Você Me Tem
5 Capítulo 4: Álbum de fotos.
POV. Peeta
– Você tem atraso mental ou o que? – Katniss me perguntou quando saí de meu carro e ela do dela.
– Não seja infantil. – adverti.
Ela ficou furiosa.
– Você viu que eu estava entrando primeiro com minha picape. Por que fez isso?
Não respondi.
– Nunca lhe disseram que as damas sempre veem primeiro?
Olhei para os lados fingindo procurar por alguma.
– Seu... Estúpido! — ela virou-se abruptamente e saiu pisando firme.
Dei um tchauzinho para suas costas. Oh Senhor, me diga! Qual pecado cometi para aguentar tanto sofrimento? Não seria mais condescendente se um trator me atropelasse?
Joguei minha mochila em qualquer canto da casa e me atirei no sofá. Hoje não estava com humor para sair, muito menos para aguentar alguma garota. Peguei o controle remoto da TV, e busquei algum canal que valesse a pena assistir.
POV. Katniss
Céus, isso não vale a pena. Definitivamente.
Ele me odeia. E eu não tenho culpa de nada, nem sei o que lhe fiz.
Olhei para meu reflexo no espelho e não gostei do que vi. Meus olhos estavam brilhando, não de felicidade, mas porque estava a ponto de cair em lágrimas mais uma vez. Meu cabelo estava caído e sem vida como sempre, e em volta de meus olhos pareciam brotar duas beterrabas bem roxas. Maldiçoei-me. Eu era ridícula, a quem eu poderia enganar?
Se ao menos eu pudesse fazer algo...
Escutei o barulho do carro do meu pai parando em frente de casa, e me levantei da cama confiante para nossa conversa.
Fiz milhares de roteiros para seguir, milhares de desculpas para dar. Mas nenhuma era boa o bastante. Fora o gasto extremamente alto de gasolina, por a picape ser velha e o barulho estrondoso do motor, ela era perfeita. Para mim.
No andar de baixo, encontrei Peeta dormindo no sofá com a televisão ligada. Mesmo sendo errado, parei por alguns instantes para lhe observar. Contei duas respirações suas, enquanto seu peito másculo subia e descia lentamente, e me forcei a sair dali. Mamãe e papai estavam na cozinha tomando uma xícara de café. Eles sempre faziam isso quando chegavam do trabalho.
Puxei uma cadeira e me sentei perto da bancada. Dei um suspiro, atraindo a atenção deles.
– Aconteceu algo filha? – perguntou minha mãe.
– Não. Nada. – respondi ainda insegura do que iria falar. – É só que...
– Fale logo Kat. – meu pai disse sorrindo.
– Tudo bem. – coloquei minhas mãos em cima da bancada e disse tudo.
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Meus pais não me contestaram sobre meu desejo de possuir um carro novo. O dinheiro nunca foi problema para nós, graças a Deus. Eles disseram que me entendiam, e para falar a verdade... Ficaram contentes! É bom você renovar de vez em quando, foi o que minha mãe disse. Não pareceu que ela falava do carro.
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Annie e Clove me fizeram matar aula. Eu estava morrendo de medo no começo por ser pega, mas depois de sair portão a fora da escola, me senti mais calma. Foi até um pouco divertido. Um pouco. Nem tanto para repetir a dose.
Caminhávamos agora pela concessionária de Sequim, Clove arfava maravilhada a cada carro que víamos. Annie não parava de falar, tentando me convencer a pegar um conversível como o dela. E eu dava a devida atenção a todos os carros que me interessavam.
Eu tinha escolhido. Era um lindo Mini Cooper prata. Pequeno, lindo por dentro, econômico e seguro. As meninas adoraram! E eu também, até ver aquela moto... Foi amor à primeira vista, paixão imediata.
Era uma moto Aprilia RS125, cor preta, a mais potente da concessionária. Moderna, rodas de liga leve, pneus generosamente largos. O sonho de consumo de qualquer pessoa. Eu a queria.
– Kat, o que esta vendo? – Annie apareceu no meu lado. – Uma moto...?
– Oh, não! Não quer dizer que você...
– Sim, eu a quero. Vou levá-la, esqueçam-se do carro. – interrompi Clove.
– Você é louca. – Clove afirmou.
– Eu adorei. – Annie bateu palmas para a minha escolha.
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Quando Clove me deixou na porta da minha casa, já tinha escurecido. O atendente da concessionária me garantiu que minha grandiosa e linda moto seria entregue amanhã bem cedo. Ela só passaria por uma revisão rápida, até eu possuí-la.
Despedi-me das garotas e fui para a entrada de minha casa. Meus pais e os pais de Peeta provavelmente estavam no hospital. Peeta se não tiver saído com alguma vadia depois da escola, devia estar em casa. Contei até dez bem baixinho para me acalmar antes de entrar na minha casa. Pensar em Peeta faz com que eu fique eufórica. 8, 9, 10...
