Você Sabe o que é Cidadania?
1 Capítulo 1
O sol do meio dia estava a pino caindo sobre toda a população calorosa daquele pequeno bairro. Era tempo de eleições e nesse exato momento um político discursava em um palanque na praça que ele dizia ter construído com o próprio suor. Entretanto eu e você sabemos que isso não é verdade... O povo adorava-o como se fosse um Deus que estivesse em cima de um pedestal sagrado, prometendo milagres impossíveis à todos.
- Bom dia a todos os cidadãos dessa bela cidade. Como sabem, as eleições estão cada vez mais próximas e como é de praxe vocês – eleitores — deverão exercer sua cidadania garantindo seu direito ao voto. E hoje estou aqui para garantir que o direito de vocês não seja esquecido. Se eu for eleito farei com que a voz de vocês seja ouvida e os pedidos cumpridos, porque não é um governante que faz uma cidade, um estado ou um país, mas sim o povo! Não estou aqui com promessas sem futuro, pelo contrário, estou aqui para que possamos trazer todos os sonhos de um futuro melhor para o nosso presente. Por um governo justo e honesto, votem em mim para ser seu prefeito novamente.
Após concluir seu discurso ele saiu ao de aplausos e adorações.
– Esse homem é tão bom, não é? – Uma mulher dispersou-se da multidão e pensava consigo mesma em voz alta. Seu sotaque carregado do nordeste chamava a atenção de alguns — Ele asfaltou ruas, colocou iluminação, e agora ainda vai melhorar o campinho daqui da cidade para os meninos jogarem bola. Meu voto vai para ele de novo nessas eleições. Ah! Está quase na hora. Meu primo logo estará chegando... Já faz três anos que não nos vemos... Ainda bem que marcamos o encontro nessa praça que é a principal do bairro. Será que ele já está aqui?
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Outra parte da praça, o prefeito Ricardo cochichava com o seu segurança (Paulo) enquanto o outro ia apanhar o carro que ficara estacionado em um estacionamento especial.
– Não deixe nenhum desses pobres imundos tocarem em mim, está me entendendo? Na eleição passada foi um inferno. – O candidato dizia num tom de soberba e asco.
Entretanto cessaram a conversa quando perceberam a presença de alguém se aproximando. Continuariam essa conversa mais tarde, tomando uma boa dose de um Uísque doze anos. O carro já havia chegado e estavam prontos para partir quando o estranho que a pouco eles perceberam chamou a atenção do prefeito.
– Nossa! Como essa cidade mudou... Preciso achar minha prima... Hm... Deixe-me ver o endereço que ela me deu. – ele leu um pequeno bilhete rapidamente, mas logo voltou a exclamar de uma forma barulhenta, com um sotaque um tanto nordestino como um tanto paulista — Por favor! Senhor? Pode me informar onde fica a padaria do Jorge?
O prefeito cochichou algo com o seu segurança que a poucos minutos ouvia-o reclamar do próprio povo. Negou com a cabeça, ele jamais conheceria uma padaria com tal nome, afinal ele era o prefeito, “padarias de Jorge” com toda a certeza não ficava próximo a parte alta da cidade onde ficava sua casa. Entraram no carro e partiram.
– Obrigado mesmo assim. – o rapaz gritou em vão, mas pelo menos fizera sua parte.
Apanhou o papel novamente e arfou preocupado. Talvez a prima nem ao menos soubesse onde ele estava e provavelmente deve ter esquecido sua vinda para a velha cidade onde foram criados.
– Tiago?
– Madalena?
“Ou talvez ela só tenha se perdido na multidão. Afinal sua prima não poderia esquecê-lo, poderia?” O rapaz pensava consigo mesmo enquanto abraçava-a. Madalena era para ele praticamente uma irmã.
– Há quanto tempo! Eu já estava indo para a tua casa. Ou quase isso... – Tiago deu um sorriso tímido enquanto escondia o papel em um dos bolsos da calça jeans.
- Pois é... Eu estava num comício por aqui e resolvi procurá-lo. – Madalena estava um tanto diferente, os cabelos que outrora eram negros, agora estavam amarelados, louros. A pele morena da nordestina agora estava pálida. Tiago analisou. – O que houve primo? Algum problema comigo? – a mulher falou passando a mão pelo rosto um tanto assustada.
– Não nenhum... Só me assustei com o fato do comício? Já estão em período de eleições aqui? Lá em Sampa ainda não começaram, por isso estranhei. – falou orgulhoso da cidade em que estava vivendo.
– Ah! Mas aqui tudo é mais rápido que a cidade grande. Eu já até sei para quem vai o meu voto. – a mulher declamava animada.
