Você De Novo?

3 Será Que Existe Mesmo a Luz No Fim do Túnel?


Notas iniciais
Bom galerinha, aqui no prazo vai o próximo capítulo, como prometido! kkkkk Obrigada a todos que favoritaram a história e deixaram reviews! Espero que gostem desse capítulo e o ache tão bom quanto os primeiros.
Boa leitura!

Washington DC — Casa no Inferno; dia 2

Eu nem sei bem que horas eram desde que amanheceu, em parte porque eu não estava nem um pouco ansiosa para sair do meu quarto e em parte porque eu havia simplesmente me afogado em meus desenhos naquele momento. Era exatamente isso o que eu fazia quando não podia dar ataques: desenhar. Mamãe sempre disse que era impressionante como os meus rabiscos representavam o meu estado de espírito, e ela estava totalmente correta. Traços fortes, o grafite quase preto pela força aplicada, um cenário gótico, um vestido esvoaçante e cabelos negros cobrindo o rosto pela tormenta que se aproximava. Para qualquer pessoa aquela poderia ser uma obra de uma estilista gótica, apaixonada por castelos Holandeses, mas para aquele que realmente entende de arte veria que a vida do pintor estava conturbada e deprimente... Assim como a minha.

Fui tirada do fantástico mundo de minha mente, quando ouvi o soar de um sino irritante, que me fez cair de cabeça na realidade. Oh merda. Caminhei até a gaveta onde havia guardado os meus remédios, e assim como o médico havia dito, desde pequena, peguei dois comprimidos dos vermelhos e um do esticadinho. Nenhum problema sério, aqueles pequeninos apenas conseguiam me manter em sanidade desde que meus pais se separaram, por causa de traumas e tal... Mas não era nada como se eu fosse sair pelo mundo com uma shot gun atirando em todos aqueles de cabelos ruivos que passarem em minha frente.

Voltei a me sentar no chão, onde eu estava coberta por papéis rabiscados observando só então os desenhos que tinha feito ala Chico Xavier sem sequer perceber suas imagens. Todos eles estavam similares: nuvens pesadas, parecendo que iria chover, vento que sempre atrapalhava os longos cabelos negros da mulher de vestido longo, presente em cada uma das folhas de papel. Senti meu corpo se arrepiar quando os toques soar contra a madeira. Havia alguém do lado de fora e eu realmente não estava afim para conversa. Soltando um grunhidinho e trazendo alguns dos meus desenhos para perto, olhei para o relógio, perguntando qual seria o motivo do meu pai me importunar naquele momento... E me surpreendi ao ver que eram 18 horas. Eu havia ficado em meu quarto por mais de sete horas, sem comer e sem beber... Acho que papai pensava que eu havia morrido.

-Pode abrir.

Falei indiferente enquanto observava as dobradiças se dobrarem e logo a porta do meu quarto se afastar, dando para mim acesso a imagem do lado de fora, que mesmo muito parecida com meu pai, não era ele. Ergui uma sobrancelha, já sentindo meus pelos se eriçarem como os de um gato em defensiva com sua presença. Um sorriso se abriu em seu rosto que logo morreu, sendo substituído pela expressão de surpresa ao ver todos os papéis no chão, e como eu parecia maníaca, descabelada e com um lápis já pela metade nas mãos. Se abaixou pegando uma das fotos de papel.

-Uau. Você que fez?

-O que quer, Nicholas?

Ignorei sua pergunta inicial, mandando a minha. O garoto deu de ombros, se colocando de pé e olhando para o desenho no papel, em seguida para mim.

-Pensei que tinha morrido ou algo assim. O pai ficou com medo de você estar pirando... Tipo assim.

Apontou para o desenho em suas mãos, o qual eu fiz questão de me levantar e arrancar das suas garras.

-Eu estou viva.

-Então pensamos diferente. –Zombou ele, enquanto observava mais alguns dos meus desenhos, fazendo-me ter que entrar em sua frente para tampar a sua visão. Será que ele não se tocava que eu não o queria mexendo em minhas coisas? –É você em todos eles?

Perguntou curioso olhando agora para o que eu segurava. Soltei-o no chão prestes a responder, mas não encontrei som para resposta. Aquela era eu? Acho que nunca havia pensado naquilo. Tinha cabelos longos e negros como os meus, um corpo parecido... Talvez sim. Talvez eu inconscientemente estivesse fazendo autorretratos de como minha mente, ou como diria minha mãe, meu estado de espirito, estava no momento.

