Vocare
10 CAPITULO 9 – Sonho ou Alucinação?
Sherlock assistia atônito. Não conseguia compreender o que acontecia. Molly parecia corroborar com tudo o que Moriarty dizia. Ela o chamava de Henkel. E naquele momento, ela baixou a cabeça sem coragem para olha-lo.
Ainda estava confuso. Para ele aquilo só podia ser um pesadelo, ou que ele estava em um sonho induzido por drogas, onde Moriarty e Molly participavam de uma encenação. Moriarty como o anjo vingador, que irá destruir sua vida; e Molly, como seu anjo da guarda, seu futuro e porto seguro.
Henkel se abaixou à frente de Molly. Ele a encarou, mas ela se recusava a olhá-lo.
— Sabe Sraosha... Sherlock aqui acha que tudo é um teatro. Na mente humana dele, isso é irreal, um sonho. Ele é um homem lógico, racional. Ele sequer acredita em Deus. É compreensível isso tudo ser fantasioso para ele. Deve ser algo inimaginável realmente. E honestamente era algo que ele nem deveria saber, mas... você decidiu que essa situação acontecesse. Então o mais correto... – e então ele se virou para Sherlock -... é o seu humano não ter dúvidas de absolutamente nada.
Sherlock e Molly ficaram lá imóveis. Ele tentou dizer algo, mas só saíram murmúrios desesperados. Ele só queria saber se ela estava bem. Só isso. Mas Molly estava estática ali, e ele podia ouvi-la chorar.
Henkel foi até a porta e a abriu. Esticou a mão direita, ainda encarando as duas pessoas no chão. Algo lhe foi entregue, dourada e reluzente. Molly mesmo ás lagrimas, pode sentir a vibração da relíquia sagrada, e levantou a cabeça para ver. Henkel caminhava na direção dela, com algo que ela só havia ouvido falar. Harut e Mihr contavam as grandes histórias de batalhas angélicas e divinas para ela e os outros. Lembrava de quanto Nemiah e Phul adorava a descrição de cada detalhe, cada armadura, cada espada, martelo, e machado...
E ali estava, inconfundível, o lendário Utførelseøks, o Machado da Execução Primária. Mesmo sem nunca tê-lo visto, sabia que era ele. Era igual na descrição de Harut: lâminas duplas douradas detalhadas com nomes de todos que o empunharam. E haviam sido muitos. Lembrava-se da história da valquíria Magnhild, que o recebeu das mãos moribundas do heroí Helgi Hundingsbane no fim da batalha de Logafjöll, e como ela chegou a Geats e lutou ao lado do lendário rei Beowulf. A historia do machado continuava, passando por diversas mãos, humanas ou não, até chegar nas do deus Perkunas, a quem os bálticos adoravam.
Como um símbolo de honra e bravura chegara as mãos de alguém impiedoso e egoísta como Henkel?
— Você reconheceu, não é, Sraosha? É claro que sim. Tenho certeza que pode sentir o poder desta peça magnífica. – ele parou diante de Molly, e depois encarou Sherlock. – O que acha, Sherlock? Lindo não é? Uma arma lendária usada em batalhas. Usada por deuses. E agora quem o empunha sou eu.
Voltou os olhos para Molly, que o encarava.
— Você sabe muito bem o que eu quero agora, Sraosha.
— Não. – ela tentava tirar força de algum lugar. Se não por ela, por Sherlock. Ela tinha que fazer algo.
— Não vamos confundir mais ainda com a cabeça desse humano. – e ele apontou para trás. – Deixe me ver suas penas.
— Henkel...
— Quer que eu grite? Que eu ordene? Eu posso fazer isso.
— Por favor, deixe-o de fora disso. Eu e você podemos resolver este proble...
— ABRA AS ASAS!!! – ele gritou furiosamente. – É uma ordem superior, Sraosha!
Molly era obrigada, por sua própria natureza, a fazer o que lhe era mandado. Henkel era de uma casta superior, e mesmo sendo um caído, seu poder como Serafim ainda era funcional. Ela abaixou e gemeu quando suas asas cortavam sua carne para sair. Ela nem imaginava o que Sherlock poderia pensar depois disso. Virou lentamente a cabeça abaixada para vê-lo. Ele estava com os olhos arregalados, sem piscar, assistindo a pele das costas dela se abrir, e de lá sair o que parecia uma espinha dorsal.
Sherlock não acreditava no que via. Não havia outras alternativas para o que estava acontecendo. Só havia uma dedução a ser feita: estava alucinando de uma forma absurda e intensa. Em sua alucinação, Molly era um anjo. Ele via asas deslizarem de suas omoplatas. Não havia como confundir. Eram enormes penas brancas, sujas de um sangue escuro, em uma estrutura que crescia e continuava a crescer. A estrutura se alongava e criava uma ponta comprida, para então se alongar novamente e criar um curva para o alto. Eram asas. Imensas asas brancas.
E então parou.
Sherlock soltou a respiração que segurava, e não conseguia piscar.
— Levante Sraosha, e abra suas asas. – disse Henkel calmamente.
Molly sabia que não podia recusar. Se levantou. Uma trilha de lágrimas marcava seu rosto. Fazendo o que ele pedia, podia lhe dar tempo. Respirou fundo, consciente da sua nudez. Mas naquele momento, nem Sherlock, que estava chocado demais; nem Henkel, que só queria se vingar; se importavam.
Ela endireitou as costas, e a cabeça de Sherlock caiu para trás.
Sherlock apenas absorveu aquela imagem. Molly, nua com os cabelos caídos nos ombros, os olhos molhados, com uma tristeza única no rosto, e em suas costas, asas abertas que brilhavam como pura luz.