– Hmm...
– Ele é um ótimo homem... Ele reformou quase todas as ruas daqui do bairro, vai refazer o campinho do bairro para os meninos jogarem bola. Vai também reformar o hospital daqui do bairro e as escolas igualmente. – ela falava cada vez mais animada, muito mais do que deveria estar.
– Se fosse verdade... – Tiago com seus botões.
– Disse algo primo?
– Eu? Não... De forma alguma.
– Disse sim! Eu ouvi! Pois saiba que é tudo verdade sim. Ele vai garantir nossos direitos como cidadãos como tem feito desde a última eleição.
– Vai? E você por acaso sabe o que é cidadania prima? – Ele indagou-a interessado em ver a resposta da prima. Ele provavelmente já sabia que de cidadania ela não conhecia nada.
– Cidadania é... É... – atrapalhou-se como foi previsto por Tiago.
– Cidadania é o conjunto de direitos, e deveres ao qual um indivíduo está sujeito em relação à sociedade em que vive. – Outra voz surge por trás dos dois, emocionando a mulher a assustando o rapaz.
– Você? – Tiago virou-se e encarou o mesmo homem que não soube dizer-lhe onde ficava a tal padaria do Jorge.
– Senhor Ricardo Soares. – Tiago poderia jurar que os olhos da prima brilharam encantados. – Nosso futuro prefeito novamente. – Ela suspirava encantada enquanto seguia em direção ao homem.
– Então é você... – segurou a prima pelo braço, impedindo-a.
– Solte-me Tiago, não se meta onde não é chamado. – ela tentava se livrar do primo, mas era em vão, ele era muito mais forte que ela.
– A cidadania não é apenas um conjunto de direitos e deveres. Cidadania é justamente o exercício da conquista desses direitos e do cumprimento dos deveres. É um campo social e político em permanente construção, onde as pessoas participam como integrantes de uma coletividade. O verdadeiro cidadão procura é zelar pelo bem público, respeitar as pessoas e o local onde freqüenta. O lazer é um direito de todos, cada qual de uma forma que achar melhor. Mas evitando a violência, a discórdia, o conflito... –Tiago declamou um pouco irritado, não suportava políticos e suas frases e discursos prontos.
– É exatamente por isso que estou me recandidatando... Para que todos os direitos e deveres dos cidadãos sejam cumpridos.
– Viu? Ele é um bom homem. Ei! Tiago! Não saia assim... Espere! Desculpe por isso senhor prefeito. Meu primo veio da cidade grande e não está acostumado com as coisas daqui. Desculpe-o, por favor, sim? Irei votar no senhor. – a mulher saiu correndo em desespero atrás do primo, antes que ele se perdesse.
Ainda na praça, Ricardo esperava acompanhado pelos seus seguranças.
– Não falei para não deixar essa gentinha me tocar? Passe essa porcaria de lenço para cá! – apanhou o lenço com violência das mãos do segurança. Sentia como se a pobreza da mulher fosse contagiante.
– Desculpe-me senhor, mas seria muito grosseiro da minha parte afastar aquela mulher...
– Blá, blá, blá! Não me interessa. Se algum outro se aproximar de mim estará despedido! Fui claro? Agora volte lá naquele palanque e busque meu celular que ficou em cima da mesa de discurso, tenho certeza que ninguém do partido apanhou. E seja rápido! Logo aqueles repórteres vão ficar em cima de mim iguais a urubus quando eu vencer a eleição. – imperou.
– Por que tenho um segurança negro? – Ricardo indagou a Paulo, nunca conseguira ficar a sós com seu segurança de confiança para fazer tal pergunta. O “negrinho”, como ele chamava, sempre o atrapalhava de certa forma.
– Ele fez um concurso para entrar na nossa agência senhor... – Paulo não soube muito bem como reagir ao preconceito do prefeito, mas ficou quieto. — Ah! Ele chegou.
– O celular está aqui e o carro já está pronto. Vamos senhor? – fez menção a entregar o celular ao prefeito, mas esse lhe fez uma expressão de asco e ordenou que seu outro segurança, Paulo, pegasse o celular das mãos do negro.
- Vamos antes que alguém apareça. Não estou com paciência para pobre e nem para a imprensa.
Eles seguiram em direção ao carro, o prefeito ia atrás ao lado de Paulo, mantendo uma distância “segura” do primeiro segurança.
– Não quero saber se é concursado ou não... Assim que chegarmos, eu quero que ele seja demitido. Não posso deixar minha imagem ser manchada por estar acompanhado por um negro... Vai que ele rouba algo da prefeitura quando eu tomar a posse.
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Não muito longe daquela praça, Madalena corria atrás de Tiago.
