Você Vai Lembrar de Mim
1 Vigília
Notas iniciais
Você vai lembrar de mim
Albert Camus uma vez escreveu:
“Abençoados os corações flexíveis, pois nunca serão partidos"
Mas eu penso comigo mesmo...
Se não se partiram, não se curam.
E se não houver cura não há aprendizado
E se não houver aprendizado, não há luta.
Mas a luta é uma parte da vida.
Então todos os corações precisam ser partidos?”
Ela riscava cada dia do calendário a toda vez que despertava em uma cama estranha. A sagrada e mais recente tradição matinal. A antiga era ser acordada suavemente pela mãe... Mãe, que tipo de mãe era aquela que expulsava sua filha de casa em uma situação tão problemática? Bem, aquela era a sua mãe e a sua realidade há três semanas. A sua vida entrou em colapso no momento em que o namorado teve a brilhante ideia de revelar a gravidez diante de seus pais. Agora, Quinn Fabray tentava se reerguer depois de ser escorraçada da casa dos pais e das lideres de torcida. A única coisa que lhe restara era Finn e sua imaturidade frente a uma circunstancia tão adversa.
Abrir os olhos ainda era preciso, porém, era torturante enfrentar os corredores da escola e ser ignorada por uma multidão, que costumava admira-la e invejar sua vida perfeita. Nesta imensidão de silêncio, hora do ensaio do Glee Club. Incoerentemente, seu porto seguro e única satisfação.
Morar na mesma casa que Finn estava aos poucos desgastando o relacionamento e enfraquecendo a ligação entre os jovens. Ela se sentia solitária e ele sufocado pela exigência permanente de atenção. Era obvio afirmar que a preocupação com os estudos caiu consideravelmente e, conseqüentemente, o rendimento escolar declinou, principalmente, na disciplina de espanhol ministrada pelo professor Wil Schuester, o maestro do coral.
Ela pegava sem vontade alguma o livro de química para a penúltima aula daquela quarta-feira e sentia-se mais miserável do que nunca. A batida chapada de um armário a poucos metros lhe chama a atenção. Um jovem estranhamente desconhecido para uma cidade minúscula como Lima, exageradamente cansado e abatido para seus aparentes 16 anos. O caminhar leve e cabisbaixo demonstrava certo receio em ser descoberto ou atrair olhares indesejados e, Quinn invejou a invisibilidade daquele estranho.
A explicação interminável do professor e as piadas idiotas do namorado contribuíam para o aumento da inquietação da garota. Remexendo-se mais uma vez na cadeira, a antiga capitã das lideres de torcida encontra o forasteiro praticamente deitado sobre uma carteira no fundo da sala ressonando discretamente. Pela primeira vez naquele dia, ela sorri do desalinho dos cachos negros cobrindo parcialmente a face do estudante e percebe a pele muito mais morena que o habitual entre a população de Lima. A observação é quebrada por uma conversa oriunda de Finn jamais interceptada pela audição de Quinn Fabray. O sinal toca e os estudantes se empurram para sair rapidamente do horrendo laboratório de química, a exceção àquela correria volta a ser vigiada pelos olhos da loira. A solidão alheia pode ser condição digna de inveja em períodos sombrios da jornada.
A nova rotina se instaura impiedosamente e, sem alternativas, a jovem se resigna. O coral desponta como sua válvula de escape e seus companheiros, surpreendentemente, lhe estendem a mão diferentemente do restante da cidade. E a vigília silenciosa sobre o novato é o último meandro a conter novidades diariamente. Ela jamais pronunciou palavra alguma para tentar descobrir a identidade e sequer ouviu a voz do desconhecido.
Entretanto, notou ser a única pessoa a levantar os olhos diante da passagem daquele aluno em especial. No corredor, seus armários se distanciavam por apenas 3 metros e dividiam a mesma sala em 75% das disciplinas. Em uma tarde qualquer enquanto esperava o fim do treino de futebol de Finn, vislumbrou o seu mais recente passatempo se destacar durante a obrigatória atividade física. Então, ele era um velocista nato? Ela ainda visualizou um inédito sorriso do forasteiro por um provável elogio do treinador da equipe de atletismo. Contagiada, ela também formula um frágil sorriso.
