Vocare
3 CAPITULO 2 - Um Aviso Amigável
Silêncio.
Silêncio era o que Molly mais adorava num necrotério. Não havia vozes ou barulhos para interrompê-la. Podia ficar ali com seus pensamentos, seus sonhos, suas fantasias...
Tinha se acostumado com o silêncio ao passar do tempo. Só que naquele momento, o silêncio era extremamente repressor. Estava assustada nos últimos dias. Sherlock havia tomado um tiro, e ela nem tinha tido a chance de vê-lo. Só tinha mesmo visto aqueles jornais absurdos cheios de mentiras. Será que eram mentiras mesmo? “Sete vezes em Baker Street“?
Balançou a cabeça e encarou o corpo do Sr. Pullman à sua frente. Pobre homem que não teve a chance de ficar velhinho, e segurar os netos. Molly conhecia o Ofanin do Sr. Pullman. Mycele esteve lá no necrotério e trocou uma meia dúzia de palavras com ela, dizendo que ia descansar em Ibiza até lhe terem designado um novo humano.
Ibiza. Molly adorava Ibiza. Na verdade, ela amava sol, praia e calor. Seu avatar lhe permitia desfrutar de tudo o que um corpo humano possuía. Ela era inteiramente anjo, e inteiramente humana. Então assim que podia, ela se bronzeava, comia Calamaris e bebia coquetéis de frutas vermelhas.
Ela, ás vezes, certo, quase sempre, fantasiava com praias brancas, felicidade e Sherlock no mesmo pacote. Sendo inteiramente anjo, e inteiramente humana, ela não conseguia deixar de se levar pelo que a Terra podia trazer. O amor inclusive.
Tanto Molly quanto Sraosha estavam apaixonadas por Sherlock Holmes, o humano de quem ela deveria ser responsável. Era como se apaixonar por uma estrela de cinema, exceto que ela deveria lhe trazer café, e enquanto ele bebia, ela separava um estoque de dedos e orelhas para ele. As vezes, ela ouvia um “obrigado” numa voz de veludo; as vezes seus dedos levemente se tocavam quando ela lhe entregava uma xícara ou um béquer, para então, se arrepiar de prazer.
Claro que ele não sabia a verdadeira utilidade de Sraosha. Ou identidade. Nessa dimensão, ela era sua simpática patologista. Ultimamente as coisas haviam mudado, ela foi se tornando mais e mais uma amiga de verdade. Ela era importante para ele. Mas como ela podia ser amiga realmente, se ela escondia quem era?
Mas isso não a impedia de sonhar. Sonhar em ser humana. Em ser dele. Em dividir areias fofas, lençóis de linho e dias ensolarados.
E então seu rosto fechou. Suspirou e tremou. Como poderia pensar em dias ensolarados depois do vídeo com Moriarty?
Ainda ela tentava entender aquilo. Ele não estava vivo. Era impossível. Ela mesma tinha feito a autópsia. Ela tinha o aberto com uma incisão em Y. Não havia agressão em qualquer outro órgão, apenas na cabeça. Traumatismo craniano grave devido a uma ferida de bala. Um tiro autoinfligido, na boca. Havia massa encefálica até no chão do telhado de Barts. Ela tinha cuidado de cada detalhe após Sherlock pular e o plano ter seguido em frente.
Ele estava morto, e bem morto. Ela era testemunha ocular disso.
Mas e o vídeo? Como foi ao ar? Quem o colocou? Obviamente tinha sido editado para um looping. Um eterno “miss me?” para amedrontar não apenas ela, como todo o país. Mas... Nada fazia sentido.
Ela deveria fazer alguma coisa? Ligar para alguém? Ela duvidava de que quem estivesse vendo TV na Reino Unido não teria visto aquilo, mas... Ela deveria agir? Era da conta dela se alguém estava usando o nome de Jim para causar pânico? Deveria alertar Lestrade?
Abandonou Sr. Pullman, tirou suas luvas, óculos de proteção, e tirou o celular do bolso. Na agenda de contatos, apertou a letra T. Após o 3º toque, foi atendida.
– Marketing!
– T, sou eu.
– Eu já ia te ligar! O que foi aquele vídeo?
– Não sei, não sei. Só pode ser uma gravação. Não tem como aquilo ser real.
– Ele está morto, não está?
– Claro que está morto. Eu fiz a autopsia, lembra? E não sei o que fazer. Tenho que ligar para alguém?
