Na quinta-feira, Finn perguntou ainda na mesa do café se ela se reuniria com o “garoto espanhol”. Com a confirmação, o sorriso se formou no rosto do quarterback, que comentou sobre um treino extra e a possibilidade de saírem juntos do colégio e emendarem um programa qualquer naquela tarde. A jovem concordou com os planos do namorado e sorriu de volta. A simplicidade era um das características que mais amava em seu atrapalhado companheiro.

As aulas. O almoço. O ensaio. A monitoria e o mesmo desinteresse de seu colega de estudo em avançar na condição de meros conhecidos. E ela simpatizou ainda mais com o brasileiro. O restante da tarde em companhia de Finn não passou de um agradável resgate do período em que eram apenas namorados e não candidatos a pais adolescentes. E ela temeu em também perde-lo, caso a verdade viesse átona.

As semanas se arrastavam e a barriga começava a se tornar evidente. Os membros do Glee Club adoravam paparicar a integrante, o oposto dos demais alunos da escola que, ora atormentavam-na pela gravidez precoce, ora a ignoravam completamente.

A única estabilidade na rotina de Quinn Fabray era a aula extra de espanhol. Observar Daniel continuava sendo a sua principal distração, com a diferença de que agora efetuava a vigilância de muito mais perto. Durante os encontros, ela pode perceber diversos trejeitos e se permitir rir das pequenas descobertas. Daniel cochilava em praticamente todas as aulas, sorria raramente e falava o estritamente necessário. Não se importava em andar com as roupas surradas, o cabelo constantemente desalinhado e a barba quase sempre por fazer. Definitivamente, ele não era nada vaidoso, mesmo portador de uma beleza singular.

As notas aumentam. Os ensaios do Glee Club se tornam mais exigentes, a convivência com Finn mais confortável e a barriga mais visível. O ambiente na monitoria ganha mais sintonia e ela percebe que não é a única com dificuldades. Daniel peca excessivamente em química e física, matérias em que Quinn é acima da média. A troca começa ao mesmo tempo em que a confiança se instaura.

Ele desarruma ainda mais os cabelos quando se sente frustrado. Revira os olhos se ela erra a pronuncia em espanhol. Sempre que comete algum erro solta uma palavra desconhecida, que ela imagina ser um praguejo em português. Ele sorri ao ser perguntado sobre o Brasil e fica extremamente desconfortável quando é questionado sobre a família. E a parte que ela mais aprecia é a ausência total de comentários sobre o crescimento de sua barriga.

Finn estranha quando os encontros semanais com o “garoto espanhol” dobram e a intensidade do sorriso da namorada aumenta simultaneamente. Mas, ele não cobra nada e nem suspeita da fidelidade de Quinn. A garota jamais cogitou se envolver com o “garoto brasileiro” da mesma forma que aconteceu com o “garoto do moicano”. Mas, novamente Will Schuester conspira involuntariamente para aproximar a dupla de estudo. Uma prova oral de espanhol poderia representar a melhora definitiva da média da antiga líder de torcida e a permanência no coral lhe concede uma idéia brilhante. Por que não cantar em espanhol?

Pela primeira vez, a conversa na monitoria ganha ares além do acadêmico e a moça descobre que ele adora música latina e até sabe tocar um instrumento de percussão, que não guarda o nome correto. Ele sugere uma música, ela propõe um dueto. Ele se intimida, ela só quer ensaiar. Ele sorri desconcertado e desolado. Ela gargalha vitoriosa. Então, o mundo real ressurge e atrapalha a primeira conexão emocional de ambos. Ele se despede apressado para a jornada em um restaurante qualquer da cidade. Ela se encarrega de arrumar os livros. Enfim, Quinn percebe que todo mundo uma cruz para carregar.

O maestro do coral da escola William McKinley estranhou o pedido da antiga líder de torcida em utilizar o espaço do coral depois dos encontros, entretanto, não viu motivos para não acatar. Mal sabia que a verdadeira surpresa viria três dias depois ao flagrar o introvertido imigrante totalmente à vontade batucando e arriscando alguns versos no dueto em espanhol com a companheira de estudos. A cantoria improvisada era razoável e o sotaque beneficiava o novato. Discretamente, o professor se retira da sala de ensaios para não quebrar a concentração da dupla. Contudo, jurou para si mesmo que buscaria incentivar o brasileiro a aderir ao Glee Club.

As monitorias se misturavam aos ensaios, que se estenderam por duas semanas em plena clandestinidade. No penúltimo preparativo antes da apresentação na aula, Rachel entra intempestivamente no ambiente e interrompe a pratica. Seguida por Mercedes e Kurt, a principal solista do New Directions interroga impiedosamente o desconhecido e o motivo de estar cantando naquele espaço. Atordoado, Daniel balbucia poucas palavras. Aos berros, Quinn se retira falando parcialmente sobre a razão do ensaio as escondidas. Percebendo o deslocamento do forasteiro, Mercedes toma a frente e trata de apresentar o trio e faz o primeiro convite para que o brasileiro ingressasse no coral. Ele se despede alegando atraso para o trabalho.

A interferência no contexto musical não é mencionada no horário de troca de informações escolares e a apresentação de Quinn na aula de espanhol lhe rende uma nota muito acima da média. Finalmente, as coisas pareciam estar se ajustando para a loira. Em contrapartida, nos bastidores do Glee Club o rumor de que Puck seria o pai do bebê de Quinn começa a se propagar e os integrantes tentam impedir que a informação chegue até Rachel na véspera das Seletivas.

A experiência musical contribuiu para elevar a autoconfiança de Daniel e a idéia de aceitar o convite para o grupo de coral pipoca com mais freqüência em sua mente. Apesar do interesse, a opção é por entrar inicialmente apenas na equipe de atletismo do colégio. Desde a transferência para a escola, o treinador vinha lhe sugerindo e a possibilidade de garantir uma bolsa de estudos em uma universidade como velocista mexeu com o ego do imigrante. Apesar da impossibilidade atual, sua mãe havia prometido que em breve legalizaria a situação familiar em solo americano.

