Você De Novo?

5 Bilhete de Ida ao Inferno


Notas iniciais
Bom gente, eu gostaria de agradecer antes de tudo os meus leitores que continuam firmes e fortes na história deixando a opinião e me deixando muito feliz com os resultados! Ainda estou procurando pelos fantasmas, não vou mentir, mas eu posso esperar sem problemas a noção de que mandar reviews não arranca pedaços, muito que muitos deles não acreditem nisso!
Gente!! Minha primeira recomendação na história! hahah! Muito obrigada Lari, minha fofa e fico contente que esteja gostando aqui.
Bem, aqui vai um capítulo para quem que estava cansado de esperar já que eu achei que o momento combinava bem com o que aconteceu muahaha! Espero que gostem!!!
Boa leitura!

Washington DC – Moradia no Inferno, dia 3, final de tarde

Sabe, já estava ficando realmente cansativo evitar meu pai, e eu ainda estava ali há apenas três dias. A verdade, era que ele tentava mais do que eu esperava, o que era realmente irritante, e o que, mesmo cansada, me fazia falar mais “não”. Eu não queria ficar bem com eles, não entendia como ele não via aquilo, mas algo me dizia que ele não queria ver... Em fim. Cada cego tem escolha do mundo que vê.

Naquele momento ali estava eu, em meus pijamas de CupCake, assistindo a um dos mais belos filmes do Johnny Depp, enquanto devorava o pacote de salgadinhos que havia furtado da cozinha, evitando mais um dos jantares de família. Meu dia havia sido meu cansativo e eu estava mais do que confortável nas calças largas após um delicioso banho. Tudo o que faltava era ter o Depp ali ao meu lado, vendo um dos seus filmes comigo, porém por hora, enquanto eu não fosse para L.A, eu teria de me contentar com apenas sua imagem em minha mais nova e gigante televisão 3D.

No Laptop, aberto ao meu lado, pude reconhecer um som que não escutava há muito tempo, e que fez meu coração disparar, e correr para me lembrar que meu Skype continuava aberto, e eu ainda tinha amigos com quem conversar. Abri um sorriso enorme ao ver a longa cabeleira loira de Callie, que me chamava naquele exato momento do Texas, ou melhor, da minha antiga linda cidade, provavelmente querendo me dar uma bronca daquelas por não termos nos contatado antes.

–Ah meu Deus, me desculpe, me desculpe.

Já comecei com os perdões assim que atendi a chamada. Callie estava do outro lado da tela, com os longos cabelos e linda como sempre, exibindo os enormes olhos azuis de gatinho e uma roupa tão confortável quanto a minha, que ao contrário de mim, ficava até mesmo sexy para minha amiga. Mas fazer o que? Até roupa de hospital ficava sexy para Callie! Aquela era a maldição de ser sua amiga, eu sempre era notada por último.

Não creio que realmente ousou sumir por tanto tempo! 3 dias! Quer me matar?

–Já pedi desculpas. –Dei risada, achando engraçada a cena. –Sabe, Callie. Eu te amo, mas tem uma obsessão grande demais por mim.

Obsessão? Só porque colho as mechas do seu cabelo para cheirar de noite? –Brincou minha amiga, em expressão indignada. –Nossa, Cindy! Como vai a vida aí? É tão ruim quanto pensava?

–Olha... É.

Putz amiga. Eu juro que esperava que as coisas tivessem melhorado.

–Não vão melhorar, essa é a verdade. Mas se serve de consolo, eu conheci uma pessoa.

Hm...! Uma pessoa... Tipo um garoto?

Sorriu minha amiga, maliciosa, enquanto arqueava as sobrancelhas com o sorriso idiota estampado no rosto. Revirei os olhos, dando risada. Deus! Como estava com saudades dela!

–Sim, Callie. Um garoto. Muito gato por sinal... Mas não que ele vá querer usar seu... Instrumento extra... Em alguma de nós.

Você quer dizer pinto?

Perguntou Callie confusa, e nada delicada como costumava ser. Dei risada, cobrindo o rosto com as mãos.

–Ele é gay.

Poxa! Que merda! Mas já fez um amigo, isso é péssimo!

–Péssimo?

Dessa vez eu perguntei confusa, Callie assentiu.

E se você esquecer de mim?

–Deixe de ser idiota, Callie. Mesmo querendo, não iria me esquecer ou me livrar de você.

