Mais dois meses ao engolidos pelo tempo.

Regina entrega uma taça com vinho para Mary, que agradece com um sorriso e observa a prefeita sentar-se à mesa do jantar.

– Vasco não jantará conosco?

– Não. Por isso pedi que você viesse conversar comigo. Ele está negociando com fornecedores na cidade vizinha e retornará amanhã.

– Confia tanto nele assim? É um belo homem e atrai a atenção por onde passa. Deveria ter ido com ele.

Regina sorri e bebe um gole de vinho.

– Vasco é caninamente fiel e algo nele começa a assustar a minha alma.

– E o que seria?

– Bom, eu tive uma longa conversa com Henry e ele me comunicou o incômodo na alma. Uma desconfiança que veio de encontro com o que está afligindo meus pensamentos e meu coração.

– Henry está enciumado e pode acreditar que os homens de nossa família estão também.

A prefeita nega coma cabeça.

– É sério, Regina! O discurso deles é o mesmo: de onde veio, o que fez, quem é Vasco? Está difícil para eles, dividir a sua atenção com um macho mais importante na matilha.

Desta vez, Regina gargalha e Mary a acompanha.

– A perfeição de Vasco é assustadora e ele está sufocando minha respiração com tantos cuidados. Tudo o que você pode imaginar, ele faz para demonstrar preocupação comigo. Ele se tornou assustador, com aqueles olhos grandes que ficam seguindo os meus movimentos.

– É natural, Regina!

– Não é, Mary! Ele percebe a mudança de cor no tom do esmalte que uso; sabe quando preciso carregar a bateria de meu celular; calcula os litros de gasolina de meu carro e a quilometragem para reabastecer; percebeu que perdi o berloque de minha tornozeleira ou quando troco meus brincos! Ele não parece ser um homem!

Mary acha graça

– Eu adoraria que David visse esses detalhes!

– Vasco cuida de todos os detalhes da casa, indo da limpeza à compra de mantimentos; não há um mísero grão de poeira na casa inteira e ele não permite que nenhuma peça de roupa fique suja! Num jantar bebo suco de caju e no dia seguinte não posso repetir o sabor para não enjoar! Ele consegue conciliar o trabalho dele, a lida com os fornecedores e empregados e mais os cuidados com a nossa casa e até minha agenda! Vasco organiza minhas lingeries pelas cores!

– Ele não existe mesmo, Regina! – Mary não consegue conter o riso.

– Controla meus horários, cuida de nossos interesses, está sempre disposto para intimidades e não permite que durmamos sem conversar sobre nosso dia! Ele vigia todos os meus passos e esta semana, exigiu que não visitasse o mausoléu de nossa família, Mary! Não me quer com contato com magia!

Mary apenas encolhe os ombros.

– O que há de errado nisso, Regina? Ele não tem familiar e você sempre quis alguém somente para seus cuidados! Vasco está aí e é essa pessoa!

– Você não está entendendo! – Regina levanta-se e caminha para longe da mesa, retornando logo em seguida. – As atitudes de Vasco, as expressões dele, as falas estão evocando informações que acredito serem lembranças! Veja bem: ele é a compilação de tudo o que admiro nos homens que conheço ou conheci.

Mary apoia as costas no espaldar da cadeira e mostra-se interessada.

– Ele é austero como o meu marido, seu pai; é amável como Daniel era; algumas vezes é arrogante e petulante como Rumple; cínico, divertido e habilidoso como Killian; zeloso e protetor como David, seu marido; tem momentos que ele me lembra o xerife Graham , com sua sensualidade nata; outras vezes é amoroso e conivente como era meu pai. Posso afirmar que se comporta de forma impetuosa e verdadeira como meu filho e já vi traços da persistência e obstinação do Jeferson chapeleiro.

– Não sei o que dizer...

– Tenho a mesma sensação quando me refiro ao lado físico dele. Ele tem os belos olhos e sobrancelhas que sempre admirei em Killian; a estatura é do meu Daniel, enquanto que a força com que me segura é do Graham; a escuridão dos cabelos e o desenho perfeito da boca, pertencem ao Jeferson...- ela sorri constrangida. – E desculpe-me por falar, mas ele tem a bunda como a do David!

Desta vez, Mary gargalha.

– Creio que você esteja sugestionada, Regina. Você está enxergando o que quer enxergar nele. Penso que você está assustada por nunca ter sido tão amada como está sendo agora. Vasco cuida dos detalhes que são importantes em sua vida, porque você está nela.

– Vasco é gentil, cavalheiro, tem um comportamento ilibado como marido e como cidadão, além de ser extremamente respeitoso com Henry.

– Ele ama você e ama a tudo o que está dentro de sua vida, Regina. Procure relaxar e curta o seu casamento, o marido bonito que conseguiu e o amor que sentem um pelo outro. Não permita que essas neuroses matem o que vocês estão construindo. Nós fizemos tanto mal a você e ainda estamos dentro de sua vida, enquanto que Vasco somente está fazendo bem à sua existência. Deixe-o ficar!

– Mas o que sabemos sobre ele?

– Sabemos que você é o ar que ele respira.

Regina abaixa os olhos e fica pensativa.