O batuque é mais contido na biblioteca, mas, intensificado com o andar do relógio e o imenso atraso da colega de reforço escolar. Devem ser os últimos preparativos para a apresentação na competição de coral imagina o brasileiro enquanto confere no relógio o horário. Quase meia hora esperando a garota. Ela nunca havia faltado a monitoria.

A entrada surpresa desta vez é de Finn seguida de um doloroso soco no rosto de Puck. Para o principal solista do Glee Club não era tão doloroso acertar o melhor amigo, o pior era constatar que o sonho de construir uma família com a primeira garota que realmente amou estava desmoronando. Acostumado a se meter em confusão, o bad boy se recuperou rapidamente da pancada, no entanto, o mais doloroso era encarar a decepção nos olhos do único amigo e a tristeza pela verdade indesejada na face da menina que esperava um filho seu. O restante dos componentes contemplava parcialmente apalermado pela súbita erupção de revelações e reações. Will chega e, assustado, interrompe o embate dos rapazes. Com a separação, Finn praguejou contra os traidores e saiu aturdido do recinto. Então, Rachel percebeu que acabar com o namoro de Finn e Quinn era o menor dos estragos causados por sua ligeira intromissão.

A bibliotecária chamava pela terceira vez a atenção do estudante em vão. Nervoso por alguma razão, Daniel continuava batucando no ritmo do atraso de mais de uma hora da antiga capitã das lideres da torcida. Involuntariamente o sarcasmo sai antes da percepção de abatimento na face da menina.

— Chegando cedo para o reforço de amanhã? – o brasileiro se depara com o rosto banhado de lágrimas da loira _ Você ta bem? O que... O que... Houve?

— Será que nós poderíamos apenas estudar? – implora a garota sem fita-lo.

Silenciosamente, ele concorda. No improvisado dialogo em espanhol, a primeira confissão dela para com o monitor. Parece que o peso das palavras é reduzido drasticamente em outro idioma. Informado da mentira que ela pregou por meses, ele se mantem neutro. Atitude que ela necessita. Quinn não precisava de um abraço ou de um colo de mãe naquele momento. Ela desejava somente a paz benéfica do silêncio, necessitava urgentemente varrer em um desabafo os erros que cometera ultimamente. E encontrou em uma carteira de biblioteca na companhia de um forasteiro durante um exercício de espanhol. Com o findar daquela tarde, a menina se despede com um simples “obrigado” e um singelo beijo no rosto do “garoto espanhol”. Ele permanece absorto. Ela parte envergonhada por ter que em menos de dois meses encontrar uma nova morada.

Quinn Fabray se instala na casa do verdadeiro irresponsável por sua gravidez e atual situação. Noah Puckerman tem trabalho para convencer a mãe a aceitar a presença da jovem. Entretanto, não havia nada a ser feito. A saída era lidar com as conseqüências.

Rachel Berry sabia disto. Sabia que era responsável direta pela desistência de um dos principais membros do coral a um dia da competição. O Glee Club não poderia se apresentar com apenas onze membros. Exatamente por isso, ela manteve vigília naquela manhã e com palavras nada sutis convocou o desconhecido flagrado dias atrás na sala de canto na companhia de Quinn. Daniel Aragão não era sério candidato a ídolo ou gênio da música, mas, sabia mexer os lábios com alguma afinação e possuía certo “gingado”. Provavelmente, herança cultural de sua pátria. Em uma rápida pesquisa pelos corredores, Rachel descobriu que o jovem era de origem brasileira. Dos males, o menor. Caso não conseguisse convencer Finn a retornar para o coral, pelo menos, não seriam eliminados sumariamente.

Depois de treinos e horas extras, Daniel mal conseguia manter os olhos abertos na manhã daquela sexta-feira. Então, processar a descarga de informação despejada em alta velocidade por uma desconhecida foi uma tremenda façanha. Ele balbuciou “sim” e o monologo se dissipou. De alguma maneira, ele havia concordado em completar o “New Directions” e subir ao palco durante as Seletivas. Assustado e com um gigantesco déficit de sono, o forasteiro não parou para pensar nas conseqüências que a apresentação poderia representar para a sua permanência nos Estados Unidos da América.

Finn não viria. Will Schuester suspenso. Um substituto desconhecido. E a conselheira Emma totalmente perdida na direção do coral. O cenário não poderia estar mais desfavorável para o New Directions. Puck e Quinn chegam em cima da hora de partida do ônibus para o teatro. Todos os olhares se voltaram para o pseudo-casal. O encrenqueiro se acomodou tipicamente no último banco. A moça não demonstrou hesitação ao sentar ao lado de seu tutor. Apesar de morarem debaixo do mesmo teto, o “garoto do moicano” tinha quase certeza de que nunca seria tão intimo daquela garota como o “garoto do espanhol”. Quinn não pediu licença para se acomodar no banco e ele tampouco se manifestou. Novamente, o silêncio compartilhado foi à válvula para a estranha união.

A expressão “nada está tão ruim que não possa piorar” fazia parte da vida do brasileiro e, coincidentemente, se tornaria comum ao destino dos novos companheiros de coral. Não bastassem os problemas internos, as apresentações dos concorrentes destruíram definitivamente a última linha de raciocínio do coral da escola William McKinley. Simplesmente, o repertório do Glee Club havia sido roubado e utilizado pelos concorrentes. Pânico instaurado há menos de sessenta minutos da apresentação.

Nada poderia ser mais clichê do que a entrada triunfal de Finn com uma seleção musical cifrada e impondo novas coordenadas aos revigorados companheiros. Daniel sorriu pelo descarte. Discretamente, recolheu os pertences e se encaminhava para a saída até ser interceptado pelo atual herói. Aflita, Quinn acompanhava em silêncio sem entender exatamente o motivo de sentir que estava sendo abandonada outra vez.

— Ei! Aonde você vai? – Finn dialoga pela primeira vez com o novo membro.

— Bem, estava indo embora... Quero dizer, o grupo está completo de novo! – explica o brasileiro.

— Nós não costumamos descartar novos integrantes... Daniel, não é? – sela o convite.

— É... Mas, eu nunca ensaiei com vocês! – questiona.

— Nós nunca ensaiamos essas músicas. Acho que estamos todos no mesmo nível. – rebate o solista masculino _ Bem vindo ao New Directions!