Isso é verdade... Eu sou uma pessoa inesquecível, marcável, e grudo mais do que chiclete em cabelo.

–Sim, você é. –Revirei os olhos novamente, dando risada. –Mas olhe pelo lado bom. Quando você vier me ver, vamos ter um quarto muuuito top pra dormir!

Seu pai caprichou no quarto?! Me mostra!

Pediu minha amiga, animada, enquanto eu dava risada e saia pelo quarto, circulando com o computador nas mãos. A expressão de Callie era a melhor, enquanto vibrava, assim como eu, nas mesmas coisas bacanas que havia visto antes. Bem... Sim, sempre tivemos um gosto bem parecido.

Você tem uma banheira!

–Sim! É top, não é?

Mais do que isso! –Minha amiga riu encantada, enquanto por um momento pareceu focar em um ponto de sua tela. Ergueu uma sobrancelha. –Hm... Cindy. Quem são esses?

–Quem?

Franzi a testa enquanto me virava para trás. Meus olhos caíram sobre um pequeno porta retrato, que não havia visto antes, pousado sobre uma escrivaninha, quase escondido atrás dos livros. Os olhos de Callie eram mágicos, não é possível. Puxei o objeto de madeira enquanto observava a foto nele. Revirei os olhos, vendo que em cima, havia uma imagem do meu pai em uma pose, e logo ao lado uma de Nicholas fazendo exatamente a mesma. Em baixo havia uma foto atual dos dois, a qual provavelmente havia chamado a atenção da loira. Apontei para o garoto estampado na foto que ousava sujar meu quarto.

–Esse aqui?

Sim.

–Nicholas.

Wow! –Os olhos de Callie se arregalaram, ficando maiores do que já eram. Abriu um sorriso de orelha a orelha, parecendo achar grandiosa e ideia de aquele garoto ser meu irmão. –Esse é o irmão babaca que você odeia?

Sim.

–Como pode? –Perguntou com um sorriso idiota. –Se fosse meu irmão... Wow!

–Callie!

O que? Vai me dizer que ele não é gato pra burro!

Franzi a testa enquanto observava a foto de Nicholas, e soltava um suspiro revirando os olhos. Ok, Nicholas era gato para burro sim, porém, nem uma carinha bonita arrumava o seu gênio horroroso.

–Tá, tá, tá. Agora vamos aos negócios: Dia, mês e hora do seu voo pra cá.

Eu já falei com a minha mãe! Ela deixou, acredita? Se tudo der certo, é só esperar o feriado na escola que eu vou!

–Nessas férias não vai rolar, né?

Muito em cima. –Deu de ombros. –Estou louca pra conhecer sua casa nova!

–O caralho. –Revirei os olhos. –Está louca pra conhecer Nicholas.

Cale a boca, Sidney! Estou indo pra te ver, ok? Minha safadeza não é tão grande assim!

Ambas sabemos que é.

... Ok. –Minha amiga deu risada enquanto revirava os olhos. –Mas eu te amo. E não fique tanto tempo sem falar comigo.

–Pode deixar. Também de amo. Boa noite, loira.

Boa noite amiga.

Sorri por uma última vez para minha amiga, enquanto fechava o Note e dava play no filme que havia parado há pouco. Suspirei. Bem... Se Callie viesse, nem em um milhão, trilhão, bilhão de anos eu deixaria ela ficar com Nicholas. Ele era babaca e minha amiga merecia coisa muito melhor, sim! Eu nunca ia deixar ela se interessar por ele... Mas ele com certeza se interessaria por ela, Callie é linda. Bufei. Que merda. Por que Callie sempre conseguia todos que queria? E por que em nome de Deus eu estava incomodada com o fato de talvez Nicholas se interessar por ela? Fiz uma careta enquanto tentava limpar minha mente dos pensamentos horríveis que me apareciam. Tudo culpa do sonho, tudo culpa do sonho. O sonho... Me arrepiei ao me lembrar de como os lábios pareciam macios e perfeitos contra os meus... Não! Isso é errado! Qual era o meu problema? Seja qual fosse, nem mesmo um dos meus favoritos filmes do Johnny Depp, estava ajudando a resolver.

