Você Me Bagunça
9 Capítulo 09
Notas iniciais
Os olhos dela, quando o encaravam, perdiam instantaneamente aquele ar autoritário. Naquele momento, Davi sentiu uma culpa gigante por tudo que disse. Megan o escolhera para lhe mostrar o que nunca teve coragem de mostrar a mais ninguém e ele retribuíra lhe dizendo palavras tão duras. E que ela fizesse o que quisesse, fingisse o quanto pudesse! Isso não deveria afetá-lo. Esses pensamentos invadiram sua mente, mas em nenhum momento fez menção de soltá-la. Ele começou a falar sem tirar os olhos dos dela.
–Desculpa! Eu não tenho nada a ver com sua vida.
– Não tem... –Disse com dificuldade, hipnotizada.
–Eu não tinha o direito.
–Não...
–Eu acho que vou te soltar agora.
–Ok...
Davi olhou para a mão direita que ainda prendia o pulso dela. Ele não disse que ia soltá-la? Parecia não ter controle sobre si próprio. A loira agora não era só a dona dos pequenos olhos confusos que o encaravam, ela agora parecia se apoderar de seus sentidos, seu autocontrole. Isso tudo sem conseguir ao menos formular uma frase, mas pelo simples fato de estar ali, parada na frente dele, querendo lhe roubar a sanidade e o pouco de juízo que o impedia de puxá-la para um beijo de uma vez por todas, porque sim, era isso que ansiava fazer!
Megan nunca tremeu com um homem estando a poucos centímetros de seu rosto. Davi Reis estava ultrapassando todos os limites da linha tênue que impedia que ela se apaixonasse por ele. Sua mente dizia: “Stop Megan, é perigoso se apaixonar por pessoas perfeitas”. Já seu corpo, que sempre comandou suas atitudes mais inconsequentes, gritava por Davi.
Ele foi ousado. Aproximou os lábios do ouvido dela e começou a sussurrar, mas aquilo mais parecia uma prova de fogo para ambos. E o moço tímido estava provocando na garota ousada e inconsequente, uma avalanche de sentimentos inéditos.
– Acho que seria um erro fazer o que eu tô com vontade agora...
Ela engoliu a seco. Não se atreveu a perguntar que vontade era essa.
–Então pode me deixar sair!?
Davi se questionou se aquilo foi uma pergunta ou uma afirmação. De qualquer forma, enfim conseguiu libertá-la. Ela saiu dali rapidamente, caminhou dois passos à frente, mas permaneceu de costas. Davi também, ele apoiou a testa no braço direito contra a parede, dando dois pequenos socos ali e mordendo o lábio. E assim, um não conseguia encarar o outro. Megan ainda conseguiu dizer:
–Eu... vou sair, Davi. Se você puder me dar licença, tenho que me arrumar.
Ela só sabia que precisava ficar longe dele. Quando Davi ouviu isso, saiu da posição em que estava para se virar, porém viu que ela permanecia de costas.
–Megan, só... por favor, não bebe! – Ele pediu, mas ela nada respondeu. –Ok, faz o que quiser.
Quando Megan finalmente se virou, Davi já não se encontrava mais ali. Ela não entendeu por que razão uma lágrima solitária escorreu no rosto. Apenas apanhou o caderno deixado por ele numa cadeira, em algum momento da cena anterior.
*** *** ***
Davi desceu as escadas ainda meio em transe. Mais uma vez, a velha mania de morder a mão de nervoso, dava o ar da graça. Parou e olhou para o topo da escada para ver se ela aparecia. Fez isso incontáveis vezes naquela noite e nada da garota descer. Será que tinha desistido de sair? Provavelmente, pois ninguém demoraria horas para se arrumar daquele jeito. Enquanto ele assistia qualquer coisa desinteressante na TV, finalmente a viu descer, toda produzida. Ele se ajeitou no sofá e prometeu a si mesmo que não tentaria lhe impedir, não queria outra briga.
–Eu pensei que tivesse desistido. São quase 9 horas.
–Yes, desisti. Mas voltei atrás. Você vai ficar bem aí sozinho?
“Não”, ele queria dizer, mas apenas assentiu.
Depois que ela fechou a porta, ele não viu sentido em continuar assistindo. Foi para o quarto, colocou os fones nos ouvidos e acabou pegando no sono.