De trás da cortina, os integrantes do coral ajustam os detalhes finais para a apresentação, enquanto, Rachel interpretava um solo assustadoramente bem. A canção termina e a solista se une aos colegas. Apesar do improviso, a música contagia o público, que ovaciona os jovens da escola William McKinley. Minutos depois, o resultado comprova a vitória e a classificação do Glee Club para as Regionais. A existência estava assegurada momentaneamente.

O entusiasmo predominou na viagem de volta. Mais solto, Daniel é facilmente integrado ao grupo e não repete o trajeto em silêncio com Quinn, que se concentra em retornar ao seu mais adorado passatempo: observar o forasteiro. Ironicamente, os papéis se inverteram. Ele sorria completamente à vontade com pessoas, que ela costumava desprezar. Agora, ela era o tipo de garota que caras como ele ignorariam nos corredores. E a idéia antigamente tão apreciada de invisibilidade soou horrenda se vivida de maneira solitária. Ela queria ser esquecida pelo mundo, não por ele. Ele que tanto quis passar despercebido por todos despertou tamanha atenção dela. Neste instante, o “garoto espanhol” tornou-se um garoto aos olhos de Quinn Fabray.

A sensação de vitória persistiu por pouco tempo para os membros do Glee Club. As provocações e piadinhas nos corredores voltaram menos de uma semana após a conquista do primeiro troféu do grupo. Contudo, a família cresceu. Depois do desempenho nas Seletivas não houve como Daniel recusar o convite para integrar o coral. Enturmado, o sorriso começou a ficar mais exposto nele e muito mais raro em sua observadora.

A rotina na casa de Puck era extenuante. A mãe do encrenqueiro não simpatizava com a nova residente e não fazia nada para facilitar a convivência. Noah mal aparecia em casa, muito ocupado em continuar a alimentar sua fama de bad boy. Logo, Quinn percebeu que qualquer coisa fora era melhor do que enfrentar o incessante conflito em seu mais novo endereço. As consultas, os ensaios, as aulas e as monitorias eram prolongadas o máximo possível, o que proporcionava ainda mais contato com seu monitor. E ela apreciava vigia-lo em sua fase mais adaptado ao ambiente escolar.

E ele se soltava, especialmente, na pista de atletismo. A antiga capitã das cheerios sorria a cada demonstração do talentoso corredor. E adorava assistir suas performances e emendar discussões sobre tarefas escolares, canções ou assuntos descabidos. E era encantador a permanência da personalidade discreta e atenciosa para com ela diante do aumento de olhares sobre ele e, das brincadeiras de mau gosto sobre ela.

Ele não fazia mais questão de andar cabisbaixo, apesar de continuar adepto do silêncio. Ele sorria com mais vontade e ria com mais intensidade graças aos incontáveis dramas banhados de comédia existentes no Glee Club. O grupo do coral era impagável e a situação se tornou mais hilária com a entrada de um penetra qualquer, atual namorado da maníaca Rachel Berry. O principal beneficio de sua entrada no “New Directions” foi descobrir que não havia nenhuma tensão sexual ou sentimental entre sua monitoria e o garoto do moicano. Daniel podia ser distraído, mas, não era idiota. O forasteiro estava ciente da constante vigilância de Quinn. E adorava gerar tal curiosidade na menina.

Puckerman já havia dirigido diversas frases ofensivas à Quinn. Entretanto, nada que se comparasse com a estupidez daquela manhã. “Pare de comer, eu não gosto de andar com gordas”. A insensibilidade do rapaz ultrapassava todos os parâmetros aceitáveis e o pior é que ela não podia revidar por estar hospedada na casa dele. A única forma que encontrou para extravasar a raiva foi espancar a porta de seu armário.

— Bom trabalho! Acho que assim você consegue quebrar! – diz Daniel.

— O que você quer?

— Saber o que você o Puck vão fazer na sexta-feira à noite.

— Não posso falar por ele e, eu não vou fazer nada. Nós não estamos juntos, Daniel.

— Bom, fica mais fácil. – ele respira, ela parece confusa _ Eu tenho horas extras para receber no restaurante e a idéia brilhante do meu patrão foi me pagar com um jantar nesta sexta-feira. E eu posso levar um acompanhante... Então, para me cobrar preciso de alguém que coma sem peso na consciência se exagerar.

— Você ta me chamando de gorda?

— Claro que não! Você ta grávida, é normal que sinta necessidade de comer por dois. – ele parece confuso, ela respira aliviada _ Estamos combinados?

O enorme sorriso na face da jovem responde silenciosamente. Desde a descoberta da verdadeira paternidade de seu filho, Quinn acreditou ter enterrado qualquer possibilidade de romance em sua vida. Agora, a sutileza e a despretensão do convite do brasileiro resgatavam fragmentos de sua inabalável autoestima. A monotonia da semana é parcialmente quebrada com o anúncio de um relacionamento entre Puck e Mercedes, o que comprova a falta de compromisso entre os futuros pais adolescentes.

Sexta-feira. Há muito tempo, a ansiedade não surpreendia a antiga líder de torcida diante de algo que poderia não ser um encontro propriamente dito. Para evitar questionamentos ou confusões indesejadas, ela preferiu prolongar qualquer atividade no colégio até a hora nada convencional marcada para o “jantar”. No caminho para o modesto restaurante, a movimentação em seu ventre fascina a jovem. Era a primeira vez que conseguia genuinamente desfrutar da idéia de estar gerando uma vida. A mãe de primeira viagem reflete mentalmente se sua inquietação não poderia prejudicar a criança.

A aflição é contida ao avistá-lo arrumando as mesas no restaurante ainda deserto. O forasteiro continuava imutável. Os cachos desalinhados, o rosto cansado, a roupa batida que caia lhe perfeitamente bem... A única e singela diferença era o sorriso ou para sermos mais honestos... A formação de um exuberante sorriso no instante em que percebeu a presença de sua ilustre convidada. E ela entendeu de imediato que nenhuma palavra poderia recepcioná-la melhor.

— Me avisa assim que começar a sua folga, ta? – Quinn debocha.

— Eu estou de folga, Quinn. Só estava ajudando o pessoal, enquanto você não chegava.

— Espero não ter demorado muito. – ele nega, ela se cala e leva a mão para a barriga.