Moradia no Inferno – Dia 4

Meu dia começou péssimo, para não ter de usar outro termo. Eu sentia a vontade mínima de sair do quarto para tomar café da manhã, mas eu havia amanhecido com tanta fome, que fiquei com medo de me tornar mais magra do que estava e ficar com o corpo “feio” e desnutrido, como diria Callie. E eu amava comer, quem poderia enganar? Meu pai como sempre estava com Jessica, que animada, colocava alguns ovos sobre a mesa, que deveríamos comer com torradas e que tenho que admitir... Pareciam maravilhoso. Senti minha barriga roncar. Eu poderia odiar minha madrasta e tudo mais, mas uma coisa era fato: Ela era uma boa cozinheira.

Me sentei na mesa, recebendo bom dia do meu pai e da mulher, que com um sorriso enorme no rosto, me perguntou o que eu queria comer. Dei de ombros, enquanto me servia do suco de laranja sobre a mesa, e parava por um momento para dar uma lida na notícia estampada no verso do jornal que papai lia como em toda manhã. Uma mania que não mudou em dez anos, e que ele provavelmente morreria fazendo. Poderia apostar um rim, que depois de ler todo o jornal, pegaria um lápis e começaria com as palavras cruzadas da última parte.

–Então... –Papai apoiou o jornal na mesa, depois de dar uma olhada para mim e para a torrada, onde eu colocava um ovo sobre e dava uma enorme mordida. Estreitou os olhos, parecendo bem desconfiado. -...Vimos um garoto com você ontem.

–Ah não.

–Quem era?

–Pai. –Revirei os olhos enquanto cobria o rosto com a mão. Eu merecia aquilo. –Um amigo.

–Amigo?

Ergueu uma sobrancelha, enquanto eu assentia logo em seguida. Soltou um suspiro quase aliviado, voltando a se encostar contra a cadeira.

–Que bom. Não teremos de ter a conversa.

–Ele não era amigo dela. Bom dia.

A voz que fez meu corpo se arrepiar, aproximou-se, sentando-se de frente para nós, com os cabelos atrapalhados e usando roupas largas que provavelmente vestiu para não sair de samba canção do quarto e ter mais um daqueles momentos... Constrangedores que tivemos. Nicholas pegou uma torrada, enquanto Jessica abria um sorriso divertido.

–Não era amigo dela?

Ótimo, agora todos se metiam em minha vida.

–É claro que era. –Ergui uma sobrancelha, na defensiva até demais. –Ele só me trouxe até em casa como caras legais fazem... Mas não espero que entenda isso.

–Eu sou um cara legal.

Nicholas deu de ombros, fazendo-me rir.

–Muito.

Grunhi quase inaudível, enquanto papai tirava mais uma vez os olhos do seu jornal.

–Se Sidney diz que não é, então não é.

–Ele era bonito pelo menos?

Jessica perguntou com intimidade até demais. Cobri o rosto mais uma vez pronta para sair da mesa. Eu não precisava daquilo, Onde estavam as câmeras e os microfones?

–Ei, ei, ei. Sente-se mocinha.

Papai mandou, fazendo-me voltar á cadeira com uma expressão confusa. Nicholas observou-nos curioso, como se já entendesse que o assunto o envolvia também. Oh céus.

–Eu preciso pedir um favor, para vocês dois. –Lá vem. –Sua tia Ann, mãe de Jessica e o marido nos chamaram para um jantar de casais hoje o qual não poderemos faltar. Porém a babá de Sophie ficou doente e...

–Pai... –Nicholas foi o primeiro a protestar, graças a Deus. –Mas eu fiquei de sair com uns amigos hoje.

–Bom, Sidney não pode ficar sozinha. –Papai deu de ombros. –Nunca te peço nada, Nicholas, mas terá de desmarcar com seus amigos.

–Sério?

Ergueu uma sobrancelha, indignado. Papai assentiu, fazendo-o soltar um suspiro cansado. Jura? Só isso? Eu poderia falar muito mais. Mas naquele momento, Nicholas estava no papel do filho chato, e eu não queria lhe tirar isso. Fora... Que ele cuidaria da pequena, não eu. Tudo bem que seríamos só nós três em casa e eu teria de aturá-lo, mas eu realmente não tinha planos para hoje e sabia muito bem que mesmo se tivesse, não poderia cumpri-los. Assenti, enquanto soltava um leve suspiro e dava um gole em meu suco.

