Vocare
8 CAPÍTULO 7 – Planos Maiores
Quando Mycroft soube pela sua equipe que todas as câmeras de vigilância ao redor de 221B Baker Street estavam sendo desligadas ou obscurecidas, ele praticamente voou para o apartamento do irmão. Chegou apenas para encontrar Sherlock inconsciente no chão do seu quarto. Levou um minuto inteiro para fazê-lo acordar, e a primeira coisa que Sherlock fez foi vomitar todo o piquenique que ele e Molly haviam feito na cama horas antes.
Minutos depois, Sherlock abriu os olhos e encarou a privada, tentando entender como chegou ao banheiro. Sua cabeça latejava, e tudo o que ele pensava naquele minuto era vomitar mais. Mesmo depois de ter abusado de drogas por anos, nunca havia se sentido mal daquele jeito.
– Você está melhor? – ele ouviu o irmão. Tentou ficar alerta, e pelo canto dos olhos viu que Mycroft o estendia seu roupão. Sim, ele ainda estava nu. O que o fez lembrar...
– Molly! – ele gritou. – Era Moriarty, Mycroft. Ele levou Molly.
– Não temos como saber se era ele realmente, Sherlock. – ele disse ajudando o irmão a se levantar. – Mas sei que Dra. Hooper foi levada a força. Minha equipe já está procurando pelas câmeras do bairro.
– Era Moriarty com absoluta certeza. – Sherlock tentava se concentrar enquanto se vestia. Sua boca estava seca, e sua garganta doía como o inferno. — Estava com dois homens armados. Ele não disse nada a não ser que havia avisado Molly e ela não o ouviu. Eu tentei impedi-lo de leva-la e... Moriarty apenas me tocou, e eu não me lembro de mais nada.
– Você deve ter tido uma concussão quando ele o empurrou.
– Não, não foi isso. Tenho certeza que não foi isso. Ele não me empurrou. Não lembro de ter caído. Eu me joguei para cima dele, e então eu acordei agora com você.
– Isso é realmente importante? – ele balançou a cabeça, e suspirou. – Você está melhor?
– Estou grogue, mas estou melhor.
– Você estava assim, quando Dra. Hooper estava aqui? – ele perguntou com um meio sorriso, e sobrancelhas levantadas.
– Isso é realmente importante? – ele repetiu o que o irmão dissera. — Não posso confiar na sua equipe. Quero todas as informações que você tem. Agora!
**vocare**
Molly acordou com um grito. Olhou em volta, e se encontrou em um lugar fracamente iluminado e inteiramente vazio. Em uma das quatro paredes havia uma porta e uma janela espelhada. Claramente uma daquelas de delegacias, onde a pessoa dentro não podia ver quem estava no outro lado. Ela ainda estava nua, e não havia como se cobrir. Henkel a tinha naquele momento como ele sempre a quis. Totalmente só pra ele.
Sua maior preocupação era Sherlock. Henkel faria qualquer coisa para atingi-la. E o jeito mais fácil de fazê-lo era usando Sherlock. O que será que aconteceu quando Henkel a tirou de Baker Street? Será que ele o feriu de alguma maneira? E se ele o matou? Seu corpo gelou, seu estomago ardeu. Mas se Henkel o matou, não teria mais como barganhar com ela. Ele não teria uma moeda de troca. Ameaçar matá-la não significava nada para ela. Agora matar Sherlock...
Respirou fundo novamente, e sentiu uma dor profunda no seu peito. Não havia muito o que fazer, a não ser ver até onde Henkel iria. Se ela usasse seus poderes para chamar Mihr ou Sablo, ela teria que se explicar. Explicar que burlou a palavra. Explicar que se envolveu com um humano. Explicar que mudou o destino do humano que ela devia cuidar.
Duvidava que apenas fosse cair. Com certeza, sua punição era sua morte final. E Sherlock teria sua memória apagada. Tudo o que viveram seria esquecido. Tudo seria em vão.