— Me conta... Além de jantar comigo, qual o motivo deste sorriso bobo?

— Ela mexeu. Quer dizer, antes já tinha mexido... Mas, agora eu consegui sentir! – diz emocionada.

— O bebê? É a primeira vez? Hum... Hã... Você quer... Hum... Eu posso?

A beira das lágrimas, Quinn gesticula positivamente e o garoto se posiciona ao seu lado para tentar perceber os movimentos daquela vida ainda em formação. Fascinado. Daniel fica completamente desconcertado com a experiência. E a novidade também comove a adolescente. Não era a primeira vez que sentia sua filha, contudo, era a primeira vez que realmente desfrutava do momento com alguém sem resquícios de culpa ou mentira. Ela não precisava esconder nada dele. Absolutamente nada. Não havia erros ou enganos na recente e incoerente relação dos dois. Estranhamente, Quinn sentiu-se confortável com a mão de um forasteiro em sua barriga e com a aparente percepção de que existiam outros garotos no mundo além de Finn por quem poderia se interessar. Ou mesmo se apaixonar.

— Você não vai pagar nada deste jantar, né?

— Não, é a única vantagem de trabalhar como um escravo neste lugar.

Era simples demais se envolver com aquele estranho. Era muito fácil rir e encontrar motivos para sorrir na presença dele. Então, a única dúvida era sobre a natureza daquela noite fora dos limites escolares.

— Isso foi um encontro, Daniel?

— Não, foi só um jantar. – ela disfarça a frustração _ Pode ficar tranqüila. Quando for, eu vou deixar isso bem claro.

Pela primeira vez desde a incomoda mudança para a casa do pai de sua filha, Quinn chega depois que Puck e para evitar um dialogo desgastante se dirige diretamente para o quarto. Era tão bom sentir-se adolescente novamente. O “jantar” durou exatos 138 minutos. Período em que Quinn Fabray voltou a simples figura de jovem sem carregar o peso do mundo em suas costas.

O efeito contrário é aplicado ao brasileiro. Daniel adentra a silenciosa e bagunçada residência e tenta colocar um pouco de ordem no recinto. A mãe deixou um breve bilhete detalhando que trabalharia o fim de semana inteiro e estaria em casa apenas na segunda-feira pela manhã. A mudança para os Estados Unidos não influenciou de maneira alguma a ligação entre mãe e filho. Independentemente do país, Patrícia Aragão impusera uma barreira quilométrica ao único filho. No Brasil, a desculpa eram os constantes namorados. No novo país, os dois empregos necessários para o sustenta-los. Agora, Daniel tentava adivinhar qual seria o próximo empecilho para que ela se recusasse a exercer o papel de mãe.

Grampeados em pleno grupo de coral? Rachel Berry era a garota mais alucinada que conhecera em seus 16 anos de vida. Inevitavelmente, o professor de espanhol gastou boa parte do ensaio da quarta-feira aplicando um sermão em seus alunos devido ao desinteresse em realizar os exercícios musicais. Realmente, Will Schuester esperava que ele, um imigrante e trabalhador ilegal, estudante estrangeiro, novato na equipe de atletismo e deixado à própria sorte pela mãe se preocupasse com afinação vocal? O maestro do Glee Club só poderia estar maluco.

Apesar da tarefa da semana envolver inicialmente performances com músicas de Lady Gaga, a apresentação masculina customizados como “Kiss” foi um dos momentos mais divertidos que o forasteiro vivenciou no exterior. O contragolpe veio em um raro instante de sensibilidade de Noah Puckerman. Em frente a todos os companheiros do New Directions, o bad boy se desculpou pela negligência com que tratou Quinn.

— Eu não me incomodava que o meu pai fosse durão, só queria que ele estivesse presente. Mas, ele nunca estava. E aprendi com esse negócio de Kiss que Jackie Daniels é um bom nome para uma lancha e um péssimo nome para uma menininha. Então, se meus companheiros de Kiss me ajudarem, eu tenho uma idéia melhor. – diz Puck.

O brasileiro precisou de muita força de vontade para levantar e acompanhar o “garoto do moicano” naquela declaração. Ele estava desenvolvendo fortes sentimentos pela antiga líder das cheerios e não poderia fazer nada a respeito. Ela estava esperando uma filha e morando com Puck. E ele não podia fazer nada a respeito, a não ser sentar e fazer coro a canção que nomearia a filha do casal.

— Eu sei que você quer da-la para adoção, mas, antes de fazer isso, acho que devemos chamá-la de Beth. Se você me deixar, eu gostaria de estar lá quando ela nascer. Gostaria muito de conhecer a nossa filha. – confessa Puck.

Visivelmente comovida, ela concorda. Todos aplaudem o casal.

A nossa filha. O que ele estava pensando? A garota teria uma filha e ele era apenas o “garoto do espanhol”. Não havia o que ser feito.

— Você entendeu a equação? – a loira lhe chama a atenção _ Onde você estava?

— É um nome bonito.

— O que?

— Beth. É um nome bonito.

— Obrigada! Eu ainda estou surpresa com este repentino bom gosto do Puck.

— Você nunca pensou em ficar com a criança?

— Eu tenho pensado muito nisso ultimamente.

— O Puck disse alguma coisa? Quero dizer... Além da música...

— Não, não é por causa dele. – diz Quinn.

— Então, é o Finn? – debocha.

— Cala a boca! Não tem nada haver com nenhum dos dois. – ele demonstra confusão _ É só algo que eu comecei a cogitar depois de um jantar. E eu ainda estou esperando por um encontro para chegar a uma conclusão mais séria.

— Então, você já pensou nesta possibilidade?

— Qual?

— Nós! – diz Daniel.

— Talvez... Mas... Eu ainda estou esperando por um encontro para chegar a uma conclusão mais séria – ele lhe presenteia com um sorriso _ Então, você entendeu a equação? – diz a garota.

A conversa era um borrão dentro do turbilhão que fora a última semana. Jessé Saint James era um espião do Vocal Adrenaline e retornou para o antigo grupo na véspera das Regionais depois de humilhar e partir o coração da então namorada, Rachel Berry. Curioso como alguém aparentemente tão focada poderia ser facilmente enganada. Como toda ação gera reação, os garotos do New Directions estavam prontos para espancar o impostor.