–Por mim tudo bem, posso me retirar?

Perguntei. Papai assentiu enquanto apontava para Jessica.

–Jessica quer lhe perguntar algo, Cindy.

Estreitei os olhos, enquanto me levantava e olhava atentamente para a Jararaca que me abria um sorriso. Eu podia sentir o cheiro do seu veneno.

–Eu queria saber se quer vir comigo escolher uma roupa para o jantar. Sua opinião seria ótima.

–Eu passo, Jessica, mas obrigada.

Dei de ombros, rejeitando o convite me importando minimamente se estava sendo rude ou não. Papai e Nicholas me observaram, boquiabertos, enquanto sem graça, a mulher assentia e voltava a fazer seus deveres, abri um sorrisinho acenando e antes que pudesse ser repreendida, disparei escadas acima em direção ao meu quarto. Eu não posso dizer que me senti bem com o que fiz, mas foi necessário. Agora eu tinha que pensar em ficar no meu quarto de algum jeito, sem ter de aturar as duas crianças que estariam dividindo o espaço comigo, no fim da tarde.

(...)

–Nicholas, isso vai explodir!

Gritei o mais alto que consegui, tirando a panela do fogo antes que o mundo de pipoca estourasse e inundasse a cozinha, o que provavelmente resultaria em faxina extra para mim. Sophie já estava em casa e Jessica e papai já haviam saído para o tal jantar. Não posso dizer que odiei a garota, porque se dissesse, estaria mentido. Bem, Sophie era uma menininha loira de olhos verdes engraçadinhos, e que falava tão bem quanto uma adulta, mesmo tento nó máximo os seus oito anos. Havia trazido o seu livro favorito e estava me contando como adorava o romance. Bonita e inteligente, aquela garota quando mais velha teria futuro. Nicholas e eu resolvemos fazer pipoca para dividirmos já que estávamos os três com fome, mas me surpreendendo mais ainda com sua inutilidade, o garoto me provou que sequer isso sabia fazer, e era patético. O empurrei para longe enquanto fazia eu mesma.

–Você é muito estressadinha, credo.

–Não sou não. E pare de me criticar.

Pedi enquanto despejava a pipoca branquinha dentro do pote e a temperava com o sal sobre a pia. A entreguei para Nicholas, abrindo um sorriso cínico.

–Tente não dar um jeito de fazer isso explodir até chegar na sala.

–Ha-ha. Muito engraçado.

Fez uma careta, enquanto cuidadosamente caminhava comigo até a sala, onde Sophie estava concentrada em assistir mais um episódio que passava em um daqueles programas da Disney. Nos olhou animada enquanto enchia a mão de pipoca e a levava até a boca. Mastigou como se fosse a melhor comida do mundo.

–Está muito boa!

–Eu que fiz.

Sorriu Nicholas, mentiroso, levando em consequência uma almofadada minha.

–Mentira. Eu fiz.

O olhei feio, enquanto a garotinha dava risada. Olhou para nós por um momento.

–Vocês são engraçados.

–Engraçados?

Perguntei com um sorriso bobo no rosto. Sophie assentiu.

–Sim. Eu não acho que vocês pareçam irmãos. Parecem mais namorados.

Hm... Momento constrangedor. Nicholas e eu trocamos olhares arregalados e em seguida olhamos ambos para Sophie, descrentes do que havíamos acabado de ouvir. O que? Namorados?

–Está maluca garotinha? Será que eu vou ter que te atacar com cócegas? Eu nunca namoraria uma coisa feia como Sidney.

Falou Nicholas com um sorriso idiota, enquanto ameaçava fazer cócegas na menina, que se encolheu dando risada. Ela parecia gostar bastante do primo. Já eu? Torci o nariz, descontente pela parte da “coisa feia”.

–Sidney é bonita. Não é feia.

Me defendeu Sophie, fazendo-me abrir um sorriso vitorioso.

–Bom, cada um com suas opiniões. –Brincou Nicholas. –Mas sabe o que é realmente agora?

–O que?

A garota perguntou com um sorriso.

–Hora de uma certa menininha dormir, porque já está falando bobagens, o que se chama na verdade: Sono.

–Ah não!

