Duas semanas são consumidas depois daquele jantar. A vida havia retornado ao seu ritmo normal e toda a nuvem colorida que pairava sobre a cabeça de Regina tinha sido dissipada pelos ventos da realidade fria.

Sua cama estava parcialmente vazia outra vez. Seus dias voltaram ao tom cinza e o silêncio dentro de sua casa era novamente seu companheiro. Apenas as fotografias de Vasco no celular e computador de Regina, lembravam a ela que alguém estivera em sua vida e em seus braços, algum dia em um passado não tão remoto.

Tudo o que Regina desejava naquele instante frio e oco, era correr pelas docas e tirar Vasco de onde ele estivesse. Abraçá-lo e cobrir aquela boca pequena, com tantos beijos que deixariam os lábios mais vistosos e inchados. Queria tomá-lo, usando sua força e suas armas femininas e conduzi-lo ao mais pleno êxtase e felicidade. Queria chamá-lo de amor e de todos os mais tolos apelidos que os apaixonados criam para seus amantes. Queria gritar o nome dele e se sua voz tivesse tanta força quanto sua dor, todos ouviriam o seu apelo. Mas seu orgulho era ainda mais poderoso que qualquer sentimento existente em sua alma. Jamais desceria aos pés de um mero forasteiro para implorar por sua volta à sua vida e confessar sua necessidade de afeto.

Mas naquela manhã, Regina não resiste e vai para as docas. Observa por muito tempo a movimentação até seus olhos encontrarem os olhos de Vasco. Olhos tão frios quanto aos ventos soprados pela maldição da Rainha de Gelo.

– Tenho feito ligações e você não me retorna. Isso é grosseria de sua parte, Vasco. Poderia ao menos dizer que se cansou da nossa brincadeira.

– Não me cansei de brincadeira alguma, porque em momento algum eu estive brincando.

Regina aproxima-se dele e o observa empertigar-se, passando a mexer nas próprias luvas rudes. Ele abaixa a cabeça e fita as mãos.

– Pensei que fôssemos amigos, Vasco.

– Amigos não. Fomos amantes na forma vulgarmente conhecida. – ele dá de ombros. – Houve diversão e penso que tudo chegou ao fim.

Ela esconde as mãos nos bolsos do casaco e espera para vê-lo erguer os belos olhos em sua direção. Olha-o tentando disfarçar sua gula e desejo.

– Apreciei todos os momentos em que passamos juntos, Vasco. Por que parar agora?

Vasco inspira profundamente e olha para os lados.

– Aqui não é hora e nem o local para falarmos sobre isso, Regina.

– Onde e quando, então?

– Irei à sua casa, logo mais pela noite. Conversaremos, então.

Mas a conversa não acontece. Quando os dois encaram-se naquela noite, em pé na sala principal da casa suntuosa da prefeita, não conseguem controlar seu desejo e sua paixão. Queriam apenas saciar a ausência mútua, com a busca desesperada de pele por pele.

Era madrugada quando Regina desperta com os movimentos de Vasco, pelo quarto. Observa-o vestindo-se de maneira lerda e barulhenta.

– Por que você vai embora, agora? – ela se senta sobre o colchão.

– Tenho trabalho amanhã cedo, Majestade. Receberei mercadorias pela manhã e devo estar presente. Minha supervisão é imprescindível.

Ela acha graça no que ouve.

– Eu gostaria de dar-lhe um presente. Comprei um relógio para você e está...

– É o meu pagamento por ser seu gigolô?

– Que horror! – Regina levanta-se da cama e vai para perto do homem, obrigando-o a olhar para ela. – Eu quero apenas agradar você!

– Eu a agradei e por isso devo ser presenteado? – ele a olha com um brilho inexpressivo em seus olhos bonitos e cristalinos. – Deveria ter dito que nossa relação era meramente comercial. Eu entenderia perfeitamente.

– Não lhe disse porque não era! Eu gosto de você, Vasco! Não se vitimize porque detesto homens que fazem isso!

Ele sorri desdenhoso.

– Primeiro diz que gosta de mim e em seguida, diz que me detesta. Como pode ter sentimentos tão antagônicos por alguém que não é nada em sua vida?

– O quê?

– Vamos manter a urbanidade, Regina. Não somos mais do que dois amantes ávidos um pelo outro. Quando a senhora quiser prazer, pode procurar pelo meu corpo. Sabe onde encontrar-me, mas deixaremos claro que tudo será acordo comercial.

– Está querendo cobrar pela sua companhia?

Ele afirma com a cabeça.

– Alguma vantagem temos de conseguir com esses encontros. A senhora terá companhia agradável, limpa e bonita. Eu terei um reforço em meu orçamento. – Vasco veste a camiseta e vai apanhar sua jaqueta surrada. — Mas a dúvida final é: onde faremos nosso ninho de amor?

Regina ia responder, porém não consegue encontrar palavras para a provocação. Definitivamente, ele havia ouvido as ofensas e impropérios que ela dissera naquela maldita noite em que o orgulho estava mais presente do que nunca, em sua alma de realeza. Grande bosta! Uma realeza presa num vácuo total de sons e sentimentos?

Vasco vai embora e deixa uma mulher ofendida para trás. Ele não deveria ter feito aquilo com uma rainha. E justamente com a Rainha Má.