Era a alucinação mais incrível que Sherlock havia tido na vida.
— Lindo! E perfeito! – soltou Henkel, e Sherlock piscou, como se uma realidade alternativa tivesse caído como uma pedra. Moriarty, Henkel... ainda carregando aquele machado dourado agora circundava Molly. E tocava as penas daquelas asas magnificas e murmurava algo que Sherlock não conseguia entender. Ele viu Molly fechar os olhos, e aperta-los numa expressão horrorizada.
Henkel voltou a ficar na frente dele.
— E então, Sherlock? O que achou? São maravilhosas, não são. Apenas as castas que vivem na terra podem recolher suas asas. Você realmente nunca achou estranho aquelas cicatrizes nas costas dela? Nunca mesmo? Claro que não, certo? Anjos? Só crianças e pessoas estúpidas acreditariam nisso. – ele caminhou ao redor deles, com o machado apoiado em seu ombro. – O que me faz lembrar do nosso pequeno desacordo aqui. Não irá se manifestar, Sraosha? Está na hora das barganhas.
Molly inclinou o queixo para o alto, e o encarou.
— O quer que eu diga, Henkel?
— Uau! Eu quero que diga que será minha.
— Isso nunca irá acontecer.
Henkel deu uma risadinha baixa.
— Sraosha, você sabe o que eu quero. Já coloquei as cartas na mesa. E é simples, muito simples. Tão simples que é até clichê. Ou você fica ao meu lado, ou ele morre.
Os olhos de Molly encaram os de Sherlock.
Já que era uma alucinação sua, Sherlock decidiu que tomar o controle da situação.
— Por que faz isso? – ele perguntou. – Por que a quer tanto?
Henkel o encarou, como se Sherlock tivesse um sério problema mental.
— Por que ela vale tanto assim pra você? – continuou perguntando.
Henkel o olhou com os cílios abaixados, e sorriu. Uma pergunta válida.
— Ela é tão importante para mim, como é para você.
Sraosha riu, fazendo Henkel se virar para encará-la, para então se virar novamente, e com a mão livre esbofetear Sherlock com uma força sobre-humana. Molly gritou. Sherlock, ao chão, tenta se mexer. Geme de dor, e cospe sangue no chão.
— Desculpe por isso. – Henkel se abaixou e abriu as algemas de Sherlock. – Não é pessoal.
Molly tentou ir até Sherlock, mas Henkel apenas lhe apontou o machado para fazê-la parar. Utførelseøks havia sido feito com o mesmo metal que o Mjolnir de Thor Odinson. Ela sabia que aquela arma poderia mata-la. Matar qualquer anjo. Este era o motivo que Henkel o tinha. A ameaça era real. Real e assustadora.
Henkel olhou para Sherlock, que tentava se levantar.
— Sabe, percebi algo. – ele voltou a caminhar pela sala sem janelas. — Agora estou consciente de uma coisa. Se eu mata-lo, ele só será um mártir aos seus olhos, Sraosha. Ele morre, e então, você iria preferir morrer depois dele. Acho que realmente a melhor coisa é deixa-lo ir.
Molly encarou Sherlock, com uma pontada de esperança.
— Lhe tirarei suas memórias, ele vai embora e terei você, meu amor, assim, do jeito que eu gosto: linda e nua para sempre ao meu lado.
— Sim, deixe-o ir.
— NÃO!
Molly e Henkel encararam Sherlock.
— Não? – e Henkel gargalhou. – Como não? Molly não é ninguém. Só alguns segundos de prazer nos seus braços. Você não a ama. Não de verdade. Você irá para sua casa, para seu amado John, quem é importante para você realmente, e tudo voltará ao normal.
— Sherlock, por favor. Tudo irá acabar agora. Tudo voltará ao normal. – ela implorava por isso. – Henkel, leve-o. Vamos acabar com isso.
— NADA IRÁ ACABAR. – Sherlock gritou. – Eu faço as regras aqui.
Molly deixou as asas caírem em suas costas. Olhou Sherlock com ternura, e sabia que ele não fazia ideia do que estava acontecendo. Ela o conhecia como a palma de sua mão, e tinha certeza que ele agia como se tudo não passasse de um sonho.
— Sherlock, sei que parece irreal, mas nem eu, nem você, temos controle sobre qualquer coisa aqui.
— Molly... – e então riu. – Isso não está acontecendo.
Henkel começou a rir. Muito. E alto.
— Okay, Sherlock, quais são suas regras?
— Henkel, pare de jogar. Você sabe que ele é racional demais para acreditar em nós. Ele prefere não acreditar.
— Deixe-a ir. Pare de tortura-la. – pediu Sherlock.
— Ah, por favor. – e Henkel comicamente balançou a cabeça. E aponta para Sherlock. – É por isso que você me recusa, Sraosha? Por isso? Mesmo?
— Minha recusa é muito maior do que isso, Henkel. Não irei ficar a seu lado por suas aspirações megalomaníacas. Você pode matar Sherlock, pode acabar com o mundo inteiro... – e então esticou o pescoço na direção dele. — Jamais ficarei ao seu lado.
Henkel jogou-a no chão. Sherlock tentou para-lo, mas Henkel era forte demais, e conseguiu arremessa-lo ao chão. Sherlock ficou zonzo, mas não a ponto de evitar ver e ouvir o que aquela aberração fazia com Molly.
Jamais esquecera o som da lâmina daquele machado dourado. E jamais esquecerá a imagem dele descendo nas costas de Molly. Ele decepara uma de suas asas. E o grito de Molly congelou seu próprio sangue.
TO BE CONTINUED...
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