Gemeu Sophie completamente desanimada por ter de dormir. Nicholas fez uma caretinha triste, mas de surpresa, pegou a menina a colocando como um saco de batatas no ombro e rindo vitorioso. Ela soltou um gritinho agudo, dando risada e balançando os pés, enquanto sem dificuldades Nicholas carregava-a nos ombros até as escadas, que foi onde parou para olhar para mim.

–Vou coloca-la na cama, ok?

–Uhum.

Assenti um tanto que boba pela cena, enquanto o via subir as escadas e aos poucos sumir de minha visão. Eu nunca em toda a minha vida pensei que veria uma cena como aquela, digo, Nicholas se dando tão bem com uma criança e sendo... Agradável. Era quase impressionante, conhecendo bem o garoto poderia dizer que ele odiava crianças... E eu provavelmente estava completamente errada.

Não demorou muito para os passos soarem na casa silenciosa, a não ser pela televisão ligada, e logo o garoto de cabelos castanhos se jogar no sofá ao meu lado, com um longo suspiro e um sorriso vitorioso provavelmente por ter conseguido negociar com a loirinha e ter a feito dormir. Mostrou os dentes exageradamente fazendo um “joia” com o dedo. Olhou para mim e depois para o programa Gossip Girl que eu assistia, fazendo uma careta. Ergui uma sobrancelha, incomodada pelo olhar.

–O que?

–Nada. –Deu de ombros. –Pensei mesmo que gostasse disso.

–Por que se refere a “isso” como algo ruim?

–Não é ruim. Só é... Feminino.

–Programas são femininos e masculinos agora?

–Sim.

–Me diga um programa de macho, senhor fodão.

–Um programa de macho? –Nicholas abriu um sorriso bobo, dando de ombros. –Filme de terror?

–Filme de terror? –Ergui uma sobrancelha. –Considera isso programa de macho?

–Os assustadores, sim. –Deu de ombros. –Menininhas ficam morrendo de medo, e nós homens temos que protege-las.

–Ah, não é bem assim. –Dei uma risada um pouco irritada pelo machismo, tentando não deixar isso transparecer. –Nem toda mulher tem medo de terror.

–Dos bons, sim.

–Me fale um bom então!

–Um Japonês. –Nicholas sorriu perversamente. –Esses são bons.

–Eu não tenho medo de filme de terror Japonês.

Menti. Ok, eu amava filmes de terror, mas eu ficava apavorada depois. Porém, é claro que eu nunca diria isso à Nicholas. Um sorriso quase perverso se abriu no rosto do garoto e dando de ombros, pegou o controle remoto ao nosso lado e clicou em um canal, que já conhecia pelo jeito, apontando para o filme que começaria em cinco minutos na programação.

–Evocando espíritos, filme de terror Japonês. Vamos ver se não tem medinho mesmo.

Merda. Não. Eu havia caído direitinho! Meus olhos se arregalaram olhando para a televisão e em seguida para ele, que me observava com aquela expressão irritante tão familiar, parecendo vencedor e que havia conseguido direitinho me enganar para assistir o que tinha vontade. Revirei os olhos enquanto me colocava de pé e me preparava para deixar a sala. Ele poderia ficar com a televisão, eu não me importava.

–Assista o que quiser, vou dormir.

–Ou-ou-ou. Alguém está com medo, é isso produção?

O sorriso perverso se voltou no rosto do moreno, fazendo o meu corpo congelar. Ah... Não. Engoli em seco enquanto fechava os olhos e respirei bem fundo uma só vez. Se eu não assistisse ele ia me zoar para o resto da vida, eu sabia, e eu estaria dando mais razão a ele e os seus comentários machistas que me tiravam do sério. Bufei, enquanto me jogava ao seu lado no sofá mais uma vez. Eu não acredito que estava fazendo isso. Por que eu tinha que ser tão orgulhosa.

–Boa garota.

–Vá se foder.

Grunhi irritada enquanto Nicholas apagava a luz e me fazia dar um pulo. Abriu um sorriso divertido, recebendo meus olhares já apavorados.

–Pra melhorar o clima. –Me ergueu o pote. –Pipoca?

Não respondi. Eu ficava impressionada com o quanto que ele conseguia ser desagradável, e eu me surpreendia mais e mais. Nicholas era o pior pesadelo que uma pessoa poderia ter, fora o filme de terror Japonês.