Entrei.
Estaquei quando cheguei à sala de estar. Pelo menos sete adolescentes de minha escola se encontravam no meu sofá. Peeta estava no meio deles rindo, enquanto segurava um álbum de fotos, que reconheci sendo minha.
Todos que estavam ali se viraram para mim percebendo minha presença. Foi quando a onda de risos se intensificou se tornando uma arma perigosa que me atingia. Comecei a perder o fôlego diante deles. Peeta não podia ter feito isso. Fora Clove, nunca ninguém tinha entrado na minha casa.
– Awn, Kat, você era tão fofinha quando era bebe! É uma pena que tenha se transformado nisso. – uma das líderes de torcida do colégio comentou, arrancando gargalhadas mais fortes dos meus colegas. E de Peeta.
Senti meus olhos ficando molhados, as lágrimas estavam prestes a eclodir. Era como se eu fosse um bicho estranho em uma atração de circo. Olhei para Peeta suplicando com o olhar para que me ajudasse. Por um segundo, somente por um segundo! Pensei ter visto o olhar do meu melhor amigo naquele garoto estranho, mas depois, com a mesma rapidez, o olhar se foi.
– Gente, dá para acreditar que essa gracinha de bebe era a Katniss? Ai, ai, Kat... Cat... Gata... Alguma semelhança? Um apelido tão sarcástico! – veio outro comentário maldoso para cima de mim.
Eu queria ser forte, queria expulsar todos da minha casa e perguntar qual é o problema de Peeta. Mas simplesmente... Não podia, não conseguia, era fraca.
Em um ato de desespero saí correndo para a escada, entrei no meu quarto e me tranquei, deixando as lágrimas escorrerem pelo meu rosto.
Fiquei chorando por muito tempo, até que os soluços se cessassem. Peguei meu celular de dentro da minha bolsa e liguei para Clove.
– Oi minha gata! – ouvir a voz dela me fez chorar novamente. – Kat? Amiga, o que aconteceu?
– Clove... – não consegui falar.
– Katniss, por favor, o que aconteceu? Estou preocupada, quer que eu vá ai na sua casa?
– Não. – eu ainda estava chorando. – Por favor, só fique na linha, por mim. Me deixe chorar com você, estou me sentindo sozinha amiga. Só não desligue.
– Tudo bem Katniss. Eu estou aqui amiga. Com você, para sempre.
Ficamos em silencio, o único som que era escutado era do meu choro, e depois de alguns minutos o de Clove. Ela chorava comigo, mesmo não sabendo o motivo de minha tristeza. Isso fez com que eu me sentisse um pouco melhor.
– Obrigada Clove. – funguei. Pude perceber ela sorrindo.
– Não quero te ver triste Kat, porque eu também fico. Quero te ver sempre sorrindo.
– Não sei o que seria de mim sem você amiga.
– Sabe o que você esta precisando? De uma noite de garotas! Venha até minha casa, sei que amanhã tem aula, mas não vamos ficar acordadas até tarde. Podemos chamar Annie também, daí dormimos todas no meu quarto. Sim?
– Tudo bem. – concordei.
– Ótimo! Junte suas coisas e venha até minha casa. Vou ligar para Annie agora.
Fui até meu guarda roupa e peguei meu pijama, e uma roupa para ir à escola amanhã. Tomei um banho bem rápido e sai do meu quarto. Minha mãe me deixou uma mensagem dizendo que hoje teria plantão no hospital junto com meu pai e os pais de Peeta. Mandei uma de volta comunicando que passaria a noite na casa de Clove. Assim, Peeta teria a casa somente para si.
Na minha sala não havia mais nenhum colega meu, estava somente Peeta sentado no sofá com a postura ereta, fitando a tevê desligada.
– Recebi uma mensagem de minha mãe, ela disse que junto com meu pai e os seus pais, terá plantão no hospital hoje. – comunique automaticamente, ele não desviou o olhar da televisão. – Vou passar a noite na casa de Clove, então você ficará hoje de noite sozinho. Talvez nos veremos na escola... – e comecei a ir para a porta de entrada.
– Katniss. – ele me chamou em um sussurro. Não me virei. Girei a maçaneta para sair. – Katniss. – chamou desta vez mais alto, com um tom autoritário.
Girei os calcanhares.
– Algum problema? – consegui perguntar.
– Sobre hoje mais cedo... – ele se levantou e veio caminhando em minha direção. Fiquei em guarda. – Sinto muito. Não pensei no que estava fazendo, estou me sentindo mal por você ter ficado daquele jeito.
– Este é o seu problema Peeta Mellark, não pensa. Quando vai parar de ser tão criança? Você me humilhou na frente do pessoal da minha escola, como acha que estou me sentindo? – não chora, não chora.
– Katniss, já pedi desculpas, foi mal! – ele passou a mão pelo cabelo frustrado. – Porra, estou aqui dizendo que o que fiz foi mal.