– Espere Tiago! – falou num sotaque nordestino carregado.
– Não entendo o motivo de você acreditar nele... – o rapaz virou-se para a prima, irritado.
– Ele é um bom homem. – Madalena alcançou-o esbaforida por causa da corrida, ela era baixinha, diferente do primo, suas pernas não eram tão longas então correr era meio complicado.
– Ah! É? Esses políticos são todos iguais... Você verá! Assim que ganhar as eleições ele vai desaparecer que nem todos os outros.
– Ele é diferente. Você vai ver...
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O tempo passou, o fim das eleições chegou e Ricardo foi eleito. Debaixo do sol a pino ele discursa novamente.
– Meu povo! Estou aqui, como vocês sabem, para receber a posse como novo prefeito, mas é claro, eu devo isso a cada um de vocês. Todos os cidadãos que me deram a honra de receber cada voto nessas eleições.Sem vocês eu seria nada. Por isso quero agradecer e dizer que não deixarei tudo isso passar em vão... Somente os néscios não acreditaram e agora provavelmente estão vendo que estavam errados. Durante o meu mandato a voz do povo será a voz de Deus...
– Prefeito! Não falei que você ia vencer? – Madalena gritou próxima demais do palanque, conseguindo assim ser realmente notada no meio do povo.
- Quem é ela? – O prefeito sussurrou a Paulo esperando obter uma resposta, enquanto acenava para todos com um sorriso amarelo.
– Aquela mulher que o primo discutiu com o senhor. – Falou de forma discreta.
– Ah! Não deixe aquela nordestina maluca se aproximar de mim.
O prefeito sorriu para a mulher e prosseguiu com o término do discurso.
– Vocês irão ver... Logo as obras estarão iniciando. Obrigado!
O prefeito saiu com aplausos novamente.
– Prima, você não vai atrás do prefeito de forma alguma. – Tiago segurou a mulher vendo-a já começando a se deslocar em direção de onde o prefeito sairia.
– Mas eu preciso... Ele já me conhece, esqueceu? Além do que todos nós precisamos falar com ele. – agitou a multidão e grande parte a seguiu para parabenizar o prefeito.
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Novamente do outro lado da praça. O prefeito e o seu segurança Paulo conversavam, bem... Ou quase isso, de certo parecia mais um monólogo que uma conversa.
– Não vejo a hora para chegarmos à prefeitura. Prefeito Ricardo Soares. Não soa bem? Em breve será Presidente Ricardo Soares.
– Certamente senhor...
– O melhor é que é tão fácil manipulá-los... Quero dizer, é só dizer algumas palavras bonitas que eles logo se encantam...
– Certamente senhor...
– Até parece que farei com que a verba será destinada para o hospital. Claro, é só comprar alguns remédios para lá, asfaltar uma ou duas ruas e trocar algumas lâmpadas que tudo dará certo. Claro, também não posso esquecer as dentaduras para os mais idosos. Pobre adora essa porcaria. Isso eu faço em menos de alguns meses, depois é só acumular a verba numa conta fora do país. Ser político é tão bom...
– Senhor Prefeito? – A voz daquela mulher fez o resto das palavras do prefeito morrerem na própria garganta.
– Droga! É aquela nordestina outra vez não é? Livre-se dela com qualquer pretexto, eu já não agüento mais ter que encarar essa mulher ignorante. – Falou em um tom um pouco mais alto em vez dos sussurros discretos que fazia ao seu segurança.
– O que o senhor disse aí? – Tiago percebeu que ele cochichara algo.
Mas antes que o prefeito pudesse responder, um grupo de policiais da Polícia Federal Brasileira cercou-no. E junto com eles estava o seu antigo segurança. O “negrinho” que ele havia demitido antes de ser eleito de fato. E foi justamente o ex-segurança que se dirigiu a ele.
– Senhor Ricardo Soares o senhor está preso e tem o direito de permanecer calado. Qualquer palavra que o senhor disser poderá ser usada contra o senhor no tribunal. – Jonas já estava com as algemas nas mãos.
– Como?
– Mas que confusão é esta aqui? O senhor Ricardo é um homem honesto... Ele é o nosso prefeito agora. – Madalena protestou.
– Era o prefeito. O senhor Ricardo Soares será afastado do cargo por desvio de verbas públicas. Eu já estava acompanhando o esquema faz um tempo, um inquérito sigiloso havia sido aberto, mas agora, as provas já estão expostas e ele será levado para o Supremo Tribunal Federal onde irá encarar algumas ações penais. – Jonas respondeu a mulher, próximo o suficiente para algemar o prefeito.