Não vou dizer que me saí bem em fingir que não estava apavorada. Nos cinco primeiros minutos de filme eu me segurei para não gritar, mas quando os malditos espíritos começaram a aparecer, eu parecia um gatinho agarrada no braço do sofá. Eu até poderia dizer que Nicholas também estava assustado! Ele estava relaxado com a pose de machão, meus seus olhos estavam tão grudados na tela, que se eu tentasse tirar, provavelmente sangrariam. Devo ressaltar que aquelas foram as duas horas mais longas de toda a minha vida. Eu gritando assustada com o filme, me encolhendo no canto do sofá, cobrindo os olhos com a almofada enquanto ainda tinha que ouvi-lo zoando de mim, chamando-me de gatinha assustada. Aquilo me irritava e me fazia querer continuar vendo o filme, mas quando mais eu olhava para a tela, mas eu sabia que aquela noite eu passaria em claro.

Quando os créditos finais finalmente tomaram conta do telão, as luzes se acenderam e com um sorriso idiota no rosto, Nicholas cruzou os braços, observando-me de forma debochada. Soltei a almofada que eu agarrava, e tentando manter a pose, me coloquei de pé, com a cabeça alta, olhando-o de nariz empinado tentando dar a falsa ideia de que eu não estava extremamente apavorada como me sentia. Nicholas deu risada, tirando sarro da minha cara.

–Você estava com muito medo.

–Não estava não!

Retruquei teimosa, fazendo-o rir mais e revirar os olhos. Como era idiota! Agarrou a almofada em cima do sofá e colocou-a na frente do rosto, se escondendo, imitando-me de forma satirizada, que me fez querer enfiar aquela almofada toda em um lugar não muito agradável do seu corpo.

–Eu disse que mulheres tem medo.

–Eu não tive medo!

–Você estava quase atrás do sofá.

–Não estava não, você que é louco.

Revirei os olhos, fazendo meu irmão erguer as mãos em rendição, em gesto de que a guerra havia sido ganha por mim. Bom mesmo. De nariz empinado caminhei até sua direção na sala, pronta para sair pela porta, mas assim que fiz as luzes se apagaram e em minha visão, nada pude reconhecer além do breu. Com o coração a mil, dei um pulo soltando um grito agudo e agarrei o mais forte possível a primeira coisa que eu achei. Nicholas gargalhou alto, provavelmente por meu medo e acendeu a luz logo atrás de si, vendo a cena patética de mim, abraçando-o como um bicho de pelúcia, em pânico pelo susto que ele havia me feito passar. O olhei feio querendo com todas as minhas forças mata-lo. Ridículo!

–Pronto, pronto. Não tenha medo, eu estou aqui.

Me confortou ironicamente, passando seus braços em volta de mim, só para então eu raciocinar e solta-lo com toda a minha vontade, mesmo ainda estando sufocada em seu abraço exagerado.

–Não preciso do seu conforto! Me solte!

–Ah, mas como você é chata, Sidney! –Exclamou Nicholas sem sequer mover um músculo, Grunhi tentando me libertar. –Foi uma brincadeira. Tem que estar sempre certa?

–Você é irritante!

–Pode parar de me criticar?

–Mas é tudo o que posso fazer quando não tenho nada de bom pra falar de você!

Exclamei ainda em defensiva. Nicholas revirou os olhos me soltando, olhando-me sério, enquanto eu parava, mais afastada dele agora, olhando-o da mesma forma. Nos encaramos mortalmente por um momento. O clima pesado tomou conta entre nós.

–Tudo bem. Pode mandar.

–Você é ridículo, retardado, nojento, idiota, escroto, criança, babaca, insuportável e eu detesto passar sequer um momento perto de você!

Os olhos azuis eram fixos em mim, indescritíveis, me observando de forma seca, parecendo que não era atingido por nem uma de minhas palavras e isso me irritava mais. Meu corpo estava a mil. Eu queria soca-lo.

–Continue...

–Você é falso, mentiroso, perverso, e eu te odeio com todas as forças do meu ser!

–Acabou?

–Sim.

Grunhi irritada e completamente frustrada por não ter parecido lhe causar efeito. Um momento de silêncio se alastrou entre nós e por um momento apenas ficamos ali, um encarando o outro mortalmente, com o mais completo ódio nos olhos, sem sequer uma palavra além das respirações elevadas. Nicholas estava estressado, eu via isso, e tinha certeza que tinha uma lista não muito legal de adjetivos de mim também para fazer, mas eu não queria ouvir.