-Eu... Acho que sim.

Respondi confusa. Nicholas sorriu, enquanto assentia.

-São bons.

Elogiou-me deixando-me com o queixo no chão. Wow. Aquilo era sim uma novidade. Com os olhos curiosos, o rapaz vasculhou o quarto onde eu estava, como se nunca tivesse entrado ali, sendo que eu sabia bem que ele conhecia-o por morar na casa antes de mim. Cruzei os braços o observando de forma rígida, pronta para expulsa-lo do local a qualquer momento. Só um movimento brusco...

-Você mudou bem o quarto.

-Ah é?

Ergui uma sobrancelha, olhando-o desconfiada. Nicholas deu de ombros.

-Sim. Está mais... Habitado.

-Ah é mesmo?

Dei uma risadinha sarcástica, enquanto o via o abrir um sorriso no mesmo tom. Caminhando em passos lentos pelo local, totalmente desrespeitando o meu espaço, Nicholas parou na frente de uma escrivaninha ao lado da cama, observando sobre ela os vários porta-retratos que eu tinha ali. Escorregou a mão pela madeira tocando um em especial, e isso fez meu coração se acelerar. Nicholas focou os enormes olhos azuis em uma das melhores fotos que havia trazido comigo: Uma minha com minha mãe.

-Sabe que vocês são bem parecidas?

Falou erguendo uma sobrancelha enquanto eu mudava de posição, agora desconfortável. Por que era tão estranho para mim ele olhar para a minha mãe? Era como se ele não tivesse direito a isso.

-Você acha?

Perguntei inquieta louca para tirar o porta-retrato de sua mão. Nicholas deu de ombros.

-Acho. Você não tem cabelos loiros, mas tem os olhos dela. E olhe só que bochechões. –Deu risada enquanto olhava para mim um pouco mais nova na foto. –Ainda bem que você ficou bem mais bonita agora.

-Ok!

Exclamei irritada enquanto tirava o objeto dele e o colocava em seu local de origem. O garoto me observou confuso enquanto recuava um passo e eu entrava em sua frente barrando seu acesso a qualquer outra coisa no quarto, senão a porta. Abri um sorriso completamente cínico enquanto apontava para a porta. Ele ergueu as mãos em rendição.

-Ok, ok, eu saio.

-Ótimo.

Grunhi um tanto agradecida enquanto o esperava se mover. Nicholas abriu um sorriso enquanto recuava alguns passos em direção à saída.

-Mas eu não menti.

-Sai daqui logo.

Revirei os olhos enquanto cobria o rosto com as mãos. Nicholas deu risada, provavelmente achando graça de eu ter reagido tão mal ao seu elogio que para mim foi mais uma crítica. Assentiu enquanto saltava para longe da porta e acenava para mim do corredor. O fitei completamente irritada.

-Vê se mostre a cara lá em baixo. O pai logo vai chamar os bombeiros para te tirar daí.

-Obrigada pelos conselhos.

-Pelo menos eles te aguentam agora, senão teriam de chamar um batalhão e te puxar pela janela.

-Vá se foder, Nicholas!

Gritei irritada por mais uma vez ser chamada de gorda. Mas que merda! Pegando impulso na porta, a fechei de uma só vez, fazendo um barulho alto que provavelmente pode ser escutado pela casa toda. Minha respiração estava alta e eu sentia meu corpo esquentar, eu sentia tanta raiva! Ok! Eu fui uma criança gordinha! Mas ok, eu sabia que estava magra agora, não preciso de ninguém que fique falando mal de mim antigamente e bem hoje em dia. A menina gordinha de oito anos ainda sou eu. E as pessoas realmente tem sérios problemas em entender isso. Já eu? Tinha um problema dez mil vezes maior: Eu tinha Nicholas como irmão!

(...)