Ela chamaria seus superiores em último caso. Só se Henkel realmente ameaçasse matar Sherlock. E até aquele momento chegar, ela teria que lidar com ele, e tentar resolver a situação salvando o homem que ama e não sendo obrigada a ficar ao lado do homem que odeia.
Ela se levantou, respirou fundo e manteve a dignidade.
– HENKEL! – ela gritou. – Eu sei que está aqui. Posso sentir sua aura!
Não houve nenhum movimento. Ela teria que apelar.
– Você não é superior a ninguém, Henkel. Você se deixou afetar por sentimentos humanos assim como eu! Você é inútil e fraco! Você me quer? Quer se vingar? Venha até aqui, seu desgraçado! Venha me encarar!
Ainda nada.
– Não vou cair no seu jogo! Jamais ficarei ao seu lado! Você terá que vir aqui e me torturar. Terá que executar sua ameaça de arrancar minhas penas! Eu não tenho medo de você!
Ela ainda mantinha os olhos no vidro espelhado. Ela sabia que ele estava ali.
– Eu traí você, e o faria de novo. Eu quebrei a palavra pelo meu humano. Diversas vezes. Eu o fiz porque o amo. E eu não o fiz por você. E jamais o faria!
Foi quando Sraosha deixou de sentir a aura de Henkel. Foi quando seu coração se apertou, e as lagrimas começaram a cair. Ela sabia. Podia sentir isso com a certeza que sentia o ar em seus pulmões. Sabia que ele havia ido buscar Sherlock.
**vocare**
– Ainda não entendi. Molly estava aqui?
Sherlock suspirou e rolou os olhos.
– É com isso que você se preocupa? Moriarty está vivo e sequestrou Molly, e tudo o que você me pergunta é se ela estava na minha casa?
– Sherlock está certo, John, temos que nos focar em encontrá-la. – Mary intercedeu. – Moriarty não deixou nada pra trás? Nenhuma pista?
– Não. Não encontrei nada. É como se... – e balançou a cabeça.
– Como se? – John arqueou as sobrancelhas.
Sherlock deu um suspiro doloroso.
– Como se não fosse um jogo. Ele não quer jogar. Achei que eu fosse o alvo, mas é Molly. Achei esse tempo todo em que ele pegaria Molly para me atingir, para puni-la por ter me ajudado, mas... Mas não faz sentido ele vê-la no necrotério, quando ele poderia tê-la levado naquele momento. Por que ele o faria só agora? E aqui? Nós dois estávamos vulneráveis, e ele fez questão que eu estivesse consciente quando a levasse.
– Talvez ele deixe o jogo para depois. Depois que se vingar de Molly. – disse Mary.
– Não é como Moriarty opera. Ele teria me levado para se vangloriar.
Sherlock se sentou e levou as mãos a cabeça. Estava confuso, e perdido. Sentia uma dor no meio do peito como se lhe faltasse ar para respirar. Não conseguia se focar. Não conseguia parar e pensar. Só pensava em Molly. Se ela estava bem. Se ele havia a machucado. Se a perdesse. No que poderia acontecer se a perdesse.
Seu celular vibrou no seu bolso e o abriu.
Venha brincar.
Venha até onde morremos.
Sozinho.
– MYCROFT!
**vocare**
Sherlock caminhou no telhado de Barts com as mãos nos bolsos de seu Bellstaff. Havia atiradores em janelas de prédios laterais, e John havia ficado no carro de Mycroft ouvindo a ação pelo microfone plantado no peito de Sherlock.
– Ele não está aqui. – Sherlock murmurou para seu microfone.
Olhou em volta e não havia nenhuma movimentação. Nem mesmo traços de que alguém esteve ali.
Seu celular vibrou novamente.
Retire o microfone e o jogue na rua.