— È hora de menos conversa e mais porrada. – decreta Finn.

— A violência nunca é a resposta. Voltem e sentem-se. Sei por experiência própria que fazer alguém sofrer, não faz sua dor sumir. Vocês são incríveis não importa o que o Vocal Adrenaline faça. – ressalta o mestre.

— Mas não podemos deixar barato que eles tenham feito um omelete da Rachel. – rebate o quarteback.

— Nós não vamos. Jessé St. James? Aqui é Will Schuester. O Vocal Adrenaline precisa estar no nosso auditório nesta sexta-feira. – finaliza a ligação _ E se eu dissesse que sei como podemos dar o troco? O New Directions vai fazer um funk. Vocal Adrenaline nunca fez um número de funk. Eles são máquinas, uma batida sintética sem coração. Funk é raiva, é paixão. E eles não se apresentam com nenhuma destas emoções. Esta é a tarefa de vocês!

— Podem relaxar, pessoal! Eu cuido dessa! – diz Mercedes.

— Espera! Quero uma chance também! Você disse que o funk se trata de alma e raiva! E tenho muito dos dois! Olhe para mim e para minha vida! Estou furiosa! – confessa Quinn em meio às risadas dos colegas _ Deixando as gracinhas de lado, terei algo preparado amanhã!

Segurando a gargalhada, Daniel se pergunta mentalmente se algum dos companheiros teria ideia do que realmente é o funk e de que o estilo é tão próprio do Brasil quanto o samba. No ensaio seguinte, a ex-capitã das lideres de torcida expressa totalmente a decepção e frustração que guardava consigo em uma performance bem ilustrativa, entretanto, completamente desprovida de resquícios da tarefa semanal. Todos se compadecem da situação desesperadora da garota, exceto Mercedes. O empenho de Mercedes, Finn e Puck também é louvável, mas, a confusão na escolha da música compromete toda a apresentação.

— Bom trabalho, pessoal. Mas, isso não é funk, é um rap. – esclarece o professor.

— Ei! – a manifestação do novato causa certo espanto _ Eu acho que vocês estão bem confusos com o que é o funk. Quero dizer, vocês já ouviram algum funk? O estilo é popular no Brasil e não se parece em nada com as músicas que vocês escolheram. Pelo o que eu conheço, o funk mexe com a expressão de emoções... E de sensualidade! – diz Daniel.

— Exatamente! E este mistura de sensações é o ponto fraco do Vocal Adrenaline. Obrigado pela contribuição, Daniel! Temos três dias para trabalhar e transformar a escola em um baile funk! – finaliza Willian.

— Eu posso tentar? – fala timidamente o brasileiro com a mão erguida a fim de chamar a atenção do professor do coral.

— Claro, Daniel! Você quer cantar um funk?

— Você ainda está aqui, novato? – atiça Santana, recebendo um olhar atravessado de Schuester.

— Na verdade... – ele leva a mão para a parte de trás da cabeça e a loira nota o desconforto por atrair todos os olhares – Eu não acho que cantar seja o problema. Acho que eu poderia ajudar mais dançando um funk... Um funk brasileiro!

— Eu adoraria te ouvir cantando pela primeira vez, mas fique a vontade para contribuir com a nossa performance. Estou ansioso para assistir!

Ele agradece o incentivo do professor e começa a se perguntar se realmente deveria ter dado aquele passo. Não que ele questionasse a sua capacidade de apresentar a coreografia de algum funk conhecido, mas valeria a pena ser o centro das atenções? A resposta positiva começa a se mostrar tão logo o ensaio é encerrado.

— Senhor Schuester, por acaso, eu poderia ficar mais um tempo por aqui para me preparar? – adulto encara o brasileiro e abre um enorme sorriso.

— Claro, Dan. Eu vou ficar até tarde na sala dos professores corrigindo algumas provas, quando terminar é só passar e me entregar a chave, certo? – ele concorda e aprecia a confiança depositada mesmo em uma atitude tão pequena quanto essa.

Rapidamente, ele liga o celular a caixa de som da sala do coral para reproduzir a música desejada: Rap da Felicidade, um dos principais clássicos brasileiros. A batida ecoa pela sala ainda ocupada por alguns integrantes. Matt, Mike e Brittany recolhiam os seus pertences, enquanto Quinn mantinha a sua tradicional vigília no alvo favorito.

— Ei, cara! É essa música que você vai apresentar amanhã? – o brasileiro sinaliza positivamente – Que batida empolgante! – reconhece o asiático – É em português, né?

— É! É um dos primeiros funks a estourar, sabe? A batida é demais, mas a letra é... Tem muito a ver com que a gente passa todo dia, sabe?

— Maneiro! Me manda a letra depois? Eu imprimo umas cópias e trago pro ensaio. – sugere Matt – Tá... Você vai mostrar esses passos ou vai demorar muito ainda? – o jogador negro intima o colega, que dá uma risadinha.

— Na real... É passinho! – corrige o brasileiro emendando dois ou três passos e cantando baixinho a letra em português.

— Eu gostei desse passinho de brasileiro. — solta Brittany, mas o engano sequer é corrigido pelos colegas que tentam imitar a coreografia.

“Eu só quero é ser feliz,

Andar tranquilamente na favela onde eu nasci

E poder me orgulhar e ter a consciência

Que o pobre tem seu lugar”

A sequência de passos é assimilada em uma velocidade impressionante pelo trio do Glee Club e o brasileiro sugere que a apresentação deixe de ser individual e passe a ser formada por todo o grupo. Matt e Mike concordam prontamente com a sugestão e a latina surge na sala com a acidez conhecida:

— O que você pensa que está sugerindo a minha melhor amiga sem me incluir, novatinho? – questiona Santana, que estranha ao avistar Quinn ainda presente no ambiente.

— Dan estava pedindo se não queríamos ajuda-lo na apresentação de funk. O que acha, Santana? – convida Matt. A garota dá de ombros e se junta ao grupo – E você, Quinn?

A loira sorri ao ser incluída pelo jogador, mas dispensa o convite e segue apenas observando o desempenho do seu alvo predileto. Ela ri ao notar que Daniel se empolga e aumenta o tom da disfarçada cantoria no suposto refrão da música em português. Ele não soava tão mal assim. Não mesmo.