Eu sabia que Nicholas estava certo em relação a eu estar trancada dentro do quarto, e sabia também que se eu não saísse, meu pai ia começar a me encher o saco... Então cedi. Menti dizendo que eu queria conhecer o bairro, o que não era verdade, já que minha verdadeira intenção era sair daquela casa de lunáticos. Cada segundo que eu passava com eles, via que minha sanidade caía mais e mais, e então eu me via diante de um novo pesadelo que tomava a minha mente: Me tornar semelhante a eles. Digo... Será que aquela coisa de convivência realmente era verdade? Que você se assemelha com aqueles que convive, tipo uma espécie de doença contagiosa? Eu realmente esperava que não. Caso isso fosse verdade eu me odiaria, e teria que me matar por ser insuportável para mim mesmo... E eu gostava de viver. Pelo menos sem eles. Eu sabia que eu tinha que aprender a lidar, não me leve a mal. Eu não tinha reais escolhas, minha vida agora era aquela e eu tinha que aceitar que o destino era cruel e aquela era a maldita coisa que me esperava, mas não era fácil assim. Olhe pelo meu ângulo dessa vez: Eu sempre morei com minha mãe, só nós duas, sempre fazendo companhia para a outra e sempre vivendo bem. Agora eu estou em uma casa com mais três pessoas, onde tenho que ver o meu pai junto de outra que tem sérios problemas mentais, acha que podemos ser melhores amigas e que tem um filho que é o real anticristo. E é com o anticristo que eu preciso lidar! Como eu poderia ser tão azarada? Eu deveria ter jogado merda na cruz em vida passada, não é possível. Nenhuma pessoa precisava pagar tantos pecados como eu, nenhuma vida –ou poucas, creio eu – é uma desgraça do início ao fim assim como a minha. Eu às vezes me pergunto se eu deveria ter nascido. Acho que pouparia dor para todos, inclusive para mim.

-Ai!

Foi o que saiu de minha boca, quando senti algo indeterminado se chocar fortemente contra o meu corpo, fazendo-me cambalear para trás, e por pouco não cair de bunda no chão, o que seria uma cena linda. Mas antes que pudesse retomar meu equilíbrio de pato, uma mão grande segurou-me pelo braço, deixando uma marca vermelha, mas pelo menos evitando que eu levasse o traseiro ao cimento. Olhei para os lados completamente desnorteada enquanto tentava entender o que havia me atingido... E eu cheguei a conclusão de que era um anjo.

-Oh meu Deus! Me desculpe!

Ele exclamou completamente preocupado enquanto parecia tentar descobrir se eu tinha aquela expressão de retardada normalmente ou se ele havia feito alguma coisa de errado... Bem, a verdade era que eu estava completamente hipnotizada com a imagem de talvez o cara mais bonito que eu já havia visto em toda a minha vida, parado em minha frente e tocando meu braço para ver se eu estava bem. Eu definitivamente estava bem. Seus olhos verdes me observavam confusos, enquanto ele tentava tirar os cabelos ruivos e lisos dos olhos que escapavam pelo boné torto em sua cabeça por causa do choque entre nós. Tinha algumas sardas na área do nariz, mas só perceptíveis se olhadas de perto, e uma pele que parecia tão macia, assim como os lábios entreabertos em preocupação com meu estado mental. Tossi tentando voltar ao normal, já esquecendo da dor que sentia pelo choque e agora em meu braço. Recuei um passo, tendo como primeira ação involuntária, arrumar o cabelo.

-Hm... Ah! Eu estou bem! Foi... Uma senhora trombada.

Falei um tanto histérica, fazendo-o dar uma risadinha com minha reação. Senti meu coração pular para fora da boca. Oh meu Deus, aquele sorriso era divino. Veja bem, eu não sou exatamente o tipo que gosta de ruivos, mas aquele ali em especial, me tinha na hora que quisesse.

-Me desculpe de novo... Eu ando meio distraído, não sei qual é o meu problema esses dias...

Sorriu simpático, fazendo-me não conseguir manter o sorriso fora do rosto. Desviei os olhares, um tanto intimidada pela beleza do garoto, e deixando-me sem jeito, como nunca fiquei antes. Dei uma risadinha.

-Tudo bem, acho que tipo, 20% da culpa foi minha. Eu não te vi também.

-Só 20%? –Brincou, dando risada em seguida. O acompanhei. –Meu nome é Christian, aliás. Muito prazer.

Se apresentou, fazendo-me derreter só ao escutar o seu nome. Retribuí o sorriso simpático, enquanto enrolava todos os fios do meu cabelo para o lado, e erguendo a mão para ele um tanto tímida.

-Sou Sidney. E o prazer é todo meu.

Houve uma pequena troca de olhares, que fez meu coração bater mais forte e mais fraco ao mesmo tempo, enquanto Christian abria um pequeno sorriso e levava minha mão aos seus lábios lhe dando um beijinho. Não teve como não achar o gesto fofo. Tentei ao máximo me manter inteira, e não perder minha dignidade, derretendo e me espalhando pelo asfalto.

