Você nunca estará sozinho
1 O que eu diria?
Notas iniciais
Joguei-me na cama e fechei meus olhos por alguns instantes.
O dia teria sido complicado. O treino fora mais pesado que o normal, a treinadora não havia mostrado um pingo de piedade de nós. E o pior, eu tinha um trabalho para fazer.
Levantei-me e peguei minha bolsa que estava em cima do criado-mudo. Ao abrir e revirar a mesma, encontrei a folha do trabalho.
“Se você pudesse dizer algo para o seu ‘eu’ de antigamente, o que diria?”
Nunca fui de pensar em coisas que eu deveria dizer para o meu ‘eu’ de antigamente. Quer dizer, eu realmente mudei… Mas, ainda assim, não acho que eu possa dizer algo para ele.
Se fosse para dizer algo de meu passado, eu diria que o tempo em que passei jogando basquete no fundamental fora o melhor, obviamente, se eu não contar aquele tempo.
Sentei-me novamente em minha cama e fechei os olhos. Imaginei que aquele ato pudesse trazer boas lembranças e até mesmo inspiração para o trabalho.
De repente veio lembranças do meu tempo como sexto jogador do time Teiko.
“Nós não concordamos em nada, mas jogamos basquete tão bem juntos, Tetsu!”
Era uma frase comum de Aomine-kun. Aqueles eram tempos felizes… Lembro-me de nossas idas para casa com todos.
Murasakibara-kun sempre comia de forma barulhenta e acabava irritando Midorima-kun; Kise-kun tentava acalmar a situação e Aomine-kun o impedia dizendo que aquilo era cotidiano. Lembro também das vezes em que Momoi-san aparecia do nada e pulava em meu pescoço, era incrível como ela conseguia brotar, mas acho que não posso reclamar sobre isso.
Aqueles eram tempos em que meu antigo ‘eu’ se sentia confortável. Estar com eles era maravilhoso, pois eles eram meus preciosos amigos.
Eu até mesmo diria que aquele tempo foi a aurora da minha vida, mas acho que estaria exagerando.
Realmente eram tempos calmos, de conversas e risadas. Digo, eram.
Não lembro quando, mas brigas passaram a acontecer todo dia. Eu não podia pará-los e minhas palavras também não iriam ajudar.
Naquele tempo, Aomine-kun faltava aos treinos.
Lembro-me que ao descobrir que meu melhor amigo, Aomine Daiki, estava sofrendo, fui correndo ajudá-lo. Mas, eu não era nada além de um fraco que não poderia entender a dor dele, e o pior, eu não poderia me por em seu lugar.
“Eu não lembro mais como pegar os seus passes, Tetsu”
Ele disse para mim, no mesmo momento, eu desabei em lágrimas. A expressão de Aomine-kun não era a mesma, ele estava em visível desespero, e eu também.
Após aquilo, não nos falávamos fora dos jogos. E foi assim que eu me afastei de meu melhor amigo.
O afastamento do time (se é que posso chamar aquilo de time) veio logo em seguida. E a falta de confiança, força de vontade e amizade veio com tudo.
Eu me perguntava constantemente para onde teria ido o tempo em que éramos amigos, e o time que havíamos formado, e toda a confiança que teríamos de ter.
Descobri também que eu era o pior.
Certa vez, uma menina que também era muito querida para mim perguntou com o pesar em seus olhos: “Tetsu-kun, nós estaremos sempre juntos, não é?”
E eu respondi:
“Sim.”
Eu havia mentido; Não estávamos mais juntos, não éramos um time e sequer amigos.
Naquela época, descobri que eu era um chorão.
Eu também não era uma pessoa com alta autoestima. Bem, eu me achava o pior, um fraco, um inútil. Além do mais, eu havia feito uma pessoa especial desistir do basquete, o que era pior ainda.
Minhas memórias felizes são tomadas por aflição e tristeza.
Abri meus olhos e senti uma lágrima escorrer.
Limpei a lágrima e me dirigi à escrivaninha que ficava perto do guarda-roupa.
Sentei-me e coloquei o papel sobre o móvel, peguei também um lápis e comecei a escrever.
“Trabalho por Kuroko Tetsuya.
O que você diria para o seu antigo ‘eu’?
O antigo ‘Kuroko Tetsuya’ era alguém fraco na qual dependia muito de seus amigos, mas eu não diria que eu odeio o meu antigo eu. Esse mesmo menino era um chorão e após se ver sozinho, ele simplesmente quis desistir de tudo. Mas, felizmente, houve uma pessoa que disse para ele não desistir e assim, ele pode lutar para mudar o que o fizera ficar triste.
Esse mesmo garoto se achava um inútil, o pior, mas não era bem assim. Eu o entendo melhor que ninguém e não acho certo chamá-lo de chorão, digo, ele não queria perder os únicos amigos que fizera e muito menos o basquete. A época em que ele estava era difícil. Eu até mesmo diria que ele sofreu muito e que todas as lágrimas que ele derramou foram para que ele pudesse crescer e dar lugar ao Kuroko Tetsuya que sou hoje.
Ele não sabia que seus amigos não haviam, realmente, virado estranhos. Aquele era um tempo necessário para que eles pudessem aprender, mudar, evoluir. Foi uma forma triste de se separar, mas todos ainda possuíam um sentimento muito poderoso: Amizade.
Uma das mudanças do pensar desse garoto foi entrar para o colégio Seirin e conhecer pessoas maravilhosas que deram a ele um lar, digamos assim. Dessa forma, ele pôde ter uma base, um lugar para sorrir novamente. E dessa vez, aquele lugar não iria desmoronar e se separar, ele é seguro hoje em dia.
E por mudanças como essas, por felicidades como essas, eu diria para o meu antigo eu:
Continue assim, certo? Você encontrará pessoas maravilhosas de agora em diante, você irá sentir raiva e tristeza, mas também irá sentir extrema felicidade, determinação e carinho. Encontrará essas pessoas de novo e saberá que a amizade de vocês durará muito mais que o tempo de Teiko. Por isso, nunca desista, Tetsuya. Você tem muito pela frente, desde que você continue sendo você mesmo, só haverá amigos incríveis pela sua frente. Lembre-se, você NUNCA estará sozinho, pois eles estarão ao seu lado.”
“Acho que não ficou tão ruim” Eu disse guardando a folha em minha bolsa.
Ao sentar novamente em minha cama, olhei para o criado-mudo e peguei um porta-retrato que estava posicionado sobre o mesmo.
A foto que lá estava, era uma foto minha com meus ex-colegas de time. Era uma foto recente que havia sido tirada no meu aniversário, onde nos encontramos e passamos o dia todo jogando.
Eu realmente amo meus amigos, e pensar em perdê-los me causa uma dor enorme. Mas, felizmente, eu sei que nossa amizade é duradoura e sempre estaremos juntos. Afinal, nós éramos um time.
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