– Ele quer que eu tire o microfone. – disse. Outra vibração.
Eu posso vê-lo. Tire agora.
Sherlock abriu o casaco e a camisa, e retirou o aparato. Se aproximou da borda, e o jogou.
Novamente uma vibração.
Muito bom.
Agora volte e desça para o necrotério.
Sherlock suspirou, olhou para os atiradores e se virou voltando para onde veio. Ele sabia que Mycroft e John seriam avisados.
Desceu as escadas até o último andar e chegou ao elevador. Era uma armadilha. Molly não estava ali, e sabia que Moriarty queria começar seu jogo naquele momento. Sherlock respirou fundo, xingando a lentidão do elevador, e tentando manter o controle. Ao chegar no subsolo, encontrou John.
– Graças a Deus! – exclamou John.
– Volte para o carro John. Ele me quer sozinho aqui.
– Enlouqueceu? Não vou te deixar sozinho.
– John, você pode por tudo a perder. Ele pode machucar Molly por causa disso. Volte agora!
– Sherlock...
Sherlock andou pelos corredores do subsolo e chegou ao necrotério. Abriu as portas com o coração aos pulos e o encontrou vazio. Outra vibração.
Você não veio sozinho.
– Merda John! – gritou. Nova vibração.
Ou o manda embora, ou não iremos brincar.
Sherlock ligou para John, que atendeu prontamente.
– Ele sabe que você está aqui. Volte para o carro agora! Por favor, John. Ele não virá se você estiver aqui. – Ele escutou John falar algo para então desligar.
– Soldados...
Sherlock se virou ao ouvir Moriarty.
– Sempre tão certinhos, tão justos. É tão chato. Vai, você tem que concordar comigo.
Sherlock pode ver Moriarty claramente ali sob as luzes fortes do necrotério de Barts. Ele usava a mesma roupa de horas antes, e parecia tão reluzente quanto antes.
– Onde está Molly?
– Próxima.
– O quer com ela? Solte-a. Eu estou aqui.
Henkel suspirou e riu.
– Humanos... Como Sraosha conseguiu te aguentar?
Sherlock apertou os olhos. Do que ele estava falando?
– Sim, claro. Você ainda acha que sou ele. – andou até Sherlock, com um sorriso nos lábios. – Acho isso tão divertido. Você se acha tão lógico, tão racional, faz deduções baseadas em observações, mas claramente não vê, ou melhor, prefere não acreditar no que vê.
– Eu vejo claramente.
– Não, não vê. Moriarty está morto. E você está o vendo à sua frente, respirando, falando, te desprezando. Qual conclusão você tira? Que eu fingi minha morte, certo? Mas esta não é a verdade. A verdade é grandiosa demais para seu cérebro humano.
– Não seja condescendente comigo, Jim. Não comigo. De alguma maneira, você usou Molly para fingir sua morte. Por isso, quer puni-la.
Henkel gargalhou.
– Confesso que quero punir Sraosha. Nisso você está absolutamente certo. Mas não por algo que ela não fez, não irei puni-la como você pensa. Tenho planos maiores para ela. Só que ela se recusa a cooperar. Por isso estou aqui.
– Planos maiores? – balançou a cabeça. – Por que chama Molly por outro nome?
– Ah, Sherlock, você não sabe de nada. Sua “Molly” não é quem você pensa quem ela é. Sraosha esconde de você muito mais do que quem eu sou, e como estou aqui.
Sherlock gelou.
– Ah, você sabia. Sabia que ela escondia algo. – Henkel sorriu vitorioso.
– Me conte a verdade.
– Isso é ótimo. Você será a barganha perfeita. – ele sorriu, e Sherlock abriu a boca para retrucar. Mas não houve tempo, Henkel levantou a mão e o tocou no peito novamente com a palma aberta. Só que dessa vez, Henkel amparou Sherlock antes que caísse no chão.
TO BE CONTINUED...
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