-Eu nunca te vi por aqui Sidney. E eu moro aqui tipo, desde que nasci. Se mudou há pouco tempo?

-Ontem para ser mais exata.

Dei uma risadinha dando de ombros. Christian me observou, agora parecendo mais interessado.

-Já conheceu alguém?

-Não.

-Então quer dizer que tive a honra de ser o pioneiro? –Brincou, fazendo-me dar uma risadinha e assentir. Sorriu satisfeito. –Então creio que a moça não conhece o bairro.

-Na verdade não. Nem a cidade, nem nada. Eu vim do Texas e bem... Acho que nunca saí de lá senão pra Nova York. –Contei um tanto sem graça por ser uma espécie de caipira da cidade grande, mas era a verdade. Mamãe não era do tipo que curtia viajar. –Acho que minha saída foi mais para conhecer o bairro do que pra qualquer outra coisa.

Menti. Não ia falar que tinha uma família louca e esse era o real motivo para eu fugir de casa. Primeiro que eu não conhecia o garoto e segundo que minha intenção de assusta-lo e afasta-lo era a mínima. Christian assentiu, abrindo um sorriso com minhas palavras e pareceu gostar do que ouviu. Ai meu Deus. Seria possível eu mal ter chegado e já ter conhecido o meu príncipe encantado? Um cara gostoso e simpático que me cumprimentava com um beijo na mão? Tinha que ter alguma coisa errada aí... Mas eu não queria descobrir o que.

-Saiu para conhecer o lugar, ou para pensar? Acho que estava bem afundada em seus pensamentos para não nos percebermos.

-Ah... –Corei de leve. –Certo. Talvez um pouco dos dois. Estava pensando na vida então para não me notar, suponho...

-Faço isso o tempo todo. –Admitiu com um sorriso. –Preciso às vezes... Tirar alguns problemas pesados de cima dos ombros.

Meus olhos brilharam como estrelas iluminadas pela lua cheia quando ouvi o que Christian disse. Oh meu Deus. Era exatamente o que eu estava fazendo, além de fugir. Então ele me intendia? Estava tirando que problemas do ombro? Será que tinha uma família problemática também? Aquilo era bom demais para ser verdade.

-Tirar problemas faz bem. Não podemos viver com ele.

-É, não mesmo. –Concordou observando-me tão intrigado, quanto eu estava. Abriu outro sorriso magnifico por fim, limpando a garganta. –Estou atrapalhando a sua caminhada?

-Não! De jeito nenhum! –Exclamei alto até demais, dando uma risada tímida em seguida. –Quer dizer... Eu sou nova, estou meio que sem falar com ninguém porque não conheço pessoas por aqui... Um contato social me faz muito bem no momento.

Sorri, grandiosa por conseguir desviar o foco do assunto do desespero em minha voz quando ele sugeriu que fosse embora. Christian sorriu, olhando-me mais uma vez intrigado enquanto apontava para a sua frente, para a direção em que eu vinha vindo sem ter ideia de onde eu chegaria... Queria ver como faria pra chegar em casa depois.

-Então que tal eu te acompanhar?

-Pode ser.

Sorri completamente encantada enquanto voltava meus passos, agora para a direção contrária de onde eu vinha antes. O ruivo franziu a testa, agora provavelmente confuso por minha mudança de direção.

-Para onde a moça está indo, exatamente?

-Tentando achar minha casa. –Dei risada. –Eu vim por aqui, então se voltar todo o caminho, provavelmente eu chego lá.

-Ou chegamos na Itália. –Brincou, dando uma risadinha. –Mas o que vier primeiro é lucro.

-Eu realmente me daria bem com uma massa italiana.

Brinquei também, para só então perceber que eu estava com fome, provavelmente por ter comido uma pera o dia todo e nada mais. Christian riu, concordando com minha declaração.

-Com toda certeza. –Levou as mãos aos bolsos dos jeans, enquanto arrumava o boné em sua cabeça e continuava agora comigo o percurso desconhecido até a minha casa. Meu corpo estava leve e eu calculava cada passo com medo de errar. Era porque eu queria impressionar o garoto? Talvez. Eu estava com o senhor perfeição do meu lado, e se eu estragasse minhas chances com ele, nunca iria me perdoar. -Mas então... Por que mudou para cá?

Puxou assunto, mais uma vez tirando-me dos meus devaneios e fazendo-me olhar par ele confusa, deu risada em seguida.

-Você é realmente avoada, Sidney.