— Cara, acho que todo mundo decorou bem os movimentos, né? – todos concordam – Temos uma coreografia, galera! – Mike comemora e bate nas mãos de Matt e Daniel.

— Ficou bem maneiro mesmo! Mas, a gente precisa correr agora, né? Treino de futebol!

— É, temos ensaio das líderes de torcida agora. Você fica para organizar essa bagunça, certo? Novato serve para isso mesmo! – provoca a latina.

— Pode deixar, Santana! Eu ainda tenho um tempo antes do treino de atletismo! Mas... valeu pela ajuda, galera! Eu nunca ia montar uma coreografia tão massa sozinho!

— Ah! Foi muito divertido, Dan... E vamos arrasar amanhã, não é? – a latina concorda com a melhor amiga – Você vem com a gente, Q?

A loira recusa gentilmente o convite das antigas companheiras de torcida e se aproxima do brasileiro tão logo a sala se esvazia. Santana se demora alguns segundos para observar a estranha interação, mas é puxada prontamente por Brittany. Realmente, elas estavam quase atrasadas para encarar Sue Silvester.

— Então, esse é o funk brasileiro? — ela questiona praticamente assustando o garoto.

— É, é um deles. Você gostou? – o brasileiro leva as mãos aos bolsos da calça jeans e sorri de canto.

— Não entendi nada, mas achei bem animada. – ela corresponde ao sorriso.

— Quer tentar? – ela nega veementemente com a cabeça – Ah! Eu te ensino os passinhos mais fáceis, vai dar certo... Confia em mim! – ele brinca e se volta para a caixa de som para retomar a música.

— Eu confio. – a confissão sai de maneira despretensiosa e paralisa ambos por alguns segundos até que a sala é tomada pela batida do funk do Rio de Janeiro.

A garota acaba se divertindo ao tentar imitar os passos ditos como mais simples, erra nas primeiras tentativas e começa a se animar com o resultado depois da segunda música. Daniel cantarola alguns trechos da música, lhe passa mais algumas instruções e ri em poucos minutos mais do que ela havia flagrado em meses de observação.

Ele estava inteiramente a vontade. Na verdade, os dois estavam totalmente a vontade um com o outro. E um sinal de alerta surgiu na mente dela. Quinn coloca as duas mãos na barriga, tenta controlar a respiração e recuperar o folego. Ele percebe o cansaço no semblante dela, apanha a mochila e lhe oferece a garrafa com água.

— Tudo bem? – ela sinaliza que sim – Acho que tá ótimo pra primeira aula, né? Eu ainda preciso organizar as coisas aqui e correr para o treino de atletismo.

— Ah, é verdade. Sem monitoria hoje, né? – ele confirma – Se você quiser, eu entrego a chave para o professor... To indo para biblioteca de qualquer jeito.

Daniel termina de ajeitar os moveis da sala do coral, desliga as caixas de som, apanha o seu celular e concorda com a oferta da loira. Assim, ele ganharia alguns minutos e não precisaria pagar algumas voltas extras na pista. O brasileiro apanha a mochila, se despede preguiçosamente da garota e estende a mão com a chave. O movimento da mão dela faz com que o entrelace seja mais duradouro e significativo, mesmo que ambos pouco compreendesse os questionamentos internos.

Quinn dá alguns passos a mais e encontra Willian Schuester na sala dos professores, rodeado por provas e trabalhos de alunos. Ainda assim, ele dedica alguns minutos para averiguar o “primeiro ensaio extra” de Daniel e entender a estranha relação que fez com que a loira estivesse a sua frente, devolvendo a chave da sala do coral.

Com a missão cumprida e desacompanhada, ela adentrou a biblioteca com a intenção de adiantar alguns assuntos mais complicados e até preparar as próximas aulas de reforço para o garoto do espanhol. O ritual segue em silêncio até a chegada inesperada de Mercedes.


— Você pode não ser de uma minoria, mas, realmente entende como nos sentimos. – diz a recém-chegada.

— Durante nove meses. Você teve que lidar com o preconceito a vida inteira. Eu não entendo porque você não grita com as pessoas o tempo todo. – explica a loira.

— Do que adiantaria ficar com raiva?

— Porque é revoltante! Eu odeio todos os olhares na escola e nem me deixe falar da mãe do Puck.

— Você não está com raiva, está magoada. Só precisa de um porto seguro. Está decidido. Neste sábado, você sai da casa do Puck e vem morar comigo. Meu irmão está na faculdade e temos um quarto sobrando. Está tudo bem, minha mãe já concordou. Afinal, irmãs precisam ficar juntas, não é? – convence Mercedes.

A diva do Glee Club estava a algum tempo tentando descobrir um meio de aliviar a pressão sobre os ombros da jovem grávida. Com a constante observação percebeu pequenos detalhes ligando sentimentalmente Quinn e Daniel. Olhares perdidos, frases soltas, sorrisos trocados... Sinais sutis de um romance que não encontrava a atmosfera adequada para evoluir. A dependência econômica da antiga líder de torcida para com a família de Puck era o maior empecilho. A forma com que o forasteiro se absteve de qualquer avanço mesmo com o consentimento da garota encantou Mercedes, admiradora declarada do brasileiro desde a primeira palavra trocada. Dan era extremamente atencioso e gentil com todos do coral, apesar de se manter distante afetivamente.

Matt e Mike finalizaram mais um treino de futebol americano se lamentando pelos constantes erros de Finn como quarterback. Os dois velocistas da equipe mais se preocupavam em correr e não serem apanhados do que necessariamente em finalizar uma jogada. Finn realmente estava em um dia péssimo. Infelizmente, o quarterback tinha muito mais dias ruins do que razoáveis.

Ainda assim, eles se mantiveram em campo para acompanhar os minutos finais do treino da equipe de atletismo. Mesmo companheiros do brasileiro no Glee Club, eles tinham trocado poucas palavras até então e tampouco notaram como o brasileiro era rápido!

— Você devia tentar o futebol americano com essa velocidade, cara. Quem sabe a gente não fazia uma campanha menos ridícula?! – brinca Matt quando o amigo encerra a pratica na pista ao redor do campo.