– Acho que as autoridades não precisam do seu aviso, S.
– Não é exatamente uma questão de precisar, Meena. Algo me diz que eu tenho que fazer alguma coisa. Faço parte desta história.
– Eles irão investigar isso, e irão até você para comprovar que ele está mesmo morto. Provavelmente, será seu humano que vai fazer isso.
– Odeio quando você fala assim: “seu humano”. É tão...
– Condescendente?
– Nem sei por que eu liguei pra você. Você não me ajuda em nada.
– Eu já estou ajudando. Estou lhe pedindo para relaxar quanto a isso. Seus amigos da Scotland Yard daqui a pouco vão estar aí. Fica calma.
Molly bufou, murmurando algo que Meena não entendeu.
– E pare de resmungar. Tchau!
– Tchau. – e desligou. – Ainda acho que preciso fazer alguma coisa.
– Fazer o quê?
Molly se virou para a voz, e paralisou. Seu queixo caiu.
Ali a frente dela, estava ele. Em um impecável terno negro, camisa branca, e gravata de seda, com um sorriso imenso no rosto. Ele estava pálido como o Sr. Pullman ali na mesa diante das luzes fluorescente do necrotério. Como ele entrou sem ela ouvir as portas de ferro?
– Quem é você? – perguntou. – Jim está morto.
– E mesmo assim, eu estou aqui. – ele disse, e andou na direção dela. Molly recuou, amedrontada. – Isso são as boas-vindas que Jim recebe? Nós éramos um casal.
– Você não é Jim.
– Não exatamente. – ele disse, ainda sorrindo. E então Molly se apavorou novamente. Ele, que havia escondido sua aura, deixou-a ver quem era. E saber quem era, a atingiu como uma lança.
– Henkel...
– Estou de volta, amor.
– Seu desgraçado!
– Hey, por que essa audácia toda? Tome cuidado. Eu posso te matar, lembra? Ou arrancar cada pena das suas costas.
Ela ignorou a ameaça.
– Você não pode voltar neste corpo. Ressurreição é proibido.
Jim rolou os olhos.
– Sou um Caído, lembra? Eu cruzei essa linha há muito tempo. Além dos mais, Ele fez isso. Pelo menos uma vez. E outra, sou fã deste corpo. Pode-se dizer que eu e Jim temos negócios pendentes.
– Você não é Ele. E essa é a grande parte do seu problema, não é? Você não podia suportar que Ele era maior do que você, melhor que você, mais amado que você. – Estava sendo imprudente, mas não conseguia evitar a repugnância. Henkel havia sido um dos maiores.
Molly, na verdade Sraosha, havia conhecido Henkel em Roma, durante o reinado de Carlos Magno. Henkel mesmo sendo um Querubin, vivia na Terra e usava um avatar masculino, de ombros largos e olhos dóceis. Sraosha, mantendo o mesmo espírito bravo e gentil de Molly, virou amiga e depois amante de Henkel, ambos usufruindo das delícias e prazeres que um corpo humano proporcionava.
Mas Henkel não se contentava com seu lugar na grande ordem das coisas. Não se contentava com sua parcela de amor e obediência. Ele sempre quis mais. Seu orgulho, seu ciúme, seus desejos, o fez ser expulso. Sua queda não mudou o fato de que ele era e ainda é mais poderoso e superior a ela.
A boca de Moriarty se apertou. Seus olhos brilharam de raiva. Ele voou até a mesa do necrotério, invadindo o espaço pessoal dela, e passou um dedo pelo seu rosto.
Ela estremeceu.
– Um pequeno detalhe que eu descobri nesse vazio entre a morte e reanimação. Vamos chamá-la de reanimação em vez da ressurreição. Você estava certa sobre uma coisa: Jim morreu. Não sobrou muito dele de qualquer maneira. No final era só... Eu. A reanimação foi um pouco... Bagunçada. Mas eu não me limito apenas a Jim. É só um transporte. – E então fez um gesto para baixo, para o comprimento do seu corpo naquele terno perfeito.
Ela não conseguia esconder a expressão de desprezo no seu rosto.
– É uma pena que você não ficou do meu lado, Sraosha. – ele deslizava o dedo pelo rosto dela, e Molly se manteve impassível. – As coisas teriam sido tão diferentes...
– Nunca. – e ela virou o rosto fugindo das mãos dele.