Os olhos fixos e irritados, cinzas e azuis, a tensão apenas crescia entre nós e eu sentia que o teto ia desabar. Eu não sei o que aconteceu por um momento, mas em todo aquele ódio, tudo oscilou e de encaradas, a cena mudou completamente para um forte beijo que se iniciou, assim que Nicholas avançou sobre mim, puxando-me em sua direção e afogando-me nos lábios que me deram o beijo mais intenso e forte que já tive em toda a minha vida. Sua mão segurava o meu corpo com força e nossas línguas praticamente lutavam. Eu sentia calor, muito calor... Uma das mãos de Nicholas segurava forte meus cabelos, pressionando mais ainda meu rosto contra o dele, e colando meu corpo ao seu, esmagando-me entre seu calor e o ar frio que mal sentia ao ser agarrada por seus braços. E foi então que eu percebi que porra eu estava fazendo.

Sem pensar duas vezes usei todas as forças do meu corpo para empurra-lo para longe e com a expressão mais assustada, horrorizada que tinha, me afastei do garoto, praticamente me encolhendo contra a parede. Meus olhos estavam arregalados, minha respiração alta e meus lábios latejavam pela força do choque entre eles. Mas o que...?

–Você está louco?!

–Oh... Oh meu Deus Sidney. –Os olhos de Nicholas eram tão grandes e espantados quanto os meus, mesmo tendo sido ele quem havia me beijado. –Me... Me desculpe eu... Eu não sei o que aconteceu!

–Mas... Que porra foi essa?!

Gritei ainda indignada. Nicholas olhou para a porta preocupado, olhando-me em piedade em seguida.

–Por favor não grite, vai acordar Sophie.

–Não gritar? Foda-se a Sophie!

–Pare!

Exclamou de novo. Olhei fixamente para ele e ele para mim. Senti um arrepio tomar conta do meu corpo, o que me deixou com nojo. Mas que porra...? Parecendo sim arrependido, a expressão de Nicholas era lamentável. Diante do meu silêncio, aproximou-se de mim tocando meu braço, coisa que me fez recuar de uma vez só para o mais longe dele. A confusão estava em seus olhos assim como a raiva nos meus. Estávamos perdidos.

–Me desculpe Sidney.

–Cale a boca. –Pedi. –Por favor.

–Ok, eu fiz merda! Eu nem sei porque eu fiz isso eu...

–Quieto.

–Pare de me mandar ficar quieto!

–Você já fez merda! Está me confundindo mais!

Exclamei irritada. Nicholas levou a mão até o rosto respirando fundo. Não sabia como agir diante daquilo e nem ele. A única coisa que pôde pensar em dizer foi:

–Não conta pro pai.

Obvio. O garotinho do papai não queria pisar na merda. Eu deveria bem que foder ele. Mas eu não faria aquilo. Eu também queria pontos com o pai, mesmo sem admitir e eu sequer queria pensar no que aconteceu, quem dirá então falar. Eu queria sair correndo, mas só Deus sabia o porque de eu não ter feito aquilo ainda. Eu estava em choque, não conseguia me mover. A expressão na face de Nicholas me assustava, era como se ele não tivesse conseguido se controlar, e agora lamentava por aquilo.

–Eu deveria contar. Isso foi doentio!

–Não só eu! Você retribuiu!

–Você é nojento!

Foi tudo o que consegui fazer sair da minha boca, até então sim eu conseguir sair correndo em direção ao meu quarto, como um rato assustado corre para sua toca. Pude ouvir Nicholas chamar por meu nome e correr atrás de mim, mas eu fui mais rápida e alcancei as escadas. Eu não sabia o que estava acontecendo, eu estava confusa, ele havia me beijado, aquilo era nojento, mas eu havia o beijado também e... Eu havia gostado. Sangue do meu sangue, meu irmão, eu havia acabado de beijar meu irmão e não podia negar que seu beijo havia superado minhas expectativas. Eu tinha expectativas em beija-lo e aquilo era horrível. Ele era meu pesadelo, minha sina, um nojo, um babaca, meu irmão... E dono do melhor beijo que já havia experimentado em toda a minha vida.

Notas finais
Reviews? Recomendações? Perguntas pros personagens? -q Estou aceitando qualquer coisa -nnnn