Você atingiu minha alma
6 Capítulo Seis
– Tenho certeza de que você tem novidades para mim.
– Sim, Regina. – Sidney senta-se e abre uma pasta. – Vasco Agilulfo é comerciante e trabalha na importação e exportação de produtos. Ele veio para a cidade a cerca de ano e não sabemos se foi por um portal ou pela fronteira.
– Pela fronteira...somente se ele viu a cidade. E para ver a cidade, precisa ser especial. Ele é especial?
– Não sei, Regina. Nenhuma multa, nenhuma infração, todos os impostos em dia, pagamento dos funcionários e respeito aos benefícios trabalhistas...as reclamações dos empregados abrangem o perfeccionismo do homem e sua postura antipática. Ele comprou uma das casas abandonadas da colina e vive sozinho. Respeita uma rotina diária e nada há que desabone a conduta dele.
– Eu quero informações metafísicas, Sidney. Eu quero descobrir quem é ele, quem é o senhor perfeição. Quem é ele?
– Tudo o que pode conseguir em informações, deverá ser extraído do próprio homem. Sugiro que use seus truques femininos para obter respostas, minha rainha.
Regina fica pensativa por alguns. Iria obter a verdade sobre Vasco e colocaria no campo de batalha, todo o seu arsenal. Pela primeira vez em sua vida, iria abusar de seu poder feminino de persuasão, deixando qualquer truque metafísico de lado.
Era noite, quando Vasco abre a porta de sua casa e permite a entrada de Regina. Calado, ele a conduz para a sala principal, onde a acomoda e serve um cálice de licor, como forma de boas vindas.
Regina olha em volta e admira a decoração austera em tons claros. Tudo ricamente organizado como se fosse uma fotografia em uma revista sobre o tema. Perfeito demais para ser real.
– Eu deveria ficar feliz com sua presença, querida, mas confesso que estou incomodado.
– Esse afastamento está afligindo minha alma, Vasco. Não sou uma mulher de tomar esse tipo de atitude, mas não quero viver com este peso em meu coração.
– Coração negro, esqueceu-se de dizer.
– Um coração que foi enegrecido pela...
– Pela sua sede de poder, Regina. Todos conhecem a sua história e eu não seria a exceção.
Um sorriso amplo surge na boca bem maquiada da prefeita.
– Estou em desvantagem. Você conhece minha história, porém, não conheço a sua. Quem é você?
– Hum...sou um forasteiro, um desconhecido vindo por um portal qualquer, sem futuro para oferecer a uma rainha sem reino e sem trono.
O rosto de Regina torna-se sombrio.
– Eu ouvi todas as palavras preconceituosas que disse a seu filho, sobre mim. Não sou nada em sua e nem importância tenho. Sou apenas sua companhia para rir e dançar. – ele se senta como se estivesse com o corpo engessado. – Quero que se tranquilize porque não tenho intenção de lançar maldição alguma sobre esta cidade. A história deste lugar não me interessa e assim como cheguei, irei embora.
– Vai partir sem dizer o que queria comigo? Pensa mesmo que acreditei na casualidade de nosso encontro?
Vasco sorri e diz:
– Mas eu acredito, como acredito no amor à primeira vista e na possibilidade de encontrar o meu final feliz. Infelizmente, cometi um grave erro ao deixar meu coração exposto ao seu poder. Meu corpo ferve pela raiva do que me atrevi a desejar e sentir.
– Eu não tenho vergonha de expor meu arrependimento pelas palavras naquela noite negra. Ofendi um homem que trouxe o brilho para meus dias, trouxe cores à minha vida e que proporcionou o início do clareamento de meu coração.
Um sorriso ilumina os lábios do homem.
– Compreendo a sua sede por um amor verdadeiro e por querer um coração limpo e claro. Mas relacionamento exigem doação, renúncia e compartilhamento, infelizmente essas três palavras não pertencem ao seu dicionário. Sabe, Regina, o topo da pirâmide é estreito demais e cabe apenas uma pessoa. Caso queira companhia, precisará descer alguns degraus.
Os olhos escuros e bonitos de Regina permanecem inexpressivos. Apenas bebem da visão.
– Não perca seu tempo tecendo seu umbigo com fios de ouro, porque na solidão de seu quarto, não haverá olhos para admirar o seu trabalho. O buraco cavado pelo seu medo de ser amada, tornar-se vulnerável pela paixão e pelas tolices que ela produz é tão grande, que já engoliu a sua alma e a sua capacidade de reconhecer a falta que o calor de outro corpo faz ao seu.
– Precisamos apagar aquela noite negra! Foram apenas palavras!
– Palavras de covardia e regadas por um orgulho monstruoso e inútil. Reconhecer a necessidade de ser adorada e desejada não a torna menos humana, Regina. O que está brutalizando a sua alma é a mesmice em sua vida medíocre e cinza. Seus dias são desbotados, a comida não tem sabor, o vinho não tem gosto e os cheiros são sempre os mesmos. Qual graça há nisso?
Regina não responde e nem demonstra alteração. Como era gostoso ouvir aquela voz!
– Eu assustei você, Majestade? O meu cheiro, os meus toques, os meus beijos, o som de minha risada e a beleza que você sabe que tenho. O conjunto assustou você e provocou um profundo medo de tornar-se dependente do meu corpo e de minha presença?
Ela se empertiga. Sorri desdenhosa.
– Deixe de lado o seu medo de amar. O medo vai afastar a possibilidade de ser bem sucedida em qualquer relacionamento. – ele se inclina para frente e apoia os cotovelos sobre os joelhos. – Isso é patético e não consegue provocar raiva em mim, mas desperta piedade. Quando despertamos piedade em alguém, é sinal de que estamos no fim.
Abrindo os lábios, Regina não argumenta. Aquele ainda não era o momento.
– Só uma dica, Majestade: não seja mesquinha e não economize amor. Dê chance a você mesma, porque não estará fazendo um favor a outro alguém. Ame e ame muito, sem perda de tempo. Não queira que outros escrevam o seu final feliz.
Regina levanta-se de onde está e sem pudores ajoelha-se diante do homem. Percebe que ele para de respirar e arregala aquele par de olhos em um azul brilhante.
– Você aceitaria meu pedido de casamento, Vasco?
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