O professor Willian Schuester consumia a terceira xícara de café da noite e estava longe de terminar a correção das dezenas de provas. Apesar disto, parou por instantes para averiguar novamente a nota conferida a estudante e integrante do Glee Club, Quinn Fabray. Desde a expulsão da casa dos pais, a menina abandonara a concentração nos estudos e a média disciplinar despencou drasticamente. Em compensação, o desempenho acadêmico de seu mais novo aprendiz estava impecável. Mesmo calado e introspectivo, o jovem começava a despertar o interesse do professor que enxergava um grande potencial encoberto pela personalidade excessivamente discreta.
As intenções do professor começam a se mesclar com a lógica incontestável da situação. Mais um ensaio do Glee Club finalizado e, imediatamente, o sorriso retorna ao rosto de Will Schuester. Seus alunos estavam a cada dia mais afinado e em sintonia. A única nota destoante no conjunto estava grávida aos 16 e em sérios conflitos. Mesmo assim, a proposta do maestro soou estranha.
Na biblioteca, Quinn descobre quem seria o responsável por lhe colocar em dia com os estudos e a monitoria se torna uma possibilidade não tão desagradável. Os cachos desalinhados, o rosto cansado e marcado por profundas olheiras eram inconfundíveis. Daniel Aragão, brasileiro, 16 anos, recém transferido para a Escola William McKinley. O treinador do New Directions apresenta brevemente os dois alunos e se retira desejando que a sua estratégia fosse eficaz e favorecesse a ambos. O objetivo era incentivar novamente o apego da jovem pelos livros e entrosar o imigrante ao ambiente escolar.
A expectativa da garota em finalmente se comunicar com o desconhecido se frustra pela inicial antipatia inicial e o pouco tato do rapaz, que se limita em determinar os horários dos reforços escolares e retirar-se sem sequer se despedir. Furiosa, a antiga capitã das lideres de torcidas se encaminhou às pressas para a casa do namorado.
Era notável o motivo de Finn ter engolido sua estúpida história para a gravidez. O menino era ingênuo demais e demonstrou pouco interesse nas aulas extras que a namorada tomaria a partir de agora com o “garoto espanhol”. Depois da quarta tentativa inútil em esclarecer que a nacionalidade de seu tutor era outra e que a matéria seria espanhol, a loira desistiu e avisou que iria se recolher para organizar a tarefa do dia seguinte. Ele apenas sorriu e voltou a se concentrar no jogo de futebol na televisão.
Daniel precisou correr mais do que o habitual para pegar o ônibus e não se apresentar atrasado no quarto dia como garçom em um restaurante mixuruca de Lima. Passava das onze da noite quando chegou em casa e não encontrou sinal da presença da mãe, além da tradicional louça esperando para ser guardada e a cama mal arrumada. Sua mãe já deveria estar no segundo emprego, bem, quem sabe na manhã seguinte tivesse sorte e pudesse encontrá-la acordada antes de sair para a escola. Há mais de cinco dias não trocava nenhuma palavra com a mãe.
Mais um dia inicia e mais uma folha é arrancada do calendário. Com a aproximação das Seletivas, Rachel extrapola todos os parâmetros possíveis e com os hormônios fervilhando pela gravidez, Quinn se esforça para não calar a boca da colega de coral com as próprias mãos. No corredor, Noah Puckerman acha que é um bom momento para reivindicar a paternidade da criança que carrega e mais uma vez necessita de muita concentração para se controlar e não xingar o bad boy ali mesmo.
Dez minutos depois do combinado, ela adentra a biblioteca e encontra o desestimulado tutor de espanhol quase adormecido. Sem qualquer formalidade ou cumprimento, ela se senta e abre o livro na página solicitada pelo brasileiro. E estranhamente a total falta de intimidade tornou aquele momento o mais razoável de sua detestável terça-feira. Por duas horas, ela não era a ex-capitão das lideres de torcida, grávida e sem teto. Naqueles 120 minutos, ela voltou a ser mais uma aluna. Nem mais, nem menos. E pela invisibilidade, ela agradeceu mentalmente por estar na companhia daquele forasteiro.
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