*** *** ***
Davi acordou um pouco desorientado. Olhou no relógio e se surpreendeu ao ver que já se aproximava da meia noite. Lembrou-se da discussão mais cedo, e da última vez que vira Megan, por volta das nove horas. Foi até a varanda. A noite em São Francisco estava bonita, apesar de tudo estar coberto por uma forte neblina que era costumeira de Maio até Setembro. Onde ela poderia estar agora? Não deveria ter permitido que ela saísse, ou pelo menos, devia tê-la seguido. Não podia negar que estava preocupado com Megan. E se ela bebesse de novo? E se fosse dirigir naquele estado com as estradas cobertas pela névoa? Se apoiou com os dois braços na mureta da varanda e fechou os olhos sentindo o vento gelado bagunçar seus cabelos. Só uma imagem lhe vinha a mente, a da garota intempestiva e cabeça dura que insistia em ocupar seus pensamentos. Só o fato de pensar nela lhe perturbava ao extremo. Ainda não se permitia analisar o que estava sentindo. Só sabia que tinha forte tendência a odiá-la e amá-la na mesma proporção, era isso que ela provocava nele.
Quando Davi abriu os olhos e olhou pra baixo teve uma grande surpresa. Alguém se levantou de uma das cadeiras postas ao lado da piscina e foi para a beirada. Sua miopia não foi empecilho para que ele reconhecesse, mesmo com dificuldade, que aquela era Megan, sem dúvida. Seus olhos se arregalaram quando a viu tirar o casaco e pular na água gelada da piscina. Mas será que pulou mesmo? E se ela tivesse caído? Afinal, com certeza tinha bebido. Não tinha tempo para pensar, tinha que correr, precisava impedir que se afogasse. Atravessou o quarto, desceu as escadas, passou por todos os cômodos da enorme casa até chegar lá fora . Tirou os sapatos rapidamente e pulou na água. Ele a avistou vindo na sua direção. Tomou-a pela cintura, assustando-a. De olhos arregalados, Megan não entendia o que Davi estava fazendo.
–Tá tudo bem? -Ele percorria o olhar por todo o rosto dela, estava ofegante, nervoso.
–Yes, I'm fine. O que foi?
–Eu achei... que você tivesse... caído bêbada na piscina. -Ele mal conseguia falar por estar cansado.
–Na verdade, Davi, eu não bebi. E também não saí de casa, estava aqui o tempo todo.
Ele ficou surpreso, mas fechou os olhos, aliviado.
–E por que... você pulou nessa água... tão fria? -Ele perguntou, ainda de olhos fechados.
–Eu não sei. Na hora eu não pensei em nada, só achei que me faria bem. E você... pode me soltar agora.
Foi aí que Davi abriu os olhos e percebeu que permanecera pressionando o corpo dela contra o seu, mesmo após o susto ter passado. Pensou em soltá-la como ela pediu, mas seu braços não obedeciam. Era a segunda vez que seus movimentos lhe traíam numa mesma noite. Que poder era esse que ela tinha? Davi olhou para o rosto dela e a percebeu diferente. Nunca a vira daquele jeito, cabelos molhados, sem maquiagem, tão natural, mas ao mesmo tempo... linda.
Quando um dos braços saíram de sua cintura, não foi para soltá-la, mas sim para levar sua mão até o rosto dela, acariciando. Quando Megan percebeu, sua mão direita fazia o mesmo no dele. Agora, ambos se olhavam nos olhos, sentindo o contato um do outro. Porém sentiam muito frio, a água estava realmente gelada.
– Tem alguma coisa de irresistível em você nesse momento que não me deixa te soltar, nem tirar os olhos de você! –Disse Davi, parecendo hipnotizado.
–Você disse que me odeia. –Ela disse olhando nos olhos dele que também a deixavam em transe. Mas aquilo que ele dissera certa vez nunca saiu de seus pensamentos.
–E odeio! Só que não mais pelos motivos de antes, agora eu te odeio pelo que você provoca em mim. Me tira do sério, bagunça tudo.
–Em que sentido?
–Em todos, pro bem ou pro mal...
–Isso parece perigoso! –Ela agora falava bem próxima a ele e compassadamente. -E se... eu mesma me afastar?
–Não! –O pedido, soou como ordem e saiu num sussurro que a fez se arrepiar e, inevitavelmente fechar os olhos. –Você é maluca, inconsequente, mimada, o último tipo de mulher por quem eu me interessaria. Ainda te odeio, mas não consigo suportar a ideia de me afastar de você agora...
Quando ele sentiu que ela passou a mão do rosto dele para a nuca, entendeu como um convite para que ele se aproximasse mais. E ele não hesitou em fazê-lo, no segundo seguinte, sua boca já estava na dela, num beijo tão desesperado, como se fosse o último de suas vidas. Megan sentiu o frio insuportável desaparecer, junto com suas forças e sanidade. O beijo dele estava lhe transportando a um lugar único, nunca antes visitado.
Para Davi, Megan era a verdadeira personificação da sua loucura. Porque estava se tornando seu ponto de desequilíbrio, mas aquele beijo, não podia negar, estava ultrapassando a perfeição. Ele a fez sentar na beirada da piscina, enquanto ele permanecia na água, mas os lábios não se desgrudaram, permaneciam sendo um do outro, naqueles breves momentos de infinito particular.
Fale com o autor