-Sim eu sou. –Ri em tom de desculpas enquanto tentava mais uma vez analisar a pergunta que ele havia me feito. Prendi a respiração. –Vim morar com o meu pai. Minha mãe teve alguns... Problemas... Agora estou aqui com ele.

-Ah, legal! Então vai ficar aqui por um bom tempo! –Assenti em silêncio, um pouco relutante por essa informação. O ruivo sorriu. –Ótimo... E o que você achou daqui até agora?

Há cinco minutos eu achava uma merda, mas agora que você apareceu...

-Eu não sei ainda... Não conheço a cidade como disse antes, não tem como saber.

Sorri simpática, enquanto ele concordava, como se a resposta fosse obvia e ele um estúpido. Tive de rir da sua reação.

-Certo. Acho que podemos resolver isso então.

-Hein?

-Por que não vamos ao cinema amanhã? Sei que não é como conhecer a cidade, mas pretendo te mostrar Washington toda, se puder.

Sorriu calorosamente, despertando-me duas vontades: Uma de sair correndo, a outra de agarra-lo bem ali. Oh. Meu. Deus. Ele estava me chamando para sair? Eu estava fazendo um baile funk animadíssimo por dentro, enquanto por fora tentava manter minha máscara sorridente e ao máximo tentava não corar e dar risadas histéricas. Eu não podia estragar tudo. Não estrague tudo, Sidney!

-Eu... Vou adorar.

Falei agora em sucesso enquanto ele me abria um sorriso animado, e finalmente alcançávamos minha casa, que se não fosse pelo jardim de plantas altas, eu não teria percebido. Mordi o lábio enquanto olhava para a porta da frente, decidindo-me se o chamaria ou não para entrar... Mas se eu fizesse, provavelmente daria uma ideia errada de que era fácil até demais... E eu não queria isso. Acho que minha ansiedade teria de esperar até o dia seguinte. Abri um sorriso animado para Christian, enquanto apontava para a casa com o polegar.

-Minha parada.

-Hm... Tudo bem então. –Sorriu Christian, dando uma olhada discreta para o local onde eu morava, mudei de posição um pouco desconfortável. –Foi ótimo de conhecer, Sidney. Nos vemos amanhã?

-Com certeza.

Garanti, enquanto o garoto tirava do seu bolso um celular e olhava para mim em seguida. Ergui uma sobrancelha.

-Seu telefone?

-Ah claro! –Exclamei boba enquanto dava uma risadinha nervosa. –É 7648987.

-Ok... Salvo. –Sorriu ele de volta enquanto guardava o celular no bolso. –Até então, Sidney.

Se despediu educado, aproximando o rosto do meu e me dando um beijo na bochecha que fez todo o meu corpo esquentar. Awn. Ele era tão gato, legal e... Tudo. Como minha sorte poderia ter mudado tão rápido assim? Eu não queria uma explicação, eu só estava começando a adorar ela por perto de mim.

Quase flutuante, caminhei até a porta, adentrando a casa e passando tão tranquilamente que por um momento me esqueci do inferno de onde estava. Eu teria deslizado até as escadas, e ido até o meu quarto sem sequer notar a presença de ninguém, mas antes que eu pudesse fazer, uma melodia inundou meus ouvidos, chamando minha atenção, para um doce som, de um piano que vinha de algum lugar da casa. Tínhamos um piano? Ou então era uma gravação? Na verdade a melodia era tão bela, que me parecia mais pertencer a um músico profissional. Curiosa, segui por pura intuição a doce melodia, que aos poucos me guiou, atravessando a sala de estar, e entrando em um local que eu realmente não conhecia. Havia uma enorme mesa de mármore, e ao lado um gigante piano branco, do tipo clássico, onde de fato havia alguém tocando. E esse alguém era... Nicholas? Meus olhos se arregalaram ao ver como os dedos do garoto deslizavam com destreza pelas teclas, apertando as corretas de uma só vez e fazendo dali sair uma das melodias mais belas que já havia visto. E por um tempo fiquei assim: Deslumbrada com a imagem, enquanto o garoto de cabelos negros, balançava o corpo lentamente, conforme tocava mostrando que estava de fato sentindo a música, e permanecia com os olhos fechados. Uma imagem tão bonita... Que quem visse, pensaria que Nicholas é uma pessoa completamente diferente da que é.