— Cê tá louco, né? Isso ai parece uma briga. Não entendo nada! – Daniel gargalha e apanha a garrafa de água. Com a proximidade do torneio, o treinador estava tirando o folego de toda a equipe.

— Mas você nem precisa saber, não! É só correr. Eu e o Matt estamos cansados de sofrer com as péssimas escolhas do Finn!

— O Hudson é ruim assim? – questiona o brasileiro terminando de ajeitar a mochila.

— Ah! Finn não é péssimo, o treinador Tanakka que é uma porcaria mesmo. Mas, tudo certo para amanhã? Vamos fazer o último ensaio antes das aulas?

— Acho que sim... Só se me explorarem muito no restaurante e eu não acordar a tempo.

— Nem sabia que você trabalhava, novato. Dia puxado, hein? Quer uma carona? O meu carro tá logo ali no estacionamento. – convida Mike.

— O salário é uma merda, mas sempre dá para levar comida para casa. – os três gargalham – Vai adiantar muito meu lado, Mike!

— A ideia é até boa porque eu tô morrendo da fome... O que tem de bom nesse restaurante? – comenta Matt – O que é que tá rolando ali?

— São os otários do Vocal Adrenaline, não são? – aponta o brasileiro.

— ELES CERCARAM A RACHEL? – se indigna Mike.

Os três jovens se colocam a correr até o estacionamento e começam a xingar em alto e bom som os integrantes do coral adversários, que se colocam em debandada. Matt e Dan perseguem Jessie St. James que se enfia no primeiro carro de aliados a sua frente. Os dois garotos se olham, se posicionam em cada lado e passam a balançar o veículo.

— Tem que juntar os seus comparsas para humilhar uma menina, né? COVARDE! – dispara Matt!

— Desce agora para ver se você se cria para cima de mim, SEU CUZÃO! – berra o brasileiro.

O motorista consegue fazer o carro pegar e tenta sair do estacionamento do colégio as pressas sob os xingamentos de Matt, Mike e Daniel. Quando retornam, Rachel está coberta de ovos quebrados, tremendo de frio e se esforçando para conter as lágrimas.

— Rachel, fala com a gente... Como que você está? – Mike se preocupa com a solista, que demora a formular uma resposta – Fiquem aqui que eu vou buscar o meu carro e já apanho uma toalha para te ajudar a se limpar.

— Vocês vão atrás deles de carro? – é a primeira frase formulada pela garota.

— A gente bem que devia, né? Na quebrada, a gente acabava rapidinho com esses cuzão!

— É, até devia mesmo... Mas, acho que a gente precisa ficar aqui. Nossa, você não para de tremer... Tire essa blusa toda manchada e pega a minha jaqueta! Não é grandes coisas, mas... – Matt brinca com a famosa jaqueta vermelha do time de futebol. Ele retira e oferece para a garota, que troca a peça totalmente encharcada.

Mike estaciona com o carro e a garota se acomoda no banco traseiro, apanhando a toalha indicada pelo asiático para limpar brevemente os cabelos. Daniel se acomoda ao lado da garota e volta a dizer que deveriam ter dado um pau naqueles CUZÃO. O termo em português gera uma curiosidade em todos os demais companheiros de viagem.

— O que é isso que você fica repetindo, Dan? – pergunta a solista.

— CUZÃO? Uma palavra brasileira... A bad word. – os garotos gargalham e Rachel enxuga as últimas lagrimas com um fraco sorriso no rosto – O que aconteceu?

— Eu acho que o Jessie queria provar a sua lealdade para os companheiros. Ele sabe que eu sou vegana e fez isso não só para tirar sarro, mas me machucar... Muito.

— Mais um motivo que a gente tinha para ter dado um pau nesse cuzão. – todos tornam a rir e Rachel indica o caminho de sua casa para o motorista.
— Matt, eu agradeço pela gentileza... Amanhã, eu tento lavar e tirar esse cheiro horrendo da sua jaqueta. Ou você vai precisar dela amanhã cedo?

— Fica tranquila, Rachel. Os caras agem como se essa jaqueta fosse de um time bom mesmo. Eu não me importo muito, só não deixo contigo porque preciso dela para os jogos. Mas, sem pressa... – a revelação do jovem surpreende a solista. Era a primeira vez que ela escutava um atleta fazer tão pouco do popular time de futebol.

— É, amanhã nem temos treinos mesmo. Só o ensaio do Glee Club. – cita Mike.

— Nem me lembra! Já to começando a me arrepender de ter pedido para me apresentar... Tenho treino de atletismo e dois turnos no restaurante!

— Eu achei muito legal você, finalmente, se manifestar no coral, Dan. O nervosismo é normal, mas tenho certeza que será algo bem interessante.

— Ah! A gente se certificou que a estreia do novato seja bem maneira! – conta Matt – Nós bolamos uma coreografia de funk em grupo. – Rachel comemora e elogia a iniciativa.

— É aqui, né? – Mike para o carro e indica a casa a esquerda – Você vai ficar bem? Se precisar de alguma coisa, você tem o meu número, certo? – a disponibilidade de Mike realmente emociona a menina, que nunca deu muita a atenção ou se relacionou com a ala de dançarinos do Glee Club. Ela, tão adepta das palavras, silenciou e optou por dar uma abraço demorado em cada um deles.

— Tenho, Mike. Na verdade, eu tenho o contato do todo mundo do Glee Club. – revelou a menina de saída do carro.

— Até o meu? – questionou o brasileiro depois de ter o rosto beijado.

— Até o seu. Quando a pessoa entra no Glee Club não tem mais volta, novato. E, quebre a perna amanhã! – o rapaz lhe encara assustado – É uma expressão do teatro para desejar boa sorte.

O brasileiro solta uma risadinha pelo ensinamento e se despede da judia. A próxima parada é o restaurante modesto que servia de ocupação formal para o calouro do coral. Matt e Mike aproveitam a coincidência para desfrutar das poucas opções realmente saborosas do cardápio. Enquanto Rachel precisou tomar sucessivos banhos para tentar inutilmente tirar o cheiro impregnado nos cabelos devido a pegadinha coral rival.