– Já escutei Peeta. Mas quem vai ser zoada na escola amanhã? Quem? Você claramente não. Não pode mais mudar algo que já fez. Todos me viram chorar, você me provocou aquilo! E a culpa é totalmente sua! – neste momento eu já estava gritando com ele.
– Não sacou que tudo que acontece na sua vida, é culpa sua Katniss? Tudo que você faz e o que você é porque você quis isso. Eu não tenho culpa alguma. E quer saber, não estou mais me sentindo mal pelo que aconteceu você mereceu.
– Como é?
– Se não quer me perdoar o problema é teu. Como você disse, visivelmente não vai ser eu que serei zoado.
Não acreditei no que ele disse. Como tinha coragem? Como pode ser tão insensível? Estourei.
– Te odeio Peeta Mellark! – pronunciei estas palavras bem devagar e com toda raiva que eu carregava. – Onde está meu melhor amigo? Onde está aquela pessoa maravilhosa que você era? Que era gentil? Carinhosa e educada? Mudou muito. Não é mais o mesmo! Não te reconheço, é um completo estranho. Sinto ódio de você! Nunca mais olhe...
Fui pega de surpresa quando ele tomou meus lábios aos seus. Sempre imaginei como era ter os lábios dele aos meus... Sempre imaginei como era o sabor de seu beijo... E agora eu sabia.
A sensação era inexplicável. Começou com um simples selinho molhado... Mas agora ele havia aprofundado mais nosso beijo, senti o gosto de sua língua enquanto brincava furiosamente com a minha. Ele era rápido, urgente e um pouco agressivo no beijo. Minhas pernas me traíram e se seus braços não tivessem em minha cintura, me pressionando ao seu corpo possessivamente, eu teria caído. Eu tinha parado de lutar para me libertar de seu abraço, tinha me rendido, e agora minhas mãos estavam em seu cabelo, o puxando mais para mim. Cedo demais nos separamos ambos ofegantes. Ele segurou meu rosto com as duas mãos, forçando-me a olhar em seus olhos.
– Nunca mais diga isso. – ele disse sério.
Fiquei em estado de choque. Cambaleei para trás me chocando contra a porta da sala, incerta do que acabou de acontecer, levei meus dedos a minha boca e a senti um pouco inchada pelo beijo agressivo. Não desviei meus olhos dos dele e tentei identificar seu olhar em vão. Ele parecia tão surpreso quanto eu, pelo seu ato involuntário.
– O que foi isso? – minha voz não passou de um sussurro.
Eu tinha quase certeza de que ele responderia: Um beijo, sua boba. Sei que você não é acostumada a esse tipo de coisa, mas suponho que saiba como é pelo que viu nos filmes. E me daria um sorriso sarcástico que quebraria meu coração.
Mas não. Ele ficou completamente calado, apenas sustentando o meu olhar.
Encostada à porta, toquei na maçaneta ainda olhando para aqueles olhos azuis hipnotizantes e assim que a abri, sai correndo para dentro de minha segura picape.
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– Então Katniss, desabafa. – pediu Annie quando já estávamos vestidas com nossos pijamas sentadas na grande cama de Clove. – Clove me contou que você ligou para ela chorando. O que aconteceu?
– Não quero falar sobre isso. – garanti.
– Amiga, nós só queremos ajudá-la! Colabore, por favor. – pediu Clove.
– Ok. – suspirei e comecei a contar tudo o que aconteceu.
– Mentira que ele fez isso! – Clove exclamou quando contei da reação de Peeta quando todos estavam me humilhando.
– Fez sim, Clove. – continuei contanto. Até a parte do beijo.
– Como assim? – Annie perguntou. – Por que ele te beijou?
– Nem eu sei! E isso me deixa frustrada. Por que ele fez isso?
– Que completo idiota Katniss. – falou Clove, eu concordei.
– Eu me senti tão humilhada tão impotente na frente daquelas pessoas na minha casa... Eu era inferior a elas.
– Você deveria tê-las enfrentado.
– Annie, não é tão fácil! Eu queria ter feito isso, mas senti medo.
– Do que? – Clove perguntou docemente.
– De ser mais rejeitada, do que já sou. Queria poder provar que não sou fraca daquele jeito... Que posso ser forte e corajosa! – falei. – Eu queria... mudar. – terminei incerta olhando com cautela para Clove e Annie.
– Se este seu “mudar” for por você, porque você quer se sentir melhor, eu te ajudo. – Clove disse. – Mas se você quiser apenas provar para ele, que você pode ser atraente, pode esquecendo.
– Concordo com a Clove. Isso tem que partir de você. Homem nenhum merece que uma mulher mude seu jeito por ele. – reforçou Annie.
– Não. – garanti. – É por mim, eu afirmo. Quero provar para mim mesma que posso ser forte. Que posso ser como vocês duas.
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