Você Me Bagunça
3 Capítulo 03
Notas iniciais
Jonas não era bobo. Ele sabia que Megan tinha tentado convencer Davi a ajudá-la a se livrar do “castigo”. Ela usou essa palavra por várias vezes enquanto falava sem parar durante o trajeto de casa para a empresa. Ele era um homem inteligente o suficiente para saber que aquelas duas personalidades tão diferentes, juntas, podia ser perigoso, e até arriscado. E se a garota colocasse tudo a perder? Mas ele era do tipo que estava sempre um passo à frente. Enquanto Megan e Davi estavam ali, a apenas alguns minutos de terem se conhecido, Jonas já pensava mais longe. Em parte, ele achava o idealismo de Davi prejudicial, por outro lado, suas qualidades eram inúmeras, por mais que fosse difícil para ele reconhecer tudo isso em “Golias”, o garoto que teve coragem de desafiá-lo de forma tão petulante e ainda por cima, estava prestes a tomar dele o controle de seu império.
–Que bom que se entenderam. Então vamos direto ao ponto, Davi, tá mais do que provado que você e a tecnologia se entendem bem. Mas isso não é o bastante. Eu pude estudar muito sobre você com o que vi e ouvi durante o reality. O que me ajudou a desenvolver o que nós chamamos de Plano de sucessão. Ou seja, eu já sei quais pontos vou trabalhar em você.
Davi não disse nada, mas enquanto Jonas falava, ele só conseguia pensar nas coisas que Herval lhe disse. E ele decidiu que aceitaria o treinamento imposto por Jonas, era necessário, mas a partir do momento que percebesse que ele estaria projetando sua própria imagem nele, as coisas seriam do seu jeito. Não ia se sujeitar a nenhuma imposição mal intencionada do empresário.
Megan bocejou, claro, forçou esse gesto na intenção de demonstrar sua insatisfação em estar ali.
–E Jonas, imagino que o treinamento da Megan seja diferente do meu. Como é que nós vamos trabalhar juntos?
–Aí é que você se engana, Davi. Por que você acha que decidi iniciar com a Megan agora que nós dois vamos começar? -Se voltou para a filha -Megan, quanto a você, não precisa se preocupar. Eu sei que o seu conhecimento de tecnologia é básico, mas você é minha filha. Você cresceu dentro da Marra, alguma experiência deve ter adquirido nesse ramo.
–Yeah dad, mas o que eu vou fazer afinal?
–Por enquanto, apenas para seu treinamento, você vai ajudar o Davi. -Ele cruzou os braços e se aconchegou melhor à cadeira. Megan arregalou os olhos. -Eu vou propor alguns desafios a ele. Vocês serão como Jonas Marra e Brian Benson há vinte anos.
–Sorry, dad! Minha vocação para guru ainda não deu o ar da graça.
–Megan, eu não estou brincando. Você sabe muito bem o papel que o Brian teve no início da minha carreira, e não estou falando espiritualmente. Estou falando como amigo.
Davi finalmente se pronunciou:
–Jonas, eu não tô entendendo. Que espécie de treinamento é esse? Eu imaginei outras coisas.
–Esse é diferente. Porque você é diferente. Megan é diferente. Se a Maya tivesse ganhado, eu faria o tradicional com ela, mas decidi mudar um pouco as coisas. -Davi comprimiu os lábios, estava começando a desgostar da situação. Descobriu que ia precisar de Megan.
Depois que Jonas falou por uns trinta minutos, que para Megan foram uma verdadeira tortura, finalizou a conversa que ele considerava importante para o início.
–Vocês podem sair, se quiserem. Me surpreendam. Trabalhem um pelo outro, se ajudem. -Davi assentiu e seguiu Megan que já se dirigia para a porta. -Ah, mais uma coisa! -Os dois se voltaram para o empresário. -Não se apaixonem!
Aquele comentário pegou os dois de surpresa. Até franziram a testa em sincronia. Jonas riu.
–Brincadeira!
Davi riu sem graça e recebeu um olhar de Megan que o desconsertou mais ainda. Quando finalmente saíram, Megan não quis conversa, disse apenas:
–Bye Davi, você quebrou nosso acordo, então não conte com minha ajuda. -Ela virou de costas pra ir embora, mas ele a puxou indignado.
–Como é que é? Você não vai estragar tudo!
–Don't touch me! Eu não vou ter tempo pra isso, tenho outras coisas mais interessantes a fazer. -Eles falavam baixo, pois ainda estavam próximos à sala de Jonas, mas suas expressões não eram nada amigáveis.
–Você vai me ajudar, nem que eu tenha que te buscar todo dia bêbada na porta da balada, ouviu bem?
Ela conseguiu fazer com que ele soltasse seu braço.
–You're crazy? Não pode me dar ordens! -Davi a arrastou até o fim do corredor, queria estar longe de Jonas, caso perdesse a paciência e gritasse.
–Você não entendeu o que o teu pai fez, né? Deixa eu te explicar: Ele sabia que um dia teria que colocar você na linha e, como deve estar ocupado demais pra isso, jogou essa bomba no meu colo. Ele fez com que eu dependesse de você pra eu não deixar você desistir disso tudo. Entende? –Ele ficava cada vez mais alterado.
–Por que você fala com tanto ódio dele?
–Porque eu odeio pessoas como ele, odeio pessoas como você! -Ele despejou.
–Ah é? Então porque não aceitou meu acordo e se livrou de mim de uma vez?
Davi a soltou e baixou o olhar.
–Não sei, admito que talvez tenha sido só por implicância.
Megan o observou alguns instantes, pensou e resolveu ceder.
–Well, Davi, você vai ser o sucessor do meu pai, de certa forma, você vai cuidar do meu futuro. Então eu vou entrar nessa só por isso, right? Mas não conte com meu entusiasmo, pontualidade, sobriedade and...
–Sobriedade? -Ele a interrompeu.-Tá brincando, né?
–Não! -Ela respondeu, séria. Davi não se conteve e riu.
–Vem cá, você não achou que esse treinamento vai ser bastante esquisito?
–I don’t Know! Esquisito por quê?
–Nós dois juntos todos os dias, fazendo aquelas atividades. E por que essa insistência que a gente se ajude e sejamos... amigos?
–Dad é esquisito às vezes! –
–Suponho que seja de família... –Provocou Davi. Ela apertou os olhos em sinal de irritação.
–Remember a parte de ser sua amiga? Deleta! –Dizendo isso, virou as costas e começou a se afastar pelo corredor.
Davi riu e prosseguiu com a provocação.
–Melhor assim, menos chances de você quebrar a regra e se apaixonar por mim!
–I-D-I-O-T! –Disse sem se virar, seguindo seu caminho, fazendo um barulho alto com os saltos sobre o piso.
Ele ainda gargalhava.
*** *** ***
“IDIOT!”
De dentro do escritório de Jonas, a voz de Megan pôde ser ouvida. Murphy, que digitava qualquer coisa no tablet, parou ao escutar.
–Sory boss! –Disse ele com o fofo sotaque –Mas eu acho que isso não vai dar certo! Vai mesmo fazer o que disse essa manhã? Miss Megan já não gostou do Davi.
–Murphy, Megan e Davi são o que eu e Pamela fomos um dia. Ela, uma diva, eu, um nerd! E hoje o que somos?
–Mr. e Mrs. Marra, Marra Woman and Marra Man… -Disse ele, de cabeça baixa.
–Aguarde e você verá como mais uma vez, eu tô certo. –Dizendo isso, voltou a olhar para o notebook.
–Sim, boss!
Jonas olhou para o lado e algo lhe ocorreu.
–Murphy, a imprensa ainda está lá fora?
–Sim, como leões famintos. Eles querem falar com o Sr. Davi de qualquer jeito. -Chama o motorista e diz pra Megan que ela já pode ir. Mas... dá um jeito dos dois se encontrarem na entrada, o Davi vai precisar passar sem ser importunado. –Disse Jonas, sabendo que Murphy entenderia o recado.
–Mas senhor, como eu...
–Vai, Murphy!
–Sim, senhor.
*** *** ***
–Miss Megan! –Chamou o indiano alcançando a garota perto da entrada –Não se preocupe, a senhorita não vai precisar ficar andando por aí. Meu boss a autorizou a ir pra casa. Eu já chamei o motorista.
–Oh Murphy, I Love you! –Disse ela, aliviada.
–Eu só estou preocupado em como ele vai embora daqui. –Murphy apontou para o rapaz que estava sentado em um canto. Esperando um momento para sair. Megan olhou e só então percebeu que Davi ainda não tinha ido embora. Viu a multidão de jornalistas que se amontoavam lá fora e entendeu o porquê. Sem pensar duas vezes, caminhou até ele. Murphy deu um sorrisinho, dever cumprido.
–Está dando pena! –Disse ela, fazendo-o levantar a cabeça.
–Oi?
–Let’s go, Davi! Vamos pra casa. Ou você vai ficar aí dia todo?
–Você sabe que isso é o tipo de coisa que um amigo costuma fazer, né?
–I know! But, não se anime! É só pra você ver como eu também sei ser uma Good girl!
Ele riu e se levantou. Depois disso, foram escoltados até o carro por Tommy e Will.
Davi disse ao motorista onde morava e teve que repetir o nome Gambiarra três vezes até que Megan entendesse, um dos poucos momentos em que dialogaram durante o trajeto. O clima estava estranho. Megan só conseguia pensar no que ele dissera antes: “Odeio pessoas como você!”
Aquilo a incomodava. “Pessoas como eu? Que tipo de pessoa sou eu?” Ela pensava. Sem se dar conta, olhava para ele em alguns momentos e desviava o olhar quando ele lhe retribuía. E ficaram nesse jogo de silêncio constrangedor e olhares desencontrados até que o carro estacionou em frente à casa dele.
Davi desprendeu o cinto e sorriu de leve.
–Valeu a carona, Megan! E acho que... até amanhã, né? –Disse, sem graça.
–Até amanhã Golias, bye! –Ele sorriu por ela chamá-lo assim, depois saiu.
Quando o motorista fez um movimento na intenção de fazer o carro voltar a andar, Megan fez sinal para que ele esperasse. Só depois que Davi entrou, o homem foi autorizado a seguir. Por alguma razão estranha, Megan queria ficar um pouco mais.
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