Apesar disso, ela se sentiu muito tocada pela ação dos meninos, sobretudo pelo pouquíssimo contato que tiveram nos últimos meses. Definitivamente, a judia precisava mudar isso o quanto antes. E o seu quanto antes foi ainda naquela noite com uma simples mensagem de agradecimento a cada um deles. “Só queria mostrar que tenho seu número e agradecer por tudo. Tenho certeza que daremos uma lição naquele cuzão no palco nas Regionais. Boa sorte na apresentação, calouro”.

Daniel visualizou a mensagem somente quando voltou para casa perto da meia-noite. Ele enxergou o texto, riu sozinho e sequer teve forças para responder. Rachel Berry era uma garota bem estranha. Ao abrir os olhos novamente, ele sentiu todo o corpo dolorido e se amaldiçoou pela brilhante ideia de dançar funk. No segundo momento, ele foi acordado pelo som estridente do seu celular com uma ligação de Mike Chang oferecendo uma carona para o colégio. Ao menos, uma boa notícia! Os garotos se espantam ao encontrar Santana e Brittany já na sala do coral.

— Santana, eu achei que você tinha dito que não ia perder tempo com a gente! – debochou Matt.

— E eu disse mesmo! Mas, se a Brittany gostou dessa coreografia, eu tenho que me certificar que esse novato não vai estragar tudo, né? – dispara a latina.

O brasileiro ri da parte que lhe toca, mas considera que tudo perde a graça rapidamente com a obsessão do asiático para que tudo seja perfeitamente executado, enquanto Santana solta uma legião de provocações a cada falha cometida por um dos garotos. De qualquer maneira, o ensaio rende gargalhadas, algumas melhorias na coreografia e uma divertida interação com os colegas de Glee Club. Ainda assim, ele estava esgotado antes que seu dia se iniciasse oficialmente.

— Não é muito cedo para alguém que costuma dormir todas as aulas possíveis? – Quinn lhe recebe com uma brincadeira e um sorriso ao chegar no armário.

— Ah, eu vou dormir em todas aulas hoje... Mas, vim mais cedo porque o Mike é um maluco e acabei descobrindo que a Santana é ainda pior! – ela arruma o cabelo rapidamente e ri das observações.

— É, eu conheço esse lado competitivo da Santana. Então, a sua estreia no coral se tornou um grande evento.

—

— Infelizmente... — os dois riem levemente da dimensão que a sua primeira interferência em um ensaio tomou – Mas, teve umas partes legais, né? Até te ensinei uns passinhos de funk!

— Não sei se dá pra dizer que eu aprendi algum, né? Mas... Foi uma das partes favoritas do meu dia.

— E que pode ser mais legal do que uma aula de passinho? — ele brinca sem jeito e leva uma das mãos aos cachos – A gente sempre pode repetir, né? A qualquer hora, não... Eu quero dizer que qualquer hora contigo é uma das favoritas dos meus dias.

— Fico contente... Em saber disso. Eu ainda não posso te contar exatamente, mas talvez a gente possa até se ver pouquinho mais.

— Ah, fácil...Essa já se tornou a parte favorita do meu dia.

— Ahh, eu quero ver essa apresentação de funk! Quebre a perna, estrangeiro.— ela se despede rumando para a primeira aula do dia e ainda coloca um sorriso no rosto ao ouvir uma brincadeirinha dele com o famoso ditado artístico.



A tão aguardada sexta-feira e o acerto de contas com Vocal Adrenaline. Realmente, o dia não poderia ser melhor para os alunos de Will Schuester. “Só podemos atingi-los se mostrarmos a única coisa que não são capazes de fazer”. As palavras de Rachel causam estranheza e descrença nos dançarinos rivais. A apresentação de funk do New Directions colocou em sintonia perfeita todos os componentes! Sentimentos e sensualidade expostos na dose certa para amedrontar os robóticos artistas do Vocal Adrenaline. “Nós precisamos do funk!”, ecoava no refrão escolhido pelo professor de espanhol para embalar os passos e gingados de seus alunos. Apesar da canção escolhida não parecer em nada com o típico funk brasileiro, o novato pode se sentir mais perto da pátria amada e se destacar na apresentação feita praticamente sob medida. E a provocação de Puck “nos vemos nas Regionais, idiotas” encerrou com chave de ouro o aquecimento para a verdadeira disputa.

Desprovido do figurino e dos passos de funkeiro, Daniel retornou na manhã seguinte para a vida real como garçom de restaurante. Pelo menos nos sábados, o expediente era só até o meio-dia. Ele teria o restante da tarde para colocar o sono e os estudos em dia. Bem, teria... Senão fosse a interferência da integrante mais divertida do coral.

— Ei, gato! Que horas você larga? – diz Mercedes.

— Para você, minha querida, eu estou livre a qualquer momento! – devolve no tom de brincadeira.

— Que bom! Eu preciso da sua ajuda nesta tarde... Meu pai está viajando e meu irmão na faculdade... E vamos receber uma hospede por alguns tempos... Preciso de dois braços fortes para ajudar na mudança.

— Tem certeza que o Kurt não dá conta? – diz risonho

— Idiota! Posso contar com você? – ele confirma – Ok! Te espero daqui há duas horas, você sabe aonde eu moro, não é?

Ele consente, a jovem diva se retira com a certeza de estar próxima da concretização de um plano infalível. Afinal, quem não sabia que Mercedes Jones adorava finais felizes?

A mulher não esconde a satisfação. O rapaz se esforça para parecer imune à saída da garota de suas vistas. Depois de carregar os pertences da mãe de sua filha até o carro, Puck sussura que ainda arcaria com a sua responsabilidade e estaria disponível para ajudá-la a qualquer momento. Quinn se despede com um abraço e um “obrigada”. O encrenqueiro sabia que não poderia pedir nada a mais.

A mãe de Mercedes recebe a nova moradora com o maior de seus sorrisos e o abraço mais carinhoso que a jovem obteve em meses. A comodidade de um quarto apenas seu e a reconquista da privacidade quase levam a garota às lágrimas. No entanto, o verdadeiro presente entraria timidamente pela porta uma hora depois de sua chegada.

— Então, você é a nova hospede da Mercedes? – diz Daniel.

— Um dia ela teria que sair da casa do Puck, não é? Agora, menos conversa e mais ação! – decreta a dona da residência.