– Mas... Mas... Senhor prefeito! – Madalena não conseguia acreditar.
– Isso é calúnia! Estão armando para mim. A oposição armou toda essa confusão... Eu não sei de nada que esse negrinho falou.
– Então o senhor também é racista... Saiba que é mais um processo nas costas do senhor...
– Eu não quis dizer isso... Eu... Paulo faça algo seu incompetente! Para que você acha que é pago?
– Vamos cara, ele é cheio da grana... Você sabe. Você foi segurança dele também. Se ele der uma quantidade boa de grana você... – Paulo segredou a Jonas.
– Está tentando me subornar?
– De forma alguma.
– Ah, não? Pois pareceu muito bem isso... O senhor também está preso.
– Mas não estou mesmo! — Ricardo correu, mas a multidão irritadiça segurou-o.
– Ora, ora se não é o senhor prefeito... Quero dizer, ex-prefeito. – Ela o empurrou de volta aos policiais que os levaram logo para a viatura. A multidão logo se dispersou.
– Pois é primo... – Madalena falou inconformada — Você tinha razão desde o começo. Ele era um salafrário sem vergonha que se aproveitava do dinheiro do povo. Sinto-me como se eu tivesse sido usada e jogada no lixo. Sinto que meu voto não valeu de nada... Ainda falam que é um ato de cidadania... Como pode ter cidadania se nem o próprio político sabe o que é isso...
- E nem o povo em geral... Lembra-se que quando perguntei o que era você não fazia a mínima idéia? – Tiago caminhou acompanhando a prima.
– Pois é... Mas agora eu entendo. No fundo cidadania é muito mais que uma simples palavra bonita. Ela representa todos os nossos direitos e deveres, muitos dos quais a gente nem conhece não é? Eu costumava dizer que era uma cidadã sem nem ao menos sê-la. Agora não. Eu realmente sei o que é ser um cidadão.
– Ah é? Então o que é?
– Nós, cidadãos brasileiros, temos direitos e devemos fazer-los valer o mesmo independente do que temos ou somos; devemos nos conscientizar e acabar com o preconceito. Cada um de nós tem o direito de viver, de ser livre, de ter sua casa, de ser respeitado como pessoa, de não ter medo, de não ser pisado por causa de seu sexo, de sua cor, de sua idade, de seu trabalho, da cidade de onde veio ou da situação em que está; ou ainda por causa de qualquer outra coisa. No fundo, ser cidadão é fazer valer seus direitos e deveres civis e políticos. E, sobretudo, possuir ética.
– Ética é?
– Sim! A ética está diretamente ligada ao tema da cidadania. Basicamente a ética é a teoria ou ciência do comportamento moral dos homens em sociedade. Ou seja, mais ou menos como uma ciência de uma forma específica de comportamento humano
– Andou estudando é?
– Depois daquilo procurei sobre cidadania e comecei a me aprofundar em assuntos relacionados sim... Agora eu vejo que é necessário. Para cobrar nossos direitos como cidadãos é necessário que primeiro conheçamos eles. E também é preciso que cumpramos com os nossos deveres, é claro.
– E então... Pronta para as próximas eleições?
– E como! Não serei mais enganada... Nem eu e nem o povo se depender de mim. Na próxima reunião da associação de moradores irei conscientizar todos que estiverem presente. Se todos nós nos unirmos certamente poderemos ter um futuro melhor. Mas não vai adiantar se ficarmos aqui falando. Venha! Precisamos fazer algo antes que recomecem as eleições.
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Báh! Se você chegou até aqui eu devo dizer que está de parabéns, eu mesma não aguentaria *apanha* ok, parei. Escrever isso deixou-me muito irritada, sério, eu quis transformar esse prefeito em um boneco de judas no final da história (sabe? Aqueles que são chutados pelo povo e tal, pelo menos acho que é esse o nome). Enfim, eu nem diria que o final dessa história foi feliz, uma vez que quem possui um nível superior fica em uma cadeia especial (algo assim) e também porque a pena que esse saláfrario merece não vai ser aplicada. É realmente triste saber que existem pessoas que acreditam tão cegamente em políticos safados que nem este (ok, eu posso ter exagerado um pouco, mas relevem a intenção foi justamente essa). Estarei esperando as pedras nas reviews, então não hesitem em tacá-las, eu sou forte e aguento. :D O fato é que atualmente é difícil ver que existe alguém consciente de seus direitos e deveres, eu de fato não saberia definir cidadania se alguém me perguntasse, afinal é uma coisa que poucos de nós conhecemos ou pensamos. A maioria está alienada. É realmente uma vergonha...
E então, você vai ficar parado ou vai lutar pelos seus direitos? :D *apanha*
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