Aos poucos seus dedos pararam, e então seus olhos se abriram, pegando-me de surpresa, na imagem de uma telespectadora idiota, babando no batente da porta. Erguendo uma sobrancelha, o garoto fechou a parte de madeira que cobria as teclas e olhou para mim, como se tentasse entender o porque que o olhava. Ele não entendia? Não sabia que era maravilhoso? Limpou a garganta, me observando desconfiado.

-Aproveitou o show?

Balancei a cabeça saindo do transe escutando sua voz irritante em seguida. Fiz uma careta, dando de ombros.

-Talvez. Não sabia que você tocava.

-Pois é, sei muitas coisas que você nem imagina.

-Promissor.

Revirei os olhos enquanto o via abrir um sorriso nem um pouco inocente, enquanto se levantava e pegava em suas mãos, uma guitarra elétrica pousada ali perto, com aspirais estampados como o do Zakk Wylde. Me observou por um momento, em tom confiante enquanto começava a dedilhar o instrumento.

-Acho que gosto de música, talvez seja de família.

-De família?

Perguntei curiosa. Nicholas revirou os olhos, assentindo em seguida.

-O pai toca. Não sabia? Bateria.

-Ah... É claro.

Menti enquanto parava por um momento para reparar que sabia muito pouco sobre meu pai. Mamãe e eu nunca falávamos dele, nunca imaginei que ele tivesse dons musicais, mesmo vendo que, talvez ele tenha sim uma cara de músico mulherengo.

-E você?

-Hein?

-... Toca alguma coisa?

Perguntou lentamente, como se eu não fosse inteligente o suficiente para entende-lo em seu tom normal. Não resisti em revirar os olhos quando o vi fazer.

-Não... Digamos que meus dons são mais... Manuais.

-Ah é mesmo?

Perguntou mais uma vez com um sorriso não inocente, fazendo-me esquentar e corar como um pimentão. Ah como era idiota! Incapaz de falar sequer por um momento sério! Eu sinceramente não sabia lidar com pessoas assim. Grunhi, revirando os olhos, irritada.

-Sim, é mesmo.

Antes que nosso papo pudesse se prolongar, ou ele me chamar de louca por me estressar com tanta “facilidade” – já que cá entre nós, ele causava isso –papai apareceu na sala, segurando em suas mãos uma maleta que deixou sobre a mesa de mármore, e observou Nicholas e eu, curioso, provavelmente contente por estarmos “nos dando bem”. Doce ilusão. Um sorriso se abriu no rosto do meu pai. Meu Deus. Era assombroso a forma com que ele e Nicholas eram tão parecidos. Papai olhou para o piano e em seguida para o garoto. Juro que vi em seus olhos um orgulho que nunca havia visto antes... E sim, fiquei com um pouco de ciúmes.

-Estava tocando filho?

-Sim.

Respondeu Nicholas com um sorriso bajulador, enquanto meu pai sorria de volta em total satisfação. Em seguida se virou para mim, que observava a cena com uma expressão... Não tão bonita. Olhou-me simpático.

-E você filha? Conheceu o bairro? Gostou?

-Sim e sim.

Dei de ombros, sem prolongar muito a conversa. Papai assentiu enquanto apontava para a sala de jantar, onde pude ouvir os passos de Jessica.

-Sua mãe já está servindo o jantar. –Avisou à Nicholas, se virando para mim em seguida. –Vamos jantar?

-Eu passo, mas obrigada.

Dei de ombros, enquanto me virava e me dirigia ás escadas. Recebi um olhar desconfiado, acho que estava começando a ficar meio nítido que eu estava os evitando. Papai mudou de posição desconfortável.

-Mas Cindy... Você tem que comer.

-Eu pego um salgadinho depois.

Avisei enquanto corria pelas escadas e sem olhar para trás entrava em meu quarto. Bem, eu estava sim fugindo e eu não ficava 100% feliz de eles perceberem isso, mas eu precisava do meu espaço. Me joguei em minha cama, enquanto olhava em meu celular e abria um sorriso, ao me lembrar de como havia conhecido Christian, e de que iríamos sair no dia seguinte. Eu provavelmente passaria o dia todo esperando sua mensagem. Dei uma risadinha boba enquanto olhava para o teto e abraçava o travesseiro ao meu lado. Talvez se eu dormisse, o tempo passasse mais rápido para nos vermos. Ah meu Deus. Eu não acreditava que já estava assim... Mas de uma coisa eu tinha certeza: O dia de amanhã, seria o melhor.

Notas finais
Reviews? Caem bem! Recomendações? Melhor ainda! kkk