– Então, você não sentiu minha falta. – ele expressou um falso muxoxo. – Eu fiz aquele vídeo só pra você.
Molly deu um passo para trás.
– Por que você está aqui? O que você quer?
– O que eu quero? Você sabe o que eu quero. Se lembra da última vez? Eu sempre deixei bem claro o que quero.
– Então é vingança? É isso? Você quer me punir? Vai correr atrás de mim por toda a eternidade, matando os humanos ao meu redor?
– Exatamente! – ele sorriu e deu outro passo na direção dela. — Você me traiu, Sraosha. Lembra? Acho que sofrer é pouco pelo o que você fez.
– Você é quem é um traidor. E você caiu por isso! E está aqui, vivendo nas trevas, sem um único aliado, sem ninguém para confiar, sem ninguém para te seguir!
Jim segurou o rosto dela com as mãos usando muita força.
– Apenas um aviso amigável, amor. Eu sei quem é você. O que você é. E você sabe quem e o que eu sou. Eu sei que você não pode dizer ao seu amado humano sobre qualquer um dos nossos segredinhos. Vai contra a Palavra, certo? Tão inconveniente, não é? A Palavra. – Conforme dizia seu sorriso se transformou no do gato de Chesire. Ela queria dar um tapa na cara dele e tirar aquele sorriso maldito dos seus lábios.
Ela manteve-se firme, mesmo com aquelas mãos terríveis lhe machucando.
– Não interfira novamente, Sraosha. Te destruir me faria gastar uma energia que eu preferiria usar em outras coisas. Me vingar de você não é tudo o que eu quero. Você sabe que eu quero mais. Sei que você é a queridinha de muita gente lá em cima. E você será a minha barganha muito em breve. Você não irá abrir sua boca, afinal, se fazer isso, você vai ter que confessar tudo o que você fez pelo seu arrogante e desprezível monte de barro.
Molly engoliu duro. Ela quebrou tantas regras que isso a faria cair com absoluta certeza. E não podia ir embora. Sherlock precisava dela.
– Contanto que você não interfira você pode viver por enquanto. Não me faça ter mais motivos para te punir. – e então ele baixou a voz, e murmurou: — Não se envolva mais nos problemas do seu humano. Não esqueça que estou assistindo.
Então, deliberadamente, colocou uma das mãos atrás do pescoço dela, puxou seu rosto e a beijou. Ela bravamente lutou, mas seu aperto era forte como ferro. Ela sentiu seus lábios secos e quentes. Sua língua serpenteava em sua boca. A Divindade dele a inundava, e ela sentiu medo, desejo, ódio e pena, tudo em medidas quase iguais. Mesmo sendo um Caído, ela pode sentir um pouco da glória que Henkel teve um dia.
– Hmm... — disse ele quando se afastou. – Uma delicia. Sherlock não sabe o que está perdendo. Um pena que ele está apaixonado por John Watson.
Foi quando finalmente, ela o estapeou. Ele riu.
– Pobre Sraosha. Amor não correspondido é uma merda mesmo. Você acredita mesmo que é melhor servir e definhar do que fazê-los sofrer, não é? – ele balançou a cabeça e então abriu um sorriso perverso. — Não é a conclusão a que cheguei, mas a que cada um deveria chegar, eu acho.
Jim se virou e saiu, ainda sorrindo.
Molly correu para o banheiro do necrotério em tempo de vomitar tudo o que ela tinha comido naquele dia.
TO BE CONTINUED...
Notas extras:
Ibiza é uma ilha na Espanha. Um pequeno paraíso terrestre. Calamaris são lulas fritas. Prato típico espanhol.
Carlos Magno foi Imperador do Sacro Império Romano-Germânico entre 768 e 814 DC.
Glossário
Querubin – casta composta por anjos guerreiros. São os guardiões e soldados de Deus.
Ressurreição — um anjo usar um corpo humano morto. É estritamente proibido por causar problemas de identidades.
Caído – anjo julgado por irregularidades e condenado a perder suas asas, e viver na Terra. Um Caído ainda possui resquícios da Divindade, lhe permitindo ser uma ameaça a outros anjos. Dependendo de sua casta, podendo até mesmo matar outros anjos.
Divindade – o poder que anjos e demônios possuem. Lhe permitindo ser superior aos humanos. Quanto maior a casta ou ordem, mais Divindade possui.
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