundos. Abre sua agenda e lê alguma coisa ali.
– Não tenho nada programado para este horário. – ele volta seus olhos para o garoto. – Mas se seu avô e seu padrasto irão, por que quer mais uma pessoa?
– Ora, porque você é meu padrasto também! Minha mãe Regina ficaria feliz com sua participação em minha vida e eu adoraria envolver você em minhas atividades! É tão difícil assim?
– Não. Apenas não há lógica. – o homem dá de ombros.
– Precisa ter lógica em relacionamentos familiares?
– Em qualquer relacionamento, Henry Mills.
O menino levanta-se e mostra-se irritado.
– Caso você encontre lógica em meu pedido, poderá ir à escola e eu estarei lá! Seu nome estará no rol de meus convidados! Mas caso não encontre, eu aceitarei a sua ausência e entenderei a sua postura!
– Hum! Isso é ótimo! É sinal de maturidade.
Na manhã seguinte, Mary serve o café da manhã para o neto e senta-se para alimentar-se também. Já havia alimentado o guloso bebê e queria dar atenção para o jovem.
– Você está contrariado, Henry?
– Incomodado, Mary. Aquele cara com quem minha mãe está casada, não pode ser real!
Mary dá risada e bebe um gole do café.
– Sua mãe o ama, é amada e está feliz! Nenhum de nós pode dar a atenção que ela precisa e Vasco está exercendo esse papel muito bem.
– Você e as mulheres com quem converso defendem Vasco como se ele fosse o verdadeiro Príncipe Encantado da Floresta Encantada!
– Não seja rude, Henry! Ele é um cavalheiro perfeito e não há nada que desabone a conduta dele. A verdade é que não existem homens com o comportamento dele, nos dias de hoje.
O garoto acha graça.
– Esse é o problema: não há nada sobre ele! De onde veio? Como chegou à nossa cidade? Qual é a história dele? A qual conto ele pertence?
– Henry, nem todas as pessoas desta cidade pertencem a contos de fadas!
– Vasco não pertence a conto algum, Mary! Ele surgiu a cerca de um ano e estabeleceu sua vida aqui! Mas não há histórico! Eu vi uma pasta com um dossiê sobre ele, entre documentos de minha mãe e não há informações!
– Já pensou na possibilidade de Vasco estar englobado no serviço de proteção às testemunhas? E se ele recebeu nova identidade para ser protegido?
O menino abre e fecha a boca, como se fosse um peixe respirando e não consegue responder.
– Você está fazendo coro com David, Killian e Gold. É implicância com Vasco e nada do que vocês falarem ou pensarem irá mudar o sentimento de Regina por ele. Como ele se portou ontem em sua escola?
Henry gargalha desdenhoso.
– Ele foi o príncipe da noite! Não havia somente pais, mas muitas mães foram ao evento e ficaram derretidas pela gentileza dele! Meus professores e professoras ficaram encantados com o Primeiro Cavalheiro da cidade de Storybrooke! Ele chamou mais a atenção do que os projetos que estavam expostos! O evento deveria ser chamado de A noite de Vasco na Escola!
– E isso despertou ciúmes em você?
– Não, Mary! Despertou desconfiança! Ele é perfeito demais, limpo demais, penteado demais, elegante demais, inteligente demais e...
– Bonito demais! – ele complementa e ri ao ver a expressão do rosto do neto. – Ele apenas demonstra ser o homem com quem toda mulher sonha, querido! Mas tenha a absoluta certeza de que por baixo dessa fachada, há algo errado. Vasco apenas sabe esconder. Ele não é perfeito!
Henry concorda. Bebe mais um gole do seu chocolate.
– Isso me preocupa muito, Mary! Posso estar errado, porém defendo a tese de que Vasco é um ser humano perigoso e vai exibir a verdadeira face, em breve. E se ele for a Máscara da Morte Escarlate?
– Eu diria que ler os contos de Edgar Allan Poe é demais